CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, março 20, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (2)

Amanhã (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Convite da festa centenária

Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do Armando fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. A prosa que segue é de autoria do falecido Sergio Luiz Pereira (1965-2015).

 

CHÁ DO ARMANDO: BREVE RELATO

Na cerimônia do chá, o chá é mais um coadjuvante neste universo que almeja, através do exercício de cada movimento, chegar à perfeição do esquecimento de si, do se pôr a serviço do homenageado, de se tornar magia o tempo que escorre em movimentos de ângulos precisos, uma oferenda de paz num mundo-do-fora. Como prática social, como exercício espiritual, como fruição dos sentidos, a cerimônia do chá em sua origem não se dissocia do pensamento zen-budista, (...). Sadô é o caminho do chá, para o qual convergem simultaneamente outros, (...) propiciando a compreensão da harmonia, do respeito, da pureza e da tranquilidade.

(Madalena Hashimoto. Pintura e escritura do mundo flutuante: Hishikawa Moronobu e ukiyo-e llhara Saikaku e ukiyo-zôshi. São Paulo: Editora Hedra, 2002)

A cultura do chá vem de tempos imemoriais. Achamo-lo nas mais antigas civilizações conhecidas. Mas China, Japão e Índia são os lugares por ele mais encontrados. Ouve-se, há muito, falar sobre as cerimônias do chá nesses países orientais. Também o chá das cinco na Inglaterra, mas sempre ele como centro de comunhão entre homens e mulheres, idosos e crianças. Sem falar no chá da Academia Brasileira de Letras, nas tardes das quintas-feiras.

Todo esse mínimo preâmbulo para falar do mundialmente famoso e conhecido "Chá do Armando". Vamos lá: Levado pelas mãos do sempre lembrado e amado Anísio Mello, fui ao "Chá" pela primeira vez em algum crepúsculo do ano de 2003, ocasião em que funcionava ele em uma das dependências, mais precisamente na biblioteca, da Academia Amazonense de Letras. Lá, surpreendi-me com algumas visões até então, para mim, pouco ortodoxas. Um ex-presidente da Casa, totalmente despojado da sisudez acadêmica, cantarolando, tocando violão e bebendo aperitivo escocês; outros, do mesmo naipe, contando "causos", com gestos e feições interessantíssimos; e mais algumas figuras de outras plagas, como o acadêmico paraense e espírita Nazareno Bastos Tourinho — de quem me tornei amigo —, convidadas a participar daquelas tertúlias semanais.

Depois de sair da AAL, por motivos até hoje por mim desconhecidos, o Chá circulou por várias casas, como o Ideal Clube na administração do querido Humberto Figliuolo, o Sebão Manaus, de propriedade de Antônio Diniz; a casa-liceu e porão do Anísio, a residência do coronel Roberto Mendonça, e atualmente pousado na “mansão dos belos quadros”, do artista plástico Neleto Silva, ali na avenida Joaquim Nabuco.

É a reunião das sextas-feiras, de amigos e companheiros verdadeiros, onde se irmanam em perfeita harmonia. A cultura e as ideias, porém, são seu ponto mais alto. No Chá, são discutidos desde a fraternidade dos anjos à paz mundial e o sexo entre machos e fêmeas de boa vontade. Quando possível, ouve-se música ao vivo — popular e erudita — tocada e cantada por gente amiga e habitué. Sem falar nos quitutes saborosíssimos da mesa farta. Às vezes, até tartarugada! Tudo isso regado com os maravilhosos líquidos da Escócia.

Tal confraria, no entanto, não é apenas teoria, falação, música ou comes e bebes. São do Chá do Armando Edições: Convite à poesia, obra póstuma de Anísio Mello, Melodia pagã, coleção poética de Almir Diniz, e mais este livro — gênese e história, repositório e testemunhos de seus principais membros —, que é sua terceira publicação. Além das visitas de membros chazistas a personalidades enfermas, união de verbas (cota) para ajuda financeira a pessoas necessitadas e outros projetos futuros etc.

Assim, costuma-se dizer que em nenhum lugar da terra a vida parece ter mais sentido que no clima harmonioso e aconchegante do Chá, ambiente informal frequentado por pessoas das mais diversas atividades, liberais ou não, em franco despojamento e alegria constante. Declamação de poemas, atualização de conversas, troca de mimos e presentes, conhecimentos gerais, história e política locais, de ontem e de hoje, curiosidades regionais, nacionais e estrangeiras, e estórias, muitas estórias, todas elas contadas de maneira democrática, como de todo o restante que é levado e discutido no seio do encontro.

Por fim, à figura exponencial de Armando de Menezes, decano e dirigente maior do Chá, na jovialidade de seus mais de 80 anos, agradeço por fazer parte da confraria que mudou a forma de divertir-se, aprender-se e principalmente exercer e praticar a amizade, que, na sabedoria de Montaigne, assim conclama: "O que chamamos geralmente de amigos e amizades não passa de convivências e familiaridades estabelecidas ocasional ou comodamente por meio das quais as nossas almas estabelecem vínculos. Na amizade de que falo, as almas se misturam e se confundem uma com a outra numa mistura tão universal que apagam e não encontram mais a costura que as juntou" (I, 28. "Da amizade", apud Sêneca, As relações humanas: a amizade, os livros, a filosofia, o sábio e a atitude perante a morte. São Paulo: Landy Editora, 2002).

Sergio Luiz Pereira

quinta-feira, março 19, 2026

DO CARNAVAL 2026

A crônica cabe a um colaborar de porte, Renato Mendonça, aqui e ali presente no Blog. Dessa vez se valeu do desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói (15 fevereiro), onde ele reside, que celebrou a apoteose de um retirante nordestino. No caso: “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula”, o presidente da República. O autor aproveitou para ilustrar seus devaneios com a saga de nossos avós. Esclareço que o trabalho literário me chegou às mãos em tempo hábil, no dia seguinte ao desfile, antes que os jurados defenestrassem a Escola. Vai hoje publicado porque levei um tempo para me reencontrar com os caminhos do Blog. E outros caminhos... como o dos meus 80 anos!
 



CRÔNICA DE UM ENREDO

No domingo à noite, como quem retorna a um velho templo ou um santuário preferido, voltei a assistir a um desfile de Escola de Samba.  Por anos, meus olhos se cansaram de ver apenas o brilho das alegorias, sambas sem alma, rostos e corpos expostos como vitrines. Tudo me parecia repetição: um carnaval de espelhos que refletiam sempre o mesmo. Talvez fosse apenas o meu olhar crítico, desacostumado a perceber as nuances de criação entre os carnavalescos.

Mas ontem, a chama reacendeu. A Acadêmicos de Niterói trouxe à avenida a saga de Lula, e sua história se fez canto e teatro sob o céu limpo da Sapucaí. Vi o êxodo de uma família que parte com quase nada, levando apenas o peso dos sonhos e uma angústia amalgamada pelo tempo. Vi o retrato de tantos brasileiros, de tantos estrangeiros, que carregam na bagagem a dramaticidade das travessias.

E ali, entre batuques e metáforas, senti-me parte daquele enredo. Meu pai e minha avó deixaram Caballococha, na Amazônia peruana, navegando noites sem fim em uma canoa até tocar a fronteira do Brasil. O destino: Manaus. Meus avós maternos, por sua vez, fugiram de Baturité, terra marcada pela Grande Seca e pela varíola, e encontraram refúgio às margens do lago do Anveres, onde minha mãe nasceu e se criou.

O desfile não foi apenas espetáculo: foi espelho. Espelho da Vida. Vi na avenida a memória das migrações que moldaram minha própria história, e de tantos brasileiros. E por isso fiquei até o fim, acompanhando até a dispersão como quem não quer que a poesia se dissolva. Não sei se os jurados darão boas notas. Mas o que importa, afinal, quando o coração já foi premiado?

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (1926-2017)

No próximo sábado (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o fez conhecido e admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.


Tão pronto foi decidido o congraçamento, recorri a um exemplar que as Edições Chá do Armando  fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. Dessa cópia compilei a crônica de Benayas Pereira, outro saudoso chazista, que vai transcrita.

 

UM CHÁ PRA LÁ DE ESPECIAL

Benayas Inácio Pereira 

Em uma determinada casa numa determinada rua de Manaus, todas as sextas-feiras, uns amigos se reúnem para tomar um chazinho. Trata-se de uma casa velha, cercada de miríades faculdades. Em razão disso, a avenida se engalana para receber os futuros "doutores", que ora dividem os estudos com a amizade que existe entre eles, mas as fofocas são o alvo maior. Os carros se aglomeram em fila dupla e tripla. Nessa via festiva, os vaivéns provocados pelos estudantes, os altos decibéis produzidos pelos carros de boa potência e o buzinaço ensurdecedor fazem com que ela se transforme num verdadeiro pandemônio, bem diferente dos finais de semana, quando o silêncio impera.

Benayas e esposa na festa
dos 80 anos de Armando

Pois é exatamente em meio a tudo isso que os velhos amigos da velha casa se reúnem. Alheio a todo aquele tumulto, entre salgadinhos e chazinhos "envelhecidos" de 8 a 12 anos, eles passam algumas horas jogando conversa fora. Como todos são gente fina, o horário é meio controlado. A reunião se inicia bem cedo (por volta de 17h) e, logicamente, não termina muito tarde. O número de componentes não é assim tão grande. Também não é relevante assim, pois a reunião prima pela qualidade e não pela quantidade dos componentes. O número de pessoas dificilmente passa de dez.

Esse encontro semanal tem o sugestivo nome de Chá do Armando. É claro que, com receio de omitir nomes, não vou dizer quem frequenta a casa velha do artista plástico, poeta, escritor, ensaísta e acima de tudo uma pessoa de coração aberto, o acadêmico Anísio Mello. Uma vez, porém, que eu já perdi o medo, digo que os imortais Almir Diniz, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto e, quando em Manaus, Jorge Tufic, além do nosso sempre querido mestre Armando de Menezes, que dá nome ao encontro, são habitués dessas efemérides.

Armando (esq.) aos 80 anos, saudado
pelo Simão Pessoa

Ainda fazendo parte desta turma da pesada, o historiador Roberto Mendonça, o poeta Sergio Luiz Pereira, o pesquisador Nonato Braga, o sexo-humorista Simão Pessoa e o músico e compositor Mauri Marques sempre marcam presença, além de um e outro personagem não menos importante que aparece quando lhe dá na veneta — como os músicos Rossini Lima e Nato Neto e o poetator Dori Carvalho.

Nunca vi fechada a porta dessa velha casa. Ela está sempre aberta para receber as pessoas de bem. Entendo que a curiosidade mata o rato e o peixe, mas se quiserem saber quais os assuntos mais abordados, posso adiantar que ali se respira principalmente a arte; todavia, a semente da acerola, os últimos acontecimentos mundiais, a música, a poesia, o cinema, o meio ambiente, a literatura, o jaraqui e o matrinxã são exaustivamente citados.

Nada disso importa, porém. O que é mais relevante nesses encontros é a curtição da amizade que cada membro dessa sociedade única carrega dentro de si. É o amor que se cultiva, mas de uma forma singular, tema, onde ele é dourado por todos, simultaneamente, formando uma redoma onde a maldade dá lugar à brandura e a inveja é pura utopia. O Chá do Armando não é restrito somente às pessoas do sexo masculino. Esposas e convidadas também comparecem e são sempre bem-vindas.

O viajado poeta Almir Diniz não se cansa de dizer que em lugar algum ele viu tanta irmandade junta. É verdade: ali conseguimos esquecer, nem que seja por algumas horas, as agruras que a vida pode nos reservar.

Sem receio de apelar para a pieguice, confesso que por muitas vezes, durante essas reuniões, observei uma aura vagando pela sala onde nos encontramos. Ela é toda branquinha, em forma de fumaça. Entra sorrateiramente, sem que ninguém a note e passeia alegremente pelas cabeças dos presentes.

Anísio Mello, nosso querido anfitrião, acha que a semana deveria ter mais sextas-feiras. Acho que o Anísio tem razão. Eu, que há algum tempo fui brindado pelos deuses ao ser convidado aa participar dessas reuniões, corroboro com essa opinião. E cá com os meus botões fico a pensar: que bom se todos os dias fossem sextas-feiras.

Manaus, 2 de maio de 2009