CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quinta-feira, abril 30, 2026

LUZ QUE RENOVA


Renato Mendonça

 

Capa do livro

 Ainda caminhamos pelo tempo pascal, como quem percorre uma jornada em plena primavera da alma renovada. A Quarta Semana da Páscoa não é apenas um marco no calendário litúrgico. É uma réstia de luz que insiste em nos lembrar que esse é o tempo da renovação, e mais precisamente da vitória da vida — a ressurreição de Jesus, três dias após sua morte na cruz.

Resgato a ideia de um conto que escrevi há exatos cinco anos, publicado no livro “Pedrinho e Suas Estórias”, endereçado aos eleitores infantis.

No jardim da memória, a Páscoa surgia como uma chama antiga. Em priscas eras, falava-se apenas da ressurreição de Cristo — o túmulo vazio, a pedra removida, o milagre que fez da morte um portal para a vida. Mas, ao longo dos séculos, outros símbolos se aproximaram: o coelho fértil idealizado pelos alemães, os ovos franceses pintados à mão, depois moldados em chocolate. Chegaram como visitantes de terras distantes, trazendo consigo a promessa da fertilidade e da primavera — simbolizando também o equinócio no Hemisfério Norte.

Mas o comércio, com sua voz estridente e loquaz, acabou por abafar o cântico suave da fé. O que deveria ser sinal de fertilidade e esperança tornou-se vitrine de consumo, túnel de ovos suspensos, espetáculo para os olhos infantis, mas vazio para o espírito. Os ovos, antes frágeis cascas coloridas, converteram-se em recipientes de brinquedos e excessos. Os túneis de chocolate pendem nas lojas como se fossem templos de consumo, mas neles não há o recheio da fé.

A festa que outrora se erguia como testemunho único da vitória de Cristo sobre a cruz foi, ao longo dos séculos, adornada apenas por símbolos que vieram de terras distantes. No entanto, a verdadeira Páscoa resiste. Ela não se vende, não se embala, não se pendura em prateleiras. Não se deixa aprisionar. Ela é como o sol que, mesmo encoberto por nuvens, insiste em nascer a cada manhã. É o Cristo que, após três dias de silêncio, rompeu a escuridão do sepulcro e fez da cruz — outrora instrumento de dor — uma luz que se renova, uma ponte luminosa entre o humano e o divino.

Cabe a nós, guardiões da fé, resgatar o sentido primeiro desta celebração. Lembrar às crianças que o maior presente não cabe dentro de um ovo, mas pulsa no coração solidário dos pais e avós, que se abre à esperança. Cabe a nós ensinar que a Páscoa é mais que festa: é aurora que nunca se cansa de nascer, é o jardim da ressurreição que floresce dentro de cada alma. Eles não precisam rejeitar o doce do chocolate, mas não podem esquecer o sabor da religiosidade.

Que cada ano seja, então, um renascer. Que aprendamos com o sol sua missão de voltar sempre, e com Cristo sua promessa de vida nova. Pois a Páscoa é mais que uma data: é o milagre que se repete, é a aurora que nunca se cansa de nascer.

É o milagre da vida!

sábado, abril 04, 2026

MALHAÇÃO DO JUDAS

 Esta prática me fez recordar talvez a única em que colaborei com os colegas vizinhos para expor o boneco em minha casa, que possuía uma varanda no alto, portanto bem visível e protegido. Meu genitor não permitiu, acabando com  o festejo no início. As considerações abaixo pertence ao colaborador Renato Mendonça.

Foto do jornal O São Gonçalo (RJ)

A malhação do Judas já foi — sobretudo nas cidades metropolitanas da região Sudeste — uma das mais celebradas tradições populares da era cristã. Em alguns estados do Norte e Nordeste, o ritual ainda permanece vivo, como chama que resiste ao vento do tempo e da indiferença. Possivelmente trazida pelos colonizadores, a prática acontecia nas primeiras horas do Sábado de Aleluia, simbolizando a execração de Judas Iscariotes — o traidor que vendeu Jesus Cristo por trinta moedas, conforme narra o Novo Testamento.

Recordo com saudade os bonecos de pano — de tamanho humano, recheados de palha ou de roupas velhas — que se tornavam a efígie da traição. Muitas vezes, não representavam apenas Judas, mas também figuras públicas impopulares, vizinhos indesejáveis ou personagens da comunidade que, inevitavelmente, eram surrados e queimados. Preparados na noite silenciosa da Sexta-feira Santa, surgiam pendurados em postes ou árvores, à espera da multidão de adolescentes e meninos que os malharia ao amanhecer.

Alguns traziam testamentos bem-humorados — sátiras afiadas, críticas sociais, mensagens à comunidade. Eram bilhetes que explicavam quem o boneco representava, transformando o ritual em catarse coletiva: expiação das indignações acumuladas ao longo do ano. Ali se misturavam motivações religiosas e sociais, fé e protesto, devoção e humor.

Para as crianças, era festa e rito ao mesmo tempo — o fim da Quaresma, a chegada da Páscoa, e, sobretudo, a expectativa pelos presentes de chocolate. Para os adultos, era também um exercício de crítica, uma forma de dar corpo às frustrações e queimá-las junto ao boneco.

Apesar de sua forte ligação com o catolicismo, a malhação do Judas revela a capacidade do povo de ressignificar tradições — mesclando elementos sagrados com o riso, a sátira e a denúncia. Hoje, porém, a prática é alvo de críticas: alguns a consideram retrógrada. Ainda assim, permanece como expressão viva da cultura popular brasileira, celebrando a renovação da fé e o renascimento pascal, ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre as injustiças que atravessam a sociedade.

O simples ato de recordar a passagem bíblica já é, em si, uma vitória contra o esquecimento em tempos de crescente ateísmo. O rito carrega valor cultural profundo: é a forma como o povo expressa indignação, personifica a traição e a injustiça, e as expurga fisicamente na figura de Judas. Se quiséssemos ampliar o sentido da celebração, poderíamos escalar tantos outros “judas” do mundo político — os corruptos e os traidores da pátria, principalmente — e malhá-los nas urnas, como quem transforma o voto em instrumento de purificação.

Nos tempos modernos, em meio às influências globais que nos atravessam, manter práticas como essa é preservar raízes e bom senso. A malhação de Judas pode ser também metáfora universal: execrar os “judas internacionais”, os traidores da humanidade, que se multiplicam em diferentes formas e em diversos países. Sem ideologias ou fundamentalismos, cabe a nós escolher quais sombras nefastas precisamos abolir de nossas mentes e corações.

Assim, cada boneco queimado é mais do que um espantalho de pano: é a imagem daquilo que precisamos deixar para trás. É a sombra da caverna de Platão que se dissolve no fogo, abrindo caminho para a luz da Páscoa — a vitória da vida sobre a morte, da esperança sobre a desesperança. A vitória da Justiça e da Fé!

domingo, abril 21, 2019

DOMINGO DE PÁSCOA




Desde ontem reboam as aleluias da Ressurreição. Com as primeiras notas festivas do belíssimo cântico triunfal “Exsultet”, ondas de júbilo encheram o recinto sagrado de nossos templos. Com o canto solene do “Gloria”, bimbalharam os bronzes sonoros de nossas igrejas e retiniram longamente as campainhas, numa orquestração maravilhosa que traduziu bem o estremecimento de um túmulo e o despedaçamento de uma laje sepulcral. Era Cristo, o Vencedor da morte, que ressurgia glorioso e triunfante, alagando de luz a sepultura e aparecendo vivo, redivivo, majestoso e imortal, numa culminante fulguração de glória!
O celebrante das sagradas funções, depois dos primeiros epinícios, passada a primeira retumbância de júbilo, entoou pela primeira vez, solenemente, e repetiu por mais duas vezes, o festivo “ALLELUIA”, pomposo estribilho dos regozijos pascais.Aleluia! Aleluia! E se os bronzes das torres e as campainhas dos altares prorromperam em músicas de triunfo, não temos expressões para dizer das sinfonias de nossos corações, sinos que têm vida e emoção, a bimbalhar vitoriosamente nos altos campanários das inteligências e dos espíritos...
A Liturgia Católica tem isso de extraordinário: não recapitula fatos de dois mil anos, renova-os admiravelmente, como se produzidos pela vez primeira! Nós, sacerdotes e cristãos, no desenrolar de tão imponente e sugestivo das cerimônias, sentimos que somos Apóstolos e Discípulos, e que nos dizem respeito todas as cenas da vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo! 
Como sinalizado, trata-se da abertura do artigo do falecido padre Nonato Pinheiro, circulado em A Gazeta (9 abril 1955), alegrando-se com a Páscoa do Senhor. Finaliza com a exortação:
Guardemos estas palavras proféticas de Ezequiel, e saibamos que só os lábios divinos de Jesus as podem proferir, como Senhor da Vida e Triunfador da morte: Eis que eu abrirei os vossos túmulos, e vos farei sair de vossos os sepulcros!...