CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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segunda-feira, julho 06, 2015

EDIFICAÇÕES EM MANAUS

Diversas edificações existentes (ou já demolidas) em Manaus, umas mais conhecidas que outras

Cervejaria Miranda Corrêa (hoje Kaiser), em Aparecida

Ligada a igreja dos Remédios, tendo servido com Faculdade de Odontologia

Hoje Palacete Provincial, ontem Quartel da Praça da Polícia

Fábrica Bijou, padaria elegante inaugurada em 1940. Hoje, abriga loja TV Lar 

Residência centenária na rua Lauro Cavalcante

Residência (já demolida) na rua Amazonas, Morro da Liberdade

Já demolido, existiu na rua Major Gabriel próximo à rua Ramos Ferreira

Inaugurada com o nome de Balbina Mestrinho, teve esse nome mudado no Governo Militar.

quinta-feira, julho 02, 2015

CORONEL SERGIO PESSOA

Carvalho Leal
A rua Coronel Sérgio Pessoa, de apenas um quarteirão situada na lateral esquerda da igreja dos Remédios,  no Centro Histórico, poucos conhecem. O homenageado foi reverenciado em artigo jornalistico (abaixo reproduzido), no qual teve ligeiramente delineada sua atuação em Manaus, pelo ex-vice-governador do Estado, Deoclides de Carvalho Leal (1971-75). (*) 

Aproveito para incluir uma palavra: na revolução de dezembro de 1892, participaram alguns sargentos da Força Policial do Estado, a Polícia Militar de nossos dias.







Ainda bem que o não esqueceram de todo. Pequena rua, ao lado da igreja dos Remédios, ostenta-lhe, orgulhosa e merecidamente o nome. Raros, todavia, nos dias tumultuários de hoje lhe recor­dam as grandes realizações decorrentes da longa e profícua atividade política. Os mortos vão depressa e o tempo é pouco para adorar os vivos — disse alguém. Sér­gio Rodrigues Pessoa, filho do Doutor Joaquim Rodrigues da Motta, culto e aus­tero magistrado paraibano e de Dona Maria Florencia Pessoa, hábil e excelente prática de farmácia, teve o sobrenome registrado, segundo os usos e costumes da velha Es­panha.

Nasceu no Ceará, em Sobral, a 9 de setembro de 1859, e, desprezando títulos universitários, confiante apenas no tino comercial que lhe era inato, parte, nas ardentias da mocidade, com milhares de outros conterrâneos, para a grande aven­tura. Manaus o deslumbra. Após três anos de balcão, estabelece-se, por conta própria, e vê prosperar rapidamente a firma fundada, com audácia e força de vontade, onde amealha regular fortuna. Mas, a borregã lasciva, — de que fala um dos grandes do Império —, o espreita, de lon­ge, e lhe estende os braços feiticeiros a que não soube resistir.

Ei-lo, agora, envol­vido na política de que nunca mais se libertará. Filia-se ao Partido Liberal, com a lealdade e o desassombro, que o acom­panharam a vida inteira. Com a queda da Monarquia, acolhe-o o Partido Nacional, quando se liga, para sempre ao gover­nador Thaumaturgo de Azevedo, o que teve a seu lado nas horas tempestuosas da vida daquele militar.

Sob a égide do amigo fiel, ingressa na politica partidária e já inicia a longa caminhada que duraria meio século.

Ocupa cargos de alta relevância como deputado à Junta Comercial de que foi Presidente, diretor e presidente do Banco do Amazonas, provedor da Santa Casa, deixando em todos a marca de exemplar probidade. Exibia, com ufania, a patente de coronel da Guarda Nacional.

Ardendo de amor pela cidade que o acolhera na juventude, onde contraíra uma cadeira de intendente municipal, hoje vereador, matrimônio e lhe nasceram os filhos e, para melhor servir ao povo, pleiteara uma cadeira de intendente municipal, hoje vereador, e durante 27 anos consecutivos, ninguém o excede em espírito público na paixão das causas populares. Era de vê-lo, exposto ao sol e à chuva, percorrendo bairros distantes, sempre a pé, no penoso mister de examinar e fiscalizar, com rigor e severidade, as obras públicas. Não se conheciam ainda as mordomias, privilégio apenas de marajás, maranis e emires. Sabe-se que Deodoro, no governo, tomou emprestada a quantia de um conto de réis para socorrer um irmão adoentado, tam­bém general, e Campos Sales, quando deixou a Presidência da República, tinha a casa hipotecada. Cala-te, boca indis­creta!...

Poucos sabem, porém, dos extraordi­nários serviços de Sérgio Pessoa, porque o trabalho do legislador, geralmente in­grato, a poeira dos arquivos e das bi­bliotecas o consome. Já o Executivo, para eternizar-lhe as obras, algumas inaca­badas, dispõe de recursos para o bronze, os mil metais das placas, estátuas, estatuetas, hermas e até do Carrara e do Paros...

O velho edil temperamental jamais fugiu à luta, lembro-me de algumas polemica acirradas que travou. Quando os jornais, temendo represálias, não lhe publicava os discursos ou artigos, imprimia-os em folhetos e boletins e distribuía-os, pes­soalmente, desafiando os poderosos em impressionante coragem física, fazendo recuar qualquer janízaro assalariado para humilhá-lo. De uma feita, aluno do gi­násio, ganhei das mãos do preliador, com um abraço, um desses terríveis libelos. Humilde com os humildes, tinha assomos de indignação, explodia em cólera sa­grada, quando a injustiça lhe feria a sen­sibilidade.

A amizade fraternal que o ligava e meu pai, o Doutor Domingos Teofilo de Carvalho Leal, antigo presidente da Junta Governativa do Amazonas em 1889, fê-lo participar ativamente da frustrada revolução de 30 de janeiro de 1892, com alguns oficiais e sar­gentos do Exército e políticos do porte de Jonathas Pedrosa, Ferreira Pena e outros, movimento esse que tinha por objetivo depor Eduardo Ribeiro e aclamar gover­nador o Doutor Carvalho Leal. Preso e exilado, mas a alma, em rebeldia per­manente, voltou Sérgio Pessoa a cons­pirar em outras oportunidades. A Revo­lução de 30 alcançou-o no fastígio do Poder. Rolou para o ostracismo com os amigos e com o Partido de que foi um dos sustentáculos

Na noite fatídica de 24 de outubro desse ano, alguns inimigos arran­caram e pisotearam as placas da rua que o homenageou durante vários anos. Não durou muito o gesto covarde da malta en­furecida. Redemocratizado o país, a primogênita de Carvalho Leal, senhora Mendes Filho, após ingentes esforços e, com a ajuda do pranteado vereador Ro­dofo Vale, fez voltar o nome do in­trépido pelejador à rua ultrajada e recolocadas as placas no mesmo local, resgata uma dívida de gratidão, meio século depois do sacrifício e da solidariedade de Sérgio Pessoa à revolução que falhou em 1892.
Sérgio Pessoa foi modelo de homem público, espelho de virtude cívicas, exem­plo de lealdade política. Revive e sobrevive na numerosa e ilustre descendência, que tem sabido honrar o nome do patriarca —símbolo de probidade — que atravessou, durante 50 anos, sem medo e sem man­cha, o mar revolto da política amazonen­se. Não se lhe encarvoaram as mãos no meneio dos dinheiros públicos. Já era rico, quando entrou para a política e dela saiu com o mesmo patrimônio.

Faleceu, em Manaus, a 18 de março de 1940.

Servo de um povo e guardião de uma cidade — estas as palavras que cabem, à justa, na lousa tumular do egrégio cearense que amou enternecidamente Manaus.

(*) A Crítica, 19 de maio de 1980