CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, outubro 05, 2022

ACAPULCO NIGHT CLUB

 Mário Oliveira conta para os leitores de A GAZETA a história do famoso night club da Estrada do Parque 10, destacando os nomes que grandemente incentivaram o seu trabalho pioneiro: governadores Plínio Coelho e Gilberto Mestrinho. Proprietário do maior patrimônio turístico-recreativo da capital amazonense também ressalta o apoio da sociedade, imprensa e radiodifusão

 

Vespertino A Gazeta, 12 janeiro 1963

Mario de Oliveira, um nome que em Manaus já está tão identificado com as noites como as estrelas, contou para A Gazeta a história do “Night Club Acapulco”. A narração de Mario Oliveira ocorreu minutos depois da conquista de mais um grande êxito, que foi o réveillon que assinalou o nascimento de 1963. Assim, o novo sucesso que aquela iniciativa tradicional do ACA (para os íntimos) conquistou aos primeiros minutos deste ano, levou Mario Oliveira a contar para a reportagem detalhando o que dissera resumidamente para a grande frequência que fora passar no seu “night-club" a noite do Ano-Bom - como nasceu o Acapulco, que, sendo hoje o principal património turístico-recreativo de Manaus, dispôs para isso da atenção da sociedade, da Imprensa e da radiodifusão e, destacadamente dos governadores Plinio Coelho e Gilberto Mestrinho, que sempre o prestigiaram.

 

Recorte do Jornal do Commercio, 7 setembro 1956

A HISTÓRIA DO ACAPULCO

Nos meus tempos de rapaz, quando todos gostamos, sem maiores preocupações, de participar de noitadas, eu já sentia que nossa Manaus necessitava de um local de diversão, o qual, embora público, estivesse de acordo pelo seu bom gosto, pelo seu ambiente selecionado, com seus foros de cidade civilizada.

Os aspectos, aos mais modernos existentes por todo o país. O Acapulco não foi, portanto, uma inspiração repentina, mais um ideal acalentado durante muito tempo. Foi somente em 1955 que me foi possível concretizar esse sonho que, hoje, é uma das mais fulgurantes de nossa vida social. (...)

Ninguém é autossuficiente bastante, pela riqueza, pela inteligência, pela força de mando, para poder desprezar a solidariedade de quem quer que seja. É de lembrar-se que os pobres coveiros são os que sepultam os reis e os mendigos. 

CABOCLO AMAZONENSE

Sou amazonense, e do interior, e, como tal sou genuinamente caboclo. E faço questão de sê-lo, e me orgulho disso. Quem me conhece sabe que não troco ovas de acari-bodo pelas de esturjão. Nasci na foz do Jutaí, onde meu finado pai possuía propriedade. Vivi lá os dias despreocupados de minha infância, de anzol n’água, virando tartarugas na praia, remando igarités, saboreando deliciosos “arabus”, comendo peixe na pá do remo.

Vim para Manaus para estudar. Cursei o tradicional Ginásio Amazonense. Interrompi meus estudos com a morte de meu pai. Modéstia à parte não fui mau aluno. De Manaus apenas saí poucas vezes, quase sempre para Belém. O Rio de Janeiro, somente fui conhecê-lo há três anos.

Não tenho inclinações a Marco Polo. Sou caboclamente sedentário. Podem chamar-me de tabaréu, mas não existe cidade melhor do que Manaus. Sou amazonense de corpo e alma, e o Acapulco é tão amazonense quanto eu.

É que, naqueles tempos, nossa Capital, do ponto de vista de divertimento, se situava entre dois extremos: ou os clubes “fechados”, exclusivamente para os sócios, ou cabarés de ínfima categoria. E então eu já dizia aos meus amigos que, no dia em que eu tivesse recursos financeiros, haveria de criar, em Manaus, um night club que se igualasse, sob todos os aspectos, aos mais modernos existentes por todo o país. O Acapulco não foi, portanto, uma inspiração repentina, mas um ideal acalentado durante muito tempo. 

PIONEIRISMO E AMOR À TERRA

“O segundo motivo por que eu desejei deslocar a atenção e o interesse de meus conterrâneos para a periferia de nossa Capital, pois, até então era hábito nosso o restringirmos nossas atividades exclusivamente ao centro da cidade.

Quando adquiri o prédio meus recursos financeiros só davam para tanto. Foi uma audácia minha; mas um ideal audacioso sempre atrai simpatia. Foi o que ocorreu. Amigos cederam-me recursos para eu levar adiante meu plano. Elementos do Comércio e da Indústria forneceram-me material para pagamento em prazo mais dilatado. A imprensa e o Rádio, desde o primeiro instante, colocaram-se a meu favor. Nossa população deu-nos apoio de sua frequência, e, como toque final e decisivo tivemos a solidariedade indispensável das autoridades sobressaindo-se o Dr. Plinio Ramos Coelho, então governador do Estudo, o qual, autêntico bandeirante do progresso que compreendeu minha iniciativa de bem servir nossa terra, e prestigiou-a sempre, desde a inauguração do Acapulco, à qual compareceu para nossa honra, em companhia de seus auxiliares, até o término de sua fecunda administração.

Seguiu-se-lhe, então, o ilustre governador Gilberto Mestrinho, que também jamais nos negou a sua solidariedade, inclusive honrando o Acapulco, de quando em quando, com sua presença. Eis por que aproveito o ensejo para testemunhar a todos a minha Imperecível gratidão. 

ASSISTÊNCIA SOCIAL

Pessoas menos avisadas, formulando conceitos apressados, talvez julguem que a única finalidade do Acapulco é a de ganhar dinheiro às pamparras, para encher usurariamente pés-de-meia, colchões e “burras”. Mas não é verdade. Reafirmo o que já disse: tudo o que já ganhei no Acapulco nele tem sido empregado. Não possuo apartamento no Rio ou em outra qualquer cidade. Como não pretendo, jamais, me mudar de Manaus, tudo o que eu ganhar será utilizado aqui mesmo.  Naturalmente que sem lucro não poderia haver o Acapulco. Temos de ter sempre uma reserva para atender ao aleatório de nosso negócio. Afora isso o Acapulco emprega 60 pessoas, desde os trabalhadores de campo ao gerente.

segunda-feira, agosto 29, 2022

ACAPULCO NIGTH CLUB: NOTAS HISTÓRICAS

O proprietário do Acapulco - Mario de Oliveira - conta ao jornal A Gazeta a realização de seu sonho de jovem do interior, que auxiliado pelos governantes deu a Manaus um local aprazível para a diversão.

 

Recorte de A Gazeta, 17 janeiro 1963

O ANO DA DECISÃO

A HISTÓRIA DO ACAPULCO

Nos meus tempos de rapaz, quando todos gostamos, sem maiores preocupações, de participar de noitadas, eu já sentia que nossa Manaus necessitava de um local de diversão, o qual, embora público, estivesse de acordo pelo seu bom gosto, pelo seu ambiente selecionado, com seus foros de cidade civilizada.

Os aspectos, aos mais modernos existentes por todo o País. O Acapulco não foi, portanto, uma inspiração repentina, mais um ideal acalentado durante muito tempo. Foi somente em 1955 que me foi possível concretizar esse sonho que, hoje, é uma das mais fulgurantes de nossa vida social. (...)

Ninguém é autossuficiente bastante, pela riqueza, pela inteligência, pela força de mando, para poder desprezar a solidariedade de quem quer que seja. É de lembrar-se que os pobres coveiros são os que sepultam os reis e os mendigos. 

SOLIDARIEDADE DE TODOS

O Acapulco é, portanto, o fruto opimo de uma harmonia de sentimentos, visando a um fim comum:  o progresso de nossa cidade.

 

CABOCLO AMAZONENSE

Sou amazonense, e do interior, e, como tal sou genuinamente caboclo. E faço questão de sê-lo, e me orgulho disso. Quem me conhece sabe que não troco uma ovas de acari-bodo pelas de um esturjão. Nasci na foz do Jutaí, onde meu finado pai possuía propriedade. Vivi lá os dias despreocupados de minha infância, de anzol n’água, virando tartarugas na praia, remando igarités, saboreando deliciosos “arabus”, comendo peixe na pá do remo.

Vim para Manaus para estudar. Cursei o tradicional Ginásio Amazonense. Interrompi meus estudos com a morte de meu pai. Modéstia à parte não fui mau aluno. De Manaus apenas sai poucas vezes, e quase sempre para Belém. O Rio de Janeiro, somente fui conhecê-lo há três anos.

Não tenho inclinações a Marco Polo. Sou caboclamente sedentário. Podem chamar-me de tabaréu, mas não existe cidade melhor do que Manaus. Sou amazonense de corpo e alma, e o Acapulco é tão amazonense quanto eu.

É que, naqueles tempos, nossa Capital, do ponto de vista de divertimento, se situava entre dois extremos: ou os clubes “fechados”, exclusivamente para os sócios, ou cabarés de ínfima categoria. E então eu já dizia aos meus amigos que, no dia em que eu tivesse recursos financeiros, haveria de criar, em Manaus, um night club que se igualasse, sob todos os aspectos, aos mais modernos existentes por todo o país. O Acapulco não foi, portanto, uma inspiração repentina, mas um ideal acalentado durante muito tempo. 

PIONEIRISMO E AMOR À TERRA

“O segundo motivo por que eu desejei deslocar a atenção e o interesse de meus conterrâneos para a periferia de nossa Capital, pois, até então era hábito nosso o restringirmos nossas atividades exclusivamente ao centro da cidade.

Quando adquiri o prédio meus recursos financeiros só davam para tanto. Foi uma audácia minha; mas um ideal audacioso sempre atrai simpatia. Foi o que ocorreu. Amigos cederam-me recursos para eu levar adiante meu plano. Elementos do Comércio e da Indústria forneceram-me material para pagamento em prazo mais dilatado. A imprensa e o Rádio, desde o primeiro instante, colocaram-se a meu favor. Nossa população deu-nos apoio de sua frequência, e, como toque final e decisivo tivemos a solidariedade indispensável das autoridades sobressaindo-se o Dr. Plinio Ramos Coelho, então governador do Estudo, o qual, autêntico bandeirante do progresso que compreendeu minha iniciativa de bem servir nossa terra, e prestigiou-a sempre, desde a inauguração do Acapulco, à qual compareceu para nossa honra, em companhia de seus auxiliares, até o término de sua fecunda administração.

Seguiu-se-lhe, então, o ilustre governador Gilberto Mestrinho, que também jamais nos negou a sua solidariedade, inclusive honrando o Acapulco, de quando em quando, com sua presença. Eis por que aproveito o ensejo para testemunhar a todos a minha Imperecível gratidão. 

CENTR0 TURÍSTICO

“Uma cidade, seja qual for, somente cresce, evolui e atrai riqueza pelo que pode oferecer, dentre outras atrações e vantagens materiais, de divertimentos, especialmente noturnos, onde qualquer um possa, de vez em quando fugir do cotidiano e esquecer-se das preocupações diárias.

Enquanto as autoridades, nossa população, a Imprensa e o Rádio continuam a prestigiar o Acapulco, tudo faremos para corresponder a pia confiança. 

ASSISTÊNCIA SOCIAL

Pessoas menos avisadas, formulando conceitos apressados, talvez julguem que a única finalidade do Acapulco é a de ganhar dinheiro às pamparras, para encher usurariamente pés-de-meia, colchões e “burras”. Mas não é verdade. Reafirmo o que já disse: tudo o que já ganhei no Acapulco nele tem sido empregado. Não possuo apartamento no Rio ou em outra qualquer cidade. Como não pretendo, jamais, me mudar de Manaus, tudo o que eu ganhar será utilizado aqui mesmo.  Naturalmente que sem lucro não poderia haver o Acapulco. Temos de ter sempre uma reserva para atender ao aleatório de nosso negócio. Afora isso o Acapulco emprega 60 pessoas, desde os trabalhadores de campo ao gerente. 

sábado, janeiro 08, 2022

ACAPULCO CLUBE (3)

Nesta crônica, Ramayana de Chevalier registra mais um tópico sobre o extinto clube Acapulco, espaço que por décadas iluminou as noites manauaras e foi fartamente desfrutado pelo autor. Publicada no Jornal do Commercio (11 setembro 1958). 

Recorte do mencionado jornal


Borocoxô (*)

Manaus é um rasgão teimoso no ventre da Amazônia. Criamo-nos, assistindo aos mais vibrantes fenômenos sociais do Brasil. Crescemos, e, aos nossos ouvidos, crepitavam as rolhas da viúva bendita, a Clicquot autêntica, numa saraivada europeia. Disse-me um dia o meu compadre P. T. Barba [dentista peruano radicado em Manaus], que como os bons parelheiros morrerá na pista, que, da esquina do atual Bar Americano, até a outra, onde borborinhava o Leão de Ouro, todas as noites havia um tiroteio de rolhas espoucadas, com o derrame desse leite do Olimpo, cujos efeitos levam o homem ao convívio dos anjos ou da polícia.

Manaus era coração elástico da selva. Crescemos ouvindo Lulu d'Alexandrowka (sic), o maestro Franco, escutando histórias de Sarah Bernhardt e Eurico Caruso, no Teatro Amazonas. O Lanfranc, o Ambrose, o Hilary [navios da Boothe Line] nos traziam a melhor refrigeração de Londres, e levavam de volta, aquela loirinha que era considerada por eles a melhor cerveja d0 mundo, a XPTO do tempo do Antonino Miranda Corrêa, cevada e lúpulo da Eslováquia tranquila.

Mulheres? Oh! que mulheres! Vinhos? Reno, falai, Itália, murmurai de amor! Música? Que professores! Que artistas! Depois, a pobreza nos constrangeu. Não vivemos de saudades. Mas não temos nada que aprender com ninguém. Basta lembrar-nos. Hoje, nossas mulheres são elegantes de nascença, sabem pisar, sabem falar, sabem amar. Nossos rapazes joviais e corretos, leais e amigos. Basta lembrar. Essa a grande fortuna do Amazonas. Infeliz daquele que veio da sombra do vazio.

Mas, o motivo especial desta crônica é abraçar ao Mário de Oliveira. O Acapulco é uma bênção na delícia úmida da noite baré. Elegantíssimo, suave, seleto. Corre ao lado das grandes boates do país. Mário de Oliveira forma ombro a ombro com Carlos Machado e Zilco Ribeiro. É um dueño de la noche. A noite de Dalvinha de Oliveira foi excelente. Passou a tempestade que impuseram a ela, nas intrigas cariocas. Inveja. De sua voz, de sua bondade, do que ela já viu pelo mundo. Dalva é um padrão de glória da música popular. Ela e a Sapoti, hoje madame. Linda noite.

Mas as anedotas do Abelardinho Matos estiveram em sessão espírita. Incorporaram no homem, depois de um século n0 astral. Já caducou no Lidador, na velha Bhrama, que hoje espera o seu arranha-céu. E sujas. Convenhamos, não é para uma boate exclusivamente familiar, onde se reúne a fina flor da nossa gente. Não há preconceitos em Manaus. Nós tesouramos uns aos outros com rara habilidade e constantemente.  Dá uma bruta saudade quando estamos fora, não sentir as formigas nos tosando a pele. É gostoso... Até envaidece!

Mas, daí a ouvir anedotas velhas, arcaicas, reumáticas, e, além disso, indelicadamente obscenas, vai uma enorme diferença. Essas anedotas são ótimas numa noite no Teatro República, em terça-feira de carnaval, ou no bar do Belmiro, ali na República Livre do Posto 6, pertinho da TV Rio. Só dá malandro, resto de gente, a safra das profundas noites cariocas. Para o Acapulco, é pago, a coisa é diversa. Quem não tem nada o que fazer em Manaus, toma um avião direto para o Rio. Antigamente, ia-se a Paris e a Londres, para desfastio. Hoje, vive-se na Atlântica, como se fosse ali, na BR17...

(*) Informando que o texto original sofreu a necessária correção ortográfica.

terça-feira, janeiro 14, 2020

JANE BLAUTH (1937-2012)


Jane Blauth da Costa (Passo Fundo-RS, 1937 – Porto Alegre-RS, 2012). Bailarina e professora de dança clássica. Inicia seus estudos em dança clássica, aos 11 anos de idade, em Porto Alegre, com Tony Petzhold (1914-2000) e, em seguida, com Marina Fedossejeva (1918-1984). 
Mais detalhes podem ser recolhidos no site abaixo:
JANE Blauth. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: . Acesso em: 14 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7


E a performance dessa artista seguiu pelos palcos da América do Norte, Europa e países do Oriente Médio, ou seja, pelo Mundo. Retornou ao Brasil e, depois de sucesso no Rio e São Paulo, recolheu-se a capital gaúcha, onde seguiu ensinando esta arte até que o sopro da vida se extinguisse, em 2012.
Jane Blauth

Quero registrar um fato que não encontrei nos assentamentos dela buscados. Blauth esteve em Manaus-AM, em 1961, tendo se apresentado no night-dancing Acapulco, como bem descreve o autor do texto. Trata-se de Ramayana de Chevalier, então secretário de Administração do governo Mestrinho (1959-63), divulgado no jornal A Gazeta (edição de 30 maio 1961).



A GAZETA, 30 de maio de 1961

TODOS se recordam dessa figurinha de Tanagra que iluminou, por algumas noites, o Acapulco e se chamava Jane Blauth. Fazia pendant com o coreógrafo Marcos. Dentre os números triviais a qualquer night-dancing, os de Jane eram puros, harmoniosos, estéticos, artísticos. Sabia bailar. E o que é mais: com a leveza das plumas humanas que Deus cria, para o embevecimento dos corações. Jane Blauth adorou Manaus. Morou, durante a sua temporada no Hotel Amazonas. Ali convivíamos, os almoços festivos, nos jantares íntimos, antes da partida para o Aca [sem definição]. Sua figura marcou.
Não era uma criatura vulgar, dessas que enchem a bolsa e esvaziam o espírito. Não. Jane tinha talento, sensibilidade e beleza. Dançando a “javarde” dos apaches de Paris, era a Mimi Bluette. No charleston parecia um desenho animado, colorido, que falasse. Todos os seus gestos lembravam um cantinho de Paris, nas imediações da Église de la Madeléine. Delicada, nervosa, estuante, encantadora, Jane Blauth encheu um capítulo da boemia manauara, com fulguração.
Livre como um pássaro solto, ela era de família rica do Rio Grande do Sul. Poderia estagnar-se como uma boneca de vitrina social, posar para o tédio dos caçadores de momentos flutuantes. Mas Jane tem um ideal, um caminho, um sonho. Quando o seu sorriso se abria para as noites amazônicas, eu sentia dentro dele um código secreto de inteligência. Ela não buscava a fortuna, não queria a admiração rotineira de um instante. Procurava ressonâncias, ansiava pela repercussão do seu incêndio interior, delirava por um romance. Ave de arribação do sonho límpido, resto de entusiasmo da “belle époque”, mulher, cem por cento mulher, integralmente artista, perfeita. Como os mergulhadores do Caribe, ela se aventurava nos oceanos da vida, buscando emoções, colecionando aspectos.
Jane Blauth

Quando Jane passou pelo Aca, ninguém julgou que ali ia um jardim de carícias, uma flor exótica do talento brasileiro. Depois, Jane viajou. Há quatro dias passados, voltou de Los Angeles o meu amigo Carlos Ribeiro. Chuviscava e eu tomava sorvetes no Lord [Hotel]. Saíra de um drama de Victor Mature, esse garotão que finge de teatro. Carlos me transmitiu um abraço de Jane Blauth. Ela ainda se recordava deste pobre cronista, em Hollywood, onde ela se encontra atualmente. As notícias me comoveram. Jane chegou lá e começou a frequentar a American School of Dance», no Hollywood Boulevard. Não demorou três meses e foi dada como completa. Já havia nascido “ballerina”. Era uma vocação em marcha. Deslumbrara os mestres norte-americanos. Dali, ela passou para o Hollywood Concert Balla, na New Western Avenue, sob o comando de Gene Marinaccio, aquele que foi o primeiro bailarino do Marquês de Cuevas. Rejeitou uma oferta-contrato de dois anos, para São Francisco da California, por considerar-se ainda crua na arte coreográfica. Hoje, está ensaiando um balé sem música, de Poulenc, sobre um tema de escultura de Rodin.
Fiquei com o coração alegre com as notícias. Jane, para mim, foi uma ave levíssima, encantando-me a tristeza tropical. Sua passagem pelo Amazonas foi um rastilho de beleza e de sensibilidade. O seu sorriso era uma rosa de primavera e os seus gestos, lânguidos ou nervosos, amaciavam os olhos e o espírito. Dentro da noite suave e lacrimosa, tive saudades da Jane. Parecia vê-la, dentro das trevas amazônicas, cruzando as ruas como um fio de luar. De corpo civilizado, tépido e sinuoso, de músculos treinados no ritmo e na graça, Jane Blauth foi uma centelha de cultura, em trânsito pelo equador. Aprendi, com ela, um pouco da arte de negligenciar, de aspirar sempre mais alto, de considerar a vida uma dependência da nossa vida e do nosso desejo. Ela venceu em Hollywood. Não se mistura com os indígenas de lá. Leva consigo uma paisagem própria, tecida em noites deslumbrantes e mágicas.
Sempre senti nela uma vitoriosa. O público de elite a aplaudiu em Manaus, calorosamente. Durante muitos dias, foi ela um complemento imprescindível aos notívagos-estetas. O Acapulco deve-lhe um retrato em sua sala de artistas. Espero que Jane o envie de Hollywood, para o nosso night-dancing. Ela veio num bloco do Teatro Municipal. Havia tentativas, promessas, realidades. Havia veteranas, que prosseguiam no seu destino, iniciantes, que se benziam antes da pista. Jane Blauth era um luar convicto. Linda e suave, de olhos de turquesa, de sorriso primaveril, doce como um fruto maduro, adorável como um momento lírico, ela afirmou a sua classe e perfumou a sua passagem como um lírio. Estou pleno de saudade, orando pela felicidade da tanagrina do balé do Aca. Sei que, talvez, ela jamais retornará a Manaus. Pretende ir à Rússia, à Londres, ao céu. Tenho certeza de que um dia, na vertigem do destino, encontrá-la-ei, deliciosa e lânguida, no Rio de Janeiro, dentro das noites densas e fascinantes. Olhar-nos-emos mudos, antes de falar. Antes de reencontrar num abraço divino, aquela que, por algumas noites, me tornou mais crente na infinita bondade de Deus, e no imenso prestígio da fascinação estética.
Se um dia interpretarem, fielmente, a Ifigénia de Gluck, eu verei Jane Blauth no palco, volteando como um fio de luar, imortalizada pelo seu talento e gotejando sonhos nos corações românticos e simples. Quero vê-la assim. E quando eu desejo alguma coisa, só o Diabo consegue me perturbar, e assim mesmo maconhado.

sexta-feira, abril 01, 2016

ACAPULCO NIGHT CLUB

Recorte de O Jornal, 7 setembro 1958
Com esta postagem espero contribuir, ainda que de forma acanhada, para a história das casas de diversão noturna, que embalaram a capital amazonense no século passado. O Night Club Acapulco foi uma surpresa deleitosa na cidade e, por isso, segue suplicando que um abnegado estudioso restaure condignamente sua memória.

Registro que tive a regalia de frequentar este point, ainda que em via de desmanche. Portanto, sem as sutilezas descritas por um aficionado de suas noites de sonhos e magias.

O aficionado que nos descreve a majestade do Aca, como carinhosamente tratava o dancing, é o saudoso Ramayana de Chevalier, que desfrutou vivamente desse período. Seu hábil testemunho foi a público em artigo intitulado “Fog”, constante de A Gazeta, de 10 out. 1961.


"Fog"

É PRECISO amar as nossas paisagens, entusiasmar os que nos visitam com o colorido original das surpresas amazônicas. Ninguém sabe o que seja o Acapulco, essa fatia de sonho acantonado num remanso da rodovia AM-1 [hoje, AM 010]. Tudo tem a sua história. Arrisco-me a contá-lo.

O arrojo de Mário de Oliveira foi o de um visionário. Sonhou, sofreu, viveu o seu sonho. Quis dar a Manaus uma casa de elite, onde fosse proibido falar em decepções, em mágoas, em desencantos. No Aca, só as luzes falam. Os homens e as hienas, só cochicham. A música, através de um conjunto e uma estereofônica respeitável, derrama insinuações na meia penumbra clássica dos night-dancings. As paredes do Acapulco são decoradas com sóbria elegância. Os apliques das muradas artísticas, sem alarde, fazem o seu papel de completar o sonho.

Bem disposto, com seu amplo salão de permanência, a sua pista, há nele uma iniciativa de teatro sem pretensões, de palco de experiência, de passarela de ensaio para um concurso de elegância. A cozinha, primorosa, os garçons bem postos, alinhados, solícitos.

Lá para dentro, a gerência e o amplo salão de tentações verdes, onde a alma se queima nos banquetes de Midas. Ali, um sussurro, que parece vindos dos subterrâneos de Tibério, a conjuração das fichas, o murmúrio que enlaça os sentimentos e hipnotiza os seus aficionados. (...) 
De longe, à margem da estrada, sobe como uma prece a música do Aca. Dentro dele, na meia-luz aconchegante, passam vultos que lembram a fascinação de Natacha, a eterna. Conheço várias das grandes capitais do mundo. Mário de Oliveira poderia ter localizado a sua boate num sobradão vetusto do centro urbano. Fá-lo-ia moderno, com a sua escada, o ruído da cidade próxima, a frequência dos notívagos perdidos, a mesmice das outras. Ou teria construído um inferninho à beira da calçada, servindo de pasto às reclamações dos vizinhos cochilantes, ou de criaturas sem rumo.

Mário de Oliveira preferiu o amplo seio da floresta. Fugiu do calor, da promiscuidade, das vizinhanças incomodas, do terra-a-terra provinciano. Ergueu a princesa dos seus sonhos, num recanto quase bárbaro. Transportou o México para Manaus e presenteou-o à nossa melhor sociedade. Ali se tem visto os mais renomados artistas do Brasil. Os retratos, da galeria íntima do Aca, atestam isso. Ainda há alguns dias, Rodolfo Meyer, deslumbrou os seus frequentadores com um espetáculo magistral. (...) 
Recorte de O Jornal, 4 dez. 1960

A coleção de discos da boate é simplesmente admirável, E, às vezes, surge por lá o Tical, com a sua voz embaladora, ou está sempre a postos o Little Box, esse diretor artístico civilizado e sutil, que é também um dos melhores croners que eu já escutei em tantos lugares. 
Mesmo nos dias de semana, véspera de trabalho fatigante, há os que se habituaram à quietude de uma frequência discreta e simples. Já não existe o deserto semanal, na boate. O mistério, a solidão harmoniosa, os grupos dispersos mas simpáticos, a amizade à sombra da melodia estonteante, a dança, o suave enlevo das madrugadas deslizantes, tudo seduz e chama no Acapulco, como a confissão das gargantas suicidas. A romaria dos automóveis é constante, os seus faróis, acesos à descida da rampa, dão à sala crepuscular, tons de incêndio brusco. Os romances se asilam na sombra mansa, os olhos se procuram, os corpos se compreendem, nos melhores blues do mundo. À penumbra, um copo de sonho escocês, a mulher maravilhosa natacheando numa dança meiga, a música, às vezes, lá fora, o luar, assim é o Acapulco.
Mas eu desejava falar das madrugadas densas, quando a neblina fantasia vestidos de noiva nas árvores e nos lampiões. O Amazonas é assim. Toma-se um carro, vai-se às estradas, e volta-se com frio. Na época das chuvas, os desvãos se cobrem de um turbante cinzento, quase branco, como se os fantasmas andassem visitando encruzilhadas. Os casais lá se vão, tiritando dentro dos carros, rumo à Pasárgada.  
Nessas noites, o Acapulco é um deslumbramento. Cercado de fog, como um romance britânico. Dançando, vê-se, por entre os olhos, a cerração tão próxima, a lembrar esperanças desfalecidas na selva.

Ao redor de nós, a doçura dos blues, a voz ondulante de Little Box, os pares se amando pelo pensamento, nos contatos ideais, e o paraíso de Mário de Oliveira abrigando os que gostam da vida, os que amam a vida, os que sabem viver. O Acapulco é um patrimônio do Amazonas. Não poderá morrer jamais, como não morrem as coisas boas desta terra incomparável, às vezes esquecidas, mas sempre no coração do povo.  
Quando alguém estiver com uma úlcera na alma, dessas incuráveis, vá ao Acapulco. Mas vá “avec”, debruçado num sonho humano. Então, todas as dores se diluirão, na magia dessa casa acariciante, tão amazonense, tão cabocla, tão nossa...  *