CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, maio 17, 2026

POESIA DOMINICAL (30)

O poema desta postagem, publicado na revista A Selva, veiculada em Manaus na década de 1930, foi composto pelo saudoso jornalista Ramayana de Chevalier (1919–72); trata-se de uma obra rara de sua produção artística.

 


 

Vi milhões de coqueiros!

Cocares verdes de tuxauas

ou sivahs de braços vegetais!... 

Vi rasgões de estradas brancas ou lágrimas deslizantes

de rios colossais

que vieram do olhar enoitecido da Terra!... 

Ouvi gritos de gaivotas! 

Vi sombras ao crepúsculo, de lavradores de bronze,

no socalco das serras! 

Vi gigantes de pedra que representavam na quietude granítica

indolência da gente!

Vi dez corpos,

cem corpos

dez milhões de corpos

morenos como coivaras,

loiros como trechos de sol na vidraça dos rasga-céus,

alvos comretratos de luar

na esclerótica cochilante dos brejos do sertão!

Volúveis na cor

como o pensamento nacional!...

 

Vi vazios de tabuleirosmilionários de sol, a olharem o azul sem nuvens

as gargantas com febre!... 

Vi o olhar longínquo dos zebus

espreitando da alma a tragédia da seca. 

Vi o proletário que cospe todo o dia o amargor desiludido da vida. 

Vi o burguês que fuma charutos enormes

e humilha os humildes para não parecer escravo dos "yankees". 

Vi o caboclo que sonha

O malandro que samba

O negro que soluça no ritmo monotônico de atabaques sem som

que adormecem

de tédio... 

Vi o sangue fervendo, e ancas batendo, e seios de chumbo. Mulher brasileira

Tisnada de luz, vestida de cor,

Jaboticaba, sumo verde, meu amor,

que envenena e delicia...  

Vi a saudade com sono espiando o crepúsculo... 

Vi o orador que nasce em esquina e não sabe o que diz.

Vi o poeta, olhos que escondem mil anos de sentimentalismo, escorado à porta de um restaurante chinês

assoviando a revérie de Schumann... 

Vi um grande, um imenso rosto pálido

de maceração endêmica

trechos verdes de sangue mau

trechos rubros de sangue bom

sorrindo nos olhos tristes

chorando na boca exangue

que chupa cana, come pé de moleque, ginga o corpo no samba

faz versos, faz versos, faz versos,

com uma vontade doida de ser feliz

e faz o sinal da cruz

para ir de noite ao candomblé. 

Vi o Brasil! 

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