CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, novembro 12, 2020

PMAM: A INCLUSÃO DE POLICIAIS

 Anteontem (10), convidado pelo IESP (Instituto Integrado de Ensino de Segurança Pública) efetuei uma aula para o CPS (Curso de Preparação de Soldados) no Auditório do UniNilton Lins. Dois detalhes me surpreenderam: o efetivo do curso – 350 alunos; e a monumentalidade do teatro da universidade.

Aproveitei a ocasião para relembrar aos ouvintes o caminho que a Polícia Militar do Amazonas (PMAM) percorreu desde sua fundação até àquele momento, no tocante à formação de seus grupos. São passados 183 anos. Obviamente, que no primeiro século desta existência seus integrantes foram acolhidos (não selecionados) sem atentar para qualquer regramento, visto não existir, e visto não “poder escolher” diante da precariedade de mão-de-obra masculina.

Quartel da Polícia Militar, em 1902,  com a estrutura que
conhecemos. Hoje transformado em Palacete Provincial. 

Quando em 1876, na recriação da Guarda Policial do Amazonas, embrião da atual corporação, observando-se os registros de inclusão, verifica-se a precariedade dos recrutados: qualquer idade, quase nenhuma alfabetização, precariedade de aquartelamento, e a constante reclamação contra o soldo. Tentando atrair e consolidar o voluntário, prometia-se que, após três anos de serviço, receberia ele uma gleba de terras e recursos para a agricultura.

Na entrada da República, o governador do Estado Villeroy reservou o saudoso quartel da Praça da Polícia para a Força Estadual. A edificação ainda não fora ampliada, mas permitia acolher o diminuto efetivo. O Amazonas, ao transitar pelo apogeu da borracha, atraiu desmedida soma de patrícios e estrangeiros em busca da riqueza. Nessa conjuntura, a PMAM foi ampliada, tanto que o governador Eduardo Ribeiro, em 1895, inaugurou o aquartelamento que hoje conhecemos como Palacete Provincial. Quanto à inclusão de praças, o ritmo seguia o de antanho, com regras bem frouxas: não havia data para ingresso, nem se cogitava de seleção, pois todo voluntário era bem-vindo. A quantia de nordestinos alistados na corporação abismava, posto que entre dez policiais (oficiais e praças), apenas um era amazonense.  Admitia até estrangeiros, desde que não se engasgassem com a língua portuguesa.  

A extração da borracha, contudo, sofreu duríssimo golpe na primeira década do século 20, quando passou a ser produzida do outro lado do mundo. O Amazonas e, consequentemente, seus órgãos diretivos sentiram o baque, e foram se fragmentando. Em 1950, a PMAM dispunha de um efetivo (atenção, previsto!) de 328 policiais. Para efeito de confronto: menos que o pessoal presente no auditório, visto que somente o CPS era constituído de 350 alunos-soldados.

Em final de 1930, há 90 anos, a interventoria de Álvaro Maia “dissolve a Força Policial do Amazonas”. Em curta e grossa decisão, como se lê, impõe a ela mais de 5 anos fora de atividades. Quando do retorno, em abril de 1936, o comandante José Pessoa, paraibano de boa cepa, instituiu aquela data como renascimento da PMAM. A inclusão de seus componentes, no entanto, prosseguiu nos moldes antecedentes.

Álvaro Maia, interventor federal,
que desativou a PMAM, em 1930

A primeira mudança ocorreu em 1941, quando admitiu vo primeiro oficial proveniente do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) de Belém do Pará. Fala-se do patrono da Academia de Polícia Militar, o saudoso coronel Neper Alencar. Outros oficiais R/2 são incorporados, em especial no período da 2ª Guerra, quando o 27 BC instalou o NPOR (Núcleo de Preparação de Oficiais do Exército) na capital amazonense.

Findo o confronto mundial, os recursos financeiros voltam a escassear no Estado, e o “fundo do igarapé” mostra-se vivaz. A Força Estadual cada vez mais desnutrida torcia para que algum pretendente transpusesse o portão das armas, ou que os “soldados da borracha” que escaparam do combate ou até se esquivaram dele, achassem refúgio na Polícia Militar do Estado do Amazonas (PMEA).

A mudança política ocorrida em 1964 trouxe refrigério financeiro à administração amazonense. A corporação policial foi consequentemente contemplada e, entre outros benefícios, recebeu em 1965 do governador Arthur Reis (1964-67) a denominação de “Batalhão Amazonas”. A 7 de abril do ano seguinte, a PMAM inaugurou a primeira escola destinada a formação de soldados. Aproveitou as dependências do antigo “Piquete”, localizado na rua Dr. Machado, sobre o barranco do igarapé do Mestre Chico, no bairro da Praça 14 de Janeiro. Sob a denominação de Centro de Instrução Militar (CIM) funcionou até 1972.

Comprovante do CFS do Sd PM
Cosme Caetano da Silva, realizado
no 1º BPM em 1981.

A partir dessa parada, e antes da criação do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cefap) em 1980, a instrução de praças foi realizada nas dependências do 1º Batalhão, em Petrópolis. Não era o melhor recurso, porque a amplidão do aquartelamento permitiu não somente os cursos de formação, mas também a instalação de outras unidades da PMAM.

O Cefap funcionou por duas décadas, situado no quartel construído inicialmente para a Companhia de Polícia Rodoviária, situado no entroncamento das rodovias Torquato Tapajós com a BR 174. Correspondeu ao investimento do Estado, ao preparar para o serviço um número extraordinário de soldados e, como alardeia sua denominação, promover o aprimoramento de tantos graduados.

No início deste século, nova encaminhamento sobre a formação dos quadros da corporação foi posta em prática. A qualificação dos cursos de oficiais e de praças, além da preparação de soldados exigem mais recursos. Expedientes de variadas espécies, principiando sob a [RM1]  supervisão da Secretaria de Segurança. Enfim, a corporação passou a integrar junto com a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros Militar, além do Detran o Instituto Integrado de Ensino da Segurança Pública (IESP). Ainda que provisoriamente, funciona nas dependências do UniNilton Lins, onde como afirmei na entrada, lembrei esses dados aos futuros soldados da PMAM.


 [RM1]

terça-feira, novembro 10, 2020

SERVIÇO DE SAÚDE DA PMAM (2)

 Antes de prosseguir na retrospectiva deste Serviço, quando tratarei de identificar os pouquíssimos dentistas ali empregados, vou acrescentar duas observações atinentes a estrutura deste ofício na corporação: 1) a construção de uma enfermaria e 2) a presença de oficiais médicos das Força Terrestre apoiando a JMS (Junta Militar de Saúde), sempre em caráter temporário.


Quadro do Serviço de Saúde, em 1948, 
conforme Almanaque da PMAM

Notando que, quando da 2ª Guerra, o Governo Federal desprendeu forte ajuda ao Estado, em troca do esforço de guerra na extração da borracha. Entre esses benefícios, foi instalado o SESP (relativo à saúde pública) em vários municípios.

Nesse contexto, no biênio 1942-43, o aquartelamento da Praça da Polícia ganhou uma enfermaria, que foi construída no andar superior, em prolongamento à edificação postada pela rua José Paranaguá. Ainda a alcancei quando de meu ingresso nesta corporação em 1966, e ela foi utilizada até a instalação do Hospital da Polícia Militar, em 1984.

Como era praxe, no livro competente de assentamentos o médico escrevia seu posto e nome, a Força a que pertencia e, ao final, o endereço que, alguns oficiais, incluíam o telefone. Com esses detalhes, listei os seguintes clínicos:

1)   1º tenente Flavio Silva Martins – 27 BC – dispensado em 12|05|1944;

2)   2º tenente R/2 Salomão (ilegível) Levy –– em 14|05|1944 e dispensado em 20|07| – rua Dr. Moreira, 190 – fone 1049;

3)   1º tenente Hyssarro Ferreira – em 01|08|1944 - rua Lauro Cavalcante, 237 – fone 1285;

4)   2º tenente Jesuíno de Souza Lins – em 09|06|1945;

5)   2º tenente R/2 Cristovam Paulo Martins – da 1ª/4º Batalhão de Fronteira - em 24|10|1945.

Finda a Guerra, findou também o subsídio de militares federais a JMS, assim obrigou ao Governo Estadual a recorrer a médicos da cidade. O primeiro a ser convocado, ainda que provisório, em 20 de junho de 1947, foi o doutor Antonio Hosanah da Silva Filho, residente a rua Lima Bacuri, 161, próximo, portanto, ao quartel da Polícia Militar. Este médico foi efetivado na corporação três anos depois.

Na postagem seguinte, cuidarei dos odontólogos, começando pelo pioneiro Francisco Menezes, formado pela Faculdade de Odontologia de Manaus.

domingo, novembro 08, 2020

HISTÓRIA DA PMAM: SERVIÇO DE SAÚDE

 Desativada em novembro de 1930, a Polícia Militar do Amazonas levou mais de 5 anos “fora do ar”, melhor dizendo, impedida de executar sua missão. Ao retornar, em abril de 1936, parecia mais acertada. Reagrupados seus elementos, a corporação foi paulatinamente se recompondo. Diversas novas providências foram incorporadas à instituição. Trato hoje do Serviço de Saúde.

Antes da desativação, o atendimento sanitário era realizado por médico do Estado, que atendia aos policiais passando pela caserna. Os casos mais graves eram encaminhados aos hospitais da cidade, com mais frequência à Santa Casa de Misericórdia.


Quando da reativação, porém, foi criado o Serviço de Saúde (SS), cujo primeiro dirigente foi o médico Walmik Ramayana Paula e Souza de Chevalier (foto), mais bem identificado por Ramayana de Chevalier, com o posto de capitão. Este médico, nasceu na residência da família situada no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva com Dr. Moreira. A família o enviou a Salvador, onde Chevalier frequentou a Faculdade de Medicina da Bahia, concluída em 1933. Ao tempo, Getúlio Vargas havia tomado o poder executivo do país.

Somente em 1943, temos notícia da inclusão de alguns médicos, não obstante uns terem se mantido em reduzida permanência no serviço. Em 13 de fevereiro, foi incorporado o Dr. Stelio José dos Santos Lobato, no posto de 1º tenente; um mês depois, em 14 de março, foi a vez do médico Djalma da Cunha Batista (graduado na Faculdade de Medicina da Bahia), na condição de capitão, mas que se manteve no SS somente seis meses.

Em setembro daquele ano, chegaram dois médicos: em 13, o Dr. Danilo de Aguiar Correa, graduado na Medicina do Pará, na condição de 1º tenente. Ingressou na política e foi deputado estadual até sua morte em acidente aéreo no interior do Amazonas. A 17, foi admitido o Dr. Alfredo Correa Lima, amazonense graduado pela Faculdade de Medicina do Rio. Logo, porém, restou este médico para atender aos policiais, pois os demais haviam desistido do emprego, inclusive Chevalier, que se mudara para o Rio e trabalhava na imprensa local, com elevado reconhecimento.

Somente em 2 de fevereiro de 1950, no entanto, é que a Polícia Militar acolheu novo médico. Acolheu o Dr. Antonio Hosannah da Silva Filho, também oriundo da Medicina da Bahia. Incluido com o posto de 1º tenente e alcançando o coronelato, empenhou-se no Serviço, deixando forte lembrança entre seus pacientes policiais; atendia ainda à Polícia Civil, no Instituto Médico Legal, que hoje leva seu nome.

Na próxima postagem, vou relembrar os raros Dentistas do período e os Médicos que vieram a partir da década de 1960.


domingo, novembro 01, 2020

CINEMA DE L. RUAS


 Esta postagem tem o objetivo de recordar o autor de Aparição do Clown, morto em 2000, e que ontem completaria 90 anos. Compartilho a publicação do matutino Diário do Amazonas (8 agosto 2010), cujo texto pertence ao jornalista Sávio Stoco.

 L. Ruas ganha livro

PRODUÇÃO DE UM DOS FUNDADORES DO CLUBE DA MADRUGADA 

ESTÁ EM CINEMA E CRÍTICA LITERÁRIA DE L. RUAS.

Filósofo, poeta, cronista, professor universitário, radialista, ator teatral e
padre. Tudo isso foi Luiz Ruas (1931-2000), um dos principais fundadores do Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense responsável pela difusão das artes modernas no Amazonas.
Em julho, L. Ruas – como costumava assinar suas obras - ganhou um livro resgatando parte da sua produção, a coletânea Cinema e Crítica Literária de L. Ruas, organizada por Roberto Mendonça (Edua, 168 páginas, R$ 20), com textos publicados nas décadas de 1960 e 1970 nos jornais da cidade.

Capa do livro divulgada pelo 
matutino

O Clube da Madrugada contribuiu para que L. Ruas valorizasse o cinema como arte e se dedicasse nos textos, segundo o sociólogo Renan Freitas Pinto, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Ele teve um papel de destaque em Manaus. Foi uma das vozes mais ativas no movimento Madrugada. Difundia as artes modernas, inclusive o cinema e o teatro. O interesse pelo cinema, essa arte do século 20, contemporânea por excelência, revela aspectos da modernidade do movimento. Nem todos os próprios integrantes do movimento tinham essa visão. Foi um dos que primeiro escreveu trabalhos críticos sobre cinema com visão filosófica”, lembra Pinto, que conheceu o escritor nos cineclubes da cidade.
Um “cabocão muito inteligente”. É como o escritor Márcio Souza, que também o conheceu nos cineclubes, se refere ao padre, com bom humor. “Era bom poeta, ator que causou escândalo em Manaus quando produziu o Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna) com o Teatro Escola e coordenava o suplemento literário do Clube da Madrugada”.

Sobre a atividade dedicada ao cinema, Renan disse que não era um dos nomes mais assíduos, mas que sua produção tem importância. “Ele tinha uma visão cristã de cinema, mas o livro reflete bem a visão da época, como as pessoas percebiam o cinema, como a imprensa publicava. Hoje crítico de cinema é coisa de Ibama, animal em extinção. A crítica literária, então já não tem mais volta nos grandes jornais", observou.

Entre os filmes e livros criticados e incluídos no livro, a diversidade se sobressai. De Rashomon (1950), do japonês Akira Kurossawa, ao religioso espanhol Marcelino Pão e Vinho (1955), de Ladislao Vajdao, passando pelo brasileiro A Primeira Missa (1961), de Lima Barreto, e o western norte-americano Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Entre as críticas literárias, análises de obras dos amazonenses Luiz Bacellar, Jorge Tufic, a literatura infantil de Monteiro Lobato, o francês Arthur Rimbaud e autores revelações internacionais da época.

A pesquisa de Roberto Mendonça, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), iniciou em 2004, quando L. Ruas completou, morto, 50 anos que se tornou padre. Outros três volumes estão previstos para lançamento, segundo o organizador. A Poesia do Padre L. Ruas, que sairá pela editora Travessia, e outros dois volumes com os textos em prosa do autor, como crônicas e ensaios.
A obra literária de L. Ruas mais importante é o livro de poesia Aparição do Clown, de 1958. Por sua qualidade, o trabalho mereceu estudos de Rogel Samuel, professor de Letras aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (disponível no blog historiadosamantes.blogspot.com) e de Russell S. King, da University of Nottingham.