CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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domingo, junho 22, 2025

POEMA PARA O DOMINGO

 O  poema deste domingo pertence à obra poética de Américo Antony (1895-1958). Tudo quanto aprendi sobre este poeta é que ele produziu número respeitável de poemas, publicados em jornais e revistas, e somente um livro: Os sonetos das Flores (em segunda edição pela Valer, 1998). Para ilustrar esta postagem recorri aos especialistas de nossa cidade, e nada sobre Antony. Desse modo, consulto o Dicionário Biográfico dos Acadêmicos Imortais do Amazonas, do saudoso Almir Diniz (2002), dispondo de notas biográficas costumeiras. “O poeta que pertenceu também ao IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) deixou publicado apenas um livro (...). E alguns inéditos – A Alma das árvores; Crisóis; Cromos Amazônicos; e Canções Perdidas. São famosos vários sonetos e outros poemas (A Fonte; Canção Campestre; Nova Messe; Manoa; Conory)”. Seu nome crisma a biblioteca da Fundação Doutor Thomas.

Recorte de O Jornal, 20 março 1946
 

A ÁGUA

-- I –

A Água, — uma serpente de cristal,

Faz-se em canais, em golfos, em caudais,

Em espelhos sobre o mar, e no canal

Paisagens de verão, frios hibernais...

 

Brincos em cada estema ao capinzal,

De ouro e diamante, — Aljôfares reais —

De um príncipe invisível, do ideal,

vozes da cor, do encanto dos cristais...

 

Mas, quando a água ferida em seu percurso,

Represada se infiltra, e um só recurso

Vê nas prisões da rocha, em fonte escura,

 

Chora as lágrimas claras do passado,

As emoções do seu cristal fechado

Na pensativa Selva que murmura.

-- II –

A Água, — a plasmadora das visões

Cristalinas da Selva, e do Universo!

Em reentrâncias de golfo, e nos grotões,

Animando o esplendor de um lindo verso!

 

Cambiar de perspectivas tão diverso!

Ânimo e sol da sombra aos corações,

Exuberância de um vergel disperso,

Voz do penhasco em córregos, canções...

 

Lagoa alegre e pântano sombrio...

Atmosfera e oceano, lago e rio...

Brejo e igapó... ânfora em solidão...

 

Chuva! transmigração da Água à alva nuvem,

E dela à terra, arco-íris de onde pluvem

Olhos de Deus nos prantos da Ilusão!


domingo, dezembro 15, 2024

POESIA DOMINICAL (5)

     Prossigo relembrando o antigo hábito cumprido pelos jornais de Manaus no século passado: a publicação de poemas de artistas consagrados ou não. Nesta postagem, Américo Antony evoca o conhecido governador Eduardo Ribeiro, saudando o amigo Avelino Pereira, médico oftalmologista. A segunda foi escrita por Ary de Andrade, poeta sem referências. 

Publicados no jornal A Gazeta👆
em O Jornal, 1º julho 1962👇

 

domingo, dezembro 13, 2020

DO POETA PARA O MÍSTICO

O poema é da lavra de Américo Antony, poeta que integrou a cena literária nos anos 1940/50, ainda assim, segue reconhecido na literatura amazonense. André Araújo igualmente teve excelente participação no período e na literatura, seja como magistrado, seja como fervoroso líder religioso católico. 

Extraído do matutino A Crítica, 14 março 1957

Sobre p autor do poema: dias passados, envolvido em pesquisas no acervo da Polícia Militar do Estado, reencontrei o registro do bacharel (turma 1932) Américo Antony assumindo a secretaria da Promotoria Pública Militar da corporação, com data de 2 de agosto de 1955.

Livro de apresentação de oficiais, acervo do Arquivo Histórico da PMAM

 

segunda-feira, outubro 28, 2019

AMÉRICO ANTONY (1895-1970)

Matéria do Livrornal, julho 1978

Américo Antony, o autor de mil poemas, morto em 1970, somente conseguiu em vida publicar um livro: Os sonetos das flores (1959). Cinco anos depois, o Conselho Estadual de Cultura autorizou um levantamento dos poemas produzidos esparsamente por Antony. Encarregou-se desse mister o saudoso poeta Jorge Tufic que, auxiliado pelo promotor público Geraldo dos Anjos, divulgou parte deste trabalho no Livrornal, de 1978.

Convém esclarecer que este periódico era produzido por Tufic, portanto foi o amigo quem deu divulgação apenas a uma cronologia. A catalogação dos sonetos ficou pelo caminho, pois não houve colaboração de membro da família, possuidor de vasto material. Desse modo, não se concretizou o “proposito do Conselho em prestar sua justa homenagem a um dos maiores poetas do Amazonas.” Nunca mais se falou de Américo Antony.


CRONOLOGIA DE AMÉRICO ANTONY

1895 — Nasce em Manaus, a 23 de setembro. São seus pais, o engenheiro civil João Carlos Antony e Maria Lima de Amorim Antony. Descende de duas figuras notáveis na antiga Província do Amazonas: Henrique Antony, filho de Ajacio, na Córsega, e do comendador Alexandre Paula Brito Amorim. Sua origem materna mais remota procede “Manao-Camandri”, principal da maloca de Mariuá, hoje Barcelos. Segundo o general Dr. Aurélio de Amorim, uma filha de “Camandri” teve, com um português da comitiva de Furtado de Mendonça, uma menina, que veio a ser avó de D. Lina Ferreira, antepassada de Antônio Brandão de Amorim, o famoso autor das Lendas em Nheengatu e em Português e, também, de Américo Antony.
1900 — Segue com os seus pais para a América Central, viajando depois a família para a Europa, visitando várias cidades: Porto, Lisboa, Genova, Milão e Zurique. Após uma ligeira estadia em Paris, Américo seguiu com sua mãe e irmãos para a Inglaterra. Matricula-se no Saint Georger's College, em Waybridge, Survey, com os Joseph Phite Fathers. Concluindo os estudos de nível secundário, regressou a Manaus, onde pouco se demora encaminhado por seu pai aos cuidados do médico e educador Dr. Eugênio Gomes de Matos, no Rio de Janeiro. Matricula-se na Faculdade de Medicina, desistindo do curso. Leciona na Escola Berlitz e dedica-se ao esporte de natação. Regressando, novamente, a Manaus, ocupa-se no ensino particular da língua inglesa. Começa a publicar os seus primeiros poemas.
1917 — Adriano Jorge publica a crônica Um poeta de 20 anos, no jornal “A Imprensa”, transcrevendo os melhores sonetos de Américo Antony desse tempo: A FonteCanção Campestre – Dolce Ritorno e Depois da Primavera. Acrescenta: “Vê-se bem que não exagero ao afirmar incontestável e inconfundível talento, a delicadeza da emoção e as superiores qualidades de esteta de raça que fazem de Américo Antony um verdadeiro e belíssimo poeta”.
1925 — A revista “Redempção” publica, em seu número de dezembro, os sonetos Nova Messe – O IgapóOs Tucanos e Aos índios canoeiros do Amazonas.
1926 — A 17 de junho é nomeado pelo professor Plácido Serrano, diretor do Ginásio Amazonense, para reger, como substituto, a cadeira de Inglês. Casa-se, a 11 de outubro, com a senhora Altamira Espínola.
1927 — Nasce o seu primogênito, Marco Aurélio, a 5 de dezembro.
1929 — Publica na revista “Amazônida” nº 28 o soneto Vitória Régia, dedicado a Adriano Jorge, e traduz o poema O Balão da Menina, da inglesa Mary Woods, extraído do livro Sunshine & Solitude. A 9 de julho, nasce sua filha Isis.
1932 — Obtém o grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito do Amazonas.
Capa do Livrornal, julho1978
1934 — É nomeado, interinamente, para exercer o cargo de Promotor do 2° Distrito Criminal da Comarca de Manaus, a 12 de março, sendo depois promovido na comarca de Lábrea, pelo Ato n° 3.983, de 7 de agosto.
1935 — Não chega a tomar posse na Promotoria Pública da comarca de Barcelos, por haver sido tornado sem efeito o Ato n° 4.532, de 1º de fevereiro. A 5 de outubro, e homologado o seu desquite amigável, pelo Juiz de Direito, Dr. Manoel Anísio Jobim.
1937 — Serve na Secretaria Geral do Estado.
1938 — Removido da comarca de Lábrea para a Promotoria de São Gabriel da Cachoeira, por Ato nº 254, de 25 de janeiro.
1939 — Publica a Canção Uanána, nos números 3 e 4 da revista “Baricea”.
1941 — Posto em disponibilidade, a 22 de setembro, por haver sido extinta a comarca de S. Gabriel.
1942 — Os norte-americanos Rose e Bob Brown, antigos diretores da revista "Brazilian-American, do Rio de Janeiro, publicam o livro Amazing Amazon. A respeito de Américo Antony, escrevem: “Raoul Broteher Amerigo was a good a storyteller and imaginative artist. For months we talked over a five-paneled screen he was going to paint for us with the Amazon flowing through and all regional motifs in place, tajás, garças, jacarés legends, indians, but it never came to anything. He lives among indians now, far up on the Rio Branco where he is a federal judge.” Américo Antony publica naquela revista o artigo: “Sucuri hunt in South American”.
1943 — Conferência no Instituto de Etnografia e Sociologia do Amazonas, fundado por Nunes Pereira, sobre os costumes dos índios da região do alto rio Negro.
1944 – Ramayana de Chevalier publica, em o jornal “A Tarde”, edição de 23 de dezembro, o prefácio para o poema Conory, livro inédito de Américo Antony.
1945 – Eleito para a cadeira nº 8, que tem como patrono o amazonólogo Torquato Tapajós, da Academia Amazonense de Letras.
1946 — Péricles de Moraes publica na Revista da Academia Amazonense de Letras uma apreciação literária sobre Américo Antony, intitulada “Um animador de símbolos mitológicos.”
1953 — A 17 de fevereiro, estando em visita à casa dos pais do seu amigo Jorge Tufic, na avenida Joaquim Nabuco, 329, conhece Maria Isis Almeida de Souza, em cujo perfil descobre traços da antiga civilização incaica. Tornam-se íntimos e passam a conviver sob o mesmo teto, na rua Japurá.
1954 — Nasce em Manaus, a 6 de junho, seu filho Alexandre Magno.
1955 — Aproveitado na comarca de Manacapuru. A 2 de agosto, é comissionado como Assistente da Promotoria Militar.
1957 — Nasce em Manaus, a 9 de marco, seu filho Siddarta Gautama.
1958 — Comissionado, a 29 de agosto, na 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Manaus. A 6 de setembro, é aposentado como Promotor de Justiça de 1ª entrância. Inscreve-se na seção amazonense da Ordem dos Advogados do Brasil.
1959 — Nasce em Manaus, a 25 de julho, sua filha Hileia Amazônica.  
A 14 de julho, toma posse da cadeira n° 28, da Academia Amazonense de Letras, cujo patrono é Aníbal Teófilo, sendo recebido pelo acadêmico Nonato Pinheiro Filho. A revista do sodalício, em seu n° 9, publica o poema Peã, dedicado ao acadêmico Moacyr Rosas. E impresso em Manaus o seu primeiro livro: Os Sonetos das Flores, na editora Sérgio Cardoso & Cia. Ltda.
No mesmo número da revista, vem a lume o mais festejado poema de Américo Antony – A ronda dos cisnes, dedicado a Heliodoro Balbi. Por não acolher alguns conceitos do escritor Péricles de Moraes, o poeta faz publicar na página de anúncios comerciais do Jornal do Commercio uma pequena declaração sobre a autenticidade de sua poesia. A 30 de janeiro, é tornado sem efeito o ato de 17, do mesmo mês, mandando servir na Promotoria da Comarca de Barcelos, por motivo de saúde.
1960 — Com grave problema de saúde é recolhido ao hospital da Sociedade Beneficente Portuguesa, em Manaus, em outubro.
1962 — Sócio efetivo do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. 1968 — A Revista da Academia Amazonense de Letras publica os versos: O Caminho que falaO Jaguar e a LuaA alegria de conhecer-se a própria origemO oceano e a Yara.
1970 — Falece, em Manaus, no Hospital da Sociedade Beneficente Portuguesa, a 18 de agosto. A 23, o acadêmico Nonato Pinheiro, na edição domingueira de O Jornal publica, a seu respeito, o artigo intitulado: Uma figura desconcertante de Aedo.
1974 — Instalada a “Biblioteca Américo Antony” na Fundação Dr. Thomas.
1975 — Resolução do Conselho Estadual de Cultura, recomendando a publicação pelo Estado do Amazonas da produção poética esparsa de Américo Antony.
Autores do trabalho


quinta-feira, setembro 12, 2019

ÁLBUM DE AMAZÔNIDAS



Em exercício de relembranças, vemos pela ordem, a partir de cima e no sentido horário: 1) Américo Antony, nascido em Manaus, poeta; 2) Bruno de Menezes, natural de Belém-PA, folclorista; 3) Silvério Nery, nascido em Tefé-AM, político; e 4) Jorge Tufic, nascido em Sena Madureira-AC, poeta.

sexta-feira, novembro 18, 2016

CLUBE DA MADRUGADA: 62 ANOS (3)

A derradeira parte do texto do saudoso poeta Alencar e Silva sobre o Clube da Madrugada, que celebra seu aniversário no próximo dia 22. O original encontra-se no livro póstumo deste poeta - Quadros da Moderna Poesia Amazonense (2011).


PRELUCIDAÇÃO

Havia, por certo, razões para esse comportamento, ditadas, umas, subconscientemente, pela autocensura que teme contrariar a ordem estabelecida, ou que a aceita, e, outras, pelo natural processo de envelhecimento e asfixia de um quadro marasmático que não tinha por onde renovar-se, de vez que todos os caminhos pareciam estar bloqueados, como no poema de Aníbal Machado, e não havia salvo-conduto para a canção.
Dir-se-ia, então, que não havia bons poetas em Manaus? Havia-os, sem dúvida, e, alguns, mesmo, muito bons, como Hemetério Cabrinha, Américo Antony e Álvaro Maia, para mencionarmos apenas aqueles para os quais a arte poética não era um mero exercício de diletantes, mas, sim, o sopro vital que os acompanharia por toda a vida. Conheci-os bem e de perto e fui amigo dos três. 
Em verdade, só o dom da poesia fazia-se-lhes traço comum, a par do talento que os distinguia e os nobilitava. No mais, pessoas em tudo e por tudo diferentes entre si. Hemetério Cabrinha (1892-1959), o poeta de Vereda Iluminada e Frontões, publicados respectivamente em 1932 e 1959, era carpinteiro de profissão. E notável orador. Reunimo-nos várias vezes no café "Leão de Ouro" e no bar "Avenida" para falar de poetas e poesia. Eu gostava de ouvi-lo. E foi em sua própria voz, um pouco rouca mas bem empostada, que ouvi poemas inteiros do seu primeiro livro, bem como trechos dos poemas, editados em plaquetes, Satã, Caim e O Cristo do Corcovado. 
Certo dia, em 1951 ou 1953, indo eu ao Palácio Rio Negro, encontrei o poeta, já chegando à casa dos sessenta, a envernizar as escadarias internas da sede governamental, e ele, sorridente e orgulhoso do seu trabalho, a exibir-me as fortes mãos de operário manchadas de verniz: "Poeta, as águias voam alto, porém, para pousar nos altos píncaros, é preciso que tenham garras fortes!" Achei linda a tirada do mestre Hemetério Cabrinha. 
E fui à presença de outro poeta, o governador Álvaro Mala, a fim de solicitar, e obter, as quatro passagens que nos levariam (a mim e mais três companheiros) ao sul do país. Da produção poética de Álvaro Maia (1893-1969), também grande orador e excelente escritor, conhecia-se, então, apenas os poemas, poucos e bons, que ele se permitira estampar nos periódicos locais — suficientes, todavia, para incluí-lo entre os melhores poetas amazonenses de todos os tempos. 
Sua obra poética só seria conhecida em sua totalidade ao ser editada, em volume único, em 1958, sob o título de Buzina dos Paranás, onde o apuro formal corre em parelha com o seu telurismo e seu sentimento amoroso pela gleba estremecida. 
Quanto a Américo Antony (1895-1970), suponho que se há de lamentar sempre, talvez, não ter o poeta, que era Promotor de Justiça, reunido em livro senão parte mínima de sua obra (Os Sonetos das Flores, de 1959), num volume que, em verdade, não representa o que de melhor o poeta escreveu.
Pode-se, pois, prever, com larga margem de probabilidade, que o melhor de Américo Antony corre o risco de perder-se, na hipótese de sua família não ter diligenciado na recolta do material inédito ou publicado esparsamente nos jornais e revistas locais. (Desde já, todavia, essa hipótese deve ser afastada, eis que, ainda há pouco, nos vimos investido pelos filhos do poeta residentes no Rio de Janeiro — Sra. Isis Antony de Souza Brasil e Marco Aurélio Antony na condição de depositário do acervo de inéditos de Américo Antony, constituído de pouco menos de setecentos poemas, em sua maioria sonetos, e que muito em breve estaremos transmitindo à guarda e providências da benemérita Academia Amazonense de Letras). 
Vê-se, assim, que dos três poetas apenas Hemetério Cabrinha editou regularmente os seus livros, à medida que os escrevia. Foi, também, dos três, o único a não fazer parte da Academia, ainda que méritos lhe sobejassem. 
Por motivos de outra ordem e que se impõem tanto pela sua maior proximidade do ideário renovador do movimento madrugada quanto pelas características de fundo e forma de sua poesia inscreve-se neste pórtico o nome de Djalma Passos (1923-1990), apesar de sua passagem quase que meteórica pela poesia. Isto por que, a partir de 1955, ano em que saiu a sua terceira coletânea de poemas, não mais o poeta assinalou sua presença no território poético, frustrando, deste modo, as expectativas de quantos viram no autor de As Vozes Amargas (de 1952) uma voz, repassada de humanidade, a erguer-se contra as injustiças sociais e a acenar-nos com uma nova luz, e que ainda parece ressoar como o canto de um anjo rebelde pejado de revolta. 
Não se focalizasse, aqui, apenas um segmento da história da poesia amazonense, obrigatória, por certo, seria a menção a vários outros poetas que lhe fecundaram o território sagrado, como Jonas da Silva e Quintino Cunha, os quais, aliás, dividem entre o nosso e os seus estados natais a honra de os contar como seus. 
É claro que um critério mais elástico nos permitiria a inscrição neste preâmbulo de alguns outros nomes que, não obstante a sua contemporaneidade, conservaram-se à margem do movimento renovador, a exemplo de Áureo Mello, todavia, e sem que vá nisso qualquer censura ou juízo de valor, pergunto-me se seria esse o procedimento correto. 
Como quer que seja, parece que as lacunas e omissões em cometimentos da espécie são fatalmente inevitáveis, quando se tem o objetivo de constatar fatos e relatar as impressões mais duradouras por eles suscitadas. (fim)

quinta-feira, julho 04, 2013

AMÉRICO ANTONY: DUAS HISTÓRIAS


Américo Antony, 1932
Duas facetas do poeta Américo Antony, reproduzidas do livro do saudoso Mário Ypiranga Monteiro (Histórias facetas de Manaus: anedotas envolvendo figuras amazonenses).

        1.   POIS SE ELE É ATÉ POETA...

Contava o governador Dr. Álvaro Botelho Maia que um dos prefeitos do interior do Estado, em audiência requerida com empenho, queixava-se de que o Dr. promotor na sede, Dr. Américo Antony, assumia atitudes um pouco absurdas para os habitantes misoneístas não avezados a certas familiaridades.
Álvaro Maia,
1950
- Por exemplo? - pergunta o governador.
- É que ele vai pessoalmente examinar as denúncias de defloramento, obrigando a moça a mostrar as vergonhas...
- E não há médico legista na sua sede? Como poderá ele atestar defloramento se não observar o tamatiá da vítima?
- Mas metendo o dedo no buraco, governador?
- É que sem dúvida o promotor é míope...
- Míope ele é, todo mundo sabe... mas sem-vergonha curioso? Isso não...
- Sr. prefeito, posso garantir-lhe que o Dr. Américo Antony é gente séria e honesta, o que ele faz é aplicar métodos mais práticos...

O prefeito, admirado, dando marcha à ré:
- Sério? - Honesto? - Mas se ele é até poeta, governador...

Álvaro Maia engoliu seco. Riu de banda, aquele seu jeitinho de aceitar as coisas erradas e concluiu:
- Isso não é maldade, pois eu também sou poeta...

O prefeito, admirado, erguendo-se:
- Não me diga! - O senhor... também?...

 2.    O CAGALHOTO

O poeta Américo Antony andava sempre com um rolo de poemas sob o braço, a ver se sensibilizava alguém para editar sua obra. Tornava-se até importuno quando chegava ao café com aquele calhamaço já cinzento de tanto manuseio. E pior é que declamava em voz alta, não raro perturbando o sossego, como fez uma noite de recepção na Academia de Letras.
Resolvido que publicaria um volume de seus versos antigos, deu ao escritor Péricles Morais a honra de prefaciar a obra. Sendo
também poeta, pois publicara sonetos, Péricles Morais não teve dúvida em escrever brilhante prefácio, onde esclarecia a tendência simbolista do poeta.

Por mais brilhante que fosse Américo Antony, nem era perleúdo nem conhecedor de “escolas" literárias. Sua biblioteca, que eu conhecia, resumia-se em meia dúzia de obras de poetas estrangeiros e nacionais, Byron, Shakespeare, Wordswort, Bilac, Guerra Junqueíro (conhecia de cor “Ó melro”), o Bocage erótico, que declamava com ênfase. Nada de Manuel Bandeira, de Mário de Andrade, de gente modernista, a quem desdenhava.

Lido o prefácio, meteram-lhe na cabeça não aceitar a opinião do mestre Péricles, e Américo Antony não teve dúvida em publicar na página dos Anúncios de O Jornal, um “A quem interessar possa", desagravando-se da pecha de simbolista.

Naquela altura havia ele sido eleito membro da Academia Amazonense de Letras e a sua tempestuosa reação incomodou a quantos, acadêmicos ou não, lhe conheciam a obra. Péricles Morais não havia lido o insólito desmentido, e foi o presidente Dr. Adriano Jorge  (foto ao lado)quem da "Farmácia Barreira" o colocou a par da besteira, textualmente:
- Péricles, você já leu o que aquele idiota escreveu sobre o prefácio?
- Homem, você perdendo tempo com um mentecapto, e ele a despejar um cagalhoto em cima da maravilhosa peça...
- Vou convocar a Academia e despejá-lo de lá com toda a sua maluqueira rimada...

O dito foi feito e Américo Antony perdeu duas oportunidades: a de ter o livro editado por causa do panegírico de Péricles Morais, e a de membro da Academia. Mais tarde, passado aquele zunzunzum, eu propus a volta do poeta ao grêmio.
Está registrado em ata.

quarta-feira, junho 26, 2013

HENRIQUE ANTONY (1807-72)


Reproduzido da revista VICTÓRIA-RÉGIA, de abril de 1932.
 

Recorte do artigo publicado na revista

Lá, na distante e montanhosa Córsega, toda ela a tresandar vendettas, teve o seu berço o velho Henrique Antony, pai. Aspirando a liberdade da garbosa e indomável terra que o viu nascer, militou bravamente, ombro a ombro com Paoli, de quem foi lugar-tenente de confiança. Depois do fracasso deste famoso caudilho foi, por força de circunstâncias, obrigado a exilar-se; nasceu-lhe por essa ocasião um filho: era Enrique Antony.
Henrique Antony, desenho do autor,
publicado em Roteiro Histórico de
Manaus, de Mário Ypiranga
 

Terá este nascido na Córsega? Terá nascido em Livorno, no Grão-ducado da Toscana? Em que ano veio ao mundo? Vejamos se é possível elucidar alguma coisa sobre estas perguntas: Antes de tudo precisamos declarar que estes quesitos são de respostas precisas dificílimas. Henrique Antony comprazia-se ou tinha interesse em fazer um mistério de sua vida. Diversas e múltiplas são as ocorrências que nos levam a crer nisto.

Quando faleceu em 27 de julho de 1872, seus documentos notificam ter ele 65 anos, havendo, portanto, nascido em 1807, no mesmo ano em que na nevoenta Londres morria o velho Paschoal Paoli.

Em 20 de dezembro de 1853, requereu registro, no livro da Secretaria da Câmara da Província do Amazonas, do título de naturalização de cidadão brasileiro, declarando já estar no Brasil “há cerca de 30 anos e ser natural do Grão-ducado da Toscana” (cidade de Livorno?), assim sendo e sabendo-se que quando veio para o Brasil, embarcado em Lisboa, já visava o comércio na Comarca do Alto-Amazonas, deduz-se evidentemente que aqui chegou em 1823, mais ou menos.

Ora, há em mãos da senhorita DinarI Antony, sua descendente, um retrato que talvez seja o único conhecido. Nele, Henrique se apresenta já homem feito, na força da idade, aparentando ter de 30 a 40 anos; está vestido com uma casaca escura, calça clara, colarinho alto, gravata borboleta de grandes pontas, apresentando o conjunto uma semelhança com os invariáveis retratos de Gonçalves Ledo por época de nossa Independência Política, o que parece demonstrar que o retrato é da plena época do romantismo, beirando 1830.
É impossível que este retrato haja sido tirado no Amazonas: é ele um trabalho de mestre, feito com admirável perfeição em chapa de metal, encravado num estojo de madeira revestido de couro, com desenhos dourados, não trazendo a marca da Fotografia.

Não é crível que tivesse vindo para o Amazonas, ou para o Brasil, com 16 anos; o retrato é uma prova evidente e indiscutível de que ele ao morrer não tinha 65 anos, pois se de 1820 a 1830 já aparentava ter uns 40 anos... E é preciso assinalar que o retrato DEVE ter sido tirado antes de 1823, isto é, antes de vir para o Brasil.

Ao engenheiro João Carlos, seu filho predileto, contara que forçado por contingências imprevistas, fugira da Córsega, sua pátria, onde tentara levantar a população contra o odioso domínio francês. Foram seus companheiros nesta fuga Pachinotti Zany, seu primo, um tal Neri, um tal Cavalcanti e Paoli.

Fugira para Genova.
Ai, outro perigo. Sua cabeça e as de seus companheiros foram postas a prêmio; talvez seja esta a explicação mais racional dos segredos que procurava guardar quanto sua origem. Perseguições, vexames, cabeça a preço, fizera que embarcasse clandestino em uma nau auxiliado por um marinheiro a quem subornara, e fosse respirar liberdade em Lisboa.

A fama do Brasil ciciou-lhe aos ouvidos e não sabendo resistir-lhe, embarcou rumo à misteriosa Amazônia. Tinha meios de fortuna. Pertencia a uma família nobre de Córsega; no retrato citado ele traz dois distintivos iguais: um na lapela, outro na orelha. Tais distintivos são os emblemas da nobreza corsa, usava-se na lapela do lado direito e em uma só orelha. Não vinha imigrante, com o gibão às costas, e trazia diversos patrícios como companheiros de viagem. É provável que viesse para voltar. Gostou. Ficou.

Com efeito, que atrativos teria naquela época o Amazonas, comarca, e em que poderia interessar ao forasteiro que não fosse um apaixonado de fortes emoções, um cientista ou um caçador de fortuna? Aqui chegou Antoni e assim o tratam Wiliam Herndon Edwards e Alfred Wallace; aqui ficou Antony.

Como se vê, a vida de Henrique Antony é repleta de interrogações. É possível que todas essas incógnitas se desanuviassem com pacientes pesquisas nos arquivos de Belém (PA), Genova (ITA), Livorno e Córsega. Pouco se pode afirmar, é uma figura de psicologia impenetrável.

Em 1839 contraiu matrimônio com D. Leocádia Maria Brandão, filha de Antônio José Brandão. Deste consórcio teve regular prole: João Carlos, engenheiro notável e pai de Raul, Américo (Antony, poeta) e Dinary Antony; Guilherme e Luiz Carlos, comerciantes; Lina e Paulina, falecidas, jovens, em uma epidemia de varíola.
Teve também dois filhos: Maria e Luiz. Este foi herói da Guerra do Paraguai, onde foi condecorado duas vezes: a primeira, por decreto de 17 de julho de 1866, com o hábito de Cavaleiro da Ordem da Rosa (pelo combate da ilha Villagran Cabrita, antiga Itapiru, em 11 de abril de 1866); a segunda, por decreto de 27 de agosto, com o hábito de Cristo (pela batalha de 24 de maio) e que devia finalmente falecer heroicamente, resultado arrematador de seus brilhantes feitos marciais.

Os negócios de Henrique prosperaram e ele foi em breve grande proprietário e o maior comerciante do Amazonas. Possuía armazéns, loja, casas para alugar, e uma padaria, das primeiras senão a primeira do gênero em Manaus, e que é hoje a Padaria Universal; sua residência, uma das melhores da época, era a antiga sede da Inspetoria Agrícola e que, herdada por João Carlos, foi por este perdida em uma questão hipotecária ao célebre usurário Custódio Pires Garcia (proprietário do original Palacete Garcia, hoje Provincial, assassinado misteriosamente), fadado a triste fim.
Em um sobrado de sua propriedade, esteve instalado o palácio do governo; era no local em que está hoje um depósito comercial, no antigo Hotel de França, fronteiro à Escola Normal.

Todos os exploradores que nos visitaram, foram seus hóspedes; disto fazia questão. Herndon, explorador norte-americano, que por aqui andou em 1846 chama-o de “my good friend, Enrique Antoni, the italian” etc.

Sobre o seu progresso comercial, temos na Estatística Econômica, algumas referências: Henrique Antony ocupa o 8º lugar (entre 24 negociantes), como exportador, no ano de 1851. Exportara 825 arrobas de pirarucu, pagando de imposto a avultada some de 16$500. O primeiro exportador fora Antônio José Joaquim Pucú, que enviara para fora da Comarca 2.112 arrobas daquele produto, pagando a taxa de 42$140. Já em 1853, entre 83 comerciantes, Henrique ocupa o primeiro lugar como pagador de imposto de exportação (94$850), enquanto o Pucú decrescera, para pagar somente 24$750, o que não admira, pois Gabriel Gonçalves pagou $125 e Victorio da Costa $200!  Bons tempos, não resta dúvida.
Nesta mesma “Estatística” encontramos como Nota do quadro nº 13, referente a 1851: “A principal casa comercial era a loja e taberna de Henrique Antony, à rua Estrela (atual rua Henrique Antony), cujos fundos foram avaliados, no lançamento, em 1:900$000. O lançamento foi feito de acordo com a lei provincial nº 163, de 22 de dezembro de 1849.

As casas comerciais estavam assim distribuídas: duas lojas e tabernas na rua das Flores (atual rua Guilherme Moreira), que também continha a única taberna que figura no quadro; uma, na travessa da Ponte dos Remédios (existiu nas proximidades do Hotel Amazonas, hoje Condomínio Ajuricaba), duas, na rua Formosa (  ); quatro, na rua da Estrela; duas na praça da Imperatriz (desaparecida, foi construída nas proximidades da atual agência do Banco do Brasil e a Catedral de Manaus); três, na rua Brasileira (atual avenida Sete de Setembro), uma, na praça do Pelourinho (hoje praça Pedro II); quatro, na rua Manáos (hoje avenida Eduardo Ribeiro, no trecho até a avenida Sete de Setembro), três, na Travessa Oriente (rua da Instalação, em nossos dias), três na Praça da Imperatriz ( ), duas, na rua do Sol (rua Visconde de Mauá, agora); uma, na Travessa da Olaria (atual, rua Joaquim Sarmento), uma, na Travessa das Gaivotas (desaparecida com a praça do Comercio, hoje Terminal de ônibus) e uma, na rua do Espírito Santo”. Havia, então, 38 estabelecimentos de comércio.
A loja e taberna de Henrique Antony que figura na lotação de 1851, com fundos de 1:900$000, figura na de 1852 com o nome de armazém e com os fundos de 300$000.

Sobre a probidade comercial de Henrique Antony, nos fala Bento Aranha, seu contemporâneo: “O palácio do governo foi no sobrado de propriedade do honrado comerciante Henrique Antony”. Isto é de salientar porque Bento Aranha não se barateia em elogios e é o único a quem trata com este adjetivo; define bem o nosso homem. (Vide Um olhar pelo passado, de Bento Figueiredo Tenreiro Aranha).

Afeiçoando-se a esta terra, Henrique, à própria família e aos amigos, dizia-se brasileiro e para oficializar tal desejo, requereu naturalização, havendo jurado fidelidade e obediência às leis brasileiras, em 3 de janeiro em 1854. Ele muito amou o Brasil e, sobretudo, ao Amazonas, aos quais ofereceu em holocausto um dos seus diletos filhos. Bastante contribuiu para o desenvolvimento econômico deste imenso vale querido. Bem merece, portanto, a gratidão dos amazonenses que, em singelo, mas expressivo preito de homenagem,  já o tornaram patrono de uma rua de nossa bela Manaus (duas ruas já tiveram seu nome, hoje são a rua Itamaracá e a rua Bernardo Ramos).

Velho, alquebrado por inúmeros desgostos dos quais se queixava a seu compadre Herndon, já em 1846, quis estoicamente morrer na terra a quem fora tão afeiçoado e, de fato, aqui faleceu em 27 de julho de 1872, repousando seus restos em uma tumba da necrópole de S. José, e que talvez iconoclastamente já haja sido revolvida – assim o exige o progresso – e lançada em um recanto ignoto de despojos.
Ele bem poderia dizer parodiando o poeta:

E desta glória só ficarei contente
Que a esta terra amei e a esta gente...

L (Lázaro). BAUMANN

Nota:
A história do velho Henrique Antony continua sendo mal empostada, principalmente pela confusão que se faz entre seu nome e o do filho mais velho – Enrique Antony, que se supõe haver nascido na Europa ou ao menos antes do casamento com Leocádia Brandão, em Manaus. (Mário Ypiranga Monteiro, in Roteiro Histórico de Manaus, v. I. Manaus: Edua, 1998)

sexta-feira, dezembro 24, 2010

NATAL 2010

Américo Antony
Para seguir lembrando o Natal de ontem, reproduzo o poema de Américo Antony (1895-1970), filho do Dr. J. Carlos Antony, que segue homenageado em rua do bairro da Cachoeirinha. O poeta pertenceu a Academia Amazonense de Letras.

O poema foi escrito para o Natal de 1956.

Natal

A Dor fez uma via inundada de sangue...
A Renúncia construiu um caminho de Luz...
Dor, que sangrou de um Deus crucificado e exangue,
Renúncia, que irradiou dos braços de uma cruz.
Os crimes mais revéis, guardou-os Ele, o Deus Homem
Como urna de cristal recebendo um monturo,
Para tê-los, depois, das penas que os consomem,
Transmudados no céu do Seu ideal mais puro!

Quem recebe tormento e só dá redenção,
Quem ferimentos sofre, e abre-os como sorrisos,
É Esse que a luz da estrela acende ao coração,
É Esse que a infernos faz reflorescer paraísos!

Caminhantes guiou pelas sendas desertas,
E ergueu, entre espinhais, os passos da Paixão,
E fez, da escravidão, almas soltas, libertas
Voar à excelsa paz da glorificação!
O Jornal, 25 dez.1956

Conduzia-as ao céu quando em terra choravam!
Fazia-as reviver a Deus, quando morriam
De dor, sob a ilusão dos gozos que as manchavam
À ignomínia fatal, quando à expiação desciam.

Esse Condão de Luz que os tempos ilumina,
Atrás do qual a humanidade ainda revive,
É a estrela, que, guiando os três Reis Magos, divina
Ainda no coração de cada Angústia vive!

Ainda abre essa esperança aos seres sofredores
Como, de um fundo abismo, - a boca – é um céu aberto!
Como é, ao peregrino, a estrela num deserto,
E a campa secular, - se engrinalda de flores

E a Luz da Redenção fulgiu sobre um presepe
Com a humildade do Amor criando o Mais Divino
Em desertos, em mar, em selva, em campo, e estepe,
E em tristes ribeirões ao pulso cristalino!

Ele fulgiu do Eterno, e hoje fulge! – é o Natal
Que a lágrima refaz da Eternidade em Luz!...
Vinde ajoelhar comigo ante a Luz Imortal
Que flue com a Redenção, dos olhos de Jesus!
Montagem sobre imagens natalinas do Largo São Sebastião

quarta-feira, agosto 18, 2010

Américo Antony (1895-1970)

Jornal do Commercio, 19 agosto 1970

Nesse dia, há 40 anos, desaparecia de nosso meio o Poeta das Flores. Américo Antony morreu em Manaus em aposentos do hospital Beneficente Portuguesa. Todos sabem, ele escreveu demais, Sonetos para todos os momentos que, lamentavelmente, repousam nas páginas arquivadas de nossos jornais, alguns desaparecidos.
Por isso, poucos conhecem a obra do representante do Simbolismo no Amazonas, atestado passado peloo saudoso padre-poeta L. Ruas, em crônica que se reproduz, despedindo-se do amigo-irmão.
Antony alcançou a Academia Amazonense de Letras em 1959, saudado pelo padre Nonato Pinheiro, para ocupar a Cadeira 28.
Ao falecer, havia publicado apenas um livro: Os Sonetos das flores, de 1968, que a Editora Valer reeditou em 1998.





Registro o evento, colando notícias da ocasião, quando respeitados admiradores escreveram uma página de saudade e louvor publicada no Jornal do Commercio, local, em 23 de agosto de 1970.



Américo Antony visto por Aureo Mello
Jornal do Commercio. Manaus, 23 agosto 1970


CEM ANOS DEPOIS*
L. Ruas

No dia 24 de julho de 1870, nascia na mineiríssima cidade de Ouro Preto Afonso Henriques da Costa Guimarães que ficou, posteriormente, conhecido pelo seu nome literário Alphonsus de Guimaraens. Nome que se identificou ao lado de Cruz e Souza, negro, catarinense, filho de pai escravo e mãe alforriada, com o movimento literário que passou para a história da nossa literatura com o nome de Simbolismo. 
Como acorreu com quase todos os simbolistas, Alphonsus de Guimaraens ficou, também por muito tempo quase completamente desconhecido e, ainda hoje é possível que muito bom (literato) não conheça a obra do “solitário de Mariana”. De fato, o Simbolismo foi o que se pode chamar uma “escola maldita”. Desde o seu aparecimento, e que cronologicamente ocorreu em 1893 com a publicação de Broqueis, foi sempre recebida pela “crítica” (ah! os críticos...) com desagrado, ironia e violentos ataques. Basta lembrar os de José Veríssimo que chamava ao Simbolismo de “fato de imitação internacional e, em muitos casos, desinteligente”. Parnasianismo, Naturalismo, Bilac, Machado de Assis eram as escolas e os nomes (entre outros) do momento. Eram a moda. Na verdade, por essa razão e por outras razões, o Simbolismo não colou e teve, como escola, uma existência relativamente efêmera. Depois da morte de Cruz e Souza, pode-se dizer que a escola simbolista como tal desapareceu. Isto em 1898, quando o “Dante negro” como o apelidou Alphonsus de Guimarães, morreu em Sítio, Minas Gerais, vítima de tuberculose.
Já dissemos acima que a “crítica especializada” nunca simpatizou muito com o Simbolismo. Depois do esfacelamento dos núcleos sulistas do Simbolismo os grandes poetas da escola ficaram olvidados, completamente esquecidos. Até ao início da segunda década deste século, quando ocorreu a grande revolução literária que foi o Movimento modernista, em 1922, imperou, na poesia, o parnasianismo e o helenismo de um Coelho Neto. O impacto do Modernismo concorreu ainda mais para o esquecimento daquela escola e foi necessário esperar até 1952, quando Andrade Muricy publicou o seu Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, para que se fizesse ou se começasse a fazer justiça aos grandes escritores e, principalmente, aos poetas simbolistas. (...)

Já os simbolistas utilizavam todas essas inovações e, talvez, por isso não caiu nas graças dos então donos da literatura brasileira cujos “deuses” eram, sem dúvida, os parnasianos. Fernando Góes, ao lado de Alceu Amoroso Lima, Otto Maria Carpeaux e outros, afirma categoricamente: “Não restam mais dúvidas que o melhor da nossa poesia modernista tem suas origens nos poetas simbolistas. Suas ousadias e experiências foram bastante fecundas, e aí estão para atestar o quanto os modernistas de 22, e mesmo os de agora, lhes devem. De resto, um dos chefes da revolução de 1922 – Oswald de Andrade, reconheceu isso quando declarou, certa vez, que “a linha ascendente da moderna poesia brasileira deriva do Simbolismo”.

Mas não foi só no sentido de profundidade, não foi só em verticalidade que se verificou a influência do simbolismo. Também no plano horizontal, no plano de extensão esta influência é notória. Na verdade, o Simbolismo não ficou circunscrito como crêem alguns às brumosas regiões do Sul do País. É verdade que Curitiba foi o grande núcleo do Simbolismo. Mas, pouco a pouco, ele foi se estendendo para outras regiões. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Bahia, Ceará (a Padaria Espiritual), Piauí (Da Costa e Silva, Jonas da Silva), Maranhão (Maranhão Sobrinho), Pará (onde se fundou o Apostolado Cruz e Souza).

E no Amazonas? Chegou até aqui a influência do Simbolismo?

No dia 18 de agosto de 1970, justamente cem anos do nascimento daquele que foi um dos grandes poetas do Simbolismo e um dos grandes poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens, morria na Beneficente Portuguesa de Manaus, um dos grandes poetas amazonenses, e sem dúvida, o maior poeta simbolista do Amazonas, Américo Antony.

Não me convém entrar, nesta simples crônica, e em comentários sobre a poesia e a presença de Américo Antony. Poeta, simbolista, irmão a quem muito todos nós devemos e a quem sempre estive ligado muito espiritualmente. Soube que estava hospitalizado através do meu e nosso amigo Geraldo Pinheiro e pelo mesmo soube do seu estoicismo espiritual diante da doença e da morte.

Américo Antony é a prova inconteste que o Simbolismo continua influenciando nas nossas letras.

Esta crônica de cem anos é minha homenagem ao poeta de Os Sonetos das Flores, que já deve ter-se encontrado com Alphonsus nas sidéreas lavescências das místicas regiões etéreas...
* O Jornal. Manaus, 23 agosto 1970