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sábado, novembro 07, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER

         A apreciação sobre a cidade foi  realizada pelo Ramayana, quando este conduzia a secretaria de Administração do governo de Gilberto Mestrinho (1959-63).



DOIS PESOS...

A GAZETA, 25 de agosto de 1961

O que caracteriza o regime democrático é o tratamento igual, perante a lei, para com todos os cidadãos da República. Os que lutam pelo pão de cada dia e os que lutam pelo dia de cada pão. Pobres ou ricos, todos merecem, igualmente, da autoridade pública. Existe em Manaus, a mentalidade estreita de combate ao rico, ao próspero, não por ser ele um intermediário encarecedor, um explorador da energia proletária, mas por ser ele uma pessoa que “vive bem”. Esse despeito, perfeitamente burguês e detestável, se estende também ao bairro onde ele mora.

            Quando se visita uma cidade, percorre-se a zona operária e os bairros elegantes, conjuntamente. Do antipodismo de ambos se mede a civilização urbana. Um dos passeios mais agradáveis, no Rio de Janeiro, é visitar o Alto da Boa Vista ou o “New Leblon”, onde aves majestosas arrulham pelos jardins e a sombra é uma cortina de sonho para os olhos. Também se visita, de longe, a favela do Sacopã ou a da Catacumba, do ponto de vista turístico ou refalsado, como o daquele fotógrafo norte-americano que, sendo colored, em vez de focalizar a vida miserável dos negros do Sul dos Estados Unidos, preferiu fazer sensacionalismo nas nossas favelas. Em São Paulo, que visão magnifica é a do Jardim América, a do Jardim Europa e a do Jardim Paulista, para quem visita a “Supercap”! O prefeito bandeirante olha, com especial carinho, para o bairro dos que pagam impostos mais altos, para os faubourg dos que alimentam a caixa baixa da municipalidade.

Aqui, não. Temos um exemplo em Adrianópolis. Belas residências, lugares que fariam inveja a muita cidade tropical de outras bandas. Talvez Alger la Blanche [Argel, capital da Argélia] não possua tanto encanto bucólico em seus recantos, como a nossa tão esquecida Adrianópolis. Já não quero lembrar o seu batismo, que recorda um dos mais ilustres, sábios e humanitários médicos deste país. Pensemos, mesmo, na velha Vila Municipal, tabuleta de bonde, no tempo em que se viajava à noite, para poder dormir... Ali estão as mais belas residências da cidade. Ali se acumulam as maiores sujeiras sobre as calçadas, num abandono lastimável.

Houve um tempo, em que um dos nossos prefeitos, tão ardente como inconsequente, mandou asfaltar, na Vila, uma das poucas ruas que o são por aquelas bandas. Morava nessa via, um cidadão de quem ele não gostava. Então, o governador da cidade deu as suas ordens: asfalte até o número tal, pule a casa desse cachorro, e recomece a asfaltar depois dela... Resultado: no meio da rua pavimentada, havia uma buraqueira, um lamaçal de causar dó! Os carros preferiam evitá-la, frente ao lagamar que ali se avolumava.

Não se dorme na Vila, por causa da onda permanente de mosquitos, vindos das sujeiras empoçadas, das latas com água, das bacias velhas, das imundícies. Um capinzal triste contrasta com os bangalôs de belo estilo, com as residências suntuosas, que dariam à cidade um cartaz sedutor. Mas, pobre do bairro de Adrianópolis: ele é rico! Ali moram os capitalistas da urbe, os que sustentam, com os seus impostos, à própria municipalidade. Por incrível que seja, ali residem o prefeito da capital e o chefe das pavimentações. Mas há um mistério agindo contra a Vila. Agora mesmo, como seria interessante mostrar aos visitantes que, às centenas percorrerão as nossas ruas, durante a fase presidencial, um bairro inteiro asfaltado, iluminado, de lindas casas, como a demonstrar o bom gosto da gente baré!

Existe ali uma rua, a Natal, que nenhum motorista de praça quer enfrentar, receoso das molas e da segurança do seu carro. Dos capinzais surgem galinhas, porcos, cavalos em atitudes suspeitas, cabras e, pasmem os leitores, até gente, mais ou menos aliviada. Poderíamos ter ali o nosso Jardim Amazônico, as calçadas largas, ajardinadas, a pavimentação generalizada (que não é tão grande a Vila), mostrando ao viajante fatigado de casebres, o caminho luminoso para o Acapulco, onde se deixa o dinheiro e traz uma centelha de olhar bendito. Asfalta-se uma porção de bairros sem o menor atrativo turístico, sem a menor significação urbana, a não ser a demagogia eleitoreira, bairros onde o asfalto é sistematicamente arrebentado, porque ali não há esgotos, e a água solapa o solo. O que não fariam os habitantes da Vila Municipal, nas suas casas, nos seus jardins, nas suas fachadas, se assistissem a um pequeno esforço da Prefeitura com o seu conjunto!

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