CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, maio 28, 2014

COMANDANTES DA PMAM | 3

Seguindo com a relação dos comandantes da Guarda Policial do Amazonas, origem da Polícia Militar do Estado, relaciono mais três destes. Um deles era civil, isso mesmo, paisano, que comandou ainda que por brevíssimo tempo com o posto de major.

1.    João José de Aguiar, civil (posto de major) | 1879 

Natural do Ceará, nascido em 16 de junho de 1840  

Consoante a Portaria nº 162, de 19 de maio de 1879, foi nomeado comandante da Guarda Policial, comissionado no posto de major. Seguramente era civil, portanto, tornou-se o primeiro paisano a exercer esta função.
Em 1ºde julho, a presidência mediante a Portaria nº 882, e atendendo resolução da Lei nº 484, da mesma data, rebaixa ao posto de capitão o exercício do comando da Guarda. Desse modo, o capitão Aguiar continua no comando.
 
No entanto, em 16 de julho – 67 dias depois da posse – a Guarda Policial tem novo comandante. Os motivos para tão exíguo período na função foram explicados pelo presidente Sátiro de Oliveira Dias, em Falla de outubro do mesmo ano.

2.    Aristides Augusto César Pires, tenente de Voluntários | 1880-81

Natural da Bahia, nascido em 1845

César Pires tornou-se capitão ao ingressar na Guarda Policial em 23 de maio de 1878. Participante da Guerra do Paraguai como Voluntário da Pátria teve dois prêmios: a patente de tenente honorário do Exército, conforme decreto de 24 de agosto de 1870. (Por isso, a razão do epíteto de voluntários.) O segundo, a condecoração com a Ordem da Rosa, no grau de cavaleiro. Em Manaus, pertenceu à loja maçônica Amazonas. Não há informação de quando deixou a corporação, mas há assentamento de que, em 1888, era Tabelião em Mamoré (possivelmente na confluência dos rios Madeira-Mamoré).

Foi empossado em 27 de julho e exonerado em 6 de dezembro do ano seguinte. Até a ocorrência da posse do sucessor, houve dois comandantes interinos: Joaquim de Paula Ferreira Chaves, alferes honorário do Exército, em dois períodos (primeiro, 6 de dezembro a 31 de janeiro de 1882 e, segundo, 4 de fevereiro a 10 de março do mesmo ano); o outro foi Antônio Nunes Sarmento, alferes da Guarda, natural de Fortaleza (CE), nos quatro primeiros dias de fevereiro.

Tabela de vencimentos da Guarda Policial, 1883

3. João Manoel Dias, tenente do Exército | 1882-84

Natural do Rio de Janeiro, nascido em 19 de março de 1826, filho de João Manoel Dias.

Ingressou no Exército como praça, aos 18 anos, no 1º Batalhão de Artilharia, em sua cidade natal. Alcançou o oficialato como alferes, em 1856 e, três anos depois, foi transferido para a Guarnição do Amazonas, onde serviu até maio de 1863. Antes de vir para Manaus, participou da Campanha do Uruguai (1852) e da Expedição ao Rio Grande do Sul, entre agosto de 1851 e abril seguinte.

A meu ver, apesar do longo prazo desde seu desligamento do Exército, quase vinte anos depois, tenente Dias permaneceu residindo em Manaus. Tanto que, sem muita tardança o governo provincial o empossou no comando da Guarda. Assim, foi nomeado capitão comandante da Guarda Policial em 9 de março de 1882, dias antes de assumir o comando.

Em 5 de julho de 1884, escreveu significativo documento sobre a corporação, que foi encartado ao Relatório do presidente Teodoreto Souto, com o qual este transmitiu a presidência ao sucessor.
Capitão Manoel Dias deixou a administração da Guarda, sem notícia de qualquer afastamento, em 17 de julho de 1884, depois que foi reformado a 11 do mesmo mês.

segunda-feira, maio 26, 2014

À SOMBRA DOS IGAPÓS | 03


Avenida Eduardo Ribeiro, em 1928, ao tempo
descrito pelo cronista
Este texto, mais um sacado do livro de Waldir Garcia, descreve outro pedaço da cidade, que o avanço urbanístico soterrou. O igarapé da memória do saudoso cronista existe apenas como esgoto. Lembro que o livro foi editado em 1987, portanto, os citados nele certamente já não podem testemunhar, nem relembrar o passado bucólico de Manaus.
 
POMERÂNIA – BALNEÁRIO PIONEIRO 


A década de 30 transcorria sob a égide do Estado Novo, implantado pelo gaúcho Getúlio Vargas que, rompendo, já àquela época, com a Velha República, trazia com enfáticas promessas de esperança a renovação dos costumes políticos, a austeridade administrativa, combate implacável à corrupção e às ideologias alienígenas, acabando por impingir-nos nova Carta Constitucional – a de 10 de novembro de 1937 – de modelo e inspiração totalitárias.
 
Não obstante o regime discricionário imposto, no Amazonas vivia-se em clima de paz, tendo o Estado como timoneiro a inefável figura de Álvaro Botelho Maia, cuja irradiante bondade, lhaneza de trato e formação acendradamente democrática, permitiu-nos a nós, amazonenses, atravessar o regime então vigente sob a placidez da liberdade, da concórdia, da fraternidade, enfim.

A essa época Manaus era uma cidade bem iluminada e servida por um invejável sistema de transporte urbano – o Bonde –, que, sobre trilhos, oferecia-nos com pontualidade britânica e barato as linhas de Cachoeirinha Circular, Adrianópolis, Pobre-Diabo, Parada Campelo, Fábrica de Cerveja, Parque Amazonense, Flores, Alto-Nazaré, Saudades e Remédios, estas duas últimas preferidas dos jovens, principalmente aos domingos e feriados, para os tradicionais passeios e namoricos.

Bonde na estação da Cachoeirinha,
hoje Manaus Energia
Na Rua Lobo D'Almada, onde hoje pontifica[va] o renomado esculápio Raimundo Moura Tapajós, situava-se o escritório de procuradoria do meu saudoso tio e amigo Francisco Barnabé Gomes, que detinha o serviço de procuradoria de quase todo o funcionalismo público do interior do Estado, bem como da Magistratura e do Ministério Público, havendo ainda em seu escritório afinado serviço de advocacia cível e criminal prestado pelos renomados juristas da época: Waldemar Pedrosa, Leopoldo Carpinteiro Péres e Huascar de Figueiredo.

Nessa década Barnabé Gomes adquiriu um balneário a que denominou de Pomerânia, situado na Av. Constantino Nery, e que tinha um belíssimo pomar, uma casa de madeira coberta de telha tipo "Marselha", e um refrescante igarapé de águas correntes e límpidas, onde se reuniam, aos domingos e feriados, os familiares e amigos, dentre os quais me recordo de Zelmar Bonates da Cunha, Tancredo Moreira Lima, César Ituassú, Lulu Levy, Rubens Sena, Cícero Menezes, Fvio de Castro, Waldemar Pedrosa, Péricles Moraes, Antônio Maia, Carvalinho, diretor dos Correios, José Galvão, Oyama Ituassú e os desportistas Sálvio Corrêa, Almir e Adair Marques da Silva e tantos outros.

Eu era ginasiano e morava na Pomerânia. Às seis da manhã apanhava o bonde de Flôres para, às 6h30, saltar no Canto do Quintela [esquina da avenida Sete com a Joaquim Nabuco] e assistir às aulas no Gymnasio Amazonense Pedro II, a partir das sete horas. Meus primos e companheiros inseparáveis Benjamim e Manoelito participavam comigo dos entretenimentos domingueiros: caça aos tucanos, pesca de acarás e piabas, no igarapé que se dividia em duas partes distintas: uma rasa, de fundo arenoso, limpo e transparente, e outra com perau, de águas escuras, onde moravam acarás, cobras e até jacaretingas, de porte pequeno, que eram por nós eliminados a tiros de rifle.

Aos domingos e feriados Barnabé Gomes estava na Pomerânia com toda a família: tias Mingota, Nenen e Sabá, Dona Maroca, velhinha e afável, os filhos Manoel Antônio, Jurandir, Hindemburgo, Jandira, Jacira, Marília, Glorinha, Elvira, Yolanda, Mário Hindemburgo, Guilherme, Lizandro e Roberto; e o seu afilhado Estácio, que tomava conta do balneário, alimentando as criações e cuidando do "Dox", um belíssimo pastor alemão, que, à noite, guardava o sítio.

Vizinhos da Pomerânia eram os balneários de Armindo de Barros e a Chapada dos Turcos, onde se localiza hoje o Clube Sírio-Libanês [hoje, a única referência do local].

B
arnabé Gomes costumava comunicar-se com seu vizinho Armindo de' Barros dando pranchadas com um “terçado 128” no tronco de uma velha árvore ali existente. Quando Armindo chegava, começava o banho no igarapé, regado a suculentas batidas de maracujá, caju e outras frutas cítricas regionais. Pomerânia tinha ao fundo um imenso areal e ali improvisamos um campo de futebol, onde jogávamos todas as manhãs de domingos e feriados.

Em 1938 Pomerânia foi vendida ao pranteado amigo Jacob Benoliel. Hoje, com suas águas poluídas, como geralmente estão as de todos os balneários vizinhos, Pomerânia traz-nos recordações imorredouras, como de haver sido um dos balneários pioneiros de nossa encantadora Manaus.

quarta-feira, maio 21, 2014

ORFANDADE DA FAMÍLIA | 2


Manoel Mendonça, ao casar, 1942 
Cumpri ontem à tarde, ensolarada pelo verão amazônico, um sagrado dever filial: levar à sepultura meu venerado pai. José Manoel Mendoza morreu aos 97 anos, às vésperas do centenário, na cidade de São Paulo, onde residia transitoriamente. Amava de verdade a capital amazonense e, sem que tenha disposto, seu corpo atravessou o Brasil, como se despedindo do país que acolheu o peruanito ainda na segunda década do século passado, para ser sepultado em Manaus.  
Antes de ir em frente com o registro, desejo esclarecer a diferença entre o sobrenome dele e o meu. Primeiro o Mendonça.  Quando meu pai, imigrante analfabeto e sem documento, com dez anos, desembarcou em Manaus, passou a ser conhecido por Manoel “peruano”. Legalmente, assinava Manoel Mendonça. Com este sobrenome, estranhamente, casou-se em Iquitos (Peru), e deste fato resultou na esposa e nos três primeiros filhos esta marca.

Agora o Mendoza. Na condição de viúvo, contou-me que buscou o consulado peruano em Manaus para regularizar sua documentação. Também estranhamente saiu dessa repartição com um novo nome: José Manoel Mendoza. Este “novo homem” contraiu as segundas (?) núpcias, resultando gravando este sobrenome na esposa e nos cinco filhos. Assim foi substituído meu pai e já órfão materno, que havia falecido.  Confesso, contudo, que ganhei nova mãe com Dona Dora.

Sepultura
Na tarde dessa terça-feira, reunimo-nos no cemitério de São Francisco, outrora conhecido como da Colônia (Oliveira Machado) e agora denominado do Morro, causado pelo avanço urbanístico deste bairro que absorveu ao “campo santo”, para o sepultamento. Meu pai, muito católico, foi velado na capela de Nossa Senhora Imaculada, no mesmo bairro. De sorte que foi um pulo para o cemitério, passando pela antiga residência da família na rua Amazonas, 29.

Realizamos uma “festa”, como recomendou o vigário na homilia com que encomendou o corpo do velho paroquiano. A morte deve uma passagem para uma nova existência, portanto, alegremo-nos. O velório à moda antiga não dispensou almoço e merenda (lanche em amazonês) e um amplo encontro de familiares e amigos do seu Manoel “peruano”. A todos - sem distinção - agradeço penhoradamente.
Para encerrar, uma palavra pesarosa sobre o cemitério. É uma tristeza generalizada, a começar pelo prédio da administração, caindo aos pedaços.  “Operários” em busca de algum serviço, amontoados a entrada, atacam qualquer visitante, com ofertas as mais variadas. Arrisquei pagar por uma limpeza ao túmulo da família, coisa para arrancar alguma vegetação ressequida e uma vassourada em redor. Joguei dinheiro fora, pelo porco trabalho realizado. Contratei outro para fechar o jazigo após o enterro. O serviço não pôde ser realizado porque o coveiro estava cansado e, pior, não havia adquirido o material necessário. Enfim, falar em quadra, fila e número da sepultura, no São Francisco, é um acinte, um exercício de adivinhação, tal a irregular disposição das covas, devido ao declive do terreno e, mais ainda, da indolência dos administradores.

São Francisco, rogai por nós!
Prefeito Artur Neto, velai pelo nosso patrimônio!

Seu Manoel Mendonça (za), olhai pelos seus agradecidos descendentes.