CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, março 30, 2026

MEUS OITENTANOS (1)

 Fascículo 1

 

À beira das celebrações do meu Jubileu de Carvalho, sinto como se estivesse diante de uma grande parede da memória, expondo fotos antigas, e cada uma delas me coloca dentro de várias lembranças, como uma onda do mar que retorna para me tocar. Muitos projetos de vida nasceram em minha mente — feito passarinhos inquietos querendo voar —, porém, alguns voaram alto demais, não me deixando alcançá-los, outros não encontraram abrigo dentro do meu ser, inviabilizando o patrocínio próprio. Este, porém, pousa aqui bem sedimentado: contar, através do meu blog, a história do coronel Roberto, que é justamente a minha própria travessia por oito décadas de vida. Começo após o Dia de São José, 19 de março, santo que me acolheu no seminário de Manaus, e aproveito a mesma embalagem para celebrar também o centenário de Armando de Menezes, patrono generoso de tantas artes, por seu abrangente mecenato.

Nasci no bairro dos Educandos, na esquina da rua Inácio Guimarães com o beco São José, no dia 17 de junho de 1946, mês em que o céu de Manaus se vestia de bandeirolas, fogueiras e comidas típicas.

Sou fruto amadurecido da Segunda Guerra e de Manuel Mendoza — homem afeito às águas, nascido no lago Caballococha, às margens do rio Marañon, o nome do Rio Amazonas no país andino — e de Francisca Lima, filha de imigrantes cearenses e do lago Anveres nas cercanias do Careiro. Meu pai, por isso, era chamado de “peruano”. E posso dizer, sem exagero, que fui “hecho en Perú”, pois Manuel levou Francisca a Iquitos, onde se casaram e se instalaram. Mas o ventre grávido nos guiou de volta a Manaus, e ali, em junho, conheci a Luz.
Manaus, naquele tempo, respirava o alento da exploração da borracha que alimentava os Aliados em guerra — era um novo horizonte recém-aberto de pretensa prosperidade. O bairro de Constantinópolis — hoje Educandos — era uma periferia entre barrancos e igarapés, mas também absorvia promessas: o aeroporto de Ponta Pelada erguia-se como compromisso de futuro, fábricas surgiam tímidas, e no alto do bairro o vigário levantava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — templo onde minha família buscava consolo. Foi ali, no Instituto dos Educandos Artífices, transformado depois em Grupo Escolar Machado de Assis, que iniciei o curso primário.

O bairro, antes isolado, abriu-se ao mundo com a avenida Leopoldo Peres e a ponte Efigênio Salles. Ainda assim, a ligação com o centro era feita por catraias — conduzidas por braços que remavam como se movessem o próprio destino. Foi perto da Baixa da Égua — uma rua com um declive íngreme — que meu pai ergueu a sua Mercearia São José — casa de madeira com duas portas e uma varanda que se tornava palco de conversas. Minha avó, Victoria Malafaia, peruana, analfabeta, mas dotada de sabedoria incaica, quando emigrou de seu lugarejo em 1927, trouxera consigo dois filhos: Manuel e Francisco. Ali, ela, com seu portunhol limitadíssimo, dialogava sem ressalvas com Dona Neca, vizinha a cinco metros de distância. A filha dela, Maria Julia, ainda guarda memória viva no mesmo endereço.

Na mesma avenida morava tia Raimunda, com sua dezena de filhos, e o tio Manuel, dono de uma padaria simples e promissora. Ali eu buscava o pão doce antes de seguir ao Grupo Escolar. A energia elétrica chegava frágil — como um fino fio de esperança —, mas a água ainda era carregada em latas sobre cabeças, embaladas pela canção popular, eternizada na voz da cantora Marlene: “lata d’água na cabeça...”. Era o símbolo da resiliência e tenacidade daquele povo, descendentes de nordestinos, que vivia ali.

Em 1948, no mesmo mês de junho — como se fosse um paradigma —, nasceu meu irmão Henrique Antônio, batizado também pela folhinha, o calendário religioso. A vida seguia uma rotina tranquila, sem nenhum descompasso, com a ajuda da nossa babá, Luzia. Mas, em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil, meu pai decidiu arriscar-se no Rio de Janeiro, atendendo ao chamado do irmão Francisco. Vendeu o comércio e embarcamos no vapor Almirante Alexandrino, rumo à Capital Federal. Assim começou a segunda travessia da minha história, como quem troca o leito de um rio por outro, sem saber ainda para onde as águas nos levariam.

terça-feira, abril 09, 2024

PMAM: SEUS PRIMÓRDIOS (30)

Mais um capítulo sobre a história da Guarda Policial, atual Polícia Militar do Amazonas, no período provincial, compartilhado do meu almejado livro Guarda Policial (1837-1889). 

Primitivo Palacete Provincial


 

14ª Legislatura Provincial

Na Falla de abertura da 2ª sessão dessa legislatura, em 29 de março de 1879, o presidente da Província, barão de Maracaju, aproveita para fundamentar suas iniciativas junto à Guarda Policial. Após esclarecer a transferência da sede para o Hospital de Caridade, comenta a procedência de recrutas oriundos do Ceará.

Sem esclarecer a data, certamente no ano anterior, o presidente, ao solicitar do colega cearense “44 cidadãos para o estado completo da referida Guarda”, promove uma das primeiras importações de mão de obra policial do Nordeste. Ainda ontem, com diversas variáveis, tal processo se reproduzia, em particular na Banda de Música. Do número solicitado, informa o presidente que “já chegaram aqui 43, que estão fazendo serviço”.

Sede do Grupo Escolar, após a reforma
de 1927. Foto Durango Duarte


 

Obras no Palacete Provincial e no Educandos Artífices

Entre maio e junho de 1879, o Palacete Provincial passou por reparos. As obras executadas encontram-se relacionadas no texto lido na abertura da 15ª Legislatura, em 31 de março de 1880.

Houve a restauração do bicame (conjunto de calhas para coleta de água no telhado), que ainda hoje exige intervenção periódica. Promoveu-se a caiação e a pintura do térreo, onde funcionava o Liceu e a diretoria da Instrução Pública; “reparou-se o soalho, o rodapé e vidraças”; e ainda, foram construídos “pequenos alicerces junto à porta de entrada para impedir o avanço das águas pluviais” por sob o assoalho. A tarefa custou ao Tesouro “a quantia de 720$497 réis”. Não há indicação do executante.

Também no mesmo período, a presidência empenhou-se na restauração do Estabelecimento dos Educandos Artífices, que se transformara, com a desativação deste, em hospedaria. O objetivo da reforma era nele aquartelar a Guarda Policial, que se ocupava parte do Hospital de Caridade, em construção. Para isso, o governo “mandou preparar as casas” que hospedaram o diretor e o escrivão do extinto educandário e, igualmente, “parte do lance meridional” do prédio principal.

Quê banzeiro vultoso evitou que o projeto de transferência se concretizasse? Ignoro, porém, se se concretizasse seria um desatino. A polícia ficaria isolada tanto quanto o bairro de Educandos, ou seja, sem ligação terrestre com o Centro Antigo, ligação que era realizada utilizando-se canoa ou catraia. Seria estapafúrdio o deslocamento de tropa de um lado ao outro do igarapé, utilizando barcos de remo! Enfim, para aclarar a questão do insulamento educandense, lembro que a primeira ponte – Efigênio Sales - a ligar este bairro ao “continente” foi inaugurada em 1929; depois vieram a ponte JK em 1957 e, mais adiante, a do cônego Antônio Plácido, em 1975.

Ainda sobrevive resquícios do edifício provincial, utilizando as adaptações adquiridas, próprias ao melhor funcionamento, ontem, do grupo escolar e, hoje, da Escola Estadual Machado de Assis, situada à rua Amâncio de Miranda, 90 – bairro de Educandos, onde estudei na década de 1950.