CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, abril 16, 2021

NOTÍCIAS DA POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS

Revirando os boletins da corporação em busca de algum fato, encontrei duas preciosidades, publicadas em dezembro de 1989: a reverência ao comandante e uma visita frustrada deste comandante. Este comandante da Polícia Militar do Estado, entre 1989-91, foi o coronel Romeu Medeiros.

Os dois apontamentos, como afirmei, compartilhei dos boletins corporativos: 1) o primeiro detalhava a atitude que o policial deveria tomar ao toque indicativo da chegada do comandante-geral ao aquartelamento. Estava eu na ativa, nesse contexto, e não me recordo da sua aplicação. 

Recorte do Boletim Geral mencionado

2) a viagem frustrada aconteceu quando a delegação deste comandante, na qual eu estava incluído na condição de comandante do policiamento do Interior, intentou chegar em Tefé (AM). A finalidade da comitiva era prestigiar a formatura do 1º curso de formação de soldados, que creio tenha sido o primeiro no interior do Estado.

Extrato do Boletim Geral indicado

Viajamos em um pequeno avião, partindo da capital pela manhã bem cedo. Ao se aproximar de Tefé, onde se encontra a sede do 3º Batalhão, sob o comando do major Adson Costa Silva, o piloto foi informado da impossibilidade da aterrissagem devido a forte neblina. As opções então apresentadas ao coronel Medeiros: prosseguir até Eirunepé (AM), enquanto desanuviava o tempo, e retornar a Tefé; ou, retornar para Manaus. Coronel Medeiros optou pela segunda.

Detalhse da Ata e da relação dos aprovados





Recortando a Ata, pode-se ver os dirigentes do CFS, no outro, a relação dos cinco primeiros. E quanto à formatura, somente o ora coronel reformado Adson pode nos relembrar.


domingo, abril 11, 2021

POESIA NA PANDEMIA

Me desculpem os cultores desta arte. Todavia, acabo de ler os Estudos do mestre Tenório Telles sobre o assunto, daí talvez esse meu capricho. Lembrando que enquanto catava papeis nos jornais de Manaus, recolhi um sem-número de poemas de abalizados e de anódinos poetas. 

Explico o fundamento: era costume na imprensa de anteontem a abertura de suas páginas para esse tipo de destreza intelectual. Em datas mais afetivas (Dia das Mães e dos Pais, festividades religiosas e patrióticas) a contribuição se aprofundava. Em cada periódico, uma coluna literária. Nesta postagem recolhi de O Jornal e do Jornal do Commercio.

Desse modo, seguem duas contribuições, esperando que nos distraia nesse tempo de ira e ranger de dentes. Mas, de Páscoa, aleluia!


Circulado em O Jornal, 29 julho 1956 

 Em noite de tufão, o mar raivoso

Embate as ondas no rochedo bruto.

Embalde o leme, o timoneiro astuto,

E sucumbe o batel leve e formoso.

          Amaina a tempestade, o vento iroso;

          O mar, com pena, cobre-se de luto,

          E num lamento triste e ininterrupto,

          Carpe o destino do batel, choroso.

Assim, minha alma, cheia de vaidade,

Cometeu a sublime crueldade

De fazer naufragar o nosso amor.

          Enquanto o sentimento me entristece,

          E o coração ingênuo não te esquece,

Tento afogar em versos minha dor!

  

Circulado em Jornal do Commercio, 25 abril 1958

Sempre ouvira falar da felicidade

Qual meiga fada para mim desconhecida.

Então parti a procurá-la pela vida

Com ardente desejo, com imensa vontade.

Busquei-a nos brilhantes píncaros da glória,

No deslumbrar das riquezas a ela não vi,

Nas ilusões fugazes busquei com frenesi,

Ainda nos triunfos não logrei vitória.

Onde está a felicidade que procuro?

Em vão meu peito fraco e inseguro,

Clamou por ela sem poder a encontrar.

Por fim, cansada voltei desiludida

E na humildade do meu ponto de partida,

A felicidade veio-me abraçar.

sábado, abril 10, 2021

EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DE SAÚDE NA PMAM |3|

Mais um passo na evolução do Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas, prosseguindo a partir da implantação do Estado Novo, em 1930. 

Brasão do Serviço na PMAM

ESTADO NOVO (1930)

Competiu ao interventor federal Álvaro Maia, notável poeta e escritor, que havia sido capitão da PM, servidor da Auditoria Militar, a autoria da desativação da Força Estadual, em novembro de 1930. Também lhe coube o ensejo de reativá-la, em abril de 1936.

Quando desse retorno, consoante o decreto 99, foi dada nova projeção ao Serviço de Saúde – ou até diria que foi inaugurado, com previsão de três médicos: um capitão e dois tenentes, um dos quais, veterinário (profissional inalcançável em Manaus de então). Sem anotações, simplesmente a primeira vaga foi contemplada ao incorporar o Dr. Walmiki Ramayana de Paula e Souza de Chevalier. Abreviando o verso de seu sofisticado nome: Ramayana de Chevalier (1909-72). Excelente escritor e polemista, aqui nascido, mas que fez sucesso no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Comentam os paralelepípedos de Manaus que este falecido clínico nunca receitou uma Cibalena ou um Melhoral. Digo eu, optou por escrever (muito bem) crônicas à receita médica. 

Em 1936, retornou a Manaus, depois de formado em medicina e realizada a etapa da residência, o doutor Ramayana de Chevalier. Homem bem relacionado, muito em função da ascendência paterna, encontrou acolhida em Álvaro Maia, interventor federal, que o designou para dirigir o Serviço de Saúde da PMAM. 

A situação econômica do Estado continuava precária. A 2ª Guerra (1939-45) trouxe desalentos, mas, também, reforço financeiro para o Amazonas. Na área sanitária, recordo a criação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Em relação ao tema que se aborda, em 1943, foi ampliada uma parte do quartel da Praça da Polícia, pela rua José Paranaguá. No segundo andar, foi construída e instalada uma Enfermaria, que devia permitir além dos primeiros cuidados médicos, os de curativos, e da baixa de doentes com diagnósticos triviais. 

A movimentação desta enfermaria obrigou a inclusão de enfermeiros, com a hierarquia de praças. Talvez o primeiro enfermeiro tenha sido Benedito Nogueira Sombra, cearense, incluído em 1947, que seguiu na função até sua aposentadoria, no meado dos 1970. Outros, foram: Edgar Lira de Oliveira e Valadares Pereira da Silva, incluídos em 1952 e 1955, respectivamente. 

Em relação aos médicos, ainda não foi nessa oportunidade que se estabeleceu um Quadro de Saúde. Não consigo aquilatar a indiferença desses profissionais para com o “emprego” na Força Estadual. Seriam os salários? Ou a falta de recursos básicos? Ou a própria hierarquia e a disciplina? Todavia, sempre havia um de “plantão”. Vejamos alguns “plantonistas”: Djalma Batista (na condição de capitão, entre março e julho de 1943), conhecido pela sua dedicação e pela erudição; Antonio Hosanah da Silva Filho (reformado coronel, um dos raros a se manter na corporação); Danilo de Aguiar Corrêa (de 1945, morto em acidente de aviação no interior do Estado, quando deputado estadual); Alfredo Corrêa Lima (reformado coronel). (segue)

EVOLUÇÃO DO SERVIÇO DE SAÚDE NA PMAM |2|

 Prosseguindo com o retrospecto sobre o Serviço de Saúde na Polícia Militar do Amazonas, relato o que colhi sobre a matéria nas três primeiras décadas do século 20.

Brasão do atual órgao
diretivo do serviço

PRIMEIRA REPÚBLICA

 

A primeira providência republicana foi mudar a denominação da Força Estadual amazonense, que passa de Corpo Policial do Amazonas para Batalhão de Polícia. Dois anos depois, Batalhão Militar de Polícia e, ainda no mesmo ano, Batalhão Militar de Segurança. Somente após o governo de Eduardo Ribeiro (1892-96), com o aporte de imensos recursos financeiros provenientes da hévea, houve uma evolução substancial – Regimento Militar do Estado, com dois batalhões e outros serviços. 

Em 1897, encontra-se o simulacro de um serviço de saúde. Ainda assim, com atendimento intitulado de “visita médica”. O quartel seguia ainda sem enfermaria. O nome do clínico mais conhecido é do doutor Nemezio Quadros, amigo de Adolpho Lisboa, que comandou a PM e a Prefeitura entre 1902 e 1908. Naquele ano, aconteceu o notável episódio de Canudos, na Bahia. A corporação amazonense socorreu as Forças de Terra, enviando o 1º Batalhão contra Antonio Conselheiro. Ainda nos preparativos, foi designado o doutor José Leite Barbosa, capitão cirurgião, para acompanhar a tropa. Esse médico “adoeceu”; comprovada a sua desídia, contudo, foi demitido do serviço público por “incapacidade física”.

Doutor Barbosa foi substituído espontaneamente pelo colega Pedro Juvenal Cordeiro, também capitão cirurgião. Como sabido, o batalhão amazonense em sua viagem a Canudos (BA) fez o primeiro transbordo em Belém (PA). Ali, Dr. Juvenal solicitou uns dias de folga para ultimar as providências junto à família. Atendido, deixou de viajar com a tropa, somente o realizando nove dias depois. Devido ao desencontro gerado pelo cirurgião, resultaram as agruras sofridas pelos policiais durante a expedição. Ao fim da missão, Dr. Juvenal não retornou ao Amazonas, sendo exonerado pelo governo, que o substituiu pelo Dr. João Ricardo Gomes de Araújo.

Aproveito o episódio de Canudos para anotar a existência de um Sanatório Militar em Itacoatiara (AM). Foi o governador Silvério Nery que em 1902 inaugurou esta casa de saúde, destinada ao recobramento de policiais militares. A explicação para essa providência sustentava-se na teoria médica de que a recuperação somática se acentuava com o afastamento do doente para sítio com novos ares.

Era uma construção em madeira, segundo o registro do autor de Cronografia de Itacoatiara, vol. 2 (1998). E que o sanatório esteve situado no terreno ao lado da Matriz de Nossa Senhora do Rosário, onde depois funcionou um serviço de controle do abastecimento de águas e esgotos. Hoje não se vislumbra qualquer sinal daquela casa de saúde. Era administrador do sanatório: capitão Joaquim Alves de Lima Verde e os “serviços de atendimento prestado pelo médico comissionado do Estado Dr. Domingos Pinheiro”.

Em Manaus, o Regimento prosseguia em alta, porém, seu custeio sempre motivou as lamúrias dos governantes. Estimo seu efetivo na ordem de seiscentos homens, em dois batalhões e serviços. Quanto aos médicos, estes pertenciam ao efetivo, dispondo de postos militares, e seguiam visitando os policiais no quartel da Praça da Polícia, pois os demais recursos clínicos eram providos pelos hospitais de benemerência. As lesões mais graves ou moléstia de cura prolongada, o único recurso era baixar o policial na Santa Casa de Misericórdia, a mesma que se agora se encontra com as portas cerradas. Esta estrutura permaneceu até o final da primeira década do século passado.

Indiscrição acerca de um médico: em maio de 1910, o Chefe de Polícia informava ao governador que apurava uma queixa do doutor Álvaro Moura, do Batalhão Militar do Estado, contra dois indivíduos, residentes à rua Joaquim Sarmento, 36. O queixoso reclamava das pilherias ofensivas ao pudor e ao decoro de indivíduo, em especial “à sua moralidade de varão”. Os acusados não foram encontrados, desconversou aquele chefe. 

Ao final da Primeira Guerra, o Amazonas perdeu o privilégio da exportação da borracha e, consequentemente, o fluxo de caixa até então abarrotado. Sua decadência levou consigo a Polícia Militar do Amazonas (PMAM), que teve gradativamente diminuído o efetivo e serviços. Ainda assim, foi engolfada em repetidas disputas políticas, tendo participado de, e até promovido, algumas rebeliões. Em julho de 1924, quando da Rebelião de Ribeiro Júnior, a corporação sofreu intempestiva mudança, ao tomar a denominação de Guarda Cívica sob o comando do capitão Martins, até que, ao final daquele ano, retomou o consagrado título. Não delongou bastante para que, em novembro de 1930, um dos primeiros atos da implantação do Estado Novo no Amazonas tenha sido a extinção da Força Policial. (segue)