CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, janeiro 04, 2012

CINE PALACE (1965-1973) Final


Dois anos depois, em 1969, a TV surge na Cidade, causando o afastamento de grande parte dos frequentadores de casas de espetáculos. Houve sessão do Palace, para exemplificar, que ocorria para cerca de doze espectadores; cuja bilheteria não pagava os custos de locação do filme, especialmente de produções nacionais. Dos seis cinemas desta companhia, o Palace e o Ideal eram os que apresentavam menor renda, além de não possuírem bastante popularidade.
Cinema em São Jorge
A matéria assinada por William Mattos para o matutino de Umberto Calderaro (A Crítica, 21 maio 1971), confirma isso. A cidade pergunta: cinema ainda é a melhor diversão? (...) Fase crítica também atravessa os cinemas da Empresa Bernardino. Algumas de suas casas exibidoras (Palace e Ideal) não arrecadam nem o suficiente para custear as despesas de uma sessão. Se até o fim do ano a situação não melhorar, declarou o gerente Adriano, “nós seremos forçados a fechar aqueles dois cinemas”.
Para sobreviver, a empresa Bernardino busca em películas de cantores da juventude, como: Roberto Carlos em ritmo de aventura; O Seresteiro de Acapulco, com Elvis Presley; Voltarei a seus braços, com Gianni Morandi, e Dio Come Ti Amo, com Gigliola Cinquetti, recuperar os prejuízos. Aos domingos, as fitas de bangue-bangue italiano também garantiam lucro certo e casa cheia.
São mostras deste período: 10.000 dólares para Django; Por um punhado de dólares; Trinity ainda é o meu nome; 7 dólares ensanguentados etc. Outro motivo para a queda de frequência é causado pelo INC, que controlava com mão de ferro a venda de ingressos, agora padronizados. Além de obrigar aos dirigentes locais a exibir produções nacionais, algumas mutiladas pela Censura Federal.
Ainda em 1971, em outubro, a arriscada situação dos cinemas de Manaus foi analisada pela Câmara Municipal e pela Assembléia Legislativa. Ambas, pediam o fechamento dos cinemas da cidade, devido às péssimas condições de funcionamento. A Prefeitura instituiu uma comissão fiscalizadora, destinada a vistoriar os cinemas e, de todos eles, o Palace e o Ipiranga foram considerados os melhores. Possuíam ótimos projetores, boa ventilação, salões amplos e, apesar de não disporem de cadeiras estofadas, ao menos eram mantidas asseadas, diverso do que ocorria em outros cinemas.
Jornal do Commercio. 17 dez 1965
Adriano Bernardino Filho, em depoimento ao Jornal do Comércio (18 dez. 1971), confessa vir cogitando do fechamento dos cines Palace e Ideal em janeiro seguinte.  Em razão da limitada frequência e, além disso, da empresa não mais suportar o funcionamento. As despesas que acarretavam, sufocavam a empresa. Informava também, que estava em negociação com uma firma paulista para a venda dos imóveis. Das duas salas citadas, apenas o cinema Ideal, de São Raimundo, foi fechado e vendido no final de janeiro.
O Palace sobreviveu por mais um ano, apesar dos prejuízos enfrentados. Em mais uma tentativa de melhorar a imagem deste cinema, Bernardino patrocinou a vinda a Manaus de Regina Duarte. À época, a atriz estrelava a novela Minha doce namorada (TV Globo). Regina fez uma apresentação no palco deste cinema na noite de 24 de março de 1972.
Mesmo com tanto material, a frequência não foi respeitável. No dia seguinte, a atriz apresentou-se no extinto Acácia Clube, situado na Av. Joaquim Nabuco, no centro da cidade.
Em 29 de junho do mesmo ano, novo relatório da comissão fiscalizadora chega às mãos do prefeito Paulo Nery, já em final de mandato. Sobre o cine Palace, esse relatório expunha que, na fenda existente no teto, produto do desabamento de 1966, foi consertada apenas com uma grossa camada de cimento. E, consequentemente, o mesmo não oferecia segurança aos frequentadores.

Em fevereiro de 1973, já na gestão do prefeito Frank Lima (1972-1975), a equipe fiscalizadora da Sedeco, chefiada pelo médico veterinário Carlos Durand, vistoriou cinco cinemas em Manaus e concluiu que, de todas as salas, a que apresentava melhores condições de higiene e conforto ao público era o Palace.
Lamentavelmente, a carreira do cinema do boulevard Álvaro Maia estava chegando ao fim. Em virtude da frequência em declínio e dos graves prejuízos, o prédio foi vendido em 7 de maio do mesmo ano. Nessa ocasião, exibiu seu derradeiro filme – O grande xerife, estrelado por Mazzaropi; como já era de praxe, contadas as pessoas que ocuparam a platéia.
O edifício onde funcionou o Cine Palace foi modificado para servir de supermercado, pertencente às Casas do Óleo ou, simplesmente, C.O. Também não prosperou, pois deixou de funcionar em dezembro de 2001. Atualmente o edifício acha-se fechado e em completo abandono.

CINE PALACE (1965-1973) 1ª Parte


Arthur Reis, governador

No início de 1965, a empresa de cinemas A. Bernardino & Cia. Ltda., então dirigida por Aurélio Antunes, Adriano Bernardino Filho (Adrianinho) e Mário Bernardino, adquire um terreno no boulevard Amazonas (atual Álvaro Maia) esquina com a rua Ferreira Pena. Visando ampliar sua cadeia cinematográfica, nele constrói uma sala de exibição, denominada de Palace, com capacidade para 400 espectadores.
A inauguração oficial ocorreu em 18 de novembro do mesmo ano. Na manhã, o governador Arthur Cezar Ferreira Reis (1906-1993), acompanhado da esposa, Graziela Reis, da imprensa, de autoridades e dos proprietários do cinema, cortou a fita simbólica. Em seguida, discursou o advogado da empresa, Dr. Joaquim Ferreira Marinho (1912-1972).
Em breves palavras, entrega ao povo de Manaus um novo cinema e aproveita para revelar a motivação da data de sua inauguração: “Nesse dia, se estivesse vivo, estaria completando 64 anos de existência o Sr. Adriano Bernardino, sócio-fundador da firma que muito fez pelo seu progresso e bem estar” (O Jornal, 19 nov. 1965).
Prosseguindo o cerimonial, a esposa do governador descerrou a placa de bronze afixada no salão de espera, homenageando o fundador Adriano Bernardino (1901-1961). Arthur Reis, aproveitando a solenidade, em breve discurso, afirmou que o Amazonas precisava de obras de vulto como a que acabava de entregar ao povo amazonense, não somente por particulares, mas também de parte do governo estadual.
Encerrando a festividade, foi exibido o curta-metragem Roma em Madri, antecedido dos complementos A Marinha descobre o Brasil; Aprendizes do mar; e AM-1, história de uma rodovia, produzidos por J. Borges Filmes Ltda., além de um complemento nacional de Herbert Richers. Para o visitante mais jovem, complemento nacional nada mais era que uma espécie de documentário mostrando ações do governo.

Convite da inauguração publicado em jornal
Para o povo, a inauguração ocorre às 20h, ao preço de Cr$ 500,00 (quinhentos cruzeiros), com distribuição para o público feminino da revista Grande Hotel, exibindo A Queda do Império Romano, superprodução da Paramount, com os astros Sophia Loren, Stephen Boyd e James Mason. Conforme os diários, após a inauguração desta sala, a direção da A. Bernardino estava cogitando em construir outro cinema, projetado para o bairro de São Jorge. Este projeto, infelizmente, não se concretizou. 
No palco do Cine Palace também eram realizados shows, como o realizado em 6 de novembro de 1966, quando houve a apresentação única do cantor francês Jacques Sasson. Os cantores nacionais, Wanderléia, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Os Vips, Golden Boys, e outros da intitulada Jovem Guarda, também encantaram o público neste cinema.

Jornal do Commercio, 21 dez. 1966
No entanto, em 20 de dezembro de 1966, cerca do meio-dia, forte chuva provocou o desabamento do telhado do Cine Palace. O desastre assustou, destruindo cadeiras da platéia e provocando uma imensa nuvem de poeira. Felizmente, naquela hora, o prédio encontrava-se vazio. Em seu interior, apenas os funcionários da limpeza, que trataram de escapar ao ouvir os primeiros estalos da destruição. Por esses motivos, não houve registro de vítimas fatais.
Cessado o susto, o prédio do Cine Palace permaneceu fechado para reformas. Reabre em julho de 1967; ano da consolidação da Zona Franca de Manaus. A partir daí, com as benesses oferecidas pela Zona Franca, Manaus passa a se desenvolver mais rapidamente, assistindo a implantação das primeiras fábricas que, em nossos dias, compõem o Distrito Industrial. (segue)

segunda-feira, janeiro 02, 2012

CARTA DE RAMAYANA DE CHEVALIER


Ramayana de Chevalier, 1958
       Rio, 9 de abril de 1967
        Meu grandiquerido [Jorge] Tufic

A saudade é como a luz, não morre, todos os dias se renova. Vocês do Clube da Madrugada representam, para mim, um retrocesso no tempo, uma viagem amável ao País da Emilia. Poetas, o são como eu aspiro e sinto: vivos, aluando de vida, tontos de luz como os pássaros livres da nossa terra. Gostaria de viver com vocês. Já me distancio na eclética do destino, procurando rosas no meu deserto, mas amando ao Amazonas com todas as fibras da minha paixão.

Nos meus dias de solitude, diante desta Copacabana sofrida pelos cortes de luz recebo sempre dois pedaços do Clube da Madrugada: Antísthenes e Penafort. Poetas, romancistas, talentos de cepa fina, caboclos na mais larga acepção do vocábulo. Trazem-me notícias, livros, composições espirituais da planície. São vozes da floresta, rumos perdidos da selva nesta flumilândia de arranha-céus.

Fala-me de você, de sua casa admirável debruçada sobre o igarapé como a de Pearl Buck em Hong Kong, talhada em madeira de lei, nossas eternas madeiras amazônicas, magníficas perfeições da nossa arquitetura neolítica, olhando as águas como presentes de Deus as almas sequiosas de bondade. Lembro-me de soneto, “Possível Soneto a Dalva”, obra prima da cinzeladura glebária, notável conquista de um talento que representa a nossa raça, a nossa gente, o nosso futuro misturando sírios, franceses, nórdicos, mestiços no imenso caldeirão da Hiléia, mãe santíssima da nossa desventurada sensibilidade. “O resto é uma cidade e nela o meu orgulho”.
Sim, o teu e o de todos esses Farias, Elsons, Bacelares, Américos, Alencares, Ruas e ensaístas como Aluísio Sampaio, Engrácio, Batista, João Bosco Evangelista, um economista como Saul Benchimol, um Jefferson Péres, artistas ao jeito de Afrânio Castro, Getulio Alho, Álvaro Páscoa, Moacir Andrade, Assayag, um ficcionista como Benjamin Sanches, e o miniaturista admirável que é Óscar Ramos, exilado na Espanha dentro da luz e da cor. (...)

Gostei de teus livros, amei os teus poemas. Silvei como as dobras da espessura, buscando imagens e belezas. Arfei como os fatigados manatins dos canaranais, respirando saudades. O capitalismo afastou-me das rotas distantes, impossibilita-me uma visita à minha terra. Há uma pousada a minha disposição. A casa de Stenio Neves, na praça da Saudade, que me foi oferecida,  com o ar condicionado e outras vantagens modernas. Um dia saltarei por ai, de acangatara, ou só com a minha velha tara, rosnando de amor pelo Amazonas, que me atormenta de paixão como um eczema sentimental. 

Anúncio em A Tarde, 1939
Morrerei, Tufic, é o destino. Só me sentirei feliz se o Clube da Madrugada, coletando-me as cinzas, junto com flores de mamorana, descer, uma noite de plenilúnio o rio Negro, despejando-me os espólios na foz, rumo ao mar-oceano... Nessas pedras que andei, hoje asfalto, por essas casas humildes que me convidam ao sonho impossível para os que não poderão jamais compreendê-la.
Vou parar. Meu caminho é como o das lagartas volantes, não marca o chão. Tu, que tens na lama a vibração das palmeiras dos oásis e o fervor pelo destino dos pais, tu que és símbolo do bom filho, do bom irmão e do bom companheiro, tu que és poeta no ar que respiras e na limpidez aos teus momentos interiores, nos quais festejas a Morte, lembra-te do teu velho amigo, do Ramayana que é uma expressão da Amazônia onde quer que se encontre, um traço de Amor entre a terra e o infinitivo, um caboclo doente e triste, cujo sorriso é uma lua à superfície de um lago tranquilo.

Abraço-te a ti e aos nossos irmãos do Clube da Madrugada. Uma tâmara para o teu coração. Um cupuaçu para os nossos paladares boêmios. Meu endereço vai abaixo. Gostaria de entreter com vocês um entendimento de beira de cais. Receber jornais de Manaus, escrever para eles, escutar de longe as novidades da mais bela das cidades do Brasil, junto com a Bahia, porque autênticas.
Como na Roma antiga, direi de toga suspensa e num gesto digno: Vale!
       
Do teu ex-conde

Ramayana de Chevalier

domingo, janeiro 01, 2012

Primeira comunhão


Renato Mendonça *
       
RenatoMendonça, 1968
Eu acabara de aprender a ler e já me inscreveram no catecismo, preparando-me para a Primeira Comunhão, hoje denominada de primeira eucaristia.         
Ao tempo, aquele ato era como se fosse um casamento consigo mesmo. Havia inúmeras aulas, antecipando a cerimônia, pregando  doutrina exacerbada como para fazer uma lavagem cerebral no garoto, de forma a deixá-lo catequizado plenamente e pronto para comungar pela primeira vez. 

Era necessário, entretanto, que o menino no dia anterior fosse ao confessionário, para consultar o padre e destilar aquilo que suspeitasse que fosse pecado. Na falta de melhor esclarecimento sobre os parâmetros da falta, era comum enumerar tudo, até pensamentos fúteis. Ainda bem que éramos criança, de poucos recursos e poucas oportunidades de cometer pecado. Ainda mais, vivendo numa cidade pacata e numa época sem tantos apelos veiculados pelos meios de comunicação.

Chegou finalmente o dia, vesti as roupas brancas; a destoar, apenas os sapatos pretos. Mas era permitido o uso, pela diocese, porque sapato na cor branca seria um desperdício, um excesso sem outra utilidade.
De catecismo na mão, em forma de missal, também na cor branca, e uma vela fina e longa, enfeitada com uma fita, com alguns dizeres em latim, entrei na igreja em direção ao altar. A camisa por dentro da calça — ainda curta — dava um ar mais eloquente ao evento. A roupa bem engomada — de todos — dava o tom do evento católico. Cabelos bem curtos e levemente besuntados de brilhantina Glostora combinavam com as unhas cortadas rentes e limpas, preparadas especialmente para a ocasião.

A compartilhar comigo, inúmeros garotos da minha idade, que estudaram com afinco o catecismo e sabiam, na ponta da língua, que respostas deveriam ser ditas na cerimônia. Segundo o catolicismo esse evento é a confirmação do Batismo. E eu julgava mais importante porque dessa primeira cerimônia ninguém se lembra.

Vi a multidão de pessoas que se acotovelavam nos primeiros bancos na igreja do Educandos; alguns apenas para assistir a missa que acompanhava a cerimônia; outros para admirar seus pupilos junto ao altar, sendo doutrinados na religião.

O cônego Antônio Plácido, muito cultuado pelos fiéis, pela sua sabedoria e ares de beato, se postou para gerir a cerimônia. Os fiéis admiravam seus sermões nas missas dominicais. Era um padre bem preparado, frequentava os lares, falava a língua do povo, e usava de metáforas engraçadas para explicar com facilidade os meandros das parábolas do cristianismo, e o ensinamento das práticas religiosas.
No alto, matriz de Educandos, 1975
Colocamo-nos junto ao altar, enquanto o celebrante fazia de modo automático e com muita prática o ritual de encenação da Eucaristia. Num determinado momento, tivemos que nos ajoelhar e baixar a cabeça. Nesse instante, eu me desequilibrei e pus a mão esquerda no degrau forrado com um tapete vermelho, enquanto o cônego acidentalmente pisou sobre ela.

Quis dar um grito ou alertá-lo sobre o ocorrido, mas como era um instante de silêncio total, me contive e aguentei firme, enquanto o padre elevava o cálice aos céus. O instante me pareceu uma eternidade. A mão esmagada pelo peso do obeso sacerdote ficou quase adormecida. Quando ele se deslocou senti um alívio e uma dor latejante. Com fé, consegui me concentrar no restante da cerimônia apesar do incômodo.

Enquanto minha mente juvenil alimentava a certeza de que aquilo fora mais uma provação na vida, um castigo de Deus por eu ter cometido um pecado no dia anterior: quis ver, pela fresta, a “priminha” Maria de Nazaré, fazendo xixi no banheiro. Vinha à mente igualmente que o castigo fora injusto: eu nem estava na Igreja de Nossa Senhora de Nazaré.

(*) escrito em 29 jun. 2009, quando o autor completou 47 anos