CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, julho 08, 2024

MANAUS: JORNAL GREMIAL EM 1936 (1)

 O GRÊMIO, periódico lançado pelos alunos do Grêmio Estudantal (sic) Humberto de Campos, apesar de inexistir o registro do colégio, acredito se tratar de iniciativa de alunos do Ginásio Amazonense Pedro II. A 2ª edição do primeiro ano, circulada em julho de 1936, trouxe na primeira página uma contribuição de Ramayana de Chevalier, aqui postada. Convém esclarecer que Chevalier havia retornado de Salvador (BA) diplomado em medicina, sendo então empregado na Polícia Militar estadual, em reorganização. 

Recorte da primeira página, com os Bilhetes... de Ramayana


BILHETES DO AMAZONAS

RAMAYANA DE CHEVALIER

Não é nenhuma novidade dizer que o termômetro público, protegido à sombra de um “fícus” da Avenida Eduardo Ribeiro está marcando 38° à sombra. Nem que os paralelepípedos da praça mais livre da cidade estão moles como geleias de goiaba. Brilha a cidade. Brilham reflexos fugaces no zimbório moscovita do Teatro Amazonas. Brilham sigmas no braço dos integralistas apressados. Tudo brilha. Polimento? Não. Calor e mormaço. O Carneiro de Mendonça que é metido a duro viraria coloide se viesse interventoriar estas bandas

* * *

É preciso que o Brasil saiba: o Amazonas repele qualquer proposta de intromissão nos seus negócios internos. Sendo o filho esquecido, o gato borralheiro da Federação, ele não quer nada além de justiça, o que já é nada além de 4$400. Os japoneses querem plantar batatas no Amazonas. A patriotada de meia dúzia de garotos simpáticos exige o fechamento do portão aos anõezinhos de olhos oblíquos. Veem perigos amarelos na selva verde. Nem sequer reparam no patriotismo da combinação: os amarelos no verde criariam uma bandeira nacional antropobotânica (sic). Bonito! Em S. Paulo ninguém gritou que sobravam nipões. Aqui...

Quem foi que disse que existe Amazonas no mapa político do Brasil a não ser em vésperas de eleições e nos discursos do Senador Cunha Mello?

* * *

Isto aqui vivia ao Deus dará. Não se pagava a ninguém; não se aumentava a receita; não se contemplava o funcionalismo; dinheiro não chegava para a gasolina do Palácio; economia era mistério mais palpável que a Iara. Veio um homem chamado Álvaro Maia. Trouxe um amigo dentro do coração: a honestidade. E um outro no coração dos amigos: a tolerância magnânima e feliz. O Amazonas, hoje, está equilibrado como um convalescente de pneumonia. Fraco, mas em pé. Magro, mas com esperanças de gordura. Trêmulo, mas sentindo o tato das coisas. Todo o mundo recebe. Há dinheiro para socorrer os rombos menores.

Álvaro Maia é o nome que desfia dos lábios do caboclo doente de Tabatinga ou da boca, queimada de sol dos vaqueiros do Rio Branco. Álvaro Maia é o começo das orações matinais dos plantadores de seringueiras do Purus ou dos pescadores de tartarugas do Badajós. De um extremo ao outro da Planície, dentro das lindes do Amazonas, o centauro moreno de Parintins ou o caucheiro heroico do Mamoré, qualquer cidadão perdido na vastidão da Terra Inacabada, procura escrever, com os dedos grossos, a mão inábil, braço trôpego, um nome que equivale por uma bandeira, uma bandeira humana de civismo e dedicação: Álvaro Maia.

Hoje o Amazonas é um bloco de brasileiros indomáveis e fortes em torno de um homem que representa a bravura da Raça na serenidade do espírito: Álvaro Maia. Um dia, o nome desse moço poeta, não estará somente no pórtico de mensagens à Assembleia estadual, mas incendiará, em silêncio, o coração dessas gerações que amadurecem como frutos benditos. E, nesse dia, o Amazonas vingar-se-á do desprezo de todos: salvará o Brasil.

domingo, julho 07, 2024

MANAUS: JORNAL GREMIAL EM 1936

 Varejando os jornais escolares produzidos em Manaus no século passado, recolhi mais um periódico: O GRÊMIO, lançado pelos alunos do Grêmio Estudantal (sic) Humberto de Campos. Apesar de inexistir o registro do colégio, acredito se tratar de iniciativa de alunos do Ginásio Amazonense Pedro II. Uma consulta à pequena diretoria, além disso responsável pela editoria do jornal, permite ver-se sobrenomes de realce na capital (Benchimol, Byron, Soriano de Mello) e, entre os mesmos, dois futuros membros da Academia Amazonense de Letras: Moacir Rosas e José Lindoso (futuro governador do Estado). Mais um detalhe: a redação certamente era na residência do Soriano de Mello.


Recortes de O Gremio


A edição é a 2ª do primeiro ano, circulada em julho de 1936. Dela reproduzi o poema Esperança Amazônica, de José B. [Bernardino] Lindoso, ressaltando a atividade do então governador Álvaro Maia.

  

Esperança Amazônica JOSÉ B. LINDOSO

(Do Grêmio Estudantal “H. de C.”)

Sol abrasador. 

Caaporas, Saci, Curupiras

na floresta opulenta vivem...

Nos igarapés granigeros

banha-se a Yara...

O passaredo acompanha o Uirapuru...

O vento sopra de leve

como se beijasse os atavios da corte divina...

Os caboclos queimados pela impiedade do sol

uns caçam...

outros andam pelos seringais arcanos...

inda outros heroicos e ousados

volvem dos centros carregados de caucho, balata...


quinta-feira, julho 04, 2024

BONDES EM MANAUS

 Em janeiro de 1955, Plínio Ramos Coelho assumiu o governo do Amazonas. O Estado passava por uma séria crise financeira, lembrando apenas o precário fornecimento de energia elétrica. Ao par desta carência, o governo encontrou um amontoado de bondes, que foram adquiridos no início daquele século e, portanto, cinquenta anos depois, sem manutenção adequada, jazia na subusina (depósito). Plínio Coelho tentou recuperá-los para atender a população, que circulava em precários ônibus construídos  de madeira. A aventura do governo durou dois anos, pois em 1957 os bondes desapareceram totalmente.

Recorte do matutino - AC. 11 abr. 1960
colorizado por Ed Lincon

Ed Lincon, entusiasmado por matéria dos ônibus de madeira, e cuja família conheceu os bondes a fundo, pois seu avô foi motorneiro, emprestou-me esta postagem sacada do jornal A Crítica ( 11 abr. 1960). Também lhe coube a cópia colorizada da postagem.

Lead da matéria de AC. 11 abr. 1960

Está definitivamente afastada a hipótese de Manaus voltar a possuir bondes no seu sistema de transporte coletivo. Os elétricos que tantos bons serviços prestaram à população, hoje não passam de um montão de ferro velho sem nenhuma utilidade, servindo apenas para comprovar a criminosa atuação de administradores sem escrúpulos e sem responsabilidade, que deixaram destruir um patrimônio considerado do mais alto valor.

A história relacionada com os transportes elétricos nestes últimos anos, principalmente depois de um trabalho de recuperação que se pretendeu fazer, com alardes e foguetórios, e até com um governador transformado em motorneiro, nos mostra fatos que denunciam criminosa irresponsabilidade. Isso, principalmente, pelo caráter político mostrado à coisa que, se tinha como certo o seu efeito nas massas, tinha por igual a certeza de gastos desnecessários numa das mais fantásticas burlas ao povo deste Estado. Iremos aos poucos até atingir esse ponto culminante da história dos bondes.

INSTALAÇÃO DOS PRIMEIROS BONDES

Os primeiros bondes que circularam em Manaus foram adquiridos no governo de Eduardo Ribeiro, o “Pensador” e a sua instalação deu-se no governo de Fileto Pires. O primeiro fato histórico relacionado com o sistema de transportes recém introduzido na capital do Estado, foi o de terem os bondes formado o cortejo fúnebre que conduziu Eduardo Ribeiro à sua última morada, justamente aquele governante que adquirira a frota popular. E a sua exploração coube a firma Travassos & Maranhão, que antecedeu à empresa inglesa The Manáos Tramways and Ligth Co.Ltd.

 O serviço de bondes era feito por 45 veículos, considerados da mais alta qualidade e qualificados como os melhores do Brasil. Mas, os anos foram passando, o material desgastando e o serviço tornando-se ineficaz até que poucos ou quase nenhum bonde era empregado no transporte coletivo.

RECUPERAÇAO OU GOLPE POLÍTICO?  

Em 1955, quando era administrador dos Serviços Elétricos do Estado o engenheiro Carlos Eugenio Chauvin, foi determinada pelo governador da época que se procedesse a recuperação dos bondes parados e amontoados na subusina de Cachoeirinha. Não se tratava de uma recuperação verdadeira, mas, apenas de uma manobra de caráter político, que serviria tão somente para projetar o Executivo como órgão realmente interessado em trabalhar pela solução dos problemas que afligiam a população, e dentre os quais figurava em plano de destaque o dos transportes coletivos. Verdade é que essa recuperação, que se fosse concretizada em toda a sua plenitude, não seria mais que o cumprimento de uma obrigação do governo, não passou de uma simples pintura. Na parte ligada ao maquinário pequenos reparos foram feitos pelos próprios empregados das oficinas dos Serviços Elétricos do Estado apenas com a supervisão técnica do engenheiro Carlos Eugenio Chauvin. E cada bonde supostamente recuperado custou aos cofres públicos importância superior a 50 mil cruzeiros. (...)

segunda-feira, julho 01, 2024

CLUBE DA MADRUGADA: 70 ANOS

 A celebração será em novembro, porém vou lembrando no percurso. Lembrando que dos três entes criados então (início dos 1950), somente a Rádio Rio Mar segue funcionando. Além do Madrugada, o CIEC do Orígenes Martins também "fechou as portas". A fotografia aqui compartilhada pertenceu ao saudoso Moacir Andrade, membro dos primeiros dias do Clube, que efetuou a legenda, porém, sem datação.

Maciel, Moacir Andrade, L. Ruas, Alexandre Oto, Evangelista,
(dois não identificados) e Elson Farias