CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, junho 17, 2013

PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


Recorte do boletim,
de 19 junho 1949
Certo dia, meu pai me presenteou com um folheto que, descolorido pelo tempo, juro não dei a menor atenção, mas permaneceu aquela curiosidade. Apenas verifiquei que se tratava de um boletim publicado pela paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Educandos, em 1949.

Em outro certo dia, chegou o momento de me dedicar ao conteúdo do folheto. E qual não foi minha surpresa quando em uma das páginas encontrei minha foto (veja as ilustrações), contando do meu aniversário naquele junho. Eu possuía solamente três anos e pousava no estúdio Artístico.

Hoje, 17, completo 67.

Semanário da paróquia de Educandos
 
A igreja de Educandos do padre Antônio Plácido foi meu primeiro porto seguro. O saudoso sacerdote conseguiu-me uma vaga no Seminário São José, ali na rua Emilio Moreira com a avenida Ramos Ferreira, onde hoje a Uninorte ensina os futuros advogados. Consegui completar a metade da caminhada, se pensava em ser padre.

Foi o vigário de Educandos que me ajudou a passar a primeira ponte que ligava o bairro a outro destino: a Cachoeirinha. Depois vieram as minhas conquistas e topadas, as vivas e as lágrimas e tantos outros incidentes. Passei no quartel da Praça da Polícia a vida operativa, meu único emprego. Nestes agoras, à margem do igarapé de Manaus dedico-me a catar papeis e a relembrar histórias. Como esta que meu pai protagonizou.

Escrevi isso para agradecer ao velho pai – Manoel Mendoza, que me espia com seus olhinhos cheios de nuvens que a catarata vai consumindo. Me espia de longe, bem longe. Não, ele ainda vive quase centenário, em São Paulo, capital.

Para ele, que soube guardar com carinho e devoção um pedaço história de Educandos saudoso e da Santa padroeira que sei o protege, meus parabéns nesse dia festivo para mim.

sábado, junho 15, 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (IV)

A questão do fornecimento de água e recolhimento de esgotos
Governador Jonatas Pedrosa
contratada no governo de Silvério Nery (1900-04) vinha complicando-se. Alguns consertos legais foram tentados: em 7 de outubro de 1911, a lei 688 “autoriza o Governador do Estado a entrar em acordo com o prefeito da Capital, a fim de que este possa adquirir os serviços da Manáos Improvements Limited”.
Ou seja, com a força do leão, o Estado passa ao município o “abacaxi”, porque se fosse doce, certamente o governador Antônio Bittencourt não entregava.
Às vésperas do levante, em 2 de maio, a lei nº 717 “aprova o novo contrato celebrado pelo governo do Estado com a Manáos Improvements Limited . Foi outra tentativa fracassada e deu-no-deu.

Sigo transcrevendo os acontecimentos ocorridos há um século que, segundo os relatos do Jornal do Commercio, no horário vespertino em que digito este texto, o bicho estava solto.

 
Recorte do jornal, Manaus,
17 de janeiro de 1913

Enquanto tais fatos dolorosos se passavam, o povo, dele sabedor e guiado por agitadores e arruaceiros que sempre aparecem em tais ocasiões, formando dois grandes grupos, partia em direção à rua dos Remédios (hoje Miranda Leão), onde se acham os escritórios da Manáos Improvements e ao jornal O Tempo, à rua Municipal (hoje avenida Sete de Setembro). 

O primeiro grupo, invadindo desenfreadamente aqueles escritórios, forçou as portas e quebrou o mobiliário, atirando à rua quanto pode encontrar que fosse transportável.
O segundo, chegando à frente da redação de O Tempo, também, com indescritível vandalismo, arrombou as portas, apedrejando o edifício, atirando utensílios e móveis à rua, ateando-lhes fogo, em seguida. Na sua fúria destruiu as oficinas desse diário.

Não satisfeito com esse reprovável feito partiu pela avenida Eduardo Ribeiro acima, esbandalhando as oficinas do Jornal de Manáos, cujos móveis foram arrastados à rua e reduzidos a cinzas.
Nessa ocasião houve correrias na avenida Eduardo Ribeiro, tendo sido os perturbadores da ordem postos em debandada por forças do exército, constando-nos terem se registrado alguns ferimentos.
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Cerca das 23h, chegou-nos às mãos o Boletim firmado pelos Srs. governador do Estado e general comandante da Região, que é do teor seguinte:
Tendo as forças federais de metralhar o edifício do quartel de polícia onde estão alojados os soldados revoltados contra o governo legal, avisamos as famílias, os comerciantes e estrangeiros que residem nas proximidades do quartel, a retirar-se no prazo de duas horas.
(aa) General Belo Brandão. Dr. Jonatas Pedrosa.
 



Quartel da Força Policial, em 1928


Cerca de 1h30 da madrugada (do dia 16), a artilharia do 19º Grupo de Campanha, sob o comando do capitão Otaviano de Souza Gomes que, com uma bateria se postou na rua Municipal, rompeu fogo contra o quartel de Polícia auxiliado pelo tenente Francisco das Chagas Pinto Monteiro, com outra bateria no alto da avenida Treze de Maio (agora Getúlio Vargas), tendo antes intimado os revoltosos a que se rendessem, recebendo formal recusa.
Às 2h20, mais ou menos, da madrugada terminava o fogo, avançando então as forças do Exército sobre o quartel, onde só encontraram o corneta de piquete que, ao que consta, foi nessa ocasião ferido.
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Pela madrugada, um novo grupo de amotinados, como revanche aos empastelamentos do dia anterior, atacou as oficinas do jornal Amazonas, não conseguindo empastelá-lo, por terem sido obstados pelo coronel Ivo do Prado que chegou a tempo de impedir essa violência, sendo um dos amotinados preso por um sargento do exército, na ocasião em que saía das mesmas oficinas. 

Rua dos Remédios (atual Miranda Leão), onde
se situavam os escritórios da Manáos Improvements
 
NOTAS AVULSAS 

O governador do Estado, que na ocasião de rebentar o movimento sedicioso no quartel se encontrava no palacete de sua residência (Paço da Liberdade, na praça Dom Pedro II), em companhia de seus filhos e vários amigos, conseguiu retirar-se ileso, escapando à sanha da soldadesca, graças a desordem que entre ela reinava.
A sua partida efetuou-se pelos fundos do palacete, donde, em automóveis, todos os que lá se encontravam foram conduzidos ao quartel general do Exército, então convenientemente guarnecido por praças do 46º BC e bateria do 19º Grupo.
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O governador do Estado mandou proceder a rigoroso inquérito, a fim de apurar quais os autores do sedicioso movimento do Batalhão Militar de Segurança.
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Dois sargentos, que se dirigiam ao quartel general armados de espada e com bonés de capitão e tenente à cabeça, foram presos incomunicáveis à ordem do general Belo Brandão.
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A banda de música da Polícia não aderiu ao movimento, bem assim, as guardas da 2ª delegacia e do Palácio do Governador.
A guarda da 1ª delegacia foi presa pelo delegado Rocha dos Santos, acompanhado de vários civis, armados de carabinas. Essa guarda foi conduzida ao quartel general, sendo ali desarmada.
A guarda da Detenção (atual presídio Raimundo Vidal Pessoa) abandonou o posto.

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O quartel de Polícia está guardado por uma força do Exército, sob o comando do capitão Otaviano de Souza Gomes.
Acham-se presos no quartel do 46º Batalhão e quartel de Polícia, cerca de 100 praças revoltados, tendo muito destes, segundo nos consta, se apresentado voluntariamente.
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No quartel, depois de abandonado, foram encontrados escondidos no porão, quatro praças, além dos cadáveres do tenente Rocha e de um anspeçada.
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Os sócios do Tiro Brasileiro nº 10, ao terem conhecimento dos fatos anormalíssimos de que estava sendo teatro a cidade dirigiram-se ao quartel do 46º BC, donde, depois de receber armamento vieram incorporar-se às forças do Exército e Polícia fiel, que estacionavam em frente ao quartel general.

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Agindo com prudência e segurança no restabelecimento da ordem, as forças do Exército ocuparam pouco a pouco os pontos estratégicos de mais valor, o que lhes valeu rápido sucesso. Assim é que, logo depois de divulgado o movimento, conseguiram as forças federais tomar posições na rua Municipal, no alto da avenida Treze de Maio, na praça de São Sebastiao, no alicerce do Palácio do Governo, na rua Jorge de Moraes (hoje Rui Barbosa) e em outros pontos, conseguindo destarte quase que isolar as forças revoltosas na praça da Constituição (da Polícia, no vulgar) e capturar aos poucos os soldados que se desagregavam do seu núcleo de defesa.
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Finalizamos estas notas com as tranquilizadoras palavras do governador do Estado, constante do documento abaixo, ontem pela manhã distribuído:

Boletim Oficial. O governador do estado do Amazonas leva ao conhecimento dos habitantes da cidade que se acha restabelecida a ordem, jugulado o movimento subversivo que conseguiu a revolta da Policia e mantido o princípio da autoridade devido ao modo valoroso e enérgico porque agiu o bravo general Belo Brandão, comandante da Região Militar, secundado pelas disciplinadas forças federais aqui estacionadas. A população nada receie, que serão mantidas todas as garantias constitucionais. Manaus, 16-6-913. 

Ainda tem mais. (segue)

quinta-feira, junho 13, 2013

INVASÃO DA MANÁOS IMPROVEMENTS (III)

Há um século, em 15 de junho, a cidade de Manaus assistiu a um entardecer trágico, com a invasão dos escritórios da Manáos Improvements, concessionária de águas e esgotos. A desordem começou, por estranho que pareça, dentro do quartel da Polícia Militar, ainda situado na (hoje) praça Heliodoro Balbi. O dia seguinte foi de expectativa, a própria imprensa parou, não circulou temerosa de empastelamento.

Somente a 17, com a Força Policial subjugada ao controle do Exército e enterrados os mortos e socorridos os feridos e protegidas as instalações da Improvements, os jornais voltaram às ruas. Dos que então circulavam, resta-nos o centenário Jornal do Commercio, do qual reproduzo os detalhes desse movimento.  A agitação teve repercussão nacional, a meu ver, por três motivos: o emprego da Força Terrestre; a cobrança judicial interposta pela concessionária inglesa; e a peculiaridade da revolta.

Deu no Jornal do Commercio, de 17 de junho de 1913.
 
Recorte do jornal, de 17 de junho


Sejam as nossas primeiras palavras uma condenação formal a tudo quanto se passou nesta cidade nos dias 14 e 15 do corrente.
Somos perfeitamente coerentes. Censuramos acremente o bombardeio de Manaus e verberamos os tristes fatos de que foi teatro esta cidade em dezembro do ano passado. Não podemos, portanto, deixar de profligar esta revolta e os atentados contra a imprensa, isto é, contra os quatro jornais que aqui se publicavam.

Estamos numa terra com foros de civilização e tais acontecimentos, perturbadores da ordem, aniquiladores da paz das famílias, são deprimentes, geram anarquia e colocam-nos em posição muito mesquinha diante dos que nos olham de fora.

Não sabemos, nem queremos saber, a origem de semelhantes fatos. Seja qual for eles merecem a nossa decisiva repulsa, agrade ou desagrade a gregos ou troianos, a desvairados ou a loucos.

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Só hoje que a calma voltou à cidade, circula o Jornal do Commercio, não o tendo feito ontem, pois a atmosfera de incerteza e de dúvidas que pairavam sobre a população, impedia que nos manifestássemos, com segurança, sobre os tristíssimos e lamentáveis sucessos ocorridos no dia quinze, à tarde, tendo princípio no quartel do batalhão militar de segurança do Estado.

Vamos, porém, recapitular ligeiramente os fatos, procurando dar quanto possível a verdadeira súmula dos acontecimentos, de acordo com os informes que nos pareceram mais acreditáveis.

Assim, no dia 15, cerca de 13h30, correu célere pela cidade a notícia de que praças do batalhão militar do Estado se haviam revoltado. De fato, tiros de carabina se ouviam, partidos do quartel e, pouco depois, em debandadas, passavam praças em todas as direções, alguns feridos.

Procurando sindicar de quanto havia, fomos informados de que parte dos praças, comandados por inferiores (sargentos), se havia revoltado, atirando sobre os companheiros de uma das companhias que tinham ficado fieis ao Governo, ferindo a vários e alvejando alguns oficiais que avisados de que alguma coisa de anormal se passava no quartel, para lá tinham ido a fim de dominar a soldadesca indisciplinada.

No dia 15, depois da revista regulamentar do meio-dia, em lugar de se retirar, os praças foram para as reservas, arrombando as arrecadações, armando-se e municiando-se e, ao mando de sargentos, formando no patamar superior do quartel.

A esse tempo, o tenente-coronel Adolfo Cavalcante, comandante interino do Batalhão, já avisado de que se tramava qualquer movimento sedicioso, dirigia-se ao quartel, mandando prevenir a oficialidade, comparecendo, pouco depois, os capitães Severino Corrêa da Silva, Raimundo Sinésio Benevides, este ajudante do Batalhão e aquele comandante da Companhia de Bombeiros; 1º  tenente Benedito Martins de Souza e o 2º tenente Francisco Marques Evangelista e mais alguns outros, cujos nomes não conseguimos apurar.

O comandante Adolfo Cavalcante, tendo sido recebido pelo oficial de estado (de dia), tenente Raimundo (Eduardo) Rocha, ia chegando ao patamar da escada, que dá para o andar superior, quando nos alojamentos desse andar rompeu grande alarido, ouvindo-se alguns tiros.

Punha o pé no primeiro degrau o comandante Cavalcante, quando um praça, aparecendo no topo da escada, apontou-lhe a carabina, fazendo fogo. O comandante imediatamente caiu, com um ferimento no pescoço, tendo a carótida quase atingida pelo projetil. O capitão Severino, vendo-o cair e correndo em seu auxílio, foi alcançado por uma bala que lhe esfacelou o antebraço direito.

A esse tempo, acorreu também o tenente Raimundo Rocha, oficial de estado, que ao chegar junto a um grupo de soldados amotinados, foi por um deles enfrentado, recebendo um tiro que lhe penetrou o crânio, prostando-o mortalmente ferido e sucumbindo poucos minutos depois.

O capitão Raimundo Sinésio Benevides, intervindo, recebeu um tiro que lhe atingiu um dos pés, sendo agredido pelos soldados que bastante o maltrataram, a couces de arma.

Saíram também feridos o tenente Francisco Marques Evangelista, com um projetil no braço direito, e o 2º tenente Arthur Martins, consta ter sido também baleado o tenente Benedito Marques de Souza.

O tiroteio então se tornou medonho. Uma das companhias, conservando-se fiel à ordem e ao Governo, foi atacada pelos praças revoltados, resultando sair um dos soldados morto e vários feridos. Vendo que não podiam resistir aos amotinados, fugiram os que os enfrentavam, tomando então os sediciosos conta do quartel, e perseguindo à bala seus companheiros, que saltavam o muro ou tentavam sair pelo fundo do edifício.

Dentre os feridos estão os soldados José Maciel de Melo, no braço direito; Pedro Cruz de Araújo, vulgo Macaco, no quadril esquerdo; Francisco Pacheco, na perna esquerda, todos com ferimentos leves. Foram ainda feridos, Lino José de Oliveira, nº 22 da 2ª companhia, com duas balas, uma que o atingiu no rosto e outra no ombro direito; Manoel Paes da Cunha, nº 8 da 3ª companhia, com um ferimento no ombro esquerdo.

Disse este praça a um de nossos companheiros que, estando no Mercado (Adolfo Lisboa) pela manhã, foi chamado por um ex-oficial que lhe dissera ir ocorrer um levante no quartel, pois contava com cerca de 100 praças para esse fim, acrescentando que morreriam todos os que não aderissem ao movimento. De posse dessas informações, Cunha foi até a casa do comandante Cavalcante, narrando o que ouvira.

Este oficial, porém, segundo ouvimos dizer, parece não ter dado crédito ao denunciante, mandando-o para o quartel, o que fez, vendo pouco depois de uma hora romper o fogo, que partia da 2ª companhia, sendo atingindo quando subia a escada.

O soldado José Felipe Neto, do esquadrão (de cavalaria), foi ferido no peito, lado esquerdo, saindo a bala pelas costas, sendo seu estado considerado gravíssimo. José Claudino Braz e Raimundo Corrêa de Moraes foram atingidos, o primeiro com uma bala na perna, e o segundo também por bala na coxa direita. Ao que nos disseram, foi este último soldado que fez fogo sobre o comandante Adolfo Cavalcante. (segue)