CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, setembro 20, 2026

POEMA DOMINICAL (67)

A postagem reproduz o poema de Elson Farias, circulado no Jornal do Commercio, de 12 de setembro de 1976, há exatamente 50 anos.

Recorte da coluna do Jornal do Comercio,
12 setembro 1976

    

Canta o verso e sua música

como o remador do rio.

não importa que esse canto

venha quente ou venha frio

 

o que importa é que haja estrela

e haja fogo no pavio

da lamparina na trempe

dando luz à cumieira

 

e as marrecas se anunciam

voltando para os poleiros

lá onde os olhos não chegam

quer sejam de bons mateiros

 

tal e qual um vagalume

nas moitas da ribanceira

quando cai a noite nova

sem a lua e sua estrela

 

e a safra do rio se faça

de modo menos vasqueira

como a luz da lamparina

dando luz à cumieira

 

e os carapanãs se escondam

com medo da luz do dia

que se faz por trás da faixa

da mata, como fatia.

 

sábado, setembro 19, 2026

CORTINA DE FUMAÇA

 

Renato Mendonça 

17.09.2026

Sob a expectativa de encontro de togas e o brilho sereno da instituição, o Supremo Tribunal Federal abriu suas portas nesta semana para uma reunião que mais parecia um ritual inquisitório do que um julgamento justo e honesto. No centro da cena, o ministro Alexandre, alvo de acusações inesperadas e não comprovadas vindas de seu colega André — relator do caso do Banco Master. A denúncia, supostamente carregada de gravidade, foi gerada por vazamentos seletivos de dados obtidos pela Polícia Federal, após a quebra do sigilo do celular do banqueiro Vorcaro — preso na penitenciária da Papuda, em Brasília.

O plenário, espaço que deveria ser de serenidade e equilíbrio, transformou-se em fogueira. As palavras lançadas ardiam como fagulhas, incendiando suspeitas e revelações. Descobriu-se que os vazamentos incriminavam apenas uma figura, enquanto todo o conteúdo do aparelho já havia sido franqueado a todos os ministros dias depois da acusação. O silêncio entre uma fala e outra pesava mais do que os votos e esclarecimentos proferidos.

E então, como em tragédia anunciada, emergiu o desassossego: alguns magistrados apareciam ligados, direta ou indiretamente, ao dinheiro espúrio do banqueiro. Dinheiro que não tinha origem honesta, mas surgiu de transações fraudulentas e do desvio de mais de três bilhões de reais do Rioprevidência — fundo que guarda o futuro de mais de duzentos e trinta mil servidores do estado do Rio de Janeiro. Ao escândalo financeiro somava-se o político: o governador, envolvido até o pescoço, cedeu à pressão de seus aliados e pediu exoneração do cargo para buscar refúgio na imunidade parlamentar — queria candidatar-se a senador da República —, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral.

No calor das discussões, cada ministro parecia jogar mais lenha na fogueira. O acusador, André, saiu muito chamuscado: sua tentativa de erguer cortina de fumaça revelou afinidades com o banqueiro e pagamentos recebidos que o incriminavam; ficou evidente também que ele se aproximava de interesses eleitorais — e tinha sua preferência. A estratégia era clara: tumultuar o processo até o primeiro turno, em benefício de um candidato da direita. Ficou explícito. Mais constrangedor, porém, foi vê-lo pedir desculpas ao Procurador-Geral — igualmente acusado e presente na reunião — para negar as próprias acusações e confessar que eram falsas. O decano Gilmar, indignado, não poupou palavras: classificou o ministro acusador com um adjetivo infame: “Pixuleco”.

A declaração expôs o vazio do debate. A fogueira de acusações não iluminava nada além da própria fumaça. Como resumiu o ministro Dino, com ironia certeira: “Estamos julgando o nada!” 

Essa declaração mostrou que o debate e a discussão não serviriam para coisa nenhuma, pois não havia crime algum, como bem resumiu o ministro Dino: estamos julgando o nada!

É triste constatar. A balança da Justiça, que deveria pairar imóvel e serena, oscilava como pêndulo nervoso, inclinando-se ora ao peso da política, ora ao sopro da ideologia. O Estado, laico por definição, viu-se contaminado por paixões partidárias e, por conseguinte, suscitou a elaboração de editoriais dos jornais — representantes da elite conservadora — inflamados que, nos dias seguintes, clamavam por julgamento a qualquer custo do ministro acusado.

E assim, entre votos e contravotos, entre sombras e revelações, resta ao povo a tarefa de discernir e escolher — não apenas os futuros eleitos, mas o próprio destino da democracia, que atravessa um período turbulento.

É preciso olhar além dos discursos inflamados e das manchetes tendenciosas dos jornais e da mídia falada. Ler a biografia dos candidatos, perscrutar suas relações, perceber as afinidades que os ligam ao poder e intuir quem, de fato, pode estar ao lado do povo. A democracia não se sustenta apenas nos tribunais ou nos palácios: ela se constrói no olhar atento de cada cidadão, na consciência crítica que não se deixa seduzir por cortinas de fumaça.

O voto, nesse contexto, é mais que um gesto cívico. É um ato de resistência, uma tentativa de reconstruir novamente a confiança abalada entre instituições e sociedade. É a chama, iluminada pelo caminho do discernimento, em meio às trevas da desinformação e da manipulação. Que cada escolha seja feita com a serenidade de quem sabe que, ao depositar sua confiança na urna, está também depositando esperança no futuro. Pois, repito, não elegemos apenas governantes: elegemos o rumo da própria democracia.

Bom voto a todos, boas escolhas!

REABERTURA DA PONTA NEGRA - 50 ANO0S

 Hoje eu aprendi que a Rodovia BR 319, que, nos dias atuais, passa por reparos, foi aberta à circulação em março de 1976, ou seja, há 50 anos. No mesmo ano festivo para Manaus, também aconteceu a inauguração do Aeroporto Eduardo Gomes e do Tropical Hotel Manaus. Para relembrar mais um momento de comemoração pelos 50 anos, o prefeito Jorge Teixeira, em setembro daquele ano, reabriu ao público a praia da Ponta Negra, devidamente recuperada. 

Jornal do Commercio, 21 setembro 1976

Com um show aéreo proporcionado por aviões da Força Aérea Brasileira e perto de trinta mil pessoas, participaram domingo, pela manhã da programação de reabertura da nova praia da Ponta Negra. Informalmente, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira presidiu a solenidade de reabertura daquele logradouro público, que contou ainda com a presença do governador do Estado, em exercício, João Bosco Ramos de Lima, do coronel Alfredo Bruno Menescal, comandante da Base Aérea de Manaus e outras autoridades. Falando na oportunidade, o prefeito Jorge Teixeira de Oliveira agradeceu a presença do grande público banhista e disse entre sorrisos: “Vocês nada têm que agradecer, nós apenas cumprimos com a nossa obrigação”.

O governador em exercício também falou no momento e sem ser prolixo afirmou, em meio ao seu improviso: “Esta é mais uma oportunidade de provarmos o grande trabalho que vem sendo desenvolvido pela Prefeitura de Manaus”. Também ressaltou o trabalho realizado pelo prefeito Jorge Teixeira, anunciando que dentro de mais 30 dias, todo o projeto de urbanização da Ponta Negra estará efetivamente concluído. “É mais uma alternativa que o governo oferece ao povo para seu divertimento”, frisou o vice-governador, recebendo os aplausos da multidão.

Como homem simples, o prefeito Jorge Teixeira se misturava com o povo, vestindo uma bermuda branca. Ficou provado a grande popularidade que o prefeito desfruta junto ao povo que o aplaudia incessantemente, numa das maiores manifestações populares já vista em Manaus. Todos faziam questão de apertar as mãos do prefeito Jorge Teixeira, em meio aos empurrões e explosões de euforia. Enquanto uns davam vivas ao Prefeitão, outros improvisavam meios de saudá-lo, cantando, acompanhados por violões e batidas de caixas de fósforos.

Espontâneo, o prefeito Jorge Teixeira mostrava-se sempre sorridente, parando aqui e acolá, para receber os cumprimentos da grande massa. E pela primeira vez, os banhistas amazonenses sentiam-se protegidos pela presença de salva-vidas, colocados em áreas estratégicas, prontos para entrarem em ação a qualquer momento. O deslocamento de salva-vidas para a praia, foi uma colaboração da Polícia Militar do Amazonas, atendendo solicitação do prefeito. Dentro de mais alguns dias, toda a extensão da praia e estrada de acesso, receberá iluminação a mercúrio. tornando o logradouro mais magnífico e belo. Após a inauguração da praia, ficou provado também que o povo sabe retribuir as grandes realizações governamentais, aplaudindo os governantes, gritando seus nomes, numa explosão sincera de agradecimento e sensibilidade.

 

quarta-feira, setembro 16, 2026

PRINCÍPIO DE INCÊNDIO

 Renato Mendonça

10.09.2026

 


Há quem diga que o Supremo Tribunal Federal (STF) é o guardião da Constituição. Mas, quando olhamos para certas manchetes e discursos proferidos nos meios de comunicação escrito e falado, o que vemos é um espelho trincado: a imagem refletida não é a da instituição austera e imparcial que imaginávamos, mas a de um palco onde se encenam dramas políticos — defesa de ideologias.

Durante muito tempo acreditávamos que seus ministros fossem figuras ilibadas, eruditos do Direito constitucional, capazes de sustentar o edifício republicano com a firmeza de colunas incólumes. Hoje, porém, a fotografia que se revela é menos nobre: alguns se deixam capturar por interesses escusos, outros se transformam em cabos eleitorais disfarçados, quase um braço articulado em favor de ideologias que flertam com o autoritarismo — a extrema direita.

E, como não se submetem ao julgamento direto das urnas, muitos parecem esquecer que sua fidelidade deveria ser à Constituição, não ao padrinho político que os indicou. É uma inversão de valores perigosa e delinquente: o templo da lei se converte em arena partidária, e as cores das togas dos ministros são ofuscadas pelas sombras nefastas das campanhas eleitorais.

Para agravar, há jornalistas que se tornam arautos dessas retóricas casuísticas. Uns se erguem como donos da verdade, outros como mercadores da mentira, tentando convencer o povo de que não precisa ouvir sua própria consciência. É como se a democracia estivesse em chamas — um princípio de incêndio que começa pequeno, mas, se não for debelado, ameaça consumir o edifício inteiro.

Debelar esse fogo exige mais do que indignação e revolta: exige discernimento. Nas próximas eleições, será preciso olhar além dos “santinhos” coloridos, além das promessas fáceis. Ler a biografia dos candidatos, investigar seus atos, perceber quem já se dedicou à população mais vulnerável e quem apenas cultiva interesses mesquinhos em favor de uma minoria mais abastada. A democracia não se sustenta com slogans; ela se sustenta com escolhas responsáveis.

Boas escolhas, meus amigos e amigas — porque delas depende se o incêndio será apagado ou se veremos, impotentes e omissos, a nossa República virar cinzas.