CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, outubro 12, 2021

APARECIDA: PADROEIRA DO BRASIL

Neste dia, consagrado à padroeira do Brasil, a festa de caráter religioso nos convida à reflexão. Cada qual procede conforme os costumes e as conveniências. De modo costumeiro as igrejas católicas acolhem seus fiéis para saudar a Virgem que, apesar das inúmeras designações, é a Mãe amantíssima. Que ela nos dê forças para suplantar o momento aziago que enfrentamos.
Em falando de igrejas, tomei alguns postais de santuários religiosos  para ilustrar a postagem.



sexta-feira, outubro 12, 2012

Cervejaria Amazonense: centenário


Cervejaria Miranda Corrêa, anos 1940
Inaugurada nessa data, o prédio construído no bairro de Aparecida, de propriedade da família Miranda Corrêa, ainda segue contemplando a cidade. Foi ali no barranco do igarapé de São Raimundo que surgiu o centenário edifício, hoje desativado. Apesar desse impacto, já contemplou algumas marcas da festiva bebida.
Seu fundador foi o engenheiro Luiz Maximino Miranda Corrêa, de família de Santarém (PA). Registra um conterrâneo deste empreendedor, que a Fábrica de Cerveja Paraense trabalhou politicamente para evitar semelhante indústria na Amazônia, que trouxesse competição.
Em 1909, os irmãos Miranda Corrêa, apoiados pelo deputado Raul de Azevedo, conseguem autorização para a implantação “de uma fábrica de cerveja, guaraná e outros refrigerantes, implícita a fabricação de gelo”. No mesmo ano foi lançada a pedra fundamental, à frente o industrial Antonino Corrêa. Morto este, prematuramente, Luiz Maximino assume a direção.
Rótulos de produtos da Cervejaria Amazonense















Prédio da cervejaria (à esq.) ainda existente
no bairro de Aparecida. 
No local, é  fabricada a cerveja Kaiser
As duas guerras mundiais do século passado impõem diversos e duros abalos a essa indústria que, contudo, não a abateram. Funcionou esta, primeiro, com o fornecimento de gelo e de chope. Depois, com os refrigerantes e com a conhecida cerveja XPTO, que os apreciadores, os da terceira idade atual, apelidaram de Maroca. Resistiu às dificuldades costumeiras e ao desastre da borracha e suas consequências. Até que, já em principio da Zona Franca (1967) foi adquirida pelo fabricante da cerveja Astra, de Fortaleza (CE). E segue toda uma história que os jovens sabem em detalhes.
Para comemorar esta data, reproduzo rótulos e fotos deste altaneiro edifício, que segue ressalvando os empecilhos de nossas conquistas. 

terça-feira, dezembro 06, 2011

COMANDANTE VENTURA, SUA MORTE: 50 ANOS (5/5)


Comandante Ventura
Aconteceu na tarde desse dia, em acidente de trânsito com um jipe da instituição dos Bombeiros Voluntários. A repercussão foi imediata e geral na cidade, levando grande número de pessoas e autoridades ao velório e ao enterramento do corpo no dia imediato.
Os recortes abaixo de diários de Manaus, portanto, refletem o clima que a tragédia acarretou nos manauenses.


No ano anterior, morrera o subcomandante dos voluntários. E em 6 de dezembro de 1961, outro acidente grave mata o comandante José Ventura. A descrição pertence ao Jornal do Commercio (8 dez.). “O comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários voltava de uma missão, combater o incêndio nas instalações ‘asfálticas’ do Deram, na estrada Manaus–Itacoatiara, quando aconteceu o acidente”.

O veículo capotou em uma curva bastante íngreme no Km 36, provocando duas mortes (além de Ventura, morreu o bombeiro Mário Sá) e quatro feridos (todos integrantes daquela organização). O comandante Ventura foi o primeiro a falecer, pois seu corpo havia sido atirado do veículo à distância. O jipe desgovernado acabou no barranco marginal com cerca de 5 metros de altura.


O velório ocorreu “na residência do comandante Ventura, onde se registrou verdadeira romaria e cenas as mais pungentes, de amigos comuns e admiradores do grande morto e sua obra”. É conveniente lembrar que o aquartelamento se confundia com a moradia e a empresa da família Ventura. Apenas para recordação, ocupava esta o local onde hoje se encontra o Forum Mario Verçosa, em Aparecida.


Às dez horas de 7 de dezembro, o cortejo fúnebre partiu, encabeçado pelo carro dos Bombeiros Voluntários, mais um da Força Aérea Brasileira, para o cemitério de São João. Outros carros, estimados em mais de duas centenas, seguiram ao féretro. Foram muitas as representações de colégios, religiosas, escoteiros, e personalidades, como o deputado Josué Cláudio de Souza, em nome do governador Gilberto Mestrinho, e o general Vasco Kropf de Carvalho, do GEF.


Várias foram as homenagens prestadas aos mortos, no mesmo cortejo seguiam os corpos do comandante e de seu subordinado. Na prefeitura, onde funcionava a Câmara Municipal, falou o vereador Manuel Bessa Filho, “em nome da comunidade, ressaltando a grande obra do falecido”. Nova parada ocorreu no Palácio Rio Negro, “onde o governador do Estado rendeu homenagem aos mortos também em nome do povo amazonense”. Nas Casas Legislativas, os encontros trataram da morte do comandante. Os vereadores prometeram aprovar “a pensão de 10 mil cruzeiros à viúva do comandante dos Bombeiros Voluntários”.


No dia seguinte, o mesmo Jornal do Commercio produziu longo editorial. Dele, transcrevo parte:


A corporação dos Bombeiros Voluntários, no entanto, será herdeira desse exemplo e terá sempre a nortear-lhe os passos da figura agora legendária e espiritual do seu fundador e inesquecível comandante Ventura. Homem bom, vindo de outras terras do além mar para viver conosco, amar o Amazonas e trabalhar conosco, o comandante Ventura, por isso mesmo, tornou-se querido, estimado e incentivador de grandes campanhas de benemerência em favor dos necessitados, principalmente em benefício da Casa da Criança, Dr. Fajardo e do Instituto Gustavo Capanema. Como se não bastassem, ainda, essas provas inequívocas de amor ao próximo, o comandante Ventura idealizou e criou o Corpo de Bombeiros Voluntários para suprir a ausência do poder público nos dramas de incêndios da cidade.

O governador do Estado, Gilberto Mestrinho, não demorou (Lei n.º 44/1961) em amparar aos herdeiros do comandante, concedendo “à senhora Silvia Isabel Neves Ventura, viúva do comandante José Antonio Dias Loureiro Ventura, presidente da Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus, falecido no cumprimento do dever e a serviço da coletividade manauara”, a pensão de CR$ 15.000,00 (quinze mil cruzeiros).


Governador Gilberto Mestrinho, 1960

Esta providência governamental teve o suporte do legislativo, figurando o líder do governo, deputado Arlindo Porto, que pronunciou na Assembléia (e reproduziu na mídia) apurado discurso, para fundamentar a decisão do chefe do Poder Executivo. Lamentavelmente, a instituição dos Voluntários, ao perder seu baluarte, deu início ao seu desaparecimento.


Outro que se manifestou pela imprensa foi o colega de palco, de ribalta, o cronista Gebes Medeiros. Gebes, na coluna Theatro (O Jornal, 10 dez. 1961), ainda sob o impacto do desaparecimento trágico do amigo, sob o título Comandante Ventura, escreveu:  


                        Saudades daqueles que passaram pela terra, deixando um rastro luminoso, inapagável, fulgurante, cujas vidas foram todas devotadas ao próximo, pela feição, pela ternura, pelo ideal nobre e sublime, pela vocação constante e sempre fazer o bem, sem distinção de classes.
                   Comandante José Ventura!...
                   Deus tirou-o desta vida, na última quinta-feira!...
             Foi um homem do povo. Bravo, no entanto, no saber querer. Sentinela constante da nossa cidade, a frente dos seus bravos Bombeiros Voluntários.
O Jornal, Manaus, 18 ago. 1956
               Em julho seguinte, A Crítica (24 jul. 1962) registra que o jipe dos Bombeiros Voluntários, o acidentado na morte do comandante Ventura, fora recuperado. Além dessa generosa notícia, apesar do longo prazo para o conserto do veículo, em se tratando de prestador de serviço de urgência, havia outras. Uma, que os Bombeiros seguiam operando. Segunda, que o jipe fora restaurado às expensas da ECCIR, uma empresa de construções. E terceira, que o novo comandante era o José Afonso, que, na entrevista, falou dos “sonhos” dessa entidade benemerente. 


                       Disse-nos o comandante José Afonso que a recuperação do referido jipe totalizou em 150 mil cruzeiros, tudo custeado pela ECCIR, e que agora a Sociedade dos Bombeiros Voluntários de Manaus aguarda somente os carros pipas prometidos pelo governador Gilberto Mestrinho para que os heróis do fogo possam contar com os referidos carros em qualquer emergência.

Um ano depois ainda era lembrada a morte do saudoso comandante. Até porque a corporação divulgou a missa encomendada “em sufrágio da alma daquele”, na igreja de São Sebastião. A mídia impressa, em associação, relembrou o evento. Repassou em editorial que o pranteado recebera da Câmara Municipal o título de “Cidadão de Manaus” (O Jornal, 6 dez. 1962.  Faz, hoje, um ano de morto o Comandante Ventura). Encerrando o noticiário, o matutino assegurava que

                              Ventura era, acima de tudo, uma segurança permanente aos lares pobres e ricos, na defesa de seu patrimônio, contra incêndios. Quando isso porventura acontecia, ninguém se lembrava de outro nome senão o do Comandante Ventura.

                   E ele chegava, às carreiras, com o seu pessoal igualmente valoroso carregando um equipamento modesto, obsoleto mesmo, mas até aqui o único existente, pois a Prefeitura não dispõe de nenhum. E foi durante um dos seus combates às chamas, que a fatalidade tirou a vida do Comandante Ventura, juntamente com outro “soldado do fogo”. A cidade até hoje chora, com saudades, a morte do herói, cuja figura nunca deixou de ser reverenciada.