CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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quarta-feira, janeiro 04, 2012

CINE PALACE (1965-1973) Final


Dois anos depois, em 1969, a TV surge na Cidade, causando o afastamento de grande parte dos frequentadores de casas de espetáculos. Houve sessão do Palace, para exemplificar, que ocorria para cerca de doze espectadores; cuja bilheteria não pagava os custos de locação do filme, especialmente de produções nacionais. Dos seis cinemas desta companhia, o Palace e o Ideal eram os que apresentavam menor renda, além de não possuírem bastante popularidade.
Cinema em São Jorge
A matéria assinada por William Mattos para o matutino de Umberto Calderaro (A Crítica, 21 maio 1971), confirma isso. A cidade pergunta: cinema ainda é a melhor diversão? (...) Fase crítica também atravessa os cinemas da Empresa Bernardino. Algumas de suas casas exibidoras (Palace e Ideal) não arrecadam nem o suficiente para custear as despesas de uma sessão. Se até o fim do ano a situação não melhorar, declarou o gerente Adriano, “nós seremos forçados a fechar aqueles dois cinemas”.
Para sobreviver, a empresa Bernardino busca em películas de cantores da juventude, como: Roberto Carlos em ritmo de aventura; O Seresteiro de Acapulco, com Elvis Presley; Voltarei a seus braços, com Gianni Morandi, e Dio Come Ti Amo, com Gigliola Cinquetti, recuperar os prejuízos. Aos domingos, as fitas de bangue-bangue italiano também garantiam lucro certo e casa cheia.
São mostras deste período: 10.000 dólares para Django; Por um punhado de dólares; Trinity ainda é o meu nome; 7 dólares ensanguentados etc. Outro motivo para a queda de frequência é causado pelo INC, que controlava com mão de ferro a venda de ingressos, agora padronizados. Além de obrigar aos dirigentes locais a exibir produções nacionais, algumas mutiladas pela Censura Federal.
Ainda em 1971, em outubro, a arriscada situação dos cinemas de Manaus foi analisada pela Câmara Municipal e pela Assembléia Legislativa. Ambas, pediam o fechamento dos cinemas da cidade, devido às péssimas condições de funcionamento. A Prefeitura instituiu uma comissão fiscalizadora, destinada a vistoriar os cinemas e, de todos eles, o Palace e o Ipiranga foram considerados os melhores. Possuíam ótimos projetores, boa ventilação, salões amplos e, apesar de não disporem de cadeiras estofadas, ao menos eram mantidas asseadas, diverso do que ocorria em outros cinemas.
Jornal do Commercio. 17 dez 1965
Adriano Bernardino Filho, em depoimento ao Jornal do Comércio (18 dez. 1971), confessa vir cogitando do fechamento dos cines Palace e Ideal em janeiro seguinte.  Em razão da limitada frequência e, além disso, da empresa não mais suportar o funcionamento. As despesas que acarretavam, sufocavam a empresa. Informava também, que estava em negociação com uma firma paulista para a venda dos imóveis. Das duas salas citadas, apenas o cinema Ideal, de São Raimundo, foi fechado e vendido no final de janeiro.
O Palace sobreviveu por mais um ano, apesar dos prejuízos enfrentados. Em mais uma tentativa de melhorar a imagem deste cinema, Bernardino patrocinou a vinda a Manaus de Regina Duarte. À época, a atriz estrelava a novela Minha doce namorada (TV Globo). Regina fez uma apresentação no palco deste cinema na noite de 24 de março de 1972.
Mesmo com tanto material, a frequência não foi respeitável. No dia seguinte, a atriz apresentou-se no extinto Acácia Clube, situado na Av. Joaquim Nabuco, no centro da cidade.
Em 29 de junho do mesmo ano, novo relatório da comissão fiscalizadora chega às mãos do prefeito Paulo Nery, já em final de mandato. Sobre o cine Palace, esse relatório expunha que, na fenda existente no teto, produto do desabamento de 1966, foi consertada apenas com uma grossa camada de cimento. E, consequentemente, o mesmo não oferecia segurança aos frequentadores.

Em fevereiro de 1973, já na gestão do prefeito Frank Lima (1972-1975), a equipe fiscalizadora da Sedeco, chefiada pelo médico veterinário Carlos Durand, vistoriou cinco cinemas em Manaus e concluiu que, de todas as salas, a que apresentava melhores condições de higiene e conforto ao público era o Palace.
Lamentavelmente, a carreira do cinema do boulevard Álvaro Maia estava chegando ao fim. Em virtude da frequência em declínio e dos graves prejuízos, o prédio foi vendido em 7 de maio do mesmo ano. Nessa ocasião, exibiu seu derradeiro filme – O grande xerife, estrelado por Mazzaropi; como já era de praxe, contadas as pessoas que ocuparam a platéia.
O edifício onde funcionou o Cine Palace foi modificado para servir de supermercado, pertencente às Casas do Óleo ou, simplesmente, C.O. Também não prosperou, pois deixou de funcionar em dezembro de 2001. Atualmente o edifício acha-se fechado e em completo abandono.

CINE PALACE (1965-1973) 1ª Parte


Arthur Reis, governador

No início de 1965, a empresa de cinemas A. Bernardino & Cia. Ltda., então dirigida por Aurélio Antunes, Adriano Bernardino Filho (Adrianinho) e Mário Bernardino, adquire um terreno no boulevard Amazonas (atual Álvaro Maia) esquina com a rua Ferreira Pena. Visando ampliar sua cadeia cinematográfica, nele constrói uma sala de exibição, denominada de Palace, com capacidade para 400 espectadores.
A inauguração oficial ocorreu em 18 de novembro do mesmo ano. Na manhã, o governador Arthur Cezar Ferreira Reis (1906-1993), acompanhado da esposa, Graziela Reis, da imprensa, de autoridades e dos proprietários do cinema, cortou a fita simbólica. Em seguida, discursou o advogado da empresa, Dr. Joaquim Ferreira Marinho (1912-1972).
Em breves palavras, entrega ao povo de Manaus um novo cinema e aproveita para revelar a motivação da data de sua inauguração: “Nesse dia, se estivesse vivo, estaria completando 64 anos de existência o Sr. Adriano Bernardino, sócio-fundador da firma que muito fez pelo seu progresso e bem estar” (O Jornal, 19 nov. 1965).
Prosseguindo o cerimonial, a esposa do governador descerrou a placa de bronze afixada no salão de espera, homenageando o fundador Adriano Bernardino (1901-1961). Arthur Reis, aproveitando a solenidade, em breve discurso, afirmou que o Amazonas precisava de obras de vulto como a que acabava de entregar ao povo amazonense, não somente por particulares, mas também de parte do governo estadual.
Encerrando a festividade, foi exibido o curta-metragem Roma em Madri, antecedido dos complementos A Marinha descobre o Brasil; Aprendizes do mar; e AM-1, história de uma rodovia, produzidos por J. Borges Filmes Ltda., além de um complemento nacional de Herbert Richers. Para o visitante mais jovem, complemento nacional nada mais era que uma espécie de documentário mostrando ações do governo.

Convite da inauguração publicado em jornal
Para o povo, a inauguração ocorre às 20h, ao preço de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), com distribuição para o público feminino da revista Grande Hotel, exibindo A Queda do Império Romano, superprodução da Paramount, com os astros Sophia Loren, Stephen Boyd e James Mason. Conforme os diários, após a inauguração desta sala, a direção da A. Bernardino estava cogitando em construir outro cinema, projetado para o bairro de São Jorge. Este projeto, infelizmente, não se concretizou. 
No palco do Cine Palace também eram realizados shows, como o realizado em 6 de novembro de 1966, quando houve a apresentação única do cantor francês Jacques Sasson. Os cantores nacionais, Wanderléia, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Os Vips, Golden Boys, e outros da intitulada Jovem Guarda, também encantaram o público neste cinema.

Jornal do Commercio, 21 dez. 1966
No entanto, em 20 de dezembro de 1966, cerca do meio-dia, forte chuva provocou o desabamento do telhado do Cine Palace. O desastre assustou, destruindo cadeiras da platéia e provocando uma imensa nuvem de poeira. Felizmente, naquela hora, o prédio encontrava-se vazio. Em seu interior, apenas os funcionários da limpeza, que trataram de escapar ao ouvir os primeiros estalos da destruição. Por esses motivos, não houve registro de vítimas fatais.
Cessado o susto, o prédio do Cine Palace permaneceu fechado para reformas. Reabre em julho de 1967; ano da consolidação da Zona Franca de Manaus. A partir daí, com as benesses oferecidas pela Zona Franca, Manaus passa a se desenvolver mais rapidamente, assistindo a implantação das primeiras fábricas que, em nossos dias, compõem o Distrito Industrial. (segue)

quarta-feira, setembro 15, 2010

CINEMAS DE MANAUS (III)


Cinema Avenida

Ed Lincon

Na avenida Eduardo Ribeiro, junto ao “Canto das Novidades”, de Andrade, Santos & Cia. (onde estiveram, pela ordem, o Bar Americano, a agência do Credireal de Minas Gerais e, atualmente, a loja C & A), funcionou de 28 de novembro até o início de dezembro de 1909, a sala de exibição denominada Cinema Avenida.


Três anos depois, na mesma avenida, ao lado do “Restaurant Français” (mais tarde Bar e Sorveteria Avenida e, atualmente, agência do Bradesco), a 20 de outubro, foi inaugurado o segundo Cinema Avenida, de J. Moraes & Cia., com orquestra regida por Landry, Campos e Pagani. Assim como o antecessor, também este teve existência meteórica, ao fechar definitivamente em janeiro de 1913.


Cine Avenida, anos 1940
Somente em 1935, Antonio Lamarão e Aurélio Antunes fundaram a empresa Cinema Avenida Ltda. A empresa logo adquiriu o edifício nº 427 desta avenida, onde funcionara entre 1926-1934 a “Manáos Arte”, de J. G. Araújo (casa especializada na venda de artigos fotográficos, projetores, bicicletas, pneus e representação dos automóveis Willys), para nele instalar a sala de cinema Avenida.


A 1º de dezembro, a firma inicia as obras de reforma e adaptação do edifício, procurando dotá-lo de luxo e conforto. A pré-inauguração ocorreu na noite de 26 de março de 1936, em sessão especial para a imprensa e autoridades. Na ocasião, foi exibido o filme americano Voando para o Rio, estrelado pela atriz mexicana Dolores Del Rio, Fred Astaire e Ginger Rogers.


Equipado com “moderno” sistema de projeção, que combinava som e imagem, o Avenida foi o segundo (Alcazar, o primeiro no início dos anos 1930) a usar esse processo, denominado de Movietone. Dispunha de 642 lugares e, na estréia em 27 de março, cobrou o ingresso a 3$200 (três mil e duzentos réis). Já em maio, a empresa inaugurava ao lado da Igreja de São Raimundo, o Cine Paroquial, também conhecido como “Cine São Raimundo”.


Dona Yayá, 1942
Logo denominado pelos jornais de “o cinema da elite manauense”, o Avenida tornou-se o favorito das famílias abastadas de Manaus. Outro detalhe singular marcou essa casa: a presença do proprietário, Aurélio Antunes, acompanhando o movimento da bilheteria, e mais destacada a de sua esposa, Maria Amélia Cezar Antunes. Dona Yayá, como era conhecida, usava quase sempre vestidos floridos e os longos cabelos negros amarrados em coque. Por isso, tornou-se a atração: pelo trajar espetaculoso e pela excessiva maquiagem no rosto.


Yayá costumava descrever trechos do filme em exibição, com o intuito de atrair os espectadores. Ao lado do marido, manteve-se à frente do cinema Avenida até o começo dos anos 1970, quando o mesmo encerrou as atividades. O falecido senador Jefferson Peres (1932-2008), em seu livro Evocação de Manaus, traça luminoso perfil dessa personagem.


Para comemorar o primeiro aniversário, o Avenida exibiu dois filmes distribuídos pela R.K.O. Rádio Pictures do Brasil: Os últimos dias de Pompéia e O Picolino. Este, um musical estrelado pela dupla de atores-bailarinos Fred Astaire e Ginger Rogers.

Em setembro de 1937, informava o Diário Oficial que a empresa solicitara ao Governo o arrendamento de um terreno no bairro de Educandos. Situado nas proximidades da conhecida Baixa da Égua, destinava-se à construção de um cinema (no local iria funcionar mais tarde o Cine Vitória).
Adriano Bernardino, 1958


No final de 1937, retirou-se da empresa o sócio-fundador Antonio Lamarão, e foi substituído por Antonio Relvas Júnior e Adriano Bernardino. Nesse mesmo ano, a empresa passou a fornecer filmes para o vizinho município de Itacoatiara. E, no ano seguinte, a mesma arrenda o prédio onde funcionara o cine-teatro Alcazar, que o reforma e realiza sua nova inauguração a 6 de agosto, agora com a denominação de Cine-Teatro Guarany.



Em 1942, Adriano Bernardino assume o controle majoritário da Empresa Cinema Avenida Ltda., alterando a razão social para Empresa de Cinemas A. Bernardino & Cia. Ltda. (segue)

segunda-feira, junho 07, 2010

Os cinemas de Manaus

Cine Guarany (final)

Ed Lincon


No início de 1938, o Alcazar foi arrendado e totalmente reformado pela empresa Cinema Avenida Ltda. A mudança começou pela substituição do nome: de Cinema-Teatro Alcazar para Cine-Teatro Guarany (título muito em voga na época, devido ao forte sentimento nacionalista alcançado pelo sucesso do romance indigenista de José de Alencar, O Guarany). Outra mudança se dará nas cores do prédio e de seus vitrais: em lugar de vermelho e verde de Alcazar, agora as cores da bandeira nacional.
No sábado, 6 de agosto, o matutino da Empresa Archer Pinto assim informava a abertura da “nova” casa de diversões da cidade:

A fim de evitar tumultos à porta, os bilhetes foram vendidos em outro cinema da empresa, o Avenida (localizado na Av. Eduardo Ribeiro, onde hoje funciona uma loja Bemol), ao preço de 2$000 (dois mil réis) para a platéia, e 1$500 (mil e quinhentos réis) para as galerias. Abrindo as sessões, foi exibido o Fox-Jornal n.º 20X74, contendo o jogo de futebol entre BrasilxTchecoslováquia, trazido especialmente para a inauguração do novo cinema.
Inaugura-se hoje, sob acentuada curiosidade pública, o Cinema Guarany, de propriedade da Empresa Cinema Avenida Ltda., o qual está destinado, pelas características de conforto e segurança que oferece, a ser um centro de diversões preferido pela população.
Cine Guarany, 1977
Pavilhão São Jorge, 1976

Além de filmes, espetáculos teatrais de grupos locais, também eram levados em seu pequeno palco: A Filha do Saltimbanco, peça em quatro atos, encenada pelo corpo cênico do Luso, comenta A Tarde (18.03.1948). O Guarany detinha o privilégio de ser o único cinema de Manaus a manter abertas as portas laterais (corrediças) para ventilação durante as sessões noturnas, por onde se saía para fumar no jardim.


Não se pode falar do cine Guarany sem citar o nome de Vasco José de Faria (1892-1969), seu gerente, que com o passar dos anos ganhou a simpatia de frequentadores, em especial, das crianças que o chamavam carinhosamente de vovô Vasco. Nascido na cidade do Porto (POR), Vasco chegou a Manaus aos 13 anos de idade. Em março de 1916, Vasco aparece como funcionário do Teatro Amazonas. Na década de 1920, é contratado pela Empresa Fontenelle para fazer a programação do Polytheama e do Odeon.
Em 20 de julho de 1938, Vasco Faria firma com a Empresa Cinema Avenida, um “contrato de locação de serviços”, (apesar de já vir colaborando com a mesma desde 1936). No início de agosto seria admitido como “auxiliar interessado” (espécie de sócio minoritário) por seu conterrâneo Adriano Bernardino, para gerenciar o novo cinema Guarany, onde “com igual carinho puxava pela orelha o garoto que “ia furando” como “punha para dentro” aquele que lhe dizia com olhos de “chiclete” mastigado, na última projeção de uma fita em série que vinha acompanhando, que não tinha dinheiro para a entrada...”.
Nos aniversários do cinema, Vasco distribuía balões e bombons para a garotada e sorteava brindes aos freqüentadores. Em 1968 foi lhe dado o título de “Cidadão de Manaus”, mas a sua modéstia impediu-o de comparecer a Câmara Municipal para ser homenageado. Este amigo da criançada permaneceu à frente do cine Guarany até a sua morte, em 15 de agosto de 1969, no Hospital da Beneficente Portuguesa.

Quando em 1939 o Guarany completou o primeiro ano de funcionamento, a empresa proprietária decide comemorar em todos os anos, em 6 de agosto, o aniversário de fundação. A comemoração iniciava no dia 1º de agosto, com queima de fogos e execução da ópera “O Guarany”, de Carlos Gomes. A fachada desta casa de espetáculos era então enfeitada com bandeirolas multicoloridas e, postados na entrada, vistosos painéis ricamente decorados contendo os cartazes dos filmes a serem exibidos durante a semana. O tráfego de veículos em Manaus nas décadas de 40, 50 e até 60 do século passado era tranquilo. Poucos automóveis em circulação nas ruas, ainda assim, os agentes de trânsito estavam sempre atentos, auxiliando para que a festa do Guarany transcorresse sem problema.


Espanhol de nascimento, Domingos veio para Manaus em 1911, onde montou uma pequena lavanderia. Em 1936, foi convidado por Antonio Lamarão para zelador do cine Avenida. Com a inauguração do Guarany em 1938, foi transferido para este, onde, além de zelador, acumulava as funções de porteiro e vigia. Para isso, residia em companhia de uma filha adotiva em pequeno aposento situado na parte posterior do prédio (em fevereiro de 1973, aos 88 anos, “seu” Domingos ainda continuava no mesmo local).


Na semana de aniversário, em todas as sessões havia sorteio de prêmios entre os espectadores ofertados por empresas locais: J. G. Araújo, Antonio M. Henriques, Casa Canavarro, Drogaria Universal, entre outras. Para a realização desses sorteios, Vasco contratava radialistas como Belmiro Vianez (1915-2005) e Ivens Lima (atualmente residindo em São Paulo).


Na ocasião dos festejos, havia um espectador especial presente: Orlando Marques Braga (1905-c1980), deficiente mental, popularmente conhecido como “Xerife” ou “Tom Mix”, curtidor dos filmes de faroeste, quando então se vestia à caráter, ou seja, com chapéu, cartucheiras (sem revólveres) e estrela no peito. Em fevereiro de 1984, o “Xerife” então com 79 anos de idade, vivia na Fundação Dr. Thomas. Outro personagem bastante conhecido dos frequentadores do Guarany era o deficiente visual conhecido por Jaú, que se postava junto à bilheteria, pedindo esmolas.


Para entretenimento geral, a empresa Bernardino oferecia, nos dias que antecediam ao festejo do Guarany, sessão de cinema ao ar-livre. Ocorria às 18h30, em uma tela improvisada suspensa entre dois postes de ferro localizados no Pavilhão São Jorge. Também conhecido por República do Pina ou Café do Pina (inaugurado em 3.5.1951), estava arrendado ao português José de Brito Pina (1912-1982). Os filmes projetados geralmente eram documentários da Organização Rank ou desenhos animados do Tom &Jerry.
Café do Pina, 2008


No 17º aniversário do cine Guarany, em agosto de 1955, é instalada a tela panorâmica e as cores do prédio foram substituídas pelo rosa e cinza. Esta pintura permanece até a metade da década de 1960, quando o prédio volta a ter as cores originais. Em 1958, o 20º aniversário foi marcado pela ausência de Vasco Faria, em férias na Europa, todavia, não apagou o brilho da festa.
Como era do calendário, a festa de aniversário do cine Guarany ocorreu a 6 de agosto de 1964. No ano seguinte, os jornais deixaram de informar a sua realização. Dizem que foi impedida pela Ditadura Militar, que assumiu o País em 31 de março de 1964.
No entanto, em agosto de 1973, a empresa Bernardino, cujo controle acionário fora adquirido pelo grupo Phillipe Daou, realizou a festa de aniversário do Guarany. Infelizmente, essa foi a última comemoração de aniversário do cine Guarany.
Instaladas a Zona Franca de Manaus, em 1967, e, dois anos depois, a primeira estação de televisão, TV Ajuricaba, os cinemas da cidade sentiram o esvaziamento de público. Também motivado pela exibição de filmes de qualidade discutível, como as produções do chamado Cinema Novo, de Glauber Rocha (1939-1981), Terra em Transe, Deus e o Diabo na Terra do Sol; Rogério Sganzerla (1946-2004) O Bandido da Luz Vermelha e Mulher de Todos; Joaquim Pedro de Andrade (1932-1989), Garrincha, Alegria do Povo; e Nelson Pereira dos Santos (1928-), Rio, 40 Graus, etc.

O matutino O Jornal (14.5.1972) enumera os problemas enfrentados pelas casas cinematográficas de Manaus:
Diante do fechamento definitivo de quase todos os cinemas da cidade, a partir de julho de 1973, permanecem em funcionamento apenas o Guarany e o Ipiranga, arrendados para o Grupo Daou/Bernardino, que realizou pequenos reparos nessas duas salas. Após a breve “reforma”, contudo, o Guarany se transformou num pardieiro onde a desordem imperava, segundo noticiavam os jornais, ilustrando bem essa situação:
No Guarany, por exemplo, não se sabe se por motivos de falhas de equipamento ou de pessoal, as projeções estão péssimas. Normalmente num só filme mais de cinco cortes ocorrem isto para não se falar nos escurecimentos da tela, que já se tornaram tradicionais, coisa que só pode ocorrer se o sistema automático que guia os carvões estiver com defeito e, em última instância se o operador de máquina não estiver acompanhando atentamente a projeção.



A Notícia – 26.8.1975 - Guarany virou ninho de carapanãs:
Transformado em verdadeiro esconderijo de morcegos, ratos e carapanãs, o Cine Guarany, se encontra em estado deplorável, sem oferecer o mínimo conforto ao público, que lhe dá preferência diariamente.

A Crítica – 26.8.1976 - O Cine Guarany, contando com um gerente igualmente grosseiro (a menos que tenha sido substituído recentemente), já se tornou notório ponto de encontro de homossexuais. Ninguém pode ir ali com a família, pois o ambiente é o mais obsceno possível, contando com a condescendência dos proprietários que, no fim das contas, só querem mesmo saber do dinheiro das entradas por um serviço que prestam muito mal.


Em novembro, o Prefeito Jorge Teixeira de Oliveira (1975-1979), conhecido por “Teixeirão”, ao promover a ampliação do corredor viário, transfere o Pavilhão São Jorge de frente ao cine Guarany, para o outro lado da praça Heliodoro Balbi (ou da Polícia), quase na esquina das ruas Marcílio Dias e José Paranaguá.
Exibindo filme impróprio para menores, o cine Guarany entrou a década de 1980 dando os seus últimos suspiros. Em maio de 1983, os jornais anunciam sua venda e posterior demolição, destacando que o mesmo funcionaria até 10 de junho. Tal não se verificou, porque a empresa Bernardino conseguiu prorrogar por mais alguns meses o contrato de arrendamento.


Começava a partir daí, a luta inglória pela preservação do cinema mais antigo e popular de Manaus, ainda em atividade. Políticos, jornalistas, estudantes e frequentadores em geral, todos de alguma forma manifestaram-se contra a venda e possível demolição do prédio. O movimento pró-Guarany, ganhou força com a criação em junho de 1983, da Comissão de Defesa do Cine Guarany, com reuniões na sede do Sindicato dos Jornalistas do Amazonas. A Assembleia Legislativa, também pediu o tombamento do cinema, fundado em sua importância histórica e cultural para a cidade de Manaus.


Na noite de 6 de janeiro de 1984, na Galeria Afrânio Castro localizada no térreo da Academia Amazonense de Letras, com a exposição de fotos dos antigos cinemas e a exibição do filme Harmonia dos Contrastes (1966), de Ivens Lima, foi realizado o lançamento do livro Hoje tem Guarany!, dos professores da Universidade do Amazonas (atual UFAM), Narciso Lobo e Selda Vale. Na apresentação, os autores assim definiram a obra:
O livro conta a história do cine Guarany desde a fundação. A renda do lançamento foi revertida em prol do movimento da conservação e tombamento do prédio. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em artigo no Jornal do Brasil (31.1.1984) Manaus e a história de um cinema, também entrou na luta.
Escrita a quatro mãos, esta publicação é assumidamente sentimental. Angústia, raiva e satisfação acompanharam este trabalho. Foi uma curtição, mas com o olho nos fatos. Incompleto, talvez, com lacunas, certamente, e com a marca de dois estilos diferentes. É o primeiro rebento de uma relação de amor triangular: nós o cinema e Manaus.

Infelizmente tanto grito não foi ouvido, o cine Guarany ainda continuaria por mais sete meses, exibindo filmes de karatê e sexo explícito. Nos dias que antecederam ao seu fechamento, os jornais publicaram o seguinte aviso: “A ilha dos mil prazeres será o último filme desse cinema que funcionará até 6ª feira. Aos distintos espectadores que freqüentam esta casa de espetáculo muito obrigado. Empresa de Cinemas Bernardino Ltda.”


Confirmando o melancólico anúncio, o Guarany funcionou até 31 de agosto de 1984. O último filme: A ilha dos mil prazeres. Na platéia, pouco mais de 20 espectadores, contando-se os funcionários. Ao término sessão, o gerente Antonio Pereira da Cunha (1931-), alcunhado de Português, iniciou a desmontagem das cadeiras que foram levadas para o depósito da empresa Bernardino.


O cine Guarany chegara mesmo ao fim. Vendido pela família Araújo, o prédio começou a ser demolido no dia 24 de setembro. Em editorial, A Política do patrimônio, o matutino A Notícia (25.9.1984), questionou a demolição do cinema da av. Floriano Peixoto. Nada mais havia a tratar, veio abaixo em 10 de outubro.

Retirados os escombros, no lugar do velho e saudoso cine Guarany, a cidade assistiu a construção de “moderna”, porém, monstruosa caixa de concreto que abriga atualmente uma agência do Banco Itaú.