CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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sexta-feira, agosto 16, 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS (6)



Afonso de Carvalho, patrono
da Banda de Música

Apesar dos bloqueios, tento superar entraves para alcançar os regentes da centenária Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas, hoje denominada de Coronel Afonso de Carvalho. Escrevo hoje sobre o mestre Nicanor Puga Barbosa. Antes, porém, vou relacionar os MESTRES ou REGENTES ou ENSAIADORES deste corpo musical, ainda que a relação esteja truncada pelas dificuldades nominadas.
Já dissertei sobre o primeiro mestre – Cincinato Ferreira de Souza, que a dirigiu entre 1892 a, possivelmente, 1896. Os demais dirigentes foram:

·      Aristides Emídio Bayma, 2º tenente (1897-1908);
·      Domingos Sotero da Costa, músico de 1ª classe (1908-11);
·      Manoel Napoleão Lavor, capitão (1911-12);
·      Manoel Felix do Nascimento, 2º tenente (1912?-22);
·      Manoel Ramos do Nascimento, 1º sargento (1922-24);
·      Benedito Tavares de Azevedo (1925-28 e 1936-41);
·      Albino Ferreira Dantas, 2º tenente (1942-45);
·      José Arnaud, 2º tenente (1945-48);
·      Mirtilo Fricke de Lyra, 2º tenente (1950);
·      Nicanor Puga Barbosa, 2º tenente (1951-54);
·      Joaquim Henrique de Souza, 2º tenente (1954-60);
·      Manoel Belarmino da Costa, capitão PM do Pará (1961);
·      Dirson Costa, maestro (1962);
·      Ernane Puga, 2º tenente (1963-67);
·      Raimundo Alves Bezerra, 2º tenente (1967-75);
·      Francisco Sales de Araújo, 1º sargento (1975);
·      Antônio da Costa Franco, 2º sargento, depois 2º tenente (1976-84);
·      Raimundo de Sena Ferraz, 1º sargento (1987-88);
·      Francisco das Chagas Souza Lima, 1º sargento (1987-94);
·      José Cândido de Figueiredo, 2.º tenente (1994-2006);
·      José Antônio Valério da Silva, 2.º tenente (2006-)

NICANOR PUGA BARBOSA, 2º tenente músico

Exonerado o tenente Lyra, em 1951, no dia imediato, 17 de janeiro, o governador promoveu o 1º sargento Nicanor Puga Barbosa, “por merecimento intelectual”, ao posto de 2.º tenente músico. Nesta função, tenente Nicanor se manteve até 4 de maio de 1954, quando foi transferido para a reserva.
Nicanor Puga Barbosa, mestre da Banda de
Música (1951-54)
Este regente possui relação bem alongada, interligada por familiares, com a Banda de Música amazonense. Na virada do século XX e, com garantia, até agosto de 1967, este curto e peculiar sobrenome ancorou a música militar tanto na Força Policial quanto no Exército. A linhagem emana do genitor, o espanhol Manuel Puga Rivera, que começou tocando e ensinando a arte musical na marajoarense Soure (PA). Evoluiu e, na capital paraense, participou da Banda de Música da Polícia Militar.
Nem sequer a família conhece o detalhe, todavia, um dia o espanhol Manuel Puga desembarcou em Manaus, puxando a família, dentre os membros, os filhos Nicanor e Ernane. Logo arranjou emprego no Batalhão Militar do Estado, como músico de 1.ª classe. O único assentamento sobre este músico registra que ele foi encostado (admitido) em 1922 e que, na ocasião, tomou o nº 12. Não se denominava ainda engajamento, mas sim contrato, por dois anos, dessa maneira, em 1º abril de 1924, Manoel Puga teve o contrato rescindido. Para situar a conjuntura estadual, era governador o inesquecível desembargador Rego Monteiro, que estimulou com seu desgoverno a rebelião de Ribeiro Junior (julho de 1924). O músico espanhol Puga morreu em 1930. 
 
Nicanor, filho do citado músico espanhol e de Honorina Puga Rivera, nasceu em Soure (PA), em 29 de maio de 1918. Aos 12 anos ficou órfão de pai, aprendendo música com o mestre Agostinho Palheta (formado por seu pai). Em Manaus, fez seus estudos no colégio Rui Barbosa. Em 1934, aos 16 anos, ingressa na Banda de Música do Corpo de Bombeiros de Manaus, devo lembrar que nesse período a Polícia Militar seguia desativada. Quando da reativação desta, dois anos depois, a mesma banda foi incorporada à força estadual.

Nicanor possuía domínio sobre instrumentos de sopro, destacando-se no clarinete. Aos 24 anos, casou-se com a professora Marina dos Santos Puga Barbosa (diretora de colégios, como o GE Getúlio Vargas), com quem teve os filhos: Sebastião (padre, já falecido); Mário (falecido funcionário do TCE-SP); Francisco (professor aposentado, Mestre/Ufam); Maria do Perpétuo Socorro (aposentada da Ufam); Alberto (advogado e professor da Ufam); Zeneida (médica) e Rita Maria (professora/Doutora/Ufam).
Após ingressar na inatividade em 1954, mestre Puga ainda ensinou música no Seminário São José (aonde fui seu aluno). E dedicou-se à educação de filhos e netos, falecendo em Manaus-AM em 17 de setembro de 1997, aos 79 anos.

sexta-feira, junho 28, 2013

HOTEL CASINA

Recorte da folha de rosto do
livro de Gonçalves Maia
Gonçalves Maia, amazonense radicado em São Paulo, no início do século passado efetuou uma viagem pela Amazônia, hospedando-se em Manaus no Hotel Casina. No retorno, compilou suas notas muito simples no Livro de viagem: Norte (1904), que, apesar de editorado em Manaus pela Empresa do “Amazonas – editora”, em 1906, foi impresso em Lisboa (POR). Obra existente na biblioteca Mário Ypiranga. Colei o capítulo referente ao Casina que, na época, era tido como a melhor pousada da cidade da borracha. Manaus vivia o auge do ciclo da hévea.

Os que se divertem

O meu quarto no Hotel Casina dá para o jardim da Praça do Palácio [hoje Praça Dom Pedro]. É o melhor aposento do hotel, como o hotel é o melhor da cidade. É também o quarto mais caro. Pago 20$000 [vinte mil] réis por dia. Já era, portanto, um aposento para ser confortável e até luxuoso.
A mobília é, entretanto, humilde. O guarda-roupa não tem portas de espelho. O lavatório é quase um lavatório de estudante. Os tapetes são velhos. Mas a cama é boa, larga, macia e a luz entra em grande jorros (sic), alegrando a vida.

Quando toda a cidade arde abrasada, o meu quarto é fresco. Só isso vale uma fortuna e eu não me queixo. Depois, estou numa cidade onde tudo é caro. Antes assim.
Hotel e praça abandonados, 2013

As cidades onde tudo é barato e onde se vive com pouco, são cidades pobres. E se nas cidades ricas a vida é cara, é que também a vida tem mil recursos de subsistência. Essas cidades são como os terrenos mineiros. Tudo está em descobrir o veio.

Haverá miséria aqui? Não sei ainda.
O que eu vejo nesses grandes aterros que se estão fazendo, nessas grandes construções que esfloram da terra, é que há trabalho para um exército de proletários.

O carregador que me trouxe a bagagem cobrou 15$000. A distância do cais ao hotel é talvez a que vai da Lingueta ao Arco da Conceição (em Lisboa?). Mas se isso é assim, é porque há dinheiro ou porque a população não é ainda tão grande que a concorrência se tenha assinalado. Não me queixo disso, repito. Só as cidades pobres me entristecem.
E eu não tenho razões para estar triste. Saudoso sim, mas não triste. Pelo menos a anoite que eu acabo de passar, foi uma noite em claro, mas uma noite musical e luminosa. A luz elétrica atravessa os postigos e vem esbater nas paredes como um dia claro.

Do outro lado, em frente é o Eldorado; ao lado é a Pensão da Mulata. Até tarde eu ouvi a música das orquestras e a cantoria dos couplets alegres. São os cafés cantantes.
E, como ontem mesmo se deu um incidente num desses cafés, segundo vejo de uma publicação de hoje nos jornais, alguns trechos dessa publicação podem dar uma ideia dessas diversões, que só existem nas grandes cidades do mundo e, no Brasil, só no Rio, São Paulo e Manaus.

Um espectador fez a uma artista qualquer gesto que não pareceu muito comedido à autoridade que presidia ao espetáculo. Prendeu-o e ele se defende. Não julgo nem discuto o mérito da defesa. Assinalo apenas, registro somente o modo de compreender de um moralista alegre, de um filósofo a Boccacio, que se justifica.
É um espetáculo para homens, escreve ele:
“(...) O rapazio hilariante que frequenta o hotel suspeito a que dá vida o teatrinho e do qual é este o chamariz da concorrência para especial gênero de negócios, vai ali apenas despertar os seus apetites genésicos, buscar estímulo para certa ordem de desejos, e é originalíssimo que a polícia, que ali deve ir simplesmente garantir a ordem pública, queira desvirtuar a essência do instituto que ela permite, exigindo circunspecção, moralidade e respeito naquilo que é por sua natureza acanalhada, truanesco, imoral.

Tais teatrinhos, não são como julgam na sua vesga visão os senhores da polícia, cafés cantantes: são aperitivos do amor, cortinas de lupanares, e é por isso que funcionam eles como sucursais dos estabelecimentos em que o amor se compra e se mercadeja.
Só os frequentam aqueles que gostam da canção da pulga ou do grilo, do monólogo do besouro ou da barata, aplaudem o cancã e amam o maxixe e não se envergonham de pertencer aos cabarés, aux Bohemiennes, entrar no Moulin Rouge ou nas Folies Bergères...”

Pensa que condeno? Nunca. Uma grande cidade deve ter de tudo.
Da Pensão da Mulata eu ouço o Açaí, o Vatapá, modinhas populares e gritos frenéticos de aplausos.

À meia-noite, uma banda marcial toca aqui perto, à porta de um estimado político que faz anos [Coronel Afonso de Carvalho, então presidente do Poder Legislativo, mais adiante, governador]. Às 5 da manhã o hino nacional estruge em frente do Palácio do Governo. Estamos a 7 de Setembro, a gloriosa data emancipacionista.

É com as suas notas patrióticas e sugestivas que eu me levanto e vou à janela. O sol desponta. E, à sua luz de ouro, eu contemplo a bela cidade que acorda para a vida e para o trabalho.

terça-feira, maio 07, 2013

BANDA DE MÚSICA DA PMAM: 120 ANOS



Banda de Música da PMAM, 1956
A Banda Música da Polícia Militar do Amazonas (PMAM) completa 120 anos, espalhando sonoridade e satisfação no Estado, mas já desfilou em outros recantos do país. Hoje, possui a denominação de coronel Afonso de Carvalho (que foi comandante da PMAM e, sendo presidente da Assembleia Legislativa, governador do Estado, entre 1907-08), em homenagem ao seu criador.

Entretanto, durante décadas quase nada se sabia sobre este serviço, sua inauguração, seus maestros, até que, em 1993, em artigo jornalístico, elaborei uma retrospectiva, sugerindo uma data de fundação. A fonte encontrava-se no Relatório expedido por aquele oficial, quando comandava a corporação entre 1892-96, ou seja, durante o governo de Eduardo Ribeiro.

Duas datas limitam o aparecimento da Música na Polícia Militar. A primeira, de janeiro de 1892, o Tesouro do Estado informa ao governador que recursos haviam sido empenhados para aquisição de equipamentos destinados àquela corporação militar. E, elucidando melhor essas providências: José Cláudio Mesquita, representante da casa J. H. Andresen, então na Europa, havia recebido através do London Bank, a quantia de sessenta e oito contos de réis destinados a aquisição de armamento e de instrumental destinado à Banda de Música do Batalhão de Polícia (como passou a ser conhecida a PM na abertura do regime republicano).

A referência posterior é de 3 de junho de 1893, data de outro Relatório. Neste, o comandante do Batalhão Militar de Segurança (nova denominação da PM), major Raymundo Afonso de Carvalho (foto), detalha ao mesmo governador a situação da força estadual. Entre outras informes, assegura que a Banda de Música já funcionava, já musicava o quartel da Praça da Polícia e os coretos de Manaus.

Todavia, este Relatório não aponta a data da inauguração da Banda, apenas delimita o período. Acredito que entre a compra do instrumental na Europa e a chegada nesta capital, a par da contratação de músicos, talvez selecionados no Nordeste, como seguidamente ocorreria, tais provimentos devem ter consumido uma boa temporada.  
Ora, diante da inexistência de data inaugural da Música, entendi que a datação deste Relatório poderia ser utilizada para esse fim. Afinal, a própria corporação sofre desse mal, apenas conhece o documento originador de sua fundação, do qual toma a data para sua festança natalícia.  Logo, por que não estabelecer o 3 de junho de 1893 como a efeméride máxima da corporação musical?

Depois de minha publicação que, de pronto, não teve acolhimento, veio o trabalho acadêmico de Pedro Carlos Barroso Augustinho, membro da corporação musical. Discente da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ao final do Curso de Música, escreveu “A música na Polícia Militar do Amazonas: das origens à Primeira Guerra Mundial (1850-1910)”. Augustinho (seu nome de guerra), logo no Resumo, questiona: não podemos nos referir a este registro – 3 de junho de 1893 – “pois, em 5 de agosto do ano anterior, assume a regência dela o mestre de música Cincinato Ferreira de Souza”. De certo, amparado pelo decreto nº 11, de 13 de janeiro de 1890, que organizou a Força Militar Estadual e “mostra a formação de uma Banda de Música composta de 16 músicos e 9 corneteiros”.

Cincinato Ferreira de Souza, portanto, é o primeiro maestro da “Banda de Música coronel Afonso de Carvalho”. A relação dos dirigentes desta é outra questão ainda desafiadora, pois são conhecidos, como veremos adiante, apenas parte deles. (segue)

segunda-feira, outubro 15, 2012

VIDA E MORTE DO "PENSADOR" (Final)

Eduardo Ribeiro
plantou a semente com o mesmo esforço
e dedicação procuramos fazê-la brotar.
homenagem da Prefeitura de Manaus
1978
Ontem, completaram-se 112 anos da morte de Eduardo Ribeiro. Morte que prossegue misteriosa. A publicação do falecido Júlio Uchoa, quase 50 anos depois, portanto, ainda contando com detalhes bem próximos, trouxe algumas elucidações sobre o acontecimento.

Encerro hoje esta publicação e, ao mesmo tempo, dou início a divulgação de excertos do inventário daquele ex-governador, para que se sinta o tamanho de sua riqueza. Riqueza que foi dilapidada, sem piedade. Como não podia ou devia resistir, nada restou daquela herança. 
* * *
Júlio Uchoa (*)

Era um caso para apurar, na ocasião, abrindo-se o competente inquérito pelo poder público. Os depoimentos do doutor Menélio Pinto e do tenente Emidio da Silva trariam, certamente, os esclarecimentos necessários. Seria, aliás, de interesse do próprio governo de então, sobre o qual pesam, ainda hoje, depois de volvidos quarenta e nove anos, as mais graves acusações.

Vejamos o que dizem os historiadores regionais. Artur Cezar Ferreira Reis escreve, em História do Amazonas, que a morte de Eduardo Ribeiro ocorreu “em circunstâncias um tanto misteriosas”; Mário Ypiranga faz alusão à versão corrente da existência de “umas ervas trazidas especialmente de Santarém” para envenenar o Pensador.

Muitas outras versões correm por ai, a respeito da horrível trama que eliminou o saudoso maranhense, sem nenhuma comiseração à insanidade que lhe combalira o organismo, provocada esta possivelmente pelo veneno que lhe fora inoculado, mesmo porque, os politicoides (sic) sem entranhas, temiam o seu restabelecimento, como predissera o professor Ludovici, eminente psiquiatra italiano.

Há, assim,  a notícia do desaparecimento misterioso daquele médico residente em Manaus, o qual, depois de examinar detidamente o cadáver, declarara, em altas vozes, não concordar absolutamente com o parecer dos seus colegas que subscreveram o atestado de óbito de Eduardo Ribeiro, visto tratar-se, diante da evidência dos sinais que constatara, não de um suicídio, como se fizera capciosamente, acreditar, mas de um bárbaro crime, frio e premeditadamente cometido.

Referiu-nos esse fato, para nós desconhecido, o digno amigo e colega Antônio de Castro Carneiro que o ouvira de seu genitor, quando certa vez, viera à baila a morte do inolvidável homem público. É, assim, mais uma versão sobre o doloroso acontecimento.

Por ocasião da morte do Pensador, o doutor Silvério Nery, governador do Estado, não se encontrava nesta cidade, pois que na noite de 13 seguira adoentado, com a família, para Paricatuba, em companhia do superintendente municipal, doutor Artur Araújo, indo este, também com a família.

Comunicada ao chefe do executivo estadual a infausta notícia, por meio de embarcação rápida que saíra de Manaus às 7 horas do dia 14, o governador, por estar doente, não pode vir à capital, tendo delegado poderes para representá-lo nos atos fúnebres, ao doutor Porfírio Nogueira, secretário do Estado. 

Constituiu o enterro de Eduardo Ribeiro verdadeira apoteose. Nunca se tinha visto tamanha consagração a um morto por parte do povo. Dez bondes superlotados partiram da antiga estação, à praça da República (hoje Pedro II), com destino à residência do falecido.
Quando os bondes chegaram à Chácara Pensador, já havia ali incomputável massa humana, formada de todas as classes sociais. O ambiente era de intensa tristeza. Todos estavam compungidos, diante da tremenda realidade. Já não mais existia o benemérito cidadão que transformara uma grande aldeia em uma cidade moderna.

No meio da sala estava o caixão que guardava os restos mortais de Eduardo Gonçalves Ribeiro. Era riquíssimo, de pelúcia preta, todo guarnecido de rendas e galões de prata fina, tendo um passarinho nas pontas da cruz, também, de prata; aos pés, bem feito monograma com as iniciais – E.G.R.

O caixão estava sobre uma essa de luxo, ardendo quatro velas ao lado. O corpo vestia casaca, gravata preta e botinas de verniz.

Fez a recomendação monsenhor Benedito da Fonseca Coutinho acolitado por quatro padres agostinianos. Conduziram o caixão para o bonde fúnebre, o coronel Afonso de Carvalho (presidente da Assembleia), doutor Porfírio Nogueira, coronel Emídio Pinheiro (comandante da Polícia) e o desembargador Joaquim Lisboa; o veículo estava ricamente preparado, de veludo preto com franjas prateadas e bordas brancas.

O féretro partiu da Chácara às 17 horas e 15 minutos, abrindo a marcha fúnebre o carro que conduzia o corpo, seguindo-o 10 bondes apinhados de gente. O préstito chegou ao cemitério de S. João Batista às 18 horas. A essa hora a necrópole já se encontrava cheia de amigos do pranteado morto “que numa ânsia dolorosa e triste esperavam o seu cadáver”.

Em um dia de Finados...
Do carro fúnebre à capela  do campo santo,  conduziram o caixão os senhores major Domingos Andrade, delegado do Grande Oriente, Leonel Mota,  doutor Plácido Serrano, major José Gonçalves Dias, José da Silva Viana e doutor Gaspar Guimarães.

Falaram a beira da sepultura: doutor Porfírio Nogueira, secretário do governo, em nome do Estado do Amazonas; major Domingos Andrade, delegado do Grande Oriente do Brasil; senhor Alberto Leal, pela colônia portuguesa; doutor Barbosa Lima, em nome do jornal Amazonas; em nome do Congresso Legislativo discursou o coronel Afonso de Carvalho; senhor Leonel Mota, pela loja maçônica “Esperança e Porvir”; pelos operários, o senhor J. dos Anjos.

Baixado o caixão à sepultura, foram lançadas sobre a mesma, pelos amigos do inesquecível cidadão inúmeras flores naturais. (fim)

(*) O Jornal, Manaus, 16 de outubro de 1949
* * *

Despacho judicial demonstra o extremo cuidado para com os bens do falecido. No mesmo dia, 14 de outubro, doutor Bonifácio abriu o processo.

O Doutor Emílio Bonifácio Ferreira de Almeida, Juiz Municipal de Órfãos, Ausentes e Interditos de Manaus, capital do estado do Amazonas, etc. 


Havendo falecido hoje em sua chácara denominada Pensador, no bairro da Cachoeira Grande, desta cidade, o Doutor Eduardo Gonçalves Ribeiro, sem deixar herdeiros presentes, deixando, entretanto bens que devem ser devidamente acautelados, mando que o Escrivão Nogueira, autuando este, intime os Doutores Curador Geral de Órfãos, Ausentes e Interditos e o Procurador Seccional da República, para o dia quinze do corrente, às nove horas no referido lugar, proceder-se à arrecadação e arrolamento de ditos bens, dos quais nomeia Curador o Doutor Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, que também será intimado.

Cumpra.
Manaus, 14 de outubro de 1900 

Eu, Francisco Nogueira de Souza, escrivão, escrevi.

a)    Emilio Bonifácio Ferreira de Almeida.

domingo, novembro 14, 2010

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS (XV)

Zuavo, protetor do Quartel
da Praça da Polícia
Em 20 de junho de 1893, o governador do Amazonas, Eduardo Gonçalves Ribeiro, recebeu do comandante do Batalhão Militar de Segurança (hoje Polícia Militar), major Raymundo Affonso de Carvalho, o relatório seguinte.

É conveniente esclarecer que a Polícia Militar já ocupava o quartel da Praça da Polícia, mas este ainda não possuia a dimensão que conhecemos. A reforma, com a ampliação, ocorreu em 1895.
Affonso de Carvalho, depois coronel, foi eleito deputado estadual e, nessa condição, presidiu a Assembleia Legislativa. Quando Constantino Nery renunciou ao mandato, em 1907, Carvalho assumiu o governo do Estado, concluindo o período.

Ascendeu na caserna apoiando ao governador Eduardo Ribeiro e, na política, atrelado ao partido dos irmãos Nery. Nasceu no Ceará e morreu no Rio de Janeiro.

Dr. Eduardo G. Ribeiro, Governador deste Estado

Em obediência ao que determinastes em oficio circular de 4 de maio próximo findo, vou relatar-vos detalhadamente todo o ocorrido neste Batalhão de 1º de junho do ano passado até a presente data.
Comando do Batalhão: No dia 1º de junho do ano próximo findo tendo de tomar parte nas sessões do Congresso Legislativo deste Estado o tenente-coronel Raymundo de Amorim Figueira, comandante deste Batalhão, assumiu interinamente esse exercício, na mesma data, o major adido Carlos Cardoso Fernando de Sá, então comandante da Companhia de Bombeiros, que deixou tais funções interinas a 18 de agosto, entregando a mim o referido comando, que, na qualidade de major do Batalhão, fiquei exercendo-o interinamente, até o dia 7 de novembro, data em que apresentou-se o tenente-coronel Figueira, que assumiu o exercício de seu cargo.
No dia 9 de março [1893] do corrente ano assumi de novo o comando interino do Batalhão, por ter seguido para a Capital Federal, em comissão do Governo, o referido tenente-coronel comandante.
Demissões, nomeações e promoções de oficiais: Por ato desse governo, de 26 de setembro [1892] do ano findo, foi dispensado do cargo de alferes o ex-cadete do Exército, Rosselino Belleza, que servia em comissão.
Em data de 2 de janeiro do corrente ano foi também dispensado do cargo de alferes, o cidadão Roberto Mendes Pereira, por conveniência do serviço, conforme propôs este comando; e, por ato de 5 de março último, foi dispensado do cargo de capitão-ajudante deste Batalhão o cidadão Luthegardes Aureliano Poggi de Figueiredo.
A 14 de janeiro do corrente ano foram promovidos em comissão, ao posto de alferes, o sargento quartel-mestre Hermógenes Conrado Avelino e o 2º sargento Ricardo Vicente Cluny, ambos em atenção aos serviços relevantes que prestaram a causa pública a 30 de dezembro último e a 1º e 2 de janeiro do corrente ano, por ocasião da tentativa de sedição operada dentro e fora do quartel deste batalhão, por políticos desorientados e ambiciosos.
Por ato de 27 de março foi promovido ao posto de capitão-ajudante o tenente Nuno Nery da Fonseca, e ao de tenente o alferes Evaldo Rodrigues França Leite.
Por ato de 16 de maio próximo findo foi promovido ao posto de alferes, em comissão, o sargento-ajudante Manoel Ferreira Gomes Evangelista.
Disciplina: A disciplina do Batalhão tem sido mantida em toda a sua plenitude. Os fatos de indisciplina, raras vezes registrados no Batalhão, têm sido punidos conforme a sua gravidade, dentro da esfera traçada pelo Regulamento em vigor, que na parte puramente disciplinar, como criminal, abrange todas as infrações e delitos suscetíveis.
Além dos crimes de deserção, somente torna-se notório o de insubordinação em que incorreram os ex-sargentos Manoel Guedes Monteiro, João Francisco Pacote, Candido Serpa, Eurico Coutinho Canavarro e o ex-cabo de esquadra Francisco Guedes Monteiro, os quais foram devidamente punidos por sentença do Conselho Criminal a que responderam, e acham-se cumprindo as penas que lhes foram impostas.

Aqueles oficiais inferiores, aliciados por um capitão do Exército e pelos chefes de um partido sem orientação patriótica, nutrindo sanguinolentos projetos contra seus superiores, prepararam-se traiçoeiramente para dar auxílio a uma sedição intentada com o fim de depor o governo deste Estado, sedição que, felizmente, foi abortada no dia 30 de dezembro do ano findo, véspera do dia em que estava detalhado, pelos inimigos da ordem, segundo os depoimentos dos seus cúmplices, para a referida deposição.
Este fato, vulgarizado em todo o País, é bastante conhecido por vós; portanto, julgo desnecessário relatá-lo circunstancialmente.
Armamento: O batalhão acha-se armado com carabinas a Comblain. Entretanto, o número dessas armas existente em carga ainda não é suficiente, e por isso torna-se necessário o fornecimento de mais 200 armamentos completos, desse sistema.
O armamento Westey Richards acha-se completamente imprestável. Há também em arrecadação armas do sistema Winchester.
Munições: Há em arrecadação munições dos sistemas Westtey Richards, Comblain e Winchester. É necessário maior fornecimento de munição a Comblain.
Fardamento: Existe em arrecadação o necessário para pagamento das praças no exercício corrente.
Música [Banda de]: Após grandes dificuldades está, finalmente, organizada a banda de música do Batalhão, que promete atingir muito breve a grandes proporções.
Quartel da Polícia Militar, fundos, 2002
Rancho: Tem funcionado regularmente, sendo designado mensalmente um oficial subalterno para servir de Agente. Entretanto, não há ainda compartimentos apropriados para satisfazer as todas as necessidades de modo que está servindo provisoriamente de arrecadação de gêneros, refeitório e cozinha, um alpendre coberto de zinco, que fica completamente inundado nos dias chuvosos e não oferece acomodação alguma para os fins a que está sendo aplicado.
Quartel do Batalhão: Desde 1890 acha-se o Batalhão aquartelado no edifício sito à praça da Constituição, antigamente denominada de 28 de Setembro. No pavimento inferior do edifício funcionava o antigo Tesouro Provincial e no superior a Secretaria e Paço da antiga Assembléia Provincial que ficou servindo ultimamente para as reuniões do Congresso Constituinte. Atualmente o Batalhão ocupa os pavimentos superior e inferior.
São necessárias algumas modificações para que o edifício fique apropriado para o aquartelamento provisório do Batalhão, por quanto se ressente da falta de compartimentos para a escola regimental, aula de música, arrecadação de gêneros, refeitório e cozinha etc.

O barracão construído no flanco direito do Quartel, destinado a acomodar voluntários agenciados para o Batalhão, está servindo provisoriamente para os ensaios de música.
Piquete de Cavalaria: Existem 30 cavalos, inclusive os da montada do comandante, do fiscal e do ajudante. As baias onde permanecem os cavalos ficam no fundo do prédio deste quartel, em um local acanhado, que só provisoriamente pode servir para esse fim. Seria assaz conveniente destinar outra acomodação para aquartelamento do piquete e baias.
Instrução Militar: Os oficiais e praças do Batalhão exercitam-se, sempre que o serviço permite, pelo método moderníssimo adotado para a arma de infantaria do nosso Exército. Seria melhormente ministrada a instrução neste Batalhão se não fora o grande número de destacamentos e diligências em que são freqüentemente detidas muitas praças.
Vencimentos dos oficiais: Os que percebem os oficiais deste Batalhão são assaz insuficientes para as suas subsistências, em qualquer época, máxime agora, com a considerável carestia de todos os gêneros necessários.
Submeto a vossa apreciação a respectiva tabela a esta anexa, extraída da dos Oficiais do Exército, com algumas modificações que julguei econômicas.

Quartel em Manaus, 3 de junho de 1893
Raymundo Affonso de Carvalho, major comandante interino