CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, junho 07, 2026

POEMA DE DOMINGO (8)

 O tema - Cometa Halley - que prometia fazer uma passagem de primeira pelos céus, fez tantos programar, adotar seu nome para algum empreendimento, quiçá, nome de algum terráqueo, resultou em fiasco. O poema de Ulysses Bittencourt (1916-93) expressa a desventura. A postagem foi extraída da coluna do Clube da Madrugada inserida em A Crítica, 05 maio 1968.  

Ulysses Bittencourt


Distante e solitário em seu passeio universal,

O cometa de Halley mata o tédio

Sonhando em descansar um dia, como se possível fosse.

E viajando se distrai na escolha do local

Melhor para a hipótese.

Tem-se detido mais em nosso flutuante

Planeta,

Passando menos veloz; assesta seu olhar percepção

E dentre mares profundos, regiões saturadas de gente,

Vastos gelos eternos,

Vê do alto um grande trecho uno, igual e ameno

Talvez laje de jade verde estriado de amarelo e marrom,

Nem mais nem menos antigo reino mítico

Das Amazonas guerreiras, onde agora pessoas morenas

Vivem, pensam, convivem e tem direito a um fim,

que acabar também faz parte, acha o Cometa cansado.

Nem aos escritores Carlos Araújo Lima

E Affonso Romano de Sant'Anna

Nas alturas de Nova Friburgo permitiu ser apresentado;

Só uma fumacinha. Nem mesmo à querida amiga

Elza Assis Bastos, que o viu bem de perto

Em 1910, no Rio de Janeiro, deixou-se ver senão

Em pequena nuvem, embora continue ela com boa vista.

Na anterior passagem, o Cometa luminoso apavorou os

Terráqueos, passando longe, após duas guerras de extermínio. 

Mesmo assim atravessaram-no, pela cauda, com um artefato

Intrigado, prossegue em sua rota celeste,

Sem entender porque no meio de tanta vantagem divina

Homens disputem, se matem, firam, roubem, tenham medo,

Sem captar, da vida a força

O tempo breve e o sentido,

Nem o valor do privilégio. 


quarta-feira, setembro 27, 2017

HISTÓRIAS DO ARCO-DA-VELHA

As três histórias aqui narradas por Ulisses Bittencourt aconteceram em Manaus. Muita fantasia já cobrem essas narrativas. Retirei a recorte do matutino A Crítica (14.setembro 1983).


Delas conheci o bisneto de Maurilio Torres, homônimo, coronel aposentado da Polícia Militar, que me assegurou parte do trauma vivido pelo antecessor. O governo provincial adquiriu de Pires Garcia o imóvel que foi por século quartel da PMAM, hoje abriga o Palacete Provincial.

Conheci a múmia da cabeça do jacaré no museu do IGHA. Sem comprovação, assombra essa história.

Pesquisei o quanto pude sobre a morte do Pensador. Dele, catei um fato no mínimo curioso: no único cartório existente na época (1º Cartório) não há a Certidão de Óbito do morto. Ou seja, foi enterrado como “indigente”.

Das brumas do passado

Quem lê os livros de Conan Doyle e Agatha Christie fica logo a imaginar se os misteriosos casos narrados, na verdade, poderiam ser concebidos em outros locais diferentes daquela atmosfera peculiarmente inglesa, de pessoas taciturnas movimentando-se num ambiente de nevoeiro, num cenário antigo, parecendo o mais propício aos crimes hediondos e às estórias sinistras engendradas pelos dois citados autores e por outros mestres do gênero.

Dentro dessa ordem de raciocínio, Manaus, com sua claridade tropical, seria a antítese de mistérios assim. Como, entretanto, toda regra tem exceções, podemos lembrar de algumas destas em ocorrências verídicas e que, por sua característica de excepcionalidade, foram alvo de investigações, de acurada análise por especialistas e de vivo interesse por parte do público em geral, no passado.

Tentemos, nos limites de uma crônica e para conhecimento das gerações mais novas, aqui relacionar três desses casos, todos acontecidos na capital amazonense, além de outros extraordinários, a serem relatados futuramente: como o bárbaro assassinato da menina Etelvina, muito venerada em Manaus; a morte trágica de Ana Ramos, no carnaval fatídico de 1915 e o atentado contra o Comendador Joaquim Gonçalves de Araújo.

1)     O assassinato do Capitão Pires Garcia

Ignoram-se as origens exatas de Custódio Pires Garcia, sabendo-se que era nordestino e que, em 1870, já se achava em Manaus, ocupando cargos de relevo. Foi juiz de Paz, vereador, possuía grande fortuna adquirida em especulações, mas sua atividade principal foi sempre a usura.

Emprestava dinheiro a juros altos e era conhecido por sua exagerada sovinice, a tal ponto que por muitos anos o seu nome equivalia à designação de pessoa avarenta. Implacável com seus escravos e com seus devedores, residia ele e tinha escritório na atual av. Sete de Setembro (então rua Brasileira), numa vasta propriedade, depois desmembrada e vendida em hasta pública, na esquina da hoje rua Marechal Deodoro, em frente ao edifício do Banco do Estado.

Os clientes eram recebidos na sala da frente, atravessada por um balcão, atrás do qual ficava Garcia e um cofre imenso, onde guardava todos os seus valores.

Em determinada noite de maio de 1885, cerca das vinte horas, alguém o procura (tudo indicando tratar-se de pessoa sua conhecida) e o mata selvagemente com uma fulminante martelada no crânio, quando o banqueiro ia abrindo o cofre para colocar ou retirar alguma coisa.

Ato contínuo, o assassino foge, levando tudo — joias, dinheiro, ações, documentos e o registro dos devedores. Sem provas concretas, foi por três vezes levado a júri um amigo de Garcia — Maurílio Torres — único suspeito (por provas circunstanciais), comerciante no Juruá, pessoa muito conhecida e estimada em Manaus, o qual acabou sendo inocentado pelo Juiz de Direito, Dr. José Francisco de Araújo Lima. Há um livro do juiz Hosanah de Oliveira, tratando do caso.

Com o passar dos anos, soube-se que a acusação foi injusta, porém o mistério continuou. Falou-se muito, então, no nome do engenheiro russo Alexandre Haag, poliglota que percorreu todo o interior do Amazonas, tendo estado em Porto Velho e Rio Branco, sobre o qual escreveu um livro. Retirou-se de Manaus logo após o crime, viajando para a Europa.

2) A morte do Pensador

Eduardo Gonçalves Ribeiro (1862-1900), chamado por seus contemporâneos de "Pensador” — porque dirigira o jornal maranhense do mesmo nome —, foi uma das pessoas de maior expressão no nosso Estado, que chegou a governar em três ocasiões, duas em caráter provisório e a terceira, como candidato eleito para o quatriênio 1892/1896.

Aproveitou as rendas fabulosas do preço alto da borracha, com o orçamento sempre acusando superávit, e executou, em Manaus, as melhores e mais belas obras existentes. A passagem do século já o encontrou combalido das faculdades mentais, tanto que tinha estado com especialistas na Itália, porém, mesmo assim, gozava de enorme prestígio político e social.

A 14 de outubro de 1900, para imensa tristeza da cidade, o "Pensador" é encontrado morto, em sua aprazível chácara, situada diante do atual Hospício. O corpo de Eduardo Ribeiro estava sentado no chão, com uma corda fina de mosquiteiro atada no pescoço.
Houve, na época, laudos técnicos como causa mortis, mas o assunto, dado a importância da vítima, foi e vem continuando a ser objeto de especulações, considerando-se a dificuldade que haveria para suicídio na posição e nas demais condições em que o corpo se achava.

Prossegue a dúvida, sem solução satisfatória.

3) O monstro do igarapé

Na década de 1910, o igarapé dos Educandos era muito frequentado pelas lavadeiras, que ali se reuniam em conversas compridas, enquanto esfregavam, batiam e enxaguavam as roupas. Entre elas, era conhecida uma ainda bem moça, apelidada de Neca.

Um dia, contara ela a uma conhecida certo caso um tanto difícil de acreditar e, ante a expressão de dúvida que a ouvinte lhe fizera, acrescentou: "Que uma fera me mate se estou mentindo!". No mesmo instante um enorme jacaré surgiu veloz a seus pés e puxou a infeliz moça para a água; arrastou-a, diante da amiga e de numerosas outras pessoas, trucidando-a em minutos.

Atraídos pelos gritos dos que assistiam à cena, correram vários homens com espingardas, terçados e paus, conseguindo finalmente abater a fera. O caso chocou e comoveu toda a população de Manaus. Foi um dos maiores jacarés encontrados na região e sua cabeça faz parte do museu do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, onde permanece em exposição.



terça-feira, julho 05, 2011

O Amazonas lendário... (final)

Ulisses Bittencourt (1916-93)

Seria oportuno, em síntese, lembrar as modificações sociológicas decorrentes do “boom” da borracha, também no terreno da criação literária, quando Manaus já possuía gente culta e viajada, amazonenses notavelmente conhecedores da sua terra e sua gente.

No final do século XIX e início deste, levas de operários e titãs do pensamento, nacionais e estrangeiros, afluíram ao Amazonas, atraídos pela valorização da goma elástica. Destes, basta citar alguns nomes que colaboraram ativamente na imprensa: Th. Vaz, Rocha dos Santos, Fran Paxeco, Geraldo Campos, Euclides da Cunha, Viriato Corrêa, Humberto de Campos, João Coelho Cavalcante (João barafunda), Leônidas de Sá, Adelino Costa, Adriano Jorge.

Com ou sem partidarismo político, mas atentos às suas simpatias, defendiam ou atacavam os vultos que comandavam a política e nada passava sem análise ou crítica, muitas virulentas e convincentes, agitando o pensamento da população. Dos entreveros políticos saíam lances imaginativos, anedotas mordazes, epigramas de sutil ironia, colocando os adversários em situação embaraçosa. Comentando um caso verídico, a imaginativa popular e o tempo encarregavam-se de deturpá-lo, transformando-o em lenda.

O seringueiro quando vinha a Manaus procurava divertir-se ao máximo, a fim de esquecer as agruras da solidão da selva, mas não como débil mental como fazem crer. A estória generalizada de que queimava charutos com cédulas de quinhentos mil-réis é, evidentemente, conversa de malquerer. Porque houvesse um caso tresloucado, não quer dizer que fora além.

Pescador próximo à ilha do Marapatá
Outra lenda muito curiosa, porém deprimente para todos, é a da ilha de Marapatá, onde se deixava a consciência ao passar para Manaus e que foi divulgada por Euclides da Cunha em entrevista ao Jornal do Commercio, do Rio, em 11 de janeiro de 1906, na qual em seu primeiro tópico diz: À entrada de Manaus existe a belíssima ilha de Marapatá – e essa ilha tem uma função alarmante.


É o mais original dos lazaretos – um lazareto de almas! Ali, dizem, o recémvindo deixa a consciência... (Um homem de caráter: discurso em homenagem ao marechal Thaumaturgo de Azevedo. Fran Paxeco, 1906).

Até alguns anos antes de falecer, Geraldo Rocha contava coisas chistosas sobre amazonenses ilustres, em sua coluna “Conversa com o meu netinho”, no jornal A Nota(sic), e Humberto de Campos, em sua fase ainda não espiritualizada, divulgava coisas pouco edificantes.


* * *
Os fatos comentados integram-se a um Amazonas flagrantemente falso, que se formou ao influxo deturpador das lendas.
O coronel Jose Cardoso Ramalho Júnior, na abastança como na pobreza, foi sempre uma figura respeitável e representativa, numa dignidade tranquila. Governou o Amazonas de abril de 1898 a julho de 1900. Nascido em Manaus a 7 de abril de 1866, faleceu no Rio de Janeiro, a 18 de setembro de 1952.
Onde estiver, há de pedir como Campos de Figueiredo: “deixa que hoje me chame de eternidade”.

Publicado no Jornal do Commercio, Manaus, 14 fev. 1977

domingo, julho 03, 2011

O Amazonas lendário...

A crônica pertence ao saudoso Ulisses Bittencourt (1916-93), que a publicou no Jornal do Commercio, de Manaus, em 14 de fev. 1977. 

É natural que a grandiosidade da terra, coberta pela floresta compacta e vária e de rios imensos, ainda de população rarefeita, cheia de contrastes e antíteses, crie lendas justificativas para o que ainda é desconhecido. A explicação de certos fenômenos naturais virá com o tempo, através dos estudos e pesquisa e da ocupação efetiva.

O que se deve, desde já, ir retificando, porque diz respeito à História são os exageros que se tornam lendas acerca de homens que influíram no destino da terra. Um deles foi o coronel José Cardoso Ramalho Júnior, figura marcante que ate hoje é constantemente citada.

A relembrança vem a propósito de uma reportagem estampada na Revista de Domingo, do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, de 13 de fevereiro corrente [1977], a respeito da Zona Franca de Manaus, que assim começa: “Em 1901, no auge do ciclo da borracha, o governador amazonense Ramalho Júnior presenteou com colares de perolas todas as coristas da Companhia Lírica italiana depois de uma apresentação no Teatro Amazonas. dizem que nessa época o chafariz do Palácio Rio Negro, sede do governo do Estado, jorrava champanha nos dias de festa.”

O amor pela verdade manda corrigir, inicialmente: a) em 1901, Ramalho Júnior não estava no poder; b) generoso como sempre foi, terá dado um colar de perolas para a atriz de sua preferência; c) o Palácio Rio Negro não existia ainda, pois o Palacete Scholz foi construído em 1913 e a sede do governo era o palácio de propriedade da prefeitura, sede atual desta, onde não existe chafariz...

A estória dos colares é igual àquelas de que o mesmo governador mandara construir o Teatro do Porto para um de suas amantes; que teria oferecido um palacete, em Cadiz, para o seu amigo Luiz Galvez Rodrigues de Arias, o “imperador do Acre”; e de que dera um leque de cédulas de quinhentos mil-réis para a conquista de uma fiel prima dona, dinheiro esse que ela teria queimado em presença do conquistador.

Convenhamos que a imaginação exagerou. A prodigalidade tem os seus limites e por mais que o Tesouro público estivesse abarrotado, não seria possível dar tanto em tão pouco tempo, na oportunidade em que obras públicas de vulto estavam em execução, como o término do Teatro [Amazonas] e sua majestosa praça fronteira; a conclusão do Palácio da Justiça; o novo palácio, onde está hoje o Instituto de Educação; calçamento de ruas; obras no Ginásio Amazonense; estrada para o Rio Branco [Roraima]; três grupos escolares e ajuda à revolução acreana, esta, predominantemente, de real magnitude.

* * *
Conversei muito com o coronel Ramalho, depois que veio para o Rio de Janeiro morar com a filha, professora Miosótis, casada com o saudoso amigo José Victor Sobrinho, residentes à época, na rua Pacheco Leão, no Jardim Botânico. Saímos muitas vezes para o “passeio de bonde”, num circular que abrangia o Lebron, Ipanema e Copacabana.

E, vezes tantas o acompanhei à loja maçônica, onde a sua simples presença dava excepcional respeitabilidade. Caboclo elegante, seu físico lembrava muito o do ator francês Victor Francen, com o seu cavanhaque. Discreto no falar, era com entusiasmo que contava coisas de nossa terra. É inquirido sobre acontecimentos regionais de que fora participante ou testemunha, respondia: “muito exagero, muita invenção”. (segue)

Publicou dois livros de crônicas: Raiz (Rio: Copy & Arte, 1985) e Patiguá (Rio: Copy & Arte, 1993).

Ulisses Bittencourt era filho de Agnello e Zulmira Bittencourt, nascido em Manaus em 1916. Concluiu os estudos secundários em Manaus e o superior em veterinária, no Rio. Exerceu atividades administrativas em Minas Gerais, Paraná e Rio. Escreveu desde os bancos escolares, e na atividade jornalística permaneceu até o final da vida. Pertenceu, entre outras agremiações culturais, ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e a Academia Amazonense de Letras.