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sábado, fevereiro 29, 2020

RELATÓRIO DE CÂNDIDO MARIANO (1901)

Silvério Nery

Quando assumiu o governo do Estado, em 23 de julho de 1900, Silvério José Nery manteve Cândido Mariano na direção-geral da Diretoria de Obras, hoje secretaria de Infraestrutura. 

Mariano era capitão do Exército e se notabilizou em Manaus ao comandar, com o posto de tenente-coronel, a tropa da PM amazonense que marchou contra Canudos (1897).
À frente dessa diretoria, sob ordens governamentais, ele encaminhou um extenso Relatório, detalhando os contratos em vigor com o governo. 
Cândido Mariano
Vou compartilhar apenas  o primeiro destes, que trata do fornecimento de água para a cidade. 
De ante mão, esclareço que não possuo condições para transformar os valores monetários de então (réis) em valores atuais. No entanto, é possível observar o sobressalto do diretor-geral com os acertos realizados desde 1898. E, mais ainda, com os próximos 27 anos de validade do contrato. 

Recorte da folha de rosto do Relatório, anexo a Mensagem do governador,
de 15 de janeiro de 1901

Em obediência a vossa ordem, contida em circular de 17 de dezembro findo, passo a informar sucintamente a V. Exa. das ocorrências mais importantes sucedidas nesta Repartição desde 23 de julho do ano findo, até a presente data, bem como a fornecer-vos alguns dados sobre os serviços a cargo desta Diretoria.
Existem contratados atualmente os seguintes serviços: 
1.° - Fornecimento d'água, por meio das bombas hidroelétricas pertencentes ao Estado, aos reservatórios do Mocó e Castelhana, contratado com a Manáos Railway Company, desde 20 de julho de 1898. O referido contrato é talvez de todos os existentes, na atualidade, o que mais pesa sobre os cofres públicos, sem produzir vantagens correspondentes ao Estado. Com efeito, sendo o prazo da concessão de 27 anos, e necessitando esta Capital do abastecimento diário de seis milhões de litros, em média, segue-se que pelo preço contratado (três centésimos do dólar) por metro cúbico, a despesa diária, com o referido serviço, monta em quantia próxima a de um conto de réis, calculado o dólar ao câmbio de 10 dinheiros por mil réis.
Sendo assim, a despesa mensal será de cerca de trinta contos de réis, ou de trezentos e sessenta contos por ano,
ou de 9.720:000$000 nos 27 anos de duração do contrato.
Acresce mais que as bombas hidroelétricas que fazem o serviço de elevação d'água, dos mananciais aos reservatórios, pertencem ao Estado, que já as pagou, bem como a sua instalação ao feliz contratante.
Limita-se o serviço contratado exclusivamente ao fornecimento d'água, sendo que os mananciais produtores da mesma foram entregues ao contratante em perfeito estado de conservação e limpeza, bem como uma turbina e uma bomba a vapor, para auxiliar o referido serviço de fornecimento d'água. É, pois, este um serviço cujo rendimento não é proporcional à remuneração auferida pelo seu contratante.
O custeio anual do serviço de águas, somadas as despesas feitas com a manutenção do contrato acima aludido, e as exigidas da distribuição do líquido, executadas por esta Diretoria, monta em quantia superior a quinhentos contos de réis. No entanto, a renda a arrecadar anualmente pela coletoria de águas é computada em oitenta contos de réis!