Há setenta e um anos, precisamente em 23 de julho de 1955, foi aberta ao público a então denominada Praça Ribeiro Junior, instalada no canteiro central da avenida Leovigildo Coelho e delimitada entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. Morei neste logradouro por seis anos, a partir de 1967, e acredito que até sua desativação teve, no máximo, 60 moradores; pois somente existiam residências de um lado, do outro, estava o muro do quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial. Ainda me recordo: residi no Edifício Lilac, nº 348, entre a casa do seu José – onde vivia com cerca de uma dezena de filhos – à direita, e, à esquerda, uma oficina mecânica. Sucediam-se a big residência do Ali Assi; a do Adriano, proprietário dos cinemas; uma casa onde no térreo funcionava um comércio de medicamentos e, na esquina da Lima Bacuri, a moradia do desembargador Lucio Resende.
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| Detalhe da capa do livro lançado em Manaus |
A postagem – dividida em duas seções – expõe o texto do saudoso jornalista e acadêmico Arlindo Porto, que manifesta sua admiração pela Revolução de 1924 e ao altaneiro e sua maior expressão: tenente Ribeiro Junior.
SALVE RIBEIRO JÚNIOR
Não estava de nenhuma forma destituída da razão a senhora Yara Ramos Ribeiro, filha de Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, quando afirmava, em 1985, à passagem do 47º aniversário da morte do instituidor do “Tributo da Redenção” no Amazonas, ocorrida em 29 de junho, que a memória do seu pai, o grande revoltoso de 1924, “está completamente esquecida dos amazonenses”. E ainda quando dizia que “o busto de Ribeiro Júnior está azinhavrando num pequeno nicho, num logradouro bem identificado pela palavra saudade”. Esta última afirmativa, por sinal, deve soar até agravada dois anos depois de feita, porque na realidade o busto, nas últimas reformas municipais procedidas na Praça da Saudade, tomou rumo ignorado, volatilizou-se. Coisas de uma terra que não cultiva a memória.
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| Recorte do artigo de Arlindo Porto, jornal A Crítica, 23 julho 1987 |
Cometia, no entanto, aquela querida amiga uma meia verdade, quando afirmava que “nada mais resta em Manaus que lembre essa figura histórica, nem mesmo a praça com o seu nome, inaugurada a 23 de julho de 1955”. Resta sim. A praça, embora visualmente desfigurada pela ação municipal, ao tempo da gestão Jorge Teixeira, que no seu dinâmico afã de dar aos ônibus um corredor de trânsito que facilitasse saída dos grandes carros do centro urbano da cidade, mutilou completamente a avenida Floriano Peixoto, anulando a passarela central destinada aos pedestres, derrubando-lhe todas as árvores e, na prática, devolvendo-lhe, por descaracterização, o trecho que antes pela existência de um marco assinalativo, configurava a Praça Ribeiro Júnior.
Contudo, se esta não existe de fato, pelo menos existe de direito. Não é um grande consolo para ninguém afirmar tal coisa, mas a lei municipal que a criou está em plena vigência. Não foi anulada.
Permitam-me um depoimento pessoal: criei-me assistindo, todos os anos, no dia 23 de julho, uma comovente demonstração de lealdade à memória de Ribeiro Júnior, marcada por salvas de foguetões desde o alvorecer e por um lauto almoço, na Cachoeirinha, tudo promovido pela generosa e depreendida iniciativa de Philadelfo Moraes, que ainda na data famosa divulgava pela imprensa um artigo laudatório exaltando a figura do grande comandante da revolução de 1924.
Da pessoa de Ribeiro Junior eu me recordava apenas, e muito vagamente, como de um homem muito alto, imponente no envergar de sua farda de oficial do Exército, de quem certa vez estive bem perto, levado pela mão de meu padrinho e pai adotivo, o ser humano extraordinário que foi Aristeu Guimarães, também ele um grande admirador do Redentor. Recordo-me também, menino, das grandes concentrações humanas, ali pelo “roadway” da Manaus Harbour, quando Ribeiro Junior chegava a Manaus, de navio, e o povo ia recebê-lo, no cais.
Em 1955, aos 26 anos de idade, já atuando na imprensa de Manaus, provavelmente tocado pelas reminiscências da infância, dispus-me a fazer alguma coisa, diante da inexistência de qualquer homenagem oficial ou mesmo oficiosa ao homem que acorrera em favor dos amazonenses, humilhados e ofendidos diante de uma oligarquia corrupta, insurgindo-se 31 anos antes contra a situação constituída e derrubando um governo que não correspondia aos anseios do povo.
Encontrei apoio para aquela “alguma coisa”, na pessoa de Walter Scott da Silva Rayol, um saudoso amigo, também ele um inconformado com o esquecimento em que jazia a memória de Ribeiro Junior. Vereador à Câmara Municipal de Manaus, dos mais brilhantes que aquela Casa conheceu, ele se encarregou de apresentar à consideração dos seus pares a lei de criação da praça, em local por nós escolhidos, em meio a longos conciliábulos.
Assim, graças a ação de Zé do Parque (nome com que Rayol assinava seus pitorescos artigos sobre futebol), deu-se o nome de Ribeiro Junior ao trecho da avenida Floriano Peixoto compreendido entre as ruas José Paranaguá e Lima Bacuri. Com a total cobertura do “Jornal do Commercio”, do qual era eu o secretário da Redação, encetamos uma campanha e através de subscrições populares, obtivemos o dinheiro, primeiro para as placas da praça, que foram confeccionadas em mármore, pelo Mário Orofino, a preço que nem pagava a matéria-prima. Quanto ao busto, ou melhor, a herma do homenageado, como o dinheiro arrecadado fora pouco (o tempo era de vacas magérrimas) e não dava para que o confeccionássemos em bronze, material eterno, foi o mesmo modelado, sobre fotografia, pela arte de Branco e Silva, também engajado na campanha e que nada cobrou pelo trabalho. A composição final da estátua foi feita em liga de cimento, areia finíssima e colas, invenção do saudoso mestre amazonense, que pinta pelas suas mãos geniais, dava a nítida impressão de bronze.
Finalmente, no dia 23 de julho de 1955, com a presença em Manaus de Yara Ramos Ribeiro, filha do homenageado, inauguraram-se as placas, tornando a praça oficialmente existente, numa festa que não pude estar presente por me encontrar viajando. O ato seguinte foi a inauguração da herma, bem no centro da praça, o que se fez aos moldes de qualquer festa desse tipo, com oradores e tudo. Dentre estes, lembro-me que falou, com a mesma veemência de 31 anos antes, quando aplaudia a revolução das sacadas e palanques, o grande tribuno popular Hemetério Cabrinha.
Os anos correram, veio o Teixeirão e os seus executivos de obras, na febre de modernizar — e desumanizar? — Manaus, devolveram a avenida Floriano Peixoto, que se pretendia bucólica e com uma passarela central arborizada, à condição de via trepidante e congestionada permanentemente. A obra foi impiedosa com a homenagem feita ao grande revolucionário de 1924, pois a herma em seu louvor, para memória das gerações sucessoras à sua, que estadeava no meio da praça com o seu nome, sobre um belo pedestal, foi dali arrancada e levada para um recanto especialmente construído na praça da Saudade, onde foi juntar-se a outros bustos e hermas para ali também exilados, juntamente com as placas alusivas. Destas, no correr dos tempos, se encarregaram os vândalos, pois foram todas destruídas. (SEGUE)


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