CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, junho 16, 2021

CORONEL MÁRIO PERELLÓ OSSUOSKY

Faleceu ontem, em Brasília (DF), o ex-comandante da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), coronel Mário Ossuosky. que assumiu o comando em 23 de abril de 1975 e o deixou em 13 de maio de 1979, quase todo cumprido na gestão do governador Henoch Reis. 

Coronel Ossuosky (no detalhe), seguido do general Heitor Luiz - IGPM; oficial CMA;
desembargador Jesus Ferreira Lopes; doutor Mário- Auditor Militar e major PM Odorico
Alfaia, em recepção ao IGPM ocorrida no restaurante Chapéu de Palha (1977)

Sua presença na corporação foi marcante, cabendo ressaltar a implantação do corpo de leis, que ainda servem de diretrizes na corporação. Outra respeitável iniciativa foi a criação dos grandes Comandos, então divididos em Capital e Interior. 

A ele cabe a existência das primeiras Diretorias: de Finanças, de Apoio Logístico e de Pessoal. No tocante ao policiamento ostensivo, tratou de dotar a Cidade e o Interior com as Companhias Independentes, e diante da expansão da Zona Franca, a Companhia de Choque. Em Tefé, foi instalada a sede do 3º Batalhão. Sua última inauguração foi o Centro de Suprimento e Manutenção, no bairro de Petrópolis.

Cuidou igualmente da área social, com ênfase nos clubes (hoje associação) de praças e oficiais. Prestigiava com vigor as iniciativas dos camaradas policiais. Outro detalhe desta área foi a abertura do Armazém Reembolsável, instalado no próprio quartel da Praça da Polícia, para atender aos policiais amazonenses.

Deixei por derradeiro a marca de outra iniciativa deste comandante, cuja ação ainda perdura em nossos dias, suspensa obviamente pela pandemia. Trata-se da congregação de oficiais em almoço fora da caserna, quando os espíritos se congregavam e as deliberações mais bem fluíam. Teve início com a alcunha de "almoço dos cardeais", hoje possui uma denominação mais eclética: "almoço dos coronéis".

Descansa em paz, talentoso Comandante, a PMAM tem a obrigação de consagrá-lo em alguma de suas realizações.

terça-feira, junho 15, 2021

PMAM - DOCUMENTO DE SUA HISTÓRIA

 A implantação do Estado Federado do Amazonas ocorreu com a posse do governador nomeado pelo Governo Central: tenente EB Augusto Ximeno de Villeroy. Que, empossado nos primeiros dias de janeiro, deixou o governo em 2 de novembro de 1890.

Formulário do Batalhão de Polícia

Coube-lhe promover a primeira reformulação da atual Polícia Militar do Amazonas (PMAM), ocasião em que nomeou ao tenente EB José Carlos da Silva Telles, como tenente-coronel comandante desta Força (1890-91). Não posso afirmar que Silva Telles já se encontrava servindo em Manaus ou se fez parte do comboio de Villeroy desde a Capital Federal. 

Destinatário e a assinatura do remetente

Contudo, quando Villeroy escapou de Manaus, em novembro, passando o governo ao secretário de governo, Eduardo Gonçalves Ribeiro, outro tenente EB, o mencionado comandante foi mantido. É dele o documento aqui compartilhado, no qual manifesta sua alegria. Mais adiante, quando major, Silva Telles comandou a Polícia Militar de São Paulo (1894-97). 

ESTADO FEDERADO DO AMAZONAS

Secretaria do Batalhão de Polícia, Manaus, 5 de novembro de 1890

Nº 247

Acuso a recepção de vossa circular datada de 2 do corrente mês, na qual me comunicou ter assumido a administração deste Estado. 

Tenho a dizer-vos que fiquei bastante satisfeito em ter tido esta agradável notícia, pelo que vos ofereço os serviços que estiver em meu alcance. 

Saúde e Fraternidade

Cidadão Tenente Doutor Eduardo Gonçalves Ribeiro, Governador deste Estado 

José Carlos da Silva Telles 

tenente-coronel comandante

 

sábado, junho 12, 2021

AJURICABA - HERÓI INDÍGENA

Em 1957, Manaus assistiu o lançamento de um livro sobre o nosso herói indígena: Ajuricaba. O autor – Valério Garcia Caldas - deu-lhe o título de AIURICÁUA, e o tratou como “Símbolo do heroísmo Amazonense!”. Mas quem é o autor desta obra? Tudo quanto sei, compartilhei da “orelha” do aludido compêndio:

Capa do livro

Valério Garcia Caldas, com 55 anos de idade [nascido em 1902], iniciou seus estudos no Instituto Universitário Amazonense até 1916, quando foi para a Bahia fazer o curso do Ginásio Carneiro Ribeiro, de onde afastou-se no 3º ano, em virtude do abalo financeiro e de saúde de seu avô que veio a falecer, não tendo podido terminar o curso ginasial, para enfrentar encargos de família.  Fez o curso pre-agronômico no ano de 1921, não terminando por embaraços em sua vida de funcionário público federal, como Carteiro dos Correios do Amazonas e do Acre. No ano de 1944, tendo voltado do Acre, onde servira como Agente Postal Telegráfico, já casado e com duas filhas, resolveu matricular-se no curso Agrotécnico da Escola Agronômica de Manaus, afinal diplomando-se no ano de 1947, quando dirigia como redator-chefe a Revista Agronômica, órgão do Centro Agronômico da Escola.

Alcancei um exemplar deste na biblioteca de Mario Ypiranga, situada no Centro Cultual Povos da Amazônia, o qual registrou nele algumas perversas considerações sobre o autor e a obra. Além de reproduzir em fotos, faço as transcrições literais para a devida apreciação do visitante.

Sobre o autor: Esse cara é estafeta dos Correios e Telégrafos e possuía um parafuso frouxo. Esse folheto é a prova.


Sobre a obra (p. 16): * filho duma puta burro! Nessa época nem o Amazonas era conhecido nem Aiuricáua existia!

O livro foi composto e impresso na Tipografia Fenix, de Sérgio Cardoso & Cia. Ltda. Rua Joaquim Sarmento, 78

quinta-feira, junho 10, 2021

POESIA DA ENCHENTE - ÁUREO MELLO

 Recolhido do São João del Rey Blog, gentilmente enviado por (fjsbraga@gmail.com), compartilho o poema do saudoso “caboco” Áureo Mello (1924-2015), nascido em Santo Antônio do Madeira (MT). Como se verá, estudou as primeiras letras em Guajará-Mirim (RO) e depois foi morar com a família em Santa Fé, às margens do rio Guaporé. Dali, regressou à Porto Velho e, desta cidade, à Manaus, onde cursou o primário no Grupo Escolar Cônego Azevedo, o secundário e o pré-jurídico no Colégio Dom Bosco e o de Direito na Faculdade de Direito do Amazonas.  

Áureo Bringel de Mello

Jornalista desde jovem, iniciou com a coluna "Luva de Seda", no Diário da Tarde, de Manaus. Dali, passou a editorialista em O Jornal, de Aguinaldo Archer Pinto. Em seguida, foi redator-secretário e locutor da Rádio Baré, dos Diários Associados do Amazonas.  

Eleito Deputado Estadual aos 22 anos, e reeleito no quatriênio seguinte, seguiu eleito Deputado Federal, sempre pelo PTB, exercendo este último mandato pelo Rio de Janeiro. Enfim, eleito Senador pelo Amazonas tomou parte na Constituinte de 1988, concluindo seu mandato em 1995.  

Publicou, entre outros, os livros: Luzes tristes (1945); Claro-escuro (1948); Presença do estudante Inhuc Cambaxirra; As aureonaves (1985); Inspiração em três tomos (1989);  O muito bom sozinho (2000);  Como se eu fosse um cantador (1999); Onde está Gepeto? (1999); Heliotrópios adamantinos lácteos: suco de estrelas (2004).

O poema intitula-se POESIA DA ENCHENTE, e não poderia ser mais significativa para o momento, quando Manaus assiste a maior elevação das águas do rio Negro, desde sua conhecida anotação. O melhor que o autor o escreveu com o emprego de termos de nosso caboquês. Pode ser um tanto incompreensível para os não iniciados, mas valeu, Áureo Mello.

POESIA DA ENCHENTE 

— Tu tá veno, cuirão?  Tu tá veno, José? 

Eu num disse qui a inchente esse ano era braba? 

Cadê tua juta agora? Eu quero vê cumo é 

Qui vai-se arisurvê! Suco! Água qui nunca acaba!"  

E o rio vai galgando as carnes do barranco 

Cobrindo os capinzais, os troncos assediando, 

Seguindo, mata a dentro, em desmedido arranco, 

Aos lagos e igapós as águas germinando...  

Estão mortos jutais, as plantações tombadas, 

As casas se-mostrando, à flor do lençol tétrico, 

E hercúleo e caudaloso, o rio, em rabanadas, 

Avança, vale a dentro, o corpo quilométrico...  

O Amazonas cresceu, nestes meses pioneiros 

E ainda mais crescerá, nos meses que hão de vir. 

Nesse anseio de criar que estremece os banzeiros 

O gigante brutal somente faz destruir...  

O rio é largo e belo, é como um canto errante 

Da natureza, entoado em plena tempestade. 

O ventre colossal vibra, enfunado, arfante 

E rola os vagalhões com lenta majestade...  

Na superfície, ao sol, balseiros, velhos troncos, 

Em lenta procissão vão demandando o mar. 

O vento é frio, e é forte. As vagas soltam roncos 

E espumam, são cristais se esfacelando no ar...  

A selva assiste a marcha eterna da corrente 

E é bela, é moça, é verde, é viva e misteriosa... 

A coma é seiva e luz, mas lôbrego e silente 

É o fundo coração dessa floresta umbrosa...  

As aves vêm valsar nas margens, de beleza 

Criando, contra o céu, figurações ideais, 

E segue, assim, vibrando, a enorme correnteza 

Entoando um cantochão entre sons festivais...  

O crepúsculo é um sonho, é uma paisagem linda 

De ouro e coral e azul e espelhos de cristal 

A alma se enleva e ajoelha, e esse enlevo não finda 

Quando nos céus se espalha a noite equatorial...  

Mas... o monstro subiu trinta metros ao todo, 

E as matas invadiu, as várzeas submergindo. 

Terra firme é bem pouca. O gado está no lodo  

O vento sopra, e soa a inúbia dos rebojos, 

A água sinfonizando em gorgolões sombrios... 

O pensamento sobe, em místicos arrojos 

E mergulha depois na esteira dos navios...  

             Ou triste, a se imprensar nas marombas, mugindo...  

E o caboclo? O mongol calado da restinga?

Onde está o oriental do "jaticá", do arpão? 

Campeão dos matupás, batalhador da aninga

Rei completo do anzol, da rede e do facão?  

Onde está o grande herói que na proa da sua 

"Montaria" partiu pra pescar jacaré? 

Onde o veste-de-trapo, o João-ninguém que à lua 

E ao sol trabalha e luta, alentado a "chibé"? 

Onde é que você está, meu bravo amazonense, 

Que mergulha no barro arrancando o jutal?

Onde é que você está, nordestino, cearense 

Que caboclo ficou nas lides da jangal?

 

Está no pastoreio ao gado? Na caçada? 

Cortando canarana ou lançando o espinhel? 

Virando tartaruga à praia? Na queimada? 

Ou foi pro seringal, representando Abel?  

Qual o quê! O caboclo, encorujado a um canto 

Está, qual um Noé, sozinho no Dilúvio. 

Sem casa, sem vintém, tendo a vida, se tanto 

Nada pode fazer contra o inimigo plúvio...  

Plantar roças sobre água? Impossível! Pescar 

Ele o pode fazer, mas com dificuldade. 

Que lhe resta, afinal? É remar, é remar 

E ir, como outro já fez, mendigar na cidade...  

"Vucê, se me ajudá, cumpatrício do sur, 

Vai ganhá de presente umas cuisa incantada: 

Vú mandá pra vucê, já "feito", irapuru

E olho de buto, viu? Suco! Inchente zangada!"

Fonte: Áureo Mello INSPIRAÇÃO (Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1989).