CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, maio 30, 2022

MANAUS: FATOS DE 1962

Tópico elaborado para a retrospectiva sobre o acidente com o Constellation PP-PDE, da Panair do Brasil, em dezembro de 1962, nas proximidades de Manaus.

Recorte da notícia do desastre (16.dez.1962)

1962 foi um ano repleto de emoções na capital do Amazonas: em 26 de janeiro, o legendário 27 BC ocupou seu novo aquartelamento - primeiro quartel edificado para o Exército em Manaus, no período republicano -, construído no bairro de São Jorge, hoje abrigando seu sucedâneo, o 1º BIS(Aem); em 15 de março, a VASP inaugurou sua ligação com o aeroporto de Ponta Pelada e sua agência local; a fim de prestigiar o evento a direção maior da empresa conduziu em avião DC-6 uma prestigiosa comitiva que, no dia imediato (16), efetuou o lançamento da pedra fundamental da Brasiljuta, empreendimento da Companhia Brasileira de Fiação e Tecelagem de Juta, na estrada do Paredão, ora avenida Presidente Kennedy; 02 de abril, assume o comando do GEF (Grupamento de Elementos de Fronteira) precursor do CMA, o general de brigada Augusto Cesar de Castro Moniz de Aragão (1906-93). No ato, ocorreu uma indiscrição intrigante: o governador Mestrinho se fez representar pelo chefe do Gabinete Militar, capitão médico do EB David Luigi Farini, comissionado tenente-coronel PM; em 17 de abril, aconteceu a posse do major EB Ormail Stokler de Oliveira Junqueira no comando da Polícia Militar do Estado.   

Tenente Moraes Lisboa

Em 17 de junho (não posso olvidar essa data, data do meu natalício), foi tempo de festejar o Brasil - campeão da Copa do Mundo de futebol, conquistada na cidade de Santiago do Chile. No entanto, em Manaus a celebração chegou tão somente na “imagem” difundida pelas emissoras de rádio. Ainda nos faltavam duas Copas para se assistir “ao vivo”. Em 15 de julho, um ataque de índios Apurinã em propriedade particular matou e feriu familiares e empregados da casa, e alvoroçou até os morubixabas da capital. O sítio localizado no “município” de Abufari (um dos tantos criados no governo anterior, cuja inviabilidade econômica fez morrer no nascedouro), disposto na calha do rio Purus, fronteiriço ao de Canutama. Há muito desativado, seu território integra o de Tapauá. A notícia chegou a Manaus dia 20, ocasião em que foi enviada ao local tropa da Polícia Militar em avião da Petrobras. O tenente Oswaldo Anacleto de Moraes Lisboa (34 anos) era o comandante; conseguiu com brevidade definir a questão e retornou a Manaus em 02 de agosto, com os acusados. Dias depois, porém, este oficial foi internado no hospital da Santa Casa e, a despeito das diligências médicas faleceu dia 15, sem que os legistas apontassem a verdadeira causa mortis. A cidade ficou consternada, em particular a Praça da Polícia, e mais ainda a família Lisboa que chorou a misteriosa morte de seu chefe.  (segue)

domingo, maio 29, 2022

FLA-FLU DE ONTEM E DE HOJE

Há dez anos, o craque Tostão, agora articulista esportivo da Folha, lembrou sua primeira presença no Maracanã como torcedor para assistir um FLA-FLU. Leia o texto e saiba como foi realizada a façanha deste mineiro.

Ao ler este artigo, recordei do meu FLA-FLU, o mesmo que o mineiro descreveu, com uma ligeira disparidade: enquanto ele estava no Maracanã, eu estava no Morro da Liberdade, em casa sem energia elétrica, obrigado a me satisfazer do jogo pelo rádio à pilha, ouvindo a Rádio Globo, que sofria variações de todas as espécies, de sorte(?) que vez outra o sinal desaparecia...

Lembro bem do atleta que "roubou" o jogo: o goleiro Marçal do Flamengo, que depois graduou-se em medicina, como o Tostão.

Hoje tem espetáculo: FLA-FLU, com mando de campo do segundo.

  

Meu melhor Fla-Flu

TOSTÃO

 

 


  

HOJE, TEMOS FIa-Flu. Ontem, o grande clássico completou cem anos. Nesta noite, sonhei com o tricolor Nelson Rodrigues, o mais exagerado e genial cronista esportivo brasileiro.

Fiz a ele a tradicional pergunta: Quem vai ganhar hoje? Ele respondeu: "Desde ontem, o Fluminense. Só um cego, hereditário e póstumo, não enxerga o óbvio ululante. Faço um apelo aos tricolores, vivos ou mortos, para irem ao Engenhão".

Assisti a um grande número de Fla-FIus pela TV. No estádio, meu Fla-Flu inesquecível, primeiro e único, foi em 1963. Empate, na decisão do título carioca. O Flamengo foi campeão. Eu tinha 16 anos e acabado de assinar meu primeiro contrato profissional com o Cruzeiro.

Na sexta-feira, à noite, eu e três amigos do bairro, todos menores de idade, pegamos um ônibus na rodoviária de BH para o Rio. Um tio do meu amigo, que morava no Rio, comprou nossos ingressos.
Chegamos pela manhã. Ficamos hospedados em uma pensão, uma casa antiga e toda branca, em Copacabana, na avenida Atlântica. Atravessávamos a rua e estávamos na praia. Havia só uma pista para carros. Passamos o dia brincando com a bola na praia. Mais tarde, cansados e famintos, fomos para o restaurante Spaghettilândia, onde comemos uma mega macarronada.

No domingo, jogamos mais futebol, pela manhã, na praia, e pegamos um ônibus lotado para o Maracanã. O tio de meu amigo levaria as malas para a rodoviária.

Lembro mais da festa do que do jogo. Ficamos na arquibancada, espremidos, no meio da torcida do Fluminense. Ninguém me conhecia. Éramos todos tricolores, não tão fanáticos para ficar tristes com a perda do título. Marçal, goleiro do Flamengo, médico, mineiro, que, anos depois, encontrei em um hospital de Belo Horizonte, agarrou até pensamento. Foi o maior público da história do Fla-Flu e o segundo maior do Maracanã, com 177.656 pagantes.

Não imaginava que, seis anos depois, jogaria no Maracanã, para o maior público da história do estádio (183.341 pagantes), pela seleção brasileira, contra o Paraguai, na decisão da vaga para a Copa de 1970.

Do Maracanã, fomos para a rodoviária, ainda a tempo de comer um sanduíche, tomar uma cerveja e pegar o ônibus para Belo Horizonte. Chegamos felizes.

Não foi uma aventura irresponsável de quatro adolescentes. Na época, isso era mais comum. O mundo mudou. Ficou pior e melhor, mais moderno.  


sábado, maio 28, 2022

JESUS MENINO

 A postagem pertence ao Renato Mendonça, meu irmão, que a escreveu no dia consagrado a Nossa Senhora Auxiliadora. Nesta data, abraço com veneração pelo natalício o amigo fraterno Paulo Vital e a filha Sofia Mendonça.

 24 MAIO 2022

Passei pelo menino e me dirigi à entrada da Padaria, tinha o propósito apenas de me abastecer do pão nosso de cada dia. Eu sou um habitué daquele estabelecimento comercial, mas nunca o tinha visto antes. Dois passos adiante, não consegui seguir em frente. O olhar do menino me chamou. Voltei lentamente e, numa rápida reflexão, vi que aquele menino se parecia comigo. Tinha entre oito e dez anos, moreno, cabelos negros, olhar vivo e uma compleição física franzina. Estava agachado segurando pela boca um saco preto, desses que se usa para o lixo, com algumas coisas dentro.

Grupo de meninos observados no Careiro

Não me pediu nada, apesar de eu lhe ter dedicado atenção. Olhei nos seus olhos e perguntei docemente: “o que está fazendo aí, garoto?” Não era uma pergunta desproposital, afinal ele não me parecia um pedinte, ou pelo menos não deixava transparecer pelo olhar cristalino que emitia. No entanto, era um olhar inquisidor, que me cobrava atitude humana enquanto eu abordava a minha consciência. “Estou catando latinhas e garrafas pet...”, me respondeu calmamente. “Entendi... o pessoal, quando saí, te entrega?”, falei uma obviedade, me aproximando mais um pouco do menino. “Sim...”, foi a resposta lacônica que me deu, sem demonstrar ansiedade, nem mesmo me perguntou se eu ia consumir alguma coisa que lhe fosse resultar num produto reciclável. Fiquei ainda uns dois ou três segundos olhando o garoto. Ele me transmitiu uma certa paz! Não que eu estivesse com falta dela, mas era uma paz diferente, avassaladora, que me envolvia como se um manto estivesse me cobrindo e me protegendo do frio da insensatez. Fiquei imaginando os discípulos recebendo o Espírito Santo, será que teve esse poder de seduzir e inebriar com a força da fé e da solidariedade? E no caso deles, ainda ficaram dotados de sabedoria plena conforme lhes foi ensinada por Jesus.

Entrei no estabelecimento consumindo esses pensamentos. Planejando uma maneira de ajudá-lo sem o constranger. Eu não ia comprar nada que pudesse lhe render uma embalagem usada. Também diagnostiquei que qualquer reciclável que lhe desse seria muito pouco, algo muito menor que uma esmola. Isso, sim, seria um despropósito com o ser humano. Essas migalhas não dignificam ninguém, pelo contrário, subestimam. A sociedade humana precisa ser mais justa. Mas, para mudar os conceitos e os costumes há um enorme caminho a ser seguido, desde a mais tenra idade. Há uma necessidade urgente de se diminuir o fosso social que separa os ricos dos pobres, ou da classe média dos miseráveis. Intui que aquele menino, que me cativou com seu olhar emblemático, está na idade ideal para o aprendizado. Pode aprender com essas adversidades, com as dificuldades da vida para ser tornar um cidadão. É difícil, mas não impossível.

Resignado, ele não parecia sofrer com a situação econômica que vivia; parecia que estava apenas carregando sua pequena cruz... Não conjecturei mais nada, estava na hora de pagar pelo pão. Antes, porém, me penitenciei por não ter lhe comprado algo para comer. No mesmo momento, minha consciência me absolveu: “ele não parece estar faminto, está ali com outra finalidade...” Botei a mão na carteira e separei cinco reais. Minha consciência me sacudiu de novo: “não acha pouco?”. Realmente, se julguei que as latinhas era uma miséria, um acinte à dignidade humana, por que não lhe dar algo mais?

Saí dali com a alma engrandecida carregando o meu corpo mais leve. Fui em direção ao garoto, mas ele não estava mais lá. Apenas o saco preto estava depositado na calçada. Girei o olhar e não o achei por perto, saí, caminhei pela calçada para um lado e para o outro e não o vi. Fui até um lugar onde se vendia frango e refrigerante, e nada. O menino sumiu. No sentido de esperar ele retornar, fui até um caixa eletrônico e saquei vinte reais. Eu queria doar um valor maior que os cinco que havia pensado anteriormente, e a minha consciência me condenou.

Voltei ao menino e ele ainda não estava lá. Estranhei o fato porque o saco preto estava no mesmo lugar, na calçada, na mesma posição. Abaixei-me e abri o saco. Apenas umas poucas latinhas e duas ou três garrafas pets de água mineral de meio litro. De novo, discerni: por que ele não levou o saco para onde ele foi? Ou será que deixou ali no intuito de alguém, conhecendo sua missão, ir depositando as latas no saco? Não, isso não é comum, respondi a mim mesmo.

Raciocinei que ele voltaria, em algum momento voltaria. Coloquei uma nota de vinte reais dentro do saco e fechei-o com um laço. Na certa, quando ele encontrasse não ficaria constrangido, não estaria vendo o rosto do benfeitor. Saí como se estivesse carregando a pomba da paz no ombro. Enquanto caminhava de volta, minha consciência me garantia que era Jesus que estivera ali, transfigurado naquele menino, para ver a minha reação e testar a amplitude do meu comportamento humano. Não basta apenas doar aquilo que nos sobra, doar as migalhas que caem da nossa mesa — é preciso repartir o pão! Há sempre um sinal de Deus em cada episódio que vivemos nesta vida afora, e devemos aproveitar para ser essencialmente humanos.

Jesus ressuscita em nossa vida quando nos distraímos entre as leviandades da sociedade. Devemos deixar fluir de dentro de nós o verdadeiro amor ao próximo. Sempre que houver uma chance, usar a chave do seu coração para abri-lo de dentro para fora. Principalmente, quando nos deparamos com um olhar infantil puro, imaculado, que cobra de nossa consciência atitudes humanas.

quinta-feira, maio 26, 2022

AVIAÇÃO NO AMAZONAS: NOTAS

 Às voltas com o desastre do Constellation da Panair do Brasil ocorrido em 1962, revisitei vários arquivos: das Forças federais e estaduais, da agência local da Panair, do Deram e de outros órgãos, como a Petrobras. No Arquivo Público encontrei a Exposição do interventor Álvaro Maia ao presidente Getúlio Vargas, referente a 1942. Nele, Maia registra os primeiros "voos" nessa área.
Capa da Exposição

Dois detalhes sobre o assunto: a Panair do Brasil já voava de Belém a Manaus com o hidroavião Catalina desde 1937. A pista do futuro aeroporto de Ponta Pelada será construída nesta época para facilitar o transporte da borracha, em apoio aos Estados Unidos na Guerra (mas isto é outra história).

NAVEGAÇÃO AÉREA

Intensificou-se a navegação aérea neste último ano, tanto para o interior do Estado, ligando vários rios e municípios, como para o resto do país e para os Estados Unidos. Abrem-se campos de aviação em Manaus, Fonte Boa, João Pessoa [atual Eirunepé]; as demais sedes principais são atingidas por hidroaviões.

Além das linhas comuns da Panair para os rios Madeira e Solimões, também sobrevoados pelos aparelhos da "Rubber Corporation", temos comunicações aeroviárias com os municípios dos rios Negro e Juruá. O Purus é beneficiado pela linha recém-inaugurada da Cruzeiro do Sul, em conexão com a Panair.

As primeiras viagens de Miami à Manaus, por aviões cargueiros, realizam-se com êxito, assim como as viagens experimentais entre Manaus e Talara, no Peru, entroncando o Vale Amazônico às rotas da Panair, ao longo do Pacífico. O Amazonas torna-se efetivamente o centro de ramificações aéreas na América do Sul, conjugando linhas para os Estados Unidos e Argentina, para o Pacífico, e o Atlântico, as quais se unem, por sua vez, às empresas de navegação aérea em todos os países sul-americanos.

Mapa aeroviário do Amazonas (1961)

Anuncia-se, por outro lado, uma linha entre Manaus e Rio de Janeiro, pelo interior do nosso país, escalando, possivelmente, em Cuiabá e Goiânia. Já se realizaram experiências nesse sentido, por aviões nacionais. Evidencia-se a necessidade imperiosa da máxima aprendizagem do Aeroclube do Amazonas, do qual já saíram as primeiras turmas de pilotos, cuja instrução se completa em outros Estados por falta de aparelhos de postos avançados.

Prestigiado pelo senhor doutor Salgado Filho, ministro da Aeronáutica, doutor Avelino Pereira e demais membros da Diretoria do Aeroclube se esforçam para dotar o Brasil de novos pilotos. O campo do Aeroclube encontra-se no bairro de Flores. O Estado tem procurado incentivar o programa dessa patriótica associação. Alguns alunos brevetados prestam serviços no próprio Aero Clube e em companhias comerciais.

É difícil resolver os problemas da Amazônia, tanto os de administração como os de ordem econômica, tanto os de saúde como o de desbravamento, sem a navegação aérea. Planície recortada de rios paralelos, com uma população extraordinariamente esparsa ou nucleada em lagos e terras firmes, apresenta os obstáculos da distância e do tempo, vencíveis pelo avião.

Comunicações de trinta e quarenta dias, perturbadas pelas florestas ou pelas cachoeiras, são resolvidas em horas de aviação, como sucede nos municípios acreanos e nos rios Negro e Branco. A supervisão do Governo Nacional solucionou esse problema.

Rio amazonense e seus afluentes e nenhuma habitação