1982 – constituiu o ano eleitoral que prenunciou o fim do regime militar no âmbito estadual. Em outubro daquele ano ocorreu a disputa pelo governo do Estado, em que Gilberto Mestrinho (oposição) saiu vitoriosos sobre Josué Filho, que na época exercia o mandato de deputado estadual. A Polícia Militar, todavia, vivenciou um período marcado por intensas questões políticas – ou, como se dia, de politicagem – um fenômeno que ocorreu em todo o Estado. O primeiro episódio marcante deu-se em maio, quando o governador José Lindoso renunciou ao cargo para disputar uma vaga ao Senado e, consoante a legislação, o vice Paulo Nery assumia a chefia do Executivo. No mês seguinte, Nery destituiu o comandante-geral, coronel Guilherme Vieira, em razão de desavenças administrativas relacionadas a atos do militar; Vieira foi substituído por outro militar EB, tenente-coronel Duailibe Mendonça, que teve a prerrogativa de consolidar a dinastia VO na Polícia Militar estadual. O coronel Guilherme, apesar de ter sido exonerado, manteve a residência na Vila dos Secretários, certa noite, telefonou-me solicitando que eu fosse buscar o coronel Cavalcanti e o acompanhasse até sua casa.
| Governador Paulo Nery e coronel Guilherme, na passagem de comando, no salão de honra da PMAM |
Contactei o colega, que rejeitou categoricamente a visita, argumentando que o propósito do ex-comandante era abjeto: vingar-se fisicamente do governador Paulo Nery em razão de sua demissão do comando; em outras palavras, pretendia perpetrar um atentado contra o chefe do Poder Executivo. Cavalcanti ordenou-me: “Vá lá e desconverse”. Fui ao encontro nas últimas horas da noite e conversamos extensamente sobre o atentado que ele pretendia cometer. Eu, por minha vez, me sentia inquieto diante das sinistras implicações, em especial pelas minhas restrições legais. Em dado momento, propus-lhe que ele se candidatasse a deputado estadual, explicando que, no Legislativo, poderia aplacar aquela humilhação. Ao despedir-me daquele “inferno” e me afastar daquela insanidade, nunca mais ouvi falar daquele desequilibrado.
Essa alteração na caserna desencadeou uma politicagem desenfreada; foi então que a “chapa esquentou”. Dualibe assumiu o comando com a promessa de pelejar – e, de fato, pelejou, pela vitória da situação (Arena), com a eleição do deputado estadual Josué Filho (1946-). Após essa proclamação, os quartéis da Força se inflamaram, sendo o comandante do Corpo de Bombeiros (então subordinado à PMAM) o principal opositor do “duailibe”. Tratava-se do tenente-coronel Cavalcanti Campos, mobilizou e liderou enorme adesão de oficiais e praças. Dessa forma, engajei-me na refrega opositora – ao lado de outros – em favor de Gilberto Mestrinho (MDB).
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| Os dois últimos oficiais EB comandantes da PMAM |
Eu era o subcomandante dos Bombeiros, ou seja, o imediato de Cavalcanti; por determinação judicial, devia manter conduta irrepreensível, ou seja, comportar-me com cautela – no linguajar policial, “pianinho”. Como não se engajar na vida política de uma cidade tão politizada quanto as do Amazonas, que ansiava mudança? Para complicar, embora Gilberto Mestrinho (GM), antes governador e cassado, monopolizava o apoio popular, a disputa contra as forças governamentais em geral foi árdua. O quartel dos “homens do fogo” acabou virando um comitê eleitoral: sob o pretexto de orientar os subordinados sobre o voto, indicava-se o nome do candidato Mestrinho.
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| Almoçando no restaurante China, que existiu na av. Getúlio Vargas, em 5 setembro 1982 |
A progressão desse engajamento levou à direção a agendar uma reunião com nosso (!) candidato. Logo foi colocada à disposição a residência do Luiz Costa, o mais conhecido “lugar tenente” de GM, situada à rua Saldanha Marinho. Era noite quando as dependências foram tomadas, embora muitos simpatizantes continuassem do lado de fora. O candidato me convenceu de que venceria e reconheceu nossa atuação, assegurando que nos levaria ao paraíso, isto é, ao Palácio Rio Negro. Essa reunião motivou a abertura de um IPM, cujo presidente, coronel Câmara, era nosso admirador. Terminou em pizza! Quanto a mim, escapei por pouco da primeira encrenca, relativa à primeira desobediência ao juiz Bessa. (segue)



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