CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, maio 26, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER

 A crônica deste intelectual amazonense narra passagens de sua vida, acompanhadas de informações sobre a cidade de Manaus, e foi publicada em O Jornal, de 23 de setembro de 1958.

Ramayana de Chevalier

SAUDADE DA INFÂNCIA


Era no colégio do meu pai, aos primeiros albores de minha vida. Os sonhos, ainda multicores, não tinham forma. O calor, idêntico. Pelas tardes estivais, fagulhantes de luz, o pregão dos doceiros era em gaita de folha. Um assovio musical, longo e agudo, enchendo a rua. E os bondes, pesados e barulhentos, chacoalhavam a poeira e reduziam a pó os cacos das garrafas, da próxima trança de papagaios. 
Por essa época, ainda criança, eu escolhia a sombra que descia sobre o quintal e ali ficava, sentado, a observar as árvores militarizadas, ou subia ao muro de trás, divertindo-me com os cães vadios e obscenos, ou com a molecagem da Baixa. De tarde, fatigado e cheio de suor, tomava meu banho quase morno, porque a caixa d’água ficava ao sol. E, à noitinha, lá estava eu na calçada, batendo papo com os outros garotos do colégio, ou contando as aventuras da última fita de cinema para os vizinhos. Vida simples, vida de bairro humilde, de cidade pequena. 
Nunca me queixo do calor. Ao contrário, pelas nove horas da noite, muitas vezes o sono me surpreendeu escutando o toque de silêncio do quartel da Polícia Militar, com uma leve sensação de frio noturno. E, pelas madrugadas engalinhadas de cantos alegres, eu acordava, preguiçoso de deixar o leito, sentindo arrepios de umidade gostosa.
Depois, viajei. Esbati-me, como um fardo sequioso, pelas arestas do mundo. Onde havia um sexo, aí estava a minha bandurra. Onde morasse um sofrimento, aí comparecia, piedoso, o meu coração. E conheci outros climas, amenidades estranhas, delícias montanhesas, primaveras veludosas como peles femininas, invernos elegantes e acolhedores.
Conheci o valor de um abraço sob um edredom de penas, a carícia de uma ternura mansa dentro do outono triste. Caíram folhas de árvores solenes, uma a uma, diante de mim, como se fugissem do galho materno, a dormir no chão. E as rajadas magníficas do vento sul, esbofetearam-me no rosto, emprestando ao meu olhar o brilho forte dos vencedores.
Nos Andes, nos pampas, nas ribas tristes do Paraguai, no planalto de Piratininga, por onde passei, da orla inenarrável da costa fluminense às coxilhas mansas da terra lageana, amei à Terra com um amor cosmopolita. Desequilibrei o meu sistema termorregulador. Hoje, de regresso aos meus pagos, sinto calor. O menino de ontem não revelou o seu segredo ao homem de agora. Os revérberos da estreia causticante, nas vidraças que agonizam em reflexos, me tornam soturno, abichornado, entre parêntesis. Sou, hoje, um aficionado número um da sesta. A rede tem hoje um significado muito mais profundo e mais místico. 
Quando a ciência nutricionista atribui à lentidão equatorial o caráter de defesa do homem contra o clima, está perfeitamente certa. Os ingleses, franceses, holandeses, que aqui vieram, também chegaram ligeirinhos e europeus no seu passo, no seu dinamismo. Traziam invernos nos nervos e nos sonhos. Depois, foram amolecendo. Em cinco anos, passaram a falar devagarinho. Em dez, andavam disputando o passo com os tracajás. 
Mais tarde, ficaram fregueses do tacacá e começaram a comer o coração das melancias. Terminaram fazendo pipi nas calças sem vinco. Assim, todos os dolicocéfalos loiros que aportam por essas bandas. Tenho inveja da criança que eu fui. Não sentia calor, brincava de sol a sol, mirava o “bichão”, frente a frente, empinando o meu “banda de asa”. Melhor seria não ter conhecido mais nada, lugar algum, povo nenhum, antes que as minhas calças percam o vinco...

domingo, maio 24, 2026

SOFIA MENDONÇA - 16 ANOS

 Acontece hoje o aniversário de Sofia Mendonça, minha filha; por se tratar de domingo, foi-me permitido cumprir os desejos da aniversariante. Para marcar a data vão aqui postados algumas fotos do progresso físico da adolescente. Vida longa, princesa!





Sofia, em quatro tempos

POEMA DOMINICAL

 A postagem reproduz o poema de Clóvis da Mata - Deus no Amazonas, em que louva a realização do Congresso Eucarístico Nacional em Manaus, em julho de 1975, portanto, há 50 anos. Da ornamentação produzida para a festa religiosa resta a Cruz no pátio da Igreja de Fátima, obra do artista Severiano Porto.

Jornal do Commercio, 20 julho 1975

Sob um pálio de luz nas alturas

Refulgindo de Fé e de Amor,

 neste chão que a tantos deu glória

oh! Senhor dos Altares, fulguras,

na imponente canção da Vitória!

Acústica do mundo cristão

 e vergel de lembranças sagradas,

o Teu nome rebrilha nos Salmos

e agasalha milénios de História!

Nossas matas, dosséis de verduras 

conhecidas por Selva Selvaggia

constituem a bela escultura

 que Vossa sempiterna presença

às páginas do Gênesis deu,

na visão imortal do profeta!

Rei dos Reis, o Teu trono é eterno,

e um céu de alabastro e de luz

 sobre a terra da Fé, que é unção,

onde o povo exultante Te adora

e com todos reparte o Pão.

No recesso dos templos sagrados

 Tua imagem entre lírios reluz

ante as velas eretas e ardentes

incensadas por turibulários

que invocam o poder da Oração

contra os ímpios e vãos aretinos,

adorando o Menino-Jesus!

Amazonas, Estado altaneiro

que se ergue indomável e viril,

tens um nome que fala de amor

e rebrilha nos céus do Brasil

com requintes das aves canoras

como rios que se beijam no alvor

 das manhãs, em idílios de correr,

e esmagam irmãos ribeirinhos.

És portal da União e da Fé,

catedral nacional da oração,

no teu solo sagrado chantaram

nosso símbolo — a Cruz dos Altares

dos cristãos, é na dor refrigério,

dos ateus, conversão nos esgares! 

Amazonas das lendas suntuárias

o teu dorso se ergueu bem no alto,

pois do plano naval transbordou

tuas águas cidades cobriram,

quem ousara, Amazonas, dizer-te,

neste instante de tanto esplendor,

que o Congresso tuas águas não viram?

Há presença de Deus na floresta,

na grandeza do solo e dos rios,

no carinho das aves cantantes

que a ternura teceram nos ninhos;

na bondade do povo glebário,

nas casinhas de teus ribeirinhos,

que em lufadas de vento compõem

as medonhas tragédias dos rios

no transcurso das cheias hiantes

Manaus, coração da Amazônia

por direito e estratégia local

repetindo o feito de outrora

 hoje ergues o fulvo ostensório

e convidas ao rito litúrgico

o rebanho de Deus nas planuras,

ante os céus a o esplendor da aurora.

És sacrário da Paz e Harmonia,

Altar-mor de ungidas orações

circundado de luz triunfal,

sob o manto da Eucaristia!

Peregrinos n’estoria te rendem

homenagem, e ao Pai-Redentor,

são romeiros de outras distâncias

que a Cruz a Bíblia transportam

como fontes eternas de amor.

Que após o Congresso Eucarístico

destas plagas, com raro fervor

irradiam mensagens divinas

em hosanas ao Cristo-Senhor;

Pai de pobres e ricos também,

exaltado que foi nas origens

no soturno da gruta em Belém

 que no início do mundo foi Verbo,

hoje em dia é Verbo e Mundo,

dê a todos unidos de Fé,

como exemplo de santa humildade

um Amazonas de Paz e de Amor.

quarta-feira, maio 20, 2026

PETROBRAS EM CAMAÇARI-BA

Aposentado da Petrobras, o autor analisa com sagacidade a decisão da empresa em retomar a Fábrica de Fertilizantes em Camaçari-BA, daí a CRÔNICA DA FAFEN

19.05.2026

Renato Mendonça

 

Brasão de Camaçari-BA

Não é um governo o que passou — foi uma nuvem negra. E das sombras nasceram falácias contra a Fafen, como se a fábrica fosse apenas um peso morto, um resquício de tempos que não voltariam mais. Porém, eis que o presente, com mãos firmes de um governo devotado à classe trabalhadora, devolve à luz o que tentaram sepultar.

Na quinta-feira passada, no coração industrial de Camaçari, a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia voltou a pulsar. O que antes fora arrendado à Proquigel, empresa privada hoje em recuperação judicial, regressa ao seio da Petrobras como quem retorna ao lar. Não é apenas uma planta retomada: é soberania que se ergue, é alimento que se garante, é o Brasil que se recusa a ajoelhar diante da dependência externa de fertilizantes.

A engrenagem volta a girar com promessa de abundância: 1300 toneladas de ureia, 1300 de amônia, e o reagente ARLA-32, que move os pesados motores da estrada. Cada grão de ureia, cada molécula de amônia, é mais que química — é pão na mesa, é pasto verde para o gado, é esperança de preços mais justos no mercado. E, junto à produção, florescem empregos: quase mil diretos, milhares indiretos, como raízes que se espalham pelo solo fértil da Bahia. O Porto de Aratu, com seus terminais de amônia e ureia, será o escoadouro dessa nova colheita industrial. A logística se torna poesia de ferro e mar, garantindo que o fruto da fábrica alcance cada canto do país, para melhorar a vida do consumidor.

As elites, sempre ávidas por ganhos imediatos, defenderam a importação, o lucro rápido, o subsídio estatal ao gás privado. Queriam transformar a Petrobras em serva de interesses estrangeiros, em ponte de renda para poucos — para uma elite gananciosa. Mas o plano ruiu quando o preço internacional do gás expôs a fragilidade da ambição. Restou a lição: não há futuro na dependência estrangeira, não há soberania na entrega de riquezas.

O debate, no Brasil, raramente é ideológico no sentido nobre da palavra. É, antes, um jogo de falácias, uma disputa onde a classe dominante parasitária veste argumentos como máscaras, para ocultar sua fome de apropriação indébita. Mas a retomada da Fafen é mais que política: é o gesto simbólico, é a vitória concreta do campo progressista, é uma lembrança de que desenvolvimento industrial e política energética não podem ser reféns de interesses escusos.

A fábrica renascida é metáfora do país trabalhador que insiste em se reinventar. Entre aço e amônia, entre ureia e suor, ergue-se a certeza de que o Brasil, quando decide caminhar com seus próprios pés, não há sombra que o detenha.

segunda-feira, maio 18, 2026

MEUS OITENTANOS (4)

 FASCÍCULO 4

 No segundo semestre de 1964, quando deixei o Seminário São José, abandonei também a vocação sacerdotal que até então me acompanhava como promessa duvidosa. Tinha dezoito anos e regressava ao lar dos meus pais, na rua Amazonas, número 29, no Morro da Liberdade, trazendo na bagagem apenas a escolaridade atualizada e uma sensação de vazio.

Título eleitoral emitido em 1966 
O número da casa, talhado por meu pai em madeira bruta e fixado na parede frontal, carregava um simbolismo próprio: 29 de dezembro de 1959, e o dia ele quis perpetuar. Mesmo diante da duplicidade de número na rua, sua decisão foi firme, quase solene. A casa de madeira, antes simples e térrea, transformara-se em sobrado, com quartos e varandas no pavimento superior. Ali, naquele novo espaço, ganhei um aposento que às vezes dividia com meus irmãos Antônio e Renato, enquanto outros cômodos se tornavam alugáveis.

Meu regresso, porém, foi marcado por desorientação. Sentia-me como um “cachorro caído da mudança”, sem rumo, sem ofício aprendido. Uma oportunidade surgiu pelas mãos de meu primo Vicente Pereira, que me levou à loja de móveis onde trabalhava. Não havia vaga para vendedor, mas sim na produção de cadeiras metálicas. Enfrentei o labor da soldagem sem proteção adequada, e à noite meus olhos ardiam tanto que o sono me abandonou. No dia seguinte, faltei. Ainda assim, ao final da semana recebi o ordenado e desapareci. Foi a única vez que trabalhei na iniciativa privada; o destino me reservaria apenas o caminho do serviço público.

Enquanto isso, os afazeres domésticos me consumiam. O quintal imenso exigia cuidados, e os cães eram minha responsabilidade: Joli, o caramelo valente que se tornara figura temida na vizinhança, e Branco, dócil companheiro. Outra tarefa era o abastecimento de água obtida em cacimba do Buraco da Vovó, a quinhentos metros de casa, carregando em latas de vinte litros para encher o “camburão” – tambor metálico de duzentos litros — uma espécie de cisterna improvisada.

Assim se desenhava minha juventude: entre o peso da falta de escolhas, o suor das tarefas domésticas e a lenta construção de um destino que ainda se insinuava sombrio.


Em 1965, aceitei o convite de Raimundo “Pau de Barraca” — sobrinho de minha madrasta — para jogar futebol, e essa decisão alterou o ritmo da minha rotina de desempregado. As peladas aconteciam num campo improvisado, aberto no terreno baldio atrás do nosso sítio. Pela idade e pelo porte físico, destoando dos meninos menores, fui escalado para a posição de goleiro. Não me senti deslocado: no seminário já havia defendido as traves, e ali me saí com firmeza. Ao cair da tarde, quando a turminha se reunia quase diariamente, eu permanecia guardando o gol, como se fosse um posto de honra.

No Morro da Liberdade, os divertimentos eram raros, mas o futebol acontecia com facilidade. Duas equipes se destacavam: o Bangu, organizado por meu xará Roberto, praça do Exército; e o Botafogo, formado por jovens da avenida São Pedro e adjacências. Fui convidado a uma reunião com os botafoguenses, sediados na avenida São Pedro, hoje rua Tobias Barbosa. Compareci com receio, temendo a frustração, mas ao final fui “contratado” para defender o gol da equipe, apesar da minha estatura modesta de 1m64. O prestígio me animava, e não faltava às peladas de domingo, ora no campo do Guanabara, em Santa Luzia, ora no campo do Olaria, no próprio Morro da Liberdade. Esses campos, hoje, já não existem: foram engolidos pelo progresso.

Antes de encerrar a contabilidade da minha jornada esportiva, registro uma partida memorável no campo do Nacional FC, em Adrianópolis. Essa experiência, aparentemente singela, acompanhou-me no futuro, quando frequentei cursos militares no Rio e em Florianópolis. O futebol, mais do que passatempo, foi aprendizado de disciplina, coragem e resiliência — valores que se tornariam parte de minha caminhada.

Para cumprir um dos preceitos de meu padre-protetor, Juarez Maia, apresentei-me ao Serviço Militar. Foi ali que o destino me concedeu mais uma estrela, ao ser selecionado para o NPOR, justamente na fase de reinstalação. O quartel do 27° BC, onde nos instalamos, funcionava de maneira curiosa: instruções apenas nos finais de semana, improvisações que revelavam a precariedade da estrutura.

A inspeção de saúde, por exemplo, ocorreu numa enfermaria acanhada. Éramos cerca de trinta candidatos, perfilados lado a lado, desnudos, enquanto o clínico se valia de embalagens de medicamentos guardadas num armário envidraçado para realizar o exame visual. Chamados em ordem alfabética, eram observados os rótulos expostos. Eu, que não distinguia bem os nomes, memorizei-os e, assim, fui aprovado. Mas a deficiência visual logo se denunciou: no primeiro tiro de fuzil, quase atingi o pé de um graduado. Ainda assim, prossegui no curso, que logo adotou nova metodologia, com instruções diárias.

Morando ainda no distante Morro da Liberdade, precisava madrugar para alcançar o quartel no bairro de São Jorge. O transporte era realizado no caminhão REO do Exército, abarrotado de recrutas. Na condição de aluno do NPOR, eu tinha a primazia de viajar na boleia, sentindo o vento frio da madrugada e a responsabilidade de uma epopeia que começava a moldar meu futuro.

Ainda em 1965, enquanto aguardava o reinício do NPOR, que lentamente se estruturava, abri-me aos convites que surgiam. A vizinha Luzia — irmã de minha madrasta — havia adquirido uma canoa, com motor de centro instalado, que permitia pequenas viagens pelos arredores de Manaus. Assumi a condução do barco e, numa dessas excursões, seguimos até o lago do Puraquequara. Pernoitei ali com as primas — razão imediata de meu entusiasmo pela aventura — mas a noite nos reservou um tormento: os carapanãs, como chamamos na Amazônia os pernilongos, nos açoitaram sem piedade. O resultado foi a malária, que nos abateu a todos. Nem os remédios caseiros, nem as rezas fortes bastaram. A febre alta e os calafrios me levaram ao Posto de Saúde, onde um exame de sangue revelou a gravidade. A cura veio, enfim, pela medicação alopática.

Recuperado, enfrentei nova provação. Ao visitar a BR-174, ainda em construção — rodovia que ligaria Manaus a Rio Branco — fui atraído pelo desejo de ver a sobrinha de minha madrasta, residente no Km 5, próximo ao igarapé do Leão. Mas antes que a enfermidade se revelasse, guardo um episódio curioso do Dia de Finados daquele ano. Levantei-me cedo na casa da prima e caminhei até a Ponte da Bolívia, que distava quinze quilômetros de Manaus, para tomar o ônibus. O feriado, porém, suspendera o coletivo. Após cinco quilômetros de caminhada até a ponte, retomei a estrada e, dez quilômetros adiante, finalmente alcancei um ônibus. Enquanto a família já se encontrava no cemitério São João Batista, reverenciando nossos mortos, eu chegava tarde, cansado, e recebi a reprimenda de meu saudoso pai.

Deduzi que a nova enfermidade resultara da abertura de clareiras na floresta, durante a construção da rodovia. O ambiente despertava enxames de insetos e mosquitos, e um deles me transmitiu a leishmaniose. As úlceras na pele deixaram marcas que ainda hoje recordam o diagnóstico emitido pelo INPA, em implantação, e o tratamento realizado no Hospital da Guarnição de Manaus, onde fui atendido por ser o aluno 111 do NPOR.

 Aluno 111 Roberto, primeiro à esq. , em pé

À medida que o curso se aproximava do fim, os futuros oficiais R/2 buscavam abrigo seguro para o estágio obrigatório. O colega Amílcar Ferreira, vizinho do comandante da Polícia Militar do Amazonas, levou a ideia de servir naquela corporação. Apesar do regime militar instalado em 1964, o quartel da Praça da Polícia enfrentava dificuldades: efetivo reduzido, carências diversas, um ambiente de luta constante. Com os colegas de curso, visitei o quartel da PM e, mesmo diante da atmosfera desanimadora, deixamos nossos nomes numa lista de eventual aproveitamento. O destino, afinal, nos acolheu.

Concluí o curso em março de 1966, conquistando o 9º lugar na Turma Ajuricaba, entre dezessete formandos. A solenidade ocorreu no pátio do quartel, e para a ocasião consegui uma madrinha de formatura — uma “fada”, como se dizia. Não sei ao certo como alcancei tal graça; talvez pelo marido, o major Hércules, um gigante que servia na mesma unidade. A beleza da senhora encantou os formandos, que não cessavam de me interrogar sobre sua origem.

Na formatura do curso, março
de 1966

O baile de formatura, realizado no Ideal Clube, não contou com minha presença. A indigência financeira me impediu de comparecer. Mas, ainda assim, a formatura marcou um capítulo decisivo: encerrava-se uma etapa de aprendizado e disciplina, e abria-se diante de mim o horizonte da vida militar e da própria existência.

domingo, maio 17, 2026

POESIA DOMINICAL (30)

O poema desta postagem, publicado na revista A Selva, veiculada em Manaus na década de 1930, foi composto pelo saudoso jornalista Ramayana de Chevalier (1919–72); trata-se de uma obra rara de sua produção artística.

 


 

Vi milhões de coqueiros!

Cocares verdes de tuxauas

ou sivahs de braços vegetais!... 

Vi rasgões de estradas brancas ou lágrimas deslizantes

de rios colossais

que vieram do olhar enoitecido da Terra!... 

Ouvi gritos de gaivotas! 

Vi sombras ao crepúsculo, de lavradores de bronze,

no socalco das serras! 

Vi gigantes de pedra que representavam na quietude granítica

indolência da gente!

Vi dez corpos,

cem corpos

dez milhões de corpos

morenos como coivaras,

loiros como trechos de sol na vidraça dos rasga-céus,

alvos comretratos de luar

na esclerótica cochilante dos brejos do sertão!

Volúveis na cor

como o pensamento nacional!...

 

Vi vazios de tabuleirosmilionários de sol, a olharem o azul sem nuvens

as gargantas com febre!... 

Vi o olhar longínquo dos zebus

espreitando da alma a tragédia da seca. 

Vi o proletário que cospe todo o dia o amargor desiludido da vida. 

Vi o burguês que fuma charutos enormes

e humilha os humildes para não parecer escravo dos "yankees". 

Vi o caboclo que sonha

O malandro que samba

O negro que soluça no ritmo monotônico de atabaques sem som

que adormecem

de tédio... 

Vi o sangue fervendo, e ancas batendo, e seios de chumbo. Mulher brasileira

Tisnada de luz, vestida de cor,

Jaboticaba, sumo verde, meu amor,

que envenena e delicia...  

Vi a saudade com sono espiando o crepúsculo... 

Vi o orador que nasce em esquina e não sabe o que diz.

Vi o poeta, olhos que escondem mil anos de sentimentalismo, escorado à porta de um restaurante chinês

assoviando a revérie de Schumann... 

Vi um grande, um imenso rosto pálido

de maceração endêmica

trechos verdes de sangue mau

trechos rubros de sangue bom

sorrindo nos olhos tristes

chorando na boca exangue

que chupa cana, come pé de moleque, ginga o corpo no samba

faz versos, faz versos, faz versos,

com uma vontade doida de ser feliz

e faz o sinal da cruz

para ir de noite ao candomblé. 

Vi o Brasil!