01.11.2026
Às vezes, à revelia da própria razão, certos acontecimentos gravam-se em nossa memória como inscrições numa lápide de um familiar. O tempo passa, envelhecemos e as paixões arrefecem, os fatos se reorganizam em novas perspectivas, mas algumas imagens permanecem incólumes. A disputa presidencial de 25 de outubro certamente ocupará um lugar entre esses episódios destinados à lembrança coletiva.
Mais do que números, pesquisas ou discursos, o que permanecerá será a galeria de imagens humanas que emergiram das urnas. Brasileiros e brasileiras de todas as idades, vindos dos rincões mais distantes deste país-continente, enfrentaram obstáculos físicos, geográficos e econômicos para exercer o mais simples e mais poderoso dos direitos: votar.
Passada a temperatura dos embates eleitorais, as redes independentes continuaram revelando cenas que pareciam retiradas de um documentário sobre a obstinação humana. Homens e mulheres que não haviam participado do primeiro turno decidiram fazer-se presentes. Muitos percorreram longas distâncias, outros enfrentaram limitações severas de locomoção, mas todos pareciam movidos pela mesma convicção silenciosa: a de que nenhuma democracia se sustenta sem a participação de seu povo.
A História conhece momentos semelhantes. Em 1968, a chamada Primavera de Praga floresceu no coração da Europa como uma esperança de renovação política e social. Seu florescimento, porém, foi interrompido pelos tanques soviéticos. Nem por isso sua memória desapareceu. Como as sementes carregadas pelo vento, certas ideias sobreviveram mesmo quando esmagadas pelas circunstâncias.
Entre nós, houve também uma primavera cívica memorável: as Diretas Já. Em 1984, milhões de brasileiros ocuparam ruas e praças exigindo o direito de escolher diretamente o presidente da República. A emenda constitucional, idealizada por Dante de Oliveira, que materializaria esse desejo não foi aprovada, e as eleições de 1985 ocorreram de forma indireta, resultando na escolha de Tancredo Neves por um Colégio Eleitoral. Mas, o movimento abriu as comportas da redemocratização e ajudou a conduzir o país ao reencontro com as liberdades políticas — consagradas na Constituição de 1988.
Quatro décadas depois, um novo despertar coletivo percorreu o país. Não era uma multidão reunida em comícios monumentais, como em 1984, mas uma mobilização, instrumentalizada inicialmente por universidades públicas — com a UFF de Niterói, no Rio de Janeiro —, espalhou-se por bairros, sindicatos, associações, grupos culturais e comunidades religiosas. Como pequenos riachos correndo numa mesma direção, essas iniciativas acabaram formando um caudaloso rio.
Assim, coube à nossa juventude um papel especialmente notável. Estudantes de universidades públicas e privadas, seguidos por professores, artistas, intelectuais e trabalhadores de diversas áreas, transformaram a preocupação em ação concreta. Realizaram campanhas de conscientização, estimularam o alistamento eleitoral, incentivaram a participação de quem estava descrente e ajudaram a reintroduzir a política como assunto cotidiano. Não se tratava apenas de escolher um governante, mas de reafirmar valores democráticos que estavam ameaçados pelo desalento, pela desinformação, pela intolerância e pela promessa de entrega do país a governos estrangeiros — particularmente os EUA.
As imagens desse dia falam por si. Uma pessoa tetraplégica comparecendo para votar. Idosos enfrentando filas com paciência serena. Povos indígenas cruzando rios amazônicos. Ribeirinhos navegando por igarapés para alcançar suas seções eleitorais. Cada fotografia parecia acrescentar uma página ao documentário de um país que se recusava a entregar seu destino à insensibilidade. Cenas emocionantes e memoráveis.
Foi como se, depois de um inverno prolongado de divisões e incertezas, surgisse um inesperado sol de primavera. Não o sol que aquece apenas a paisagem, mas aquele que desperta mentes adormecidas ou alienadas. Um sol capaz de iluminar o valor da participação cidadã, de reacender a confiança nas instituições democráticas e de lembrar que a história de uma nação não é escrita apenas por seus governantes, mas principalmente pelo povo, quando este decide levantar-se e escrever seu próprio futuro.
Viva a Democracia!
