CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

Mostrando postagens com marcador Constantino Machado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Constantino Machado. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, abril 14, 2025

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS EM MANAUS

A ineficiência dos Bombeiros Municipais, na década de 1950, ensejou a criação da Sociedade dos Bombeiros Voluntários, fundada em 24 de abril de 1952. Era dirigida pelos lusos José Antonio Dias Loureiro Ventura, o comandante Ventura, e Constantino José Machado, subcomandante. A sede estava na rua Comendador Alexandre Amorim, bairro de Aparecida, também sede da empresa de Ventura. O empreendimento durou exatos dez anos, começando sua derrocada com a morte do subcomandante, sobre a qual a edição de A Gazeta (13 maio 1961) assim se manifesta:


Jornal A Gazeta, 13 maio 1961

Ontem, em Manaus, morreu um herói.

Que não o foi somente pelas determinantes de sua morte. Que não era apenas um relojoeiro. Um bombeiro voluntário. Um ator do teatro amador. Um português radicado no Brasil. Era um verdadeiro dínamo humano, desde 1918 – quando chegou a esta capital, se identificou com o dia-a-dia da terra que escolhera, dividindo suas energias com a profissão, com a missão nobre e heroica, com a arte, com o grêmio que une seus irmãos. Seu nome: Constantino José Machado. O português nascido em Leixões no dia 5 de outubro do segundo ano deste século morreu ontem, quando os relógios – que foram o seu ganha pão – marcavam as 19 horas e 30 minutos.

Num relance, talvez, se lhe passaram pela mente os acontecimentos mais importantes de sua vida irrequieta: o casamento com a sra. Rosa Gomes Machado, os três filhos (Altair, Ilos e Alda), a viuvez. O segundo matrimônio, a sra. Maria da Conceição, os outros filhos: Estefânia Maria, Antonio e Luzia. A sua genitora, as cinco irmãs, todas em Portugal. As suas atividades no rádio-teatro, na antiga “Festa da Mocidade” da Rádio Difusora, quando chegou a contracenar com famosos artistas brasileiros, como Pedro Celestino. O Luso Sporting Clube. O velho Luso, cujo corpo cênico dirigia. O incêndio na fábrica de sabão. O corre-corre que durante todo o dia colocou em permanente movimentação os Bombeiros Voluntários. Quantos incêndios já não ajudara a apagar? Só que este fora diferente. Fora o último. Um ônibus da Transportamazon interceptara a corrida que era uma constante na sua vida: matara-o.

O sr. Constantino José Machado era subcomandante da Sociedade de Bombeiros Voluntários. Em Manaus, além dos filhos e da esposa, deixou um tio, o sr. Antonio Pires, proprietário da casa “A La Ville de Paris”.

terça-feira, janeiro 09, 2018

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [3]

Era véspera do Dia de Nossa Senhora de Fátima, padroeira do bairro da Praça 14 de Janeiro. Enquanto a comunidade católica preparava a festa da protetora, um forte incêndio, no mesmo bairro, consumia a fábrica Três Unidos, instalada na rua Visconde de Porto Alegre. 
No desenrolar do combate ao fogo, a viatura 3 dos Bombeiros Voluntários, conduzindo o subcomandante Constantino Machado, chocou-se com um ônibus da estatal Transportamazon, resultando na morte deste chefe.
A cidade enlutou-se com a tragédia. E a empresa, por seus dirigentes, fez publicar um Testemunho no Jornal do Comércio (17 maio 1960), que aqui vai postado.



Maria Luiza Leal Gesta, Rubem Pereira de Melo e Elias Ramiro Bentes, sócios constituintes de Bentes, Melo & Cia., desta praça, proprietários da Usina Três Unidos, ainda sob a impressão desolad0ra do sinistro, ocorrido a doze do corrente mês, no seu estabelecimento de indústria e beneficiamento de castanha, que, pelo fogo, lhe destruiu todas as estufas, vêm, de público, manifestar a gratidão aos Exmos. Srs.  Gilberto Mestrinho, Governador do Estado; Desembargador Manuel Machado Barbuda, ilustre Secretário do Interior e Justiça; Doutor Luigi Farini, operoso Chefe de Polícia e aos seus valorosos auxiliares; Tenente-Coronel José Anchieta do Vale Bentes, comandante do 27 Batalhão de Caçadores; Sargento Aguilar de Jesus Ribeiro, comandante do Destacamento da Aeronáutica de Manaus; Coronel Assis Peixoto, acatado comandante da Polícia Militar do Amazonas e respectivos comandados; ao heroico e estimado Corpo de Bombeiros, aproveitando para prestar sincera homenagem  à memória de seu denodado subcomandante, Sr. Constantino Machado, cuja vida se imolou no cumprimento de sublimes deveres; Doutor Elias Morkazel, dedicado diretor do Departamento de Estradas de Rodagem; Doutor Aderson Dutra, presidente da Companhia de Eletricidade de Manaus; Senhores Raimundo de Alcântara Filgueira e Stepheson Vieira Medeiros, Gerente e Contador e demais funcionários do Bando do Brasil;  Hélio Silveira, Gerente, em exercício, do Banco de Crédito da Amazônia; H. C. K. Bangrineister e H. L. Meranell, Gerente e Contador do Bank of London & South America; Dario Farias de Lima, Diretor da Escola Técnica de Manaus e seus denodados alunos; Dr. Candido Machado, aos nossos empregados; Dr. Walter Zuany de Figueiredo, Diretor do Departamento de Águas do Estado; e aos dignos chefes das firmas J. G. Araújo & Cia. Ltda.; I. B. Sabbá & Cia. Ltda.; Cia. de Importação e Exportação S.A.; Curtume Mago  & Cia.; J. R. Siqueira & Cia.; N. Pazuello; Ferreira da Silva; C. V. Vasques & Cia.; Industrias I. B. Sabbá S.A. e aos competentes e corajosos operários da Usina Labor e, finalmente, a todos quantos naquela hora de profundo pesar, aos manifestantes também, que trouxeram, com o valiosíssimo concurso, a prova de comovedora solidariedade humana, virtudes que caracterizam a grandeza de coração, a nobreza de espírito e o sentido da Caridade do povo a que, com muito orgulho, pertencem.


Manaus, 16 de maio de 1960

Maria Luiza Leal Gesta Rubem Pereira de Melo Elias Ramiro Bentes

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [2]


Recorte do periódico, de 14 maio 1960
A morte do subcomandante dos Bombeiros Voluntários, em 1960, pela forma e a situação como ocorreu, repercutiu na provinciana cidade de Manaus. Os textos postados bem demonstram a solidariedade de todos, autoridades obrigadas pela função pública, e o povo, em geral, como se depreende do testemunho dos donos da empresa sinistrada. 
Ainda nos conhecíamos a todos, ou pelo nome de família ou por alcunha típica. Éramos um imenso grupo quase familiar, ligados pela afetividade e outras virtudes.
Diante dessa intensa causa, a cidade chorou no velório de Constantino Machado. As manifestações foram amplas, como bem publicou em suas páginas o Jornal do Commercio (14 maio 1960) . E aqui são postadas. 

Ainda na alma e no coração do povo a triste
recordação de C. Machado

A sociedade amazonense, as classes militares e autoridades principais do Estado prestaram sua última homenagem ao denodada soldado do fogo — Concedida pensão vitalícia à viúva de Constantino Machado pelo governador do Estado

Ainda repercute dolorosamente em todos os círculos sociais de Manaus a brutal tragédia que, à noite de quinta-feira, roubou a vida do Sr. Constantino Machado, figura que em vida, desfrutou de real apreço entre nós, pela sua capacidade de trabalho, dedicação afetiva à família e grande cooperador de nossa modelar Cia. de Bombeiros Voluntários, onde era um dos seus subcomandantes.

Dada a lacuna que o mesmo deixou na sociedade de Manaus, na Cia. de Bombeiros Voluntários, nossa reportagem procurou ouvir o comandante Ventura, colega e amigo do inditoso soldado do fogo, para que nos dissesse algo sobre a vida do mesmo.

Soubemos, então, ter sido um exemplar companheiro da esquadra dos homens que lutam contra os sinistros dos incêndios, onde durante seis anos empregou suas atividades. Estava Constantino Machado trabalhando em um show que, brevemente, seria levado a efeito no Teatro Amazonas por iniciativa do comandante Ventura e seus companheiros, em benefício das crianças internas do Educandário Gustavo Capanema. Deixou viúva dona Maria Machado e mais três filhinhos menores.

OS FUNERAIS
Seu sepultamento, manhã de ontem, constituiu outra demonstração de apreço em que era tido, tornando-se verdadeira apoteose de saudade e de dor, entre seus colegas, amigos, e toda a nossa sociedade, deixou a sua passagem através da morte para a eternidade.
Se corpo foi velado no salão nobre do Luso Sporting Club, onde uma Guarda de Honra prestou-lhe as homenagens fúnebres. A Guarnição Federal se fez representar, no velório, por oficiais, sargentos e praças. A Polícia Militar da mesma forma.

Reprodução do JC, 14 maio 1960

Sr. Antonio José Pina agradece à cobertura dada pelo “Associado”, a respeito da tragédia em que desapareceu o subcomandante Constantino Machado
Recebemos atenciosa carta datada de 12 do corrente, cujo teor damos abaixo e pela qual aquele cidadão, tio do infortunado Sr. Constantino Machado, recentemente morto no desastre ocorrido naquele dia, com o carro-pipa dos Bombeiros Voluntários, vem trazer de público seus agradecimentos ao JORNAL DO COMÉRCIO a respeito da cobertura que fizemos em torno do lutuoso fato, inclusive nossas crônicas e artigos a respeito:

Manaus, 12 de maio de 1960
Ilmo. Sr.
Diretor do JORNAL DO COMÉRCIO
Nesta

Como tio do Sr. Constantino José Machado, subcomandante dos Bombeiros Voluntários, tragicamente desaparecido no dia 12 do corrente, quando desempenhava o cumprimento do seu abnegado dever, venho, com o devido respeito, apresentar a minha sincera e imorredoura gratidão, não só pela completa reportagem noticiosa a respeito do corrido, como também pelos comoventes artigos publicados sobre a vida de meu infortunado sobrinho.

Atenciosamente
Antonio José Pina
  

segunda-feira, janeiro 08, 2018

BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS [1]

Raríssimos são aqueles que se lembram de que prosperou em Manaus um corpo de Bombeiros Voluntários. Há mais de 50 anos, situado no bairro de Aparecida, dirigido pelo comandante Ventura. 
A morte deste, antecedida pela do subcomandante, apressou o encerramento desta organização. Reproduzo abaixo dados do desastre que vitimou a Constantino Machado, extraídos do Jornal do Commercio (sexta-feira, 13 maio 1960). 
Já escrevi neste Blog sobre o comandante Ventura e seu primoroso trabalho.


Perde a vida quando no cumprimento do dever o Subcomandante dos Bombeiros Voluntários

Constantino Machado um dos esteios da corporação perde repentinamente a vida na colisão do carro 3 dos Bombeiros com o ônibus 18 da Transportamazon — Estavam terminando os serviços de incêndio na fábrica Três Unidos — Capotou espetacularmente o carro dos bombeiros — Três feridos e um morto o balanço — Os passageiros do ônibus nada sofreram

Um choque de veículos na esquina da Eduardo Ribeiro com a 7 de Setembro, entre o ônibus 18 da Transportamazon com o carro número 3 dos Bombeiros Voluntários, resultou em uma morte e 3 feridos, todos pertencentes aquela corporação.



O CHOQUE
Descia a avenida Eduardo Ribeiro o Transportamazon 18 quando, ao atravessar aquele cruzamento com sinal em seu favor, surge descendo a 7 de Setembro o Carro 3 dos Bombeiros com a sirene aberta, em grande velocidade. Ao perceber o carro dos bombeiros o chofer do ônibus não teve mais tempo de frear seu carro, tentou atravessar a rua antes do outro para evitar o desastre no que foi infeliz, pois o Carro 3 foi atingi-lo à altura das rodas traseiras, capotando em seguida na sarjeta que dá para a Matriz.

CUSPIDOS DO VEÍCULO
Com o impacto, dois bombeiros que vinham trepados na passadeira do carro pipa, foram cuspidos à distância o que lhes valeu, pois os dois que vinham na boleia, o chofer e o subcomandante, foram mais infelizes.

OS FERIDOS
Saíram feridos da colisão os seguintes bombeiros voluntários: Mario Garcia da Cunha, condutor do Carro 3, solteiro, chofer, residente à rua Miranda Leão, 341, que sofreu fratura da perna direita; Milton Dib Nunes, com 18 anos de idade, estudante e bombeiro voluntário, solteiro, residente à rua Leovigildo Coelho, 313, com escoriações no braço esquerdo; e Claudio Barbosa Santos, com 19 anos de idade, solteiro, comerciante, residente à avenida Airão 317, com escoriações generalizadas.

O MORTO
A nota triste e lamentável foi a morte quase instantânea do subcomandante dos Bombeiros Voluntários Constantino Machado, ourives de profissão e um dos grandes esteios da corporação ao lado do Comandante Ventura. Constantino teve morte quase instantânea, pois transportado para o Pronto Socorro, logo ao chegar faleceu. Como se sabe desde as 11 horas da manhã os bombeiros voluntários estavam trabalhando no incêndio da fábrica Três Unidos, quando já ao término da missão, o manto negro atinge em cheio a briosa e destemida corporação roubando um de seus mais entusiasta e lutador. Constantino fiel ao seu ideal, morreu em serviço
O subcomandante Constantino residia na sede do Luso Sporting Clube, de onde era figura destacada, fazia parte também do círculo teatral de Manaus, onde por várias vezes atuou em peças as mais variadas. O mesmo era entusiasta da arte cênica, dinâmico cooperador da administração da sociedade dos portugueses, terra que lhe serviu de berço.
Deixa com sua morte uma grande lacuna em todos os setores de que fazia parte, por sinal difícil de preenchê-la, dado o seu entusiasmo e capacidade de trabalho.

PRESO OS CHOFERES
O comissário Walter Rodrigues da Delegada de Trânsito prendeu os dois choferes em flagrante delito, para proceder interrogatórios necessários que deverá instruir o competente inquérito. O chofer do ônibus 18 da Transportamazon é o senhor Mardock de Oliveira Pacheco Duarte, filho de Francisco Pacheco Duarte e de Generosa Oliveira, cearense, com 34 anos de idade, casado, residente à rua Belém, Vila 5 Irmãos, casa 5 [certamente Cachoeirinha].

PASSAGEIROS NADA SOFRERAM
Felizmente os passageiros do coletivo nada sofreram com o impacto, saindo todos sãos, levando apenas o susto, isso em face do local do baque e do grande peso do veículo.