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quarta-feira, junho 10, 2020

MAESTRO NICANOR PUGA (1951-54)

Tenente Nicanor Puga

A postagem trata de mais um mestre da Banda de Música da Polícia Militar amazonense. Na condição de 2º tenente, Nicanor Puga Barbosa conduziu aquela corporação musical entre 1951 a 1954. Coincidência ou não, durante o governo de Álvaro Maia, cuja administração não primou por bons rendimentos. O Estado continuou com dificuldades acerbas, cuja extensão atingiu a Polícia Militar e, por extensão, a Banda. Daí inferir que o tenente Nicanor apenas se empenhou em manter o dispositivo encontrado.  
Ao exonerar o tenente Lyra, o governador interino Júlio de Carvalho Filho promoveu o 1º sargento Nicanor Puga Barbosa, “por merecimento intelectual”, ao posto de 2º tenente músico, em 17 de janeiro de 1951. Nesta função, ele se manteve até 4 de maio de 1954, quando foi transferido para a reserva.

Registro em livro histórico
Nicanor possuiu alongada relação, interligada por familiares, com a Banda de Música estadual. Desde a virada do século XX e, com garantia, até agosto de 1967, os Puga (este breve e peculiar sobrenome) ancoraram no Amazonas a música marcial, tanto na Força Policial quanto na Força de Terra. A linhagem emana do genitor, o espanhol Manuel Puga Rivera, que puxou a fila tocando e ensinando a arte musical na marajoarense Soure (PA). Evoluiu com tenacidade e, mudando-se para a capital paraense, participou ali da Banda de Música da Polícia Militar.
Nem sequer a família conhecia o detalhe: certo dia o espanhol Manuel Puga desembarcou em Manaus. Logo arranjou emprego no Batalhão Militar do Estado, como músico de 1ª classe. O único assentamento existente sobre este músico registra que ele foi “encostado” (admitido) em 1922 e que, na ocasião, tomou o nº 12. Ainda não se denominava engajamento a renovação de tempo no serviço militar, mas, sim, contrato, que acontecia a cada dois anos. Dessa maneira, em 1º de abril de 1924, Manoel Puga teve o contrato rescindido. Para situar a conjuntura estadual, era governador o memorável desembargador Rego Monteiro, que estimulou com seu desgoverno a Rebelião de Ribeiro Junior (julho de 1924). Rivera morreu possivelmente em 1930, em Manaus. 

Nicanor, filho do citado músico e de Honorina Puga Rivera, nasceu em Soure (PA), em 29 de maio de 1918. Aos 12 anos ficou órfão paterno, esta adversidade o levou a aprender música com o mestre Agostinho Palheta, que fora aluno de seu pai. Em Manaus, realizou a formação escolar no Colégio Rui Barbosa, que existiu na avenida Sete de Setembro. Em 1934, aos 16 anos, ingressou na Banda de Música do Corpo de Bombeiros de Manaus, relembrando que nesse período a Polícia Militar seguia desativada. Quando da reativação desta, dois anos depois, a mesma banda foi incorporada à Força estadual. Nicanor possuía domínio sobre instrumentos de sopro, destacando-se no clarinete.
Fragmento do livro de alterações do então sargento Nicanor

Católico fervoroso, aos 24 anos, casou-se com a professora Marina dos Santos Puga Barbosa (diretora de colégios, do GE Getúlio Vargas por largo período), com quem teve os filhos: Sebastião (padre, já falecido); Mário (funcionário do TCE/SP, falecido); Francisco (professor doutor aposentado); Maria do Perpétuo Socorro (aposentada da Ufam); Alberto (advogado e professor da Ufam); Zeneida (médica) e Rita Maria (professora doutora/Ufam), residiu na rua Comendador Clementino.
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Desse período, Cleomar Feitosa, dirigente do Coral João Gomes Junior, então aluna do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), recorda-se que toda quinta-feira, pela manhã, a Banda do tenente Nicanor comparecia àquela escola para o momento cívico. Os alunos postados em frente ao Instituto cantavam o Hino Nacional, enquanto era procedido o hasteamento da Bandeira. Com a aposentadoria deste mestre de música, modificou-se a solenidade, hoje desaparecida em geral.
Apesar de meus esforços, nada encontrei deste maestro, senão o que a corporação detém, os registros funcionais, os dados que se intitula em quartel de “alterações”. Nenhuma fotografia ou partitura ou arranjo elaborado foi possível recuperar. Como afirmei acima, os tempos de exercício profissional foram de acentuada indigência, certamente com a Banda cumprindo a rotina.
Anotação do decreto de reserva, constante de livro existente
no Arquivo Histórico da corporação (maio 1954)

Após ingressar na inatividade em 1954, Nicanor ensinou música no Seminário São José (do qual fui seu aluno). E dedicou-se à educação de filhos e netos, falecendo em Manaus (AM) a 17 de setembro de 1997, aos 79 anos.

segunda-feira, junho 08, 2020

MAESTRO ERNANI PUGA (1963-67)


A Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) provou da eficiência de três membros da família Puga. A do fundador da família, o espanhol Manuel Puga Rivera, e a de seus filhos Nicanor e Ernani. 


Cuido nesta postagem deste último Puga, que foi músico da Banda com a surpreendente idade de 12 anos, e, bem mais adiante, mestre da corporação musical entre 1963-67. E, antes que prossiga, devo assinalar que os descendentes indicados de Manuel exerceram a regência.
Identidade de Ernani Puga, expedida pelo 27 BC

Ernani nasceu em Manaus (AM), em 29 set. 1909, filho primogênito do espanhol Manuel Puga Rivera (músico) que, de Soure, no Marajó, foi para Belém, onde participou da Banda de Música. Vindo para Manaus, Rivera ingressou na Banda local e, enquanto servia, Ernani foi incluído nela como músico de 3ª classe, mediante contrato de 31 out. 1921. Tocou até 1º abr. 1924, data em que o contrato foi rescindido, note-se, três meses antes da notória Rebelião de Ribeiro Junior (acontecida em julho). Desse modo, o jovem Ernani participou do corpo musical durante o governo de Rego Monteiro (1921-24).
Ernani Puga seguiu exercitando a arte musical, com esse atributo ingressou no Exército, integrando a Banda do 27º BC (entidade ícone da Força de Terra aquartelada em Manaus, e nela alcançou a reserva do Exército, como 2º tenente, em 1958.
Em 1963, Plínio Ramos Coelho assume o governo e nomeia comandante da PMAM, o 1º tenente PM Alfredo Barbosa Filho, comissionado no posto de coronel. Tantas lambanças ensejaram que ambos fossem cassados, no ano seguinte, pelo Governo Militar. Como a corporação musical encontrava-se sem maestro efetivo, o último fora o maestro (civil) Dirson Costa, Barbosa convidou ao Ernani Puga para a função, a qual assumiu em 6 mar. 1963, na condição de 2º tenente. Puga solicitou dispensa deste encargo, em 16 ago. 1967.

Nota musical - A proeza do garoto Ernani Puga acima enunciada ofereceu o mote à revista Weril (fabricante de instrumentos musicais) para homenageá-lo, quando este dirigia a Banda de Música da PMAM. A revista foi editada em São Paulo, no primeiro bimestre de 1964, e o exemplar aqui mostrado pertence aos familiares do saudoso maestro. Encontra-se bastante danificado pelo tempo, razão pela qual a reprodução mostra algumas lacunas.

Fragmento da revista Weril, homenageando ao maestro Ernani Puga, vendo sua rubrica 

Do mundo de fascínio e encantamento que é o Amazonas para os brasileiros do Sul, trazemos hoje para nossos leitores o 2º Ten Mestre de Música da Polícia Militar do Estado do Amazonas – Sr. ERNANI PUGA, cujos méritos se estenderam no honroso convite que lhe foi endereçado pelo coronel comandante Alfredo Barbosa, para que (ilegível) organizasse a Banda de Música da Milícia Amazonense. 


PEQUENA BIOGRAFIA
Em Manaus (...) A infância ... (ilegível)

HASTEANDO A BANDEIRA
Qual a criança que não se entusiasma pela movimentação de tropa principalmente quando ela vem precedida por uma Banda de Música. Assim era, também com o menino Ernani. O seu encantamento fora do comum, pressagiava o futuro brilhante que tem sido toda sua carreira.
Pois é, encontrava-se, naquela época, fins da Grande Guerra de 1914 a 1918, acantonado em Soure, como guardião do Território Nacional, o 26º Batalhão de Caçadores. Todos os dias às 6 e às 18 horas procedia à cerimônia de hasteamento do Pavilhão Nacional com formatura geral da Unidade, tendo à frente a Banda de Música.
Lá estava o menino-músico, olhos e ouvidos atentos escutando comovido o “Capitão Caçula”, dobrado de todos os dias, executado pelos comandados do 1º Sgt Artur Napoleão Soares, músico de grandes dotes, autor do dobrado “26º Reorganizado”.

MÚSICO MILITAR AOS ONZE ANOS
Ernani, aos 12 anos, com
farda da Banda de Música
Por mais incrível que pareça – e não temos notícia de outro caso semelhante – o Maestro Ernani foi engajado na Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas com apenas onze anos de idade, precisamente no dia 31 de outubro de 1921, conforme atesta o Boletim Regimental nº 305, daquela data.
Bom, esse ingresso não deixou de ter o seu lado pitoresco. A apresentação daquele menino ocasionou uma celeuma no Quartel, muitos consideravam um absurdo o engajamento com tão restrita idade.
O coronel Manoel Martins Ribeiro, oficial da arma de Artilharia, capitão comissionado coronel comandante da Polícia Militar, estabeleceu o seguinte teste: executar, em conjunto com a Banda de Música, dois dobrados militares. A Ernani foi entregue uma requinta em mib, de 16 chaves e ele, sem hesitar, provou sua capacidade de integrar o conjunto. Aprovado, foi incluído na Banda como músico de 3ª Classe.

CONTRA-MESTRE NO EXÉRCITO
Em 1928 transferiu-se para o Exército, realizando assim um velho anseio de servir à Pátria de forma mais ampla. Mas as coisas não eram tão fáceis.
Ingressou como recruta e teve o preparo de combate durante nove meses, até o término do ano normal de instrução para poder ser classificado como músico.
Mas esse tempo não foi desperdiçado; nas horas vagas se dedicava com afinco ao estudo de seu instrumento. O esforço foi recompensado: logo após sua inclusão na Banda prestou concurso e passou a músico de 1ª Classe.
Os anos foram passando e Ernani Puga sempre músico na melhor acepção da palavra, estudava e estudava, alentando a oportunidade de prestar concurso para contramestre.
Por fim a oportunidade. Em 1942, na sede da 8ª Região Militar, em Belém, foi aprovado e, em 26 de maio de 1944, ei-lo promovido a 1º Sargento Contramestre.
 
Carteira do Clube de Oficiais, 1958
O BOM FILHO À CASA TORNA
Cumpriram-se os 25 anos de bons serviços, com uma folha invejável, que lhe outorgava o direito de descansar. A reserva é o prêmio, representada no posto de 2º tenente. Mas Ernani Puga, apesar de merecer insofismavelmente o descanso, não iria gozá-lo.
O coronel Alfredo Barbosa [1963-64], atual comandante da Polícia Militar, vendo a situação em que se encontrava a Banda de Música da corporação, convocou o Maestro Ernani Puga com o apelo de que se fazia necessária à sua capacidade sobejamente conhecida de músico e condutor de músicos.
O Maestro Ernani sentiu-se comovido com esse honroso convite. Aquela Banda que em primeiro lugar (ilegível) o ajudara a dar corpo a sua alma de artista, merecia a sua dedicação, o seu entusiasmo.
Mãos à obra foram logo postas. Reajustou o Maestro Ernani o quadro efetivo de músicos, reformulou a forma militar para um estilo impecável e agora se dedica plenamente à execução do repertorio clássico, com o qual procura proporcionar maiores conhecimentos musicais a seus comandados. Os frutos estão vindos, e eles adornarão ainda mais a carreira desse dedicado músico patrício.

HOMEM REALIZADO
Apesar da vida espinhosa, o Maestro Ernani Puga pode se considerar um homem realizado. Quando assumiu a regência da Banda do Exército, encontrou-a dizimada: de um efetivo de 26 músicos graduados, só existiam 13. Conseguiu soerguer a banda e alcançar notoriedade nas solenidades do Centenário da Cidade de Manaus [1949], quando realizou um concerto no Teatro Amazonas.

ELOGIOS
Além de sua bagagem musical, que é digna de maior consideração, o Maestro Ernani Puga é um músico que se projetou inclusive através das referências que lhe foram feitas... (conclusão indisponível).

domingo, junho 07, 2020

CORPO MUSICAL DA PMAM


A Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas, criada a partir do decreto 11/1890, em consonância com o Relatório de 3 de junho de 1893, do comandante major Raymundo Affonso de Carvalho, e, ainda, o disposto na Lei 3.514/2010 (LOB/PMAM), passa a ter a denominação de Corpo Musical 1º Tenente Joaquim/C Mus, com as prerrogativas de Companhia Independente.
Músicos da Banda no coreto da Praça da Polícia

Muito bem. Não obstante uma NGA (NORMAS GERAIS DE AÇÃO) não possuir força de lei, acredito que este pormenor já foi superado, pois, dez anos são passados desde sua promulgação.
A Banda possui, enfim, denominação e data de fundação. Agora se trata de Corpo Musical, e o nome escolhido foi o do tenente Joaquim Henrique de Souza, que a conduziu no período de 1954-60. Tratou-se de mais um cearense, nascido em Santanópolis em julho de 1922, a reger essa corporação musical. Joaquim ingressou na PMAM e diretamente na Banda em 1948, deve ter chegado com largo cabedal de música, pois, seis meses depois (fevereiro de 1949) foi promovido a 1º sargento, e a subtenente em dezembro de 1953.
O ano seguinte foi marcado pela disputa eleitoral, no meio da qual houve troca de governador e de comandante da PMAM. Nesse panorama político, Joaquim foi promovido a tenente músico, por merecimento, em 11 de junho de 1954, na vaga do tenente músico Nicanor Puga Barbosa (avô do atual Reitor da Ufam: Sylvio Mário Puga Ferreira).
Todavia, não há registro acerca de qualquer curso que este maestro tenha realizado. Como a grande escola musical de tantos nordestinos era o aprendizado de música, dito de “ouvido”, Joaquim se beneficiou desse aprendizado.
Banda em desfile militar ao lado do Teatro, anos 1950

O Amazonas passava por sérias dificuldades financeiras, passava pelo “fundo do igarapé” de durezas, encerrando desse modo o governo francamente sensabor de Álvaro Maia (1951-55). De certo, graves embaraços alcançavam a corporação militar do Estado, prova disso foi a declaração do governador Plínio Coelho, ao tomar posse no início de 1955, quando afirmou ter encontrado a Polícia Militar em “estado pré-falimentar”, sob a heroica administração do coronel Neper Alencar.

A Música, Palácio
Rio Negro
Confesso que fui surpreendido por esta legislação, surpreendente para quem se dedica em restaurar a passagem deste Corpo Musical. Tenho semipronta uma retrospectiva sobre a Música na Polícia Militar do Amazonas, basta-me somente acrescer o material desta NGA para rematar.
Retomo ao maestro Joaquim: este deixou a regência da Banda em 1960, por motivo de moléstia, indo se tratar em Fortaleza (CE). Dois anos depois, foi reformado por invalidez no posto de 1º tenente, aos 40 anos de idade.
Livre do quartel, passou a atuar na formação e condução da Banda da Escola Técnica de Manaus, muito bem festejada nos desfiles escolares da Semana da Pátria, rivalizando com as bandas do Colégio Estadual, Instituto de Educação e Benjamin Constant, entre outras.

Tenente Joaquim faleceu em Manaus, em 10 de junho de 1993.