CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, dezembro 13, 2017

LUIZ BACELLAR: LEMBRANÇA

Luiz Bacellar, o poeta que abominava tal designação ou título, morreu há cinco anos. Para quase exato: em setembro de 2012. E, segundo se observa, nunca mais se ouviu notícias sobre a Frauta de barro dele. Desse modo, Bacellar morreu.

Luiz Bacellar (1928-2012)
Parece-me coincidência: o desaparecimento da Livraria Valer pouco depois da morte do autor de Sol de feira, onde o mesmo detinha “cadeira” e cantinho cativos, acelerou este esquecimento. Tem mais. De onde também se poderia esperar alguma manifestação, a Academia de Letras não mais se preocupou com os seus mortos. A exemplo de Bacellar, o óbito de Anísio Mello, outro poeta e artista múltiplo, já completou sete anos. Não se registra qualquer manifestação.

Deste modo, ao rebuscar velhos papeis, alcancei este artigo do professor José Seráfico escrito por ocasião da perda do amigo Luiz Bacellar. Cujo lavor, o saudoso poeta Alencar e Silva (em Quadros da Moderna Poesia Amazonense) associava Bacellar “como que à corporação dos artífices auxiliares da Criação”.

Gregoriano canto, que, em precisa
Cadência, vai ecoando em cada peito:
Deixai-nos descansar: tudo está feito.
(Frauta de barro, 1963)

Compartilho o artigo de Seráfico, sacando-o de A Crítica, edição de 11 de setembro de 2012.   




Quem teve a felicidade de conhecer Luís Franco de Sá Bacellar captou a precisão da expressão de um de seus colegas de letras: poetas não morrem, encantam-se. Foi o que aconteceu no último domingo com o jamais suficientemente reverenciado autor de Frauta de barro.  

Era impossível enxergar à primeira vista naquele corpo frágil, a fortaleza dos que trazem consigo a poesia e, como se fosse pouco, acrescentam a ela rara percepção e prática da dignidade em toda sua plenitude. Não bastassem o talento e a entrega à compreensão da arte em suas várias formas de manifestação, a Bacellar ocorria de conduzir-se igualmente com elevado sentido da vida digna. Jamais cortejou os poderosos, antes reservando a para eles a fina ironia, esse atributo próprio dos que têm talento.

Porque a Luís Bacellar coube papel dos mais importantes na história literária do Amazonas e da região, não faltarão homenagens que ele mesmo recusava. Suas exigências não serão respeitadas, porque seu encantamento impedirá que se cumpram as determinações testamentárias que ele se preocupou em deixar registradas.

Importa pouco, eis que, já não estando entre nós, não poderá mais que levar consigo, ligeiro esgar a mover o canto da boca, o corte fino de sua ironia. Falar da poesia de Bacellar torna-se repetitivo. Testemunhos muito mais valiosos, apreciação muito mais acreditada é obra dos que entendem de poesia e poetas.

A este admirador do poeta que preferia ser chamado professor é reservado, sponte mea, o papel de ratificar a admiração e esperar que pelo menos parte de suas disposições em testamento seja finalmente respeitada. Luís Bacellar, a quem jamais poderá ser pago o bem-fazer por Manaus, pelo Amazonas, pela Amazônia, pelo Brasil e pela poesia, tem todo o direito de instalar a barraca de feira sob outros sóis.

domingo, dezembro 10, 2017

MIL E QUINHENTAS POSTAGENS


Os alicerces do meu
trabalho

Alcancei este número, anteontem. Não deve ser grande coisa diante de tantos concorrentes, mas estou exultante, por variados motivos.
Comecei em março de 2010, com a ideia de registrar os trabalhos literários em fase de preparação ou que, já produzidos, pudessem reduzir ou eliminar os arquivos impressos. Assim, grande parte de meu livro – Os Bombeiros do Amazonas, está aqui, espalhado por diversos dias e várias postagens.

Enquanto havia um material pronto, já articulado, a divulgação foi elementar e célere. Isso me deu empolgação, pois servia de contato com os amigos, com os reduzidos leitores. E sempre havia retorno, ainda que infrequente. Além desse contato rareando, novas formas de publicação circulando na Internet fizeram com que me perdesse no caminho.

Ou seja, não soube acompanhar a evolução, apesar das exigências da máquina. Outro motivo, o material publicável escasseou e, desse modo, estive “fora do ar” por vários meses.

Resultado: parei, enquanto rearmava a página. O primeiro “técnico” que busquei, gente do peito, me deixou na mão. Diante do projeto pífio que me apresentou e do longo período de espera, “pulei fora”, tardiamente. Perdi o tempo e o pagamento.

Enfim, alcancei ao profissional – Amaro Junior – que rapidamente me conectou com o mundo da informática, reajustou meu Blog e me incentivou na tarefa. Com o estímulo redobrado, reabri a caminhada em “busca do tempo” parado.

No mesmo período, obtive ajuda do Marcelo Menezes, que me incrementou a publicação de meus livros na Internet. Três deles já se encontram no site Issuu.com, enquanto outros títulos estão sendo preparados.

Com tanto apoio, desde setembro passado venho me dedicando com afinco, esperando dobrar a quantidade de postagens que dias passados alcancei, em tempo recorde.   


Obrigado a você pela atenção, desculpas pelos tropeços.

sábado, dezembro 09, 2017

POLÍCIA MILITAR DO AMAZONAS NO SESQUICENTENÁRIO

Capa do panfleto
Quando do sesquicentenário da nossa Independência, festejado em 1972, o Brasil promoveu inúmeras festas e homenagens. Entre tantas, passou por todas as capitais um cortejo conduzindo as cinzas do 1º imperador do Brasil.

Na Semana da Pátria, acentuaram-se os festejos. Para incrementar o desfile em Manaus, a Polícia Militar do Estado distribuiu um panfleto, que reproduzo abaixo, com apontamentos sobre a data festiva e sobre pelejas sangrentas em que se envolveu.

Acredito que o texto pertence ao falecido mestre Mário Ypiranga Monteiro, visto que a iniciativa coube a chefia da Casa Militar, a quem o intelectual estava muito achegado e já havia produzido outros textos. Seja de quem for, há necessidade de alguns reparos, pois foi concretizado com exorbitantes arroubos.

Um deles, assegura que, em 1851, entre a criação da província do Amazonas e sua instalação no ano seguinte, a Guarda Policial dispunha de 1339 guardas! Não há registro sobre tal número, e mais, este efetivo alcançou este número em razão da obrigatoriedade de todos os homens, a partir dos 14 anos, a “pertencer’ (sem ônus) a uma Guarda.

Outra desdita: a PM amazonense lutou ao lado de Plácido de Castro, na conquista do Acre. Não! O governador amazonense Silvério Nery, ainda que interessado na disputa, apenas dispôs uma guarnição Policial e outra Fiscal na fronteira acreana, na região onde hoje evolui a cidade de Boca do Acre.

No entanto, a Legião dos Poetas (voluntários idealistas) seguiu para a região com arma pesada da Força Estadual, cedida por governador. Contudo, foi um fiasco redondo.

Apesar dos pesares, entoa-se no hino policial: No Acre, com batalhas e vitórias...




São 135 anos de existência — de honrada e ufanosa existência! que se somam neste soberbo desfilar dos soldados de Cândido Mariano. São 135 anos de lutas incessantes, — pela ordem, pela paz, pelo bem do povo e da Pátria, — que estão passando, agora, em frente aos nossos olhos orgulhosos, — diante da nossa cívica emoção! — no passo-certo dos homens do heroico batalhão de Canudos!
São 135 anos da Polícia Militar do Amazonas, desfilando em reverência aos 150 anos da Independência do Brasil!

Data de 4 de abril de 1837 a existência da Polícia Militar do Amazonas. Criada com o nome de Guarda Policial, teve, mais tarde, a honrosa atribuição de milícia guarnecedora das nossas fronteiras e dos presídios militares de vários pontos do interior amazonense, além da sua função precípua de zelar pela ordem pública nas seus municipais, vilas e freguesias.

Dois Batalhões compunham, em 1851, a Guarda Policial, que tinha, então um efetivo de 1.339 praças distribuídas pelos diversos lugares da Província.

Elevada à categoria de Batalhão Policial em 1890 e de Regimento Policial em 1897, — foi como Regimento que destacou o seu 1º Batalhão de Infantaria para seguir com destino a Canudos e ali juntar-se às Forças em Operações. Foi em Canudos, dentro da própria cidadela dos jagunços de Antônio Conselheiro, que essa brava Polícia Militar do Amazonas derramou o sangue generoso de seus soldados pela paz e pela ordem da família brasileira. Seu Comandante, o intrépido Coronel Cândido Mariano, — que é a figura máxima, o símbolo do heroísmo e da honradez, do miliciano amazonense, tem o seu Altar na consagração da História do Amazonas.

Esta mesma Polícia Militar do Amazonas lutou no Acre, ao lado de Plácido de Castro, e ajudou a libertar aquele Território da ocupação estrangeira e a reincorporá-lo ao Patrimônio Territorial do Brasil.
Outros feitos gloriosos tem em sua história a Polícia Militar do Amazonas!

Feitos gloriosos e troféus gloriosos! E o mais belo e o mais glorioso desses troféus é aquela velha Bandeira Brasileira que é guardada com orgulho, em seu quartel pelos soldados amazonenses: é a Bandeira que acompanhou a Polícia Militar em Canudos e de lá voltou tinta do sangue dos nossos soldados e esfarrapada pelos impactos das balas inimigas.



sexta-feira, dezembro 08, 2017

GOVERNO MILITAR E O DESAFIO AMAZÔNICO (3)


Encerrando a postagem acerca da descrição de algumas Unidades da Força Terrestre no interior do Amazonas, elaborada pelo Governo dos Generais, em revista especial (foto), circulada em 1970.

O Soldado no Postal de Cucui


Tudo em volta de Cucui é verde e belo, dentro do grande silêncio potâmico. Lá, entre árvores e água — em cima o azul cintilante do céu — perfila-se o 4° Pelotão de Fronteira. Um punhado estoico de verde-oliva que ocupa os espaços em nome do Brasil. Defronte ao quartel, a famosa Pedra do Cucui, já no território venezuelano, perto da fronteira do Brasil e da Colômbia.

Ali também chegou o padre com o Exército. Gandola e batina, numa autêntica cruzada de desbravamento e conquista, convocaram pequenas comunidades salpicadas para a obra educacional e cívica. A cartilha na frente, de mãos dadas com a saúde e a palavra Brasil.
Cucui está sendo ocupado. O índio deixa a maloca e aprende a cantar o Hino Nacional. O braço corta a árvore, e da clareira surge o roçado. Uma agricultura de sobrevivência. Espetam o céu pequenas chaminés. Do rastro da farda vai nascendo a obra sonhada de integração.



O Brasil chegou ao Içá

Ipiranga, sede do 2° Pelotão de Fronteiras, no Rio Içá, funciona como centro integrador na imensa região. Não faz muito tempo era mato virgem, sem sinal de civilização, com uns poucos nativos desterrados naqueles verdes. A presença do homem era assinalada por canoas esparsas que subiam ou desciam o rio em razão da pesca para sobrevivência.

Mas chegou o quartel com a sua correspondente ação civilizadora. O velho Rio Içá, tão primitivo, tão sem Brasil, experimentou pela primeira vez o toque de uma alvorada de ocupação humano-econômica. E apareceram a quadra de esporte, a granja, o alfabeto militar para a criança e o homem perdidos. Em função social, o Exército começou a lecionar vida moderna para as gentes de Içá. A roça mais racional, a implantação do curral e o artesanato. No mastro do quartel, a Bandeira do Brasil é uma mensagem eterna de integração. 

Recorte do Almanaque Municipal
Ele é responsável pelo movimento cívico em relação ao Desenvolvimento. Produz o soldado e o cidadão. Implanta a escola e o complexo social que torna possível a fixação do homem. É a Bandeira no mastro além das copas, como corolário de um trabalho produtivo de conquista. A colonização que sempre acompanhará a presença do Exército na região significa o apossamento da terra: o cultivo, novas técnicas o agrícolas, o criatório, tudo o que a terra poderá produzir para sobrevivência do homem do Brasil.

Tabatinga está dividida em dois centros principais, interligados na obra integradora: o civil, no povoado de Marco, por onde passa a divisa Brasil—Colômbia, e o militar, que se desdobra pelo resto da área, semeando núcleos paisanos de ocupação. Destaca-se, neste espaço, a Vila Militar, com o grupo escolar, o quartel, casas e uma farmácia. Manaus fica a 5 dias de navio e 12 de pelo lancha, mas um avião da FAB, tipo Catalina, aterrissa naquela região banhada pelo Solimões todas as semanas.

Vejam que o novo Comando Militar, dentro do espírito da antiga Colônia Militar, vai também ao encontro do brasileiro roceiro, na área, ensinando-lhe o bê-á-bá da agricultura moderna. Nesta missão prolongada, o Exército proporciona assistência dentária, veterinária, deflagrando um processo continuado de alfabetização.

É preciso que a farda dê de tudo, porque não existe mesmo nada na área. Dessa operação conjugada — da farda com a ocupação econômica — repontam os setores de agropecuária, industrial, comercial, serviços públicos, habitacional e sanitário, sendo que o fator educação do homem é o capitânea de todas as metas. Crianças, quando deixam a escola pela manhã, buscam à tarde os aprendizados de carpintaria, olaria, serraria, colchoaria, oficinas mecânicas e construção de embarcações típicas da região.

Situação atual do Pelotão situado em
Vila Bittencourt - Japurá,
recebendo a visita do ministro da Defesa.
Vai assim o soldado aplicando uma educação pragmática ao homem da fronteira. Uma educação prática, ensinando ao homem o que necessita aprender para transformar o mato em Brasil. Estes Comandos Militares – progresso natural dos pelotões e companhias de fronteira – são o arremate tático da ocupação. Funcionam como colmeias de ensinamentos úteis. E significam o único apoio – ao lado de outros dispositivos fardados – que tem o brasileiro da fronteira para a sua integração definitiva na comunidade nacional.