CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, junho 05, 2020

HISTÓRIA DA PMAM: ANOTAÇÕES

Quartel da PMAM, em 1982

1982 foi o ano de encerramento do Governo Militar em nível estadual. Pois, nesse final de ano ocorreu a eleição para governador, vencida por Gilberto Mestrinho (oposição) sobre Josué Filho. Todavia, a Polícia Militar atravessou um ano extremamente político, aliás, como foi em todo o Estado.
Um ligeiro retrospecto: em maio, o governador José Lindoso abdicou do mandato para se candidatar ao Senado, assumindo o vice, Paulo Nery. No mês seguinte, Nery destituiu o comandante-geral, coronel Guilherme Vieira, por desavença administrativa, o qual foi substituído por outro oficial EB, Duailibe Mendonça.
Comandantes da PMAM
Foi aí que a “chapa esquentou”. Este oficial chegou prometendo pelejar, como de fato realizou, pela vitória da situação, a de Josué Filho. Com isso, os quarteis se inflamaram, tendo o comandante do Corpo de Bombeiros (então subordinado à PMAM) assumido a liderança destes. Coronel Cavalcanti arregimentou enorme ajuntamento de oficiais e praças. E encaramos (eu estava engajado) a peleja.
Houve nos bastidores várias querelas, que logo vamos registrar. No entanto, para encurtar a conversa, em outubro, Gilberto Mestrinho foi eleito governador, para exercer seu segundo mandato. Em janeiro seguinte, estava encerrado o período militar no governo do Amazonas. Do mesmo modo, sucedeu na Polícia Militar do Amazonas, quando o coronel Hélcio Motta assumiu o comando.
Para marcar esse memorável ano, reproduzo parte do Relatório expedido pelo comandante Duailibe, em que arrola a composição dos comandantes e diretores da corporação, referente aquele 1982. Ainda que tenha esquecido da Banda de Música e do Serviço de Saúde.

Comandante-Geral
Tenente-Coronel EB Guilherme Vieira dos Santos, 1º jan. a 21 jun.
Coronel PM Hélcio Rodrigues Motta, 22 a 25 jun.
Tenente-Coronel EB José Raimundo Duailibe Mendonça, 26 jun. a 31 dez.


Chefe do Estado-Maior Geral
Coronel Hélcio Rodrigues Motta, 1º jan. a 21 jun.  
Coronel Pedro Câmara, 22 jun. a 25 jun.  
Coronel Hélcio Rodrigues Motta, 26 jun. a 31 dez.  
Ajudante-Geral 
Coronel Pedro Câmara, 1º a 5 jan.
Tenente-Coronel Humberto Henrique Soares, 6 jan. a 29 jun.  
Coronel Pedro Rodrigues Lustosa, 30 jun. a 1º set.
Tenente-Coronel Humberto Henrique Soares, 2 set a 31 dez.
Comando do Policiamento da Capital (CPC) 
Coronel Amilcar da Silva Ferreira, 1º a 4 jan.
Coronel Pedro Câmara, 5 jan. a 31 dez.
Comando do Policiamento do Interior (CPI) 
Tenente-Coronel PM Mael Rodrigues de Sá, 1º jan. a 31 dez.
1º Batalhão de Polícia Militar (BPM) 
Tenente-Coronel PM Ruy Freire de Carvalho, 1º jan. a 22 out.
Tenente-Coronel PM Ilmar dos Santos Faria, 23 out. a 31 dez.
2º Batalhão de Polícia Militar (BPM)
Major Osias Lopes da Silva, 1º jan. a 31 dez.  
Corpo de Bombeiros (Cia CB)

Tenente-Coronel José Cavalcanti Campos, 1º jan. a 21 out.
Tenente-Coronel Ruy Freire de Carvalho, 22 out. a 31 dez
Companhia de Policiamento de Trânsito 
Major Osias Lopes da Silva, 1º jan. a 17 jan.  
Major Jetero Silva de Menezes, 18 jan. a 14 jul.  
Major Antonio Carlos Cardoso Pereira, 15 jul. a 31 dez.
Companhia de Polícia de Rádio Patrulha (Cia P RP)
Major Edval Correa da Fonseca, 1º jan. a 31 dez.  
Diretoria de Finanças (DF)
Tenente-Coronel Odorico Alfaia Filho, 1º jan. a 31 dez.  
Diretoria de Apoio Logístico (DAL) 
Major Romeu Pimenta de Medeiros Filho, 1º jan. a 02 fev.
Major Jarbas Rocha da Costa, 3 fev. a 6 jul.
Coronéis Medeiros e Amilcar
Major Romeu Pimenta de Medeiros Filho, 7 jul. a 31 dez.
Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) 
Major Antonio Guedes Brandão, 1º jan. a 31 dez.
lª Companhia Independente PM 
Major Edson de Lima Matias, 1º jan. a 1º ago.
Capitão José Cabral Jafra, 2 ago. a 31 dez.
2ª Companhia Independente PM 
Capitão Manoel dos Santos Araújo, 1º jan. a 31 dez.  
Companhia de Polícia Rodoviária (Cia P Rod)
Capitão Francisco Silva dos Santos, 1º jan. a 07 jan. 82
Capitão Raimundo Pereira da Encarnação, 8 jan. a 31 dez.  
Companhia de Polícia de Guardas (Cia P Gda)
Capitão Ronaldo Francisco Albuquerque Toledano, 1º jan. a 1º out.
Capitão Adalberto Fonseca Rodrigues, 2 out. a 31 dez.
Coronéis Brandão e Mael Sá
Companhia do Comando Geral (Cia CG)
Capitão Luiz Fernandes da Rocha, 1º jan. a 16 ago.
Capitão Francisco Silva dos Santos, 17 ago. a 6 out.
Capitão Alcy Costa Sampaio, 7 out. a 31 dez.
Companhia de Polícia de Choque (Cia P Ch)
Capitão Antonio Alfredo Rego da Matta, 1º jan. a 31 dez.  
Pelotão de Polícia Feminino (Pel P fem)
1º Tenente João Ewerton do Amaral Sobrinho, 1º jan. a 15 abr.
2º Tenente Fem Antonia Arlene da Silva Oliveira, 16 abr. a 31 dez.

quarta-feira, junho 03, 2020

JOSÉ CALASANS & CANUDOS

José Calasans (1915-2001)

Quando em 1994 dei início às pesquisas para escrever sobre a participação da PMAM na guerra de Canudos, cheguei a Salvador (BA). Sabedor da presença do saudoso professor aposentado universitário José Calasans Brandão da Silva, considerado o catedrático naquele conflito em todo o país, para ele enviei uma correspondência. E anexei a ela uma cópia do Relatório sobre a campanha de Canudos, de autoria de Candido José Mariano, comandante da tropa amazonense, publicado em Manaus, em dezembro de 1897.

O mestre Calasans respondeu-me com outra carta, que aqui compartilho. Após esse contato, desembarquei na capital da Bahia, onde conversei em três oportunidades com este canudista. Logo me informou que o Relatório de Candido Mariano constitui a primeira publicação no país após o conflito. Em forma de opúsculo, o texto já se encontra na quarta edição: a primeira em 1897, no governo de Fileto Pires; em 1943, na interventoria de Álvaro Maia; a terceira, por Arthur Reis, em 1966; e, a última, em 1998, no governo de Amazonino Mendes.

Carta de Calasans (1994)
Salvador, 12 de abril de 1994


Prezado coronel Roberto Mendonça

Recebi com muita satisfação sua estimada carta de 4 do corrente. Muito grato pela remessa do xerox do Relatório do comandante Candido Mariano, bem assim a notícia de sua vinda. Vou levar a importante documentação para o Núcleo Sertão do Centro de Estudos Baianos, onde estão a biblioteca, mapoteca, manuscritos a respeito da guerra sertaneja do Conselheiro. Coloco-me à disposição para o envio de cópias de seu interesse.

Fico também ao seu dispor, nas condições que o ilustre patrício desejar, para ir a Manaus. Comunico-lhe que a UNEB (Universidade Estadual da Bahia) está com uma série de quadros do pintor Tripoli Gaudenzi sobre Canudos, que poderá ser levada a Manaus. Em vários pontos do Brasil a mostra já foi apresentada.
Espero haver iniciado uma boa e árdua correspondência com V.Sa.
Cordialmente
José Calasans


Anexei à esta postagem uma anotação sobre o mestre José Calasans, publicada no jornal O Estado de São Paulo (23 maio 1994).


Calasans (O Estado de São Paulo)
POLÊMICA


Conselheiro não queria reforma, diz historiador

Diante de seu acervo de 4 mil volumes – a maior bibliografia do mundo sobre Canudos – o historiador José Calasans, 78 anos, que há cerca de 40 anos estuda o tema, desfaz mitos que se tornaram verdade sobre Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.
“Ao longo de todos esses anos de pesquisas nunca encontrei um só dado concreto que sustentasse a tese de que Conselheiro irritava os proprietários rurais porque era um revolucionário, favorável a uma reforma agrária violenta”, afirma.

Manuscritos
Para Calasans, com base nos dois manuscritos deixados por Conselheiro (de 1895 e 1897), sua figura deve ser vista por outro ângulo que o apresentado por Euclides da Cunha, em Os Sertões, e por alguns historiadores.
“Antônio Conselheiro não queria fazer revolução nem reformas”, afirma. “Ao contrário, resistia a elas”. Com relação aos proprietários rurais, destaca Calasans, eles viam em Conselheiro uma ameaça pelo fato de ele arrebanhar a mão-de-obra barata. Utilizavam, a dos ex-escravos. “Os negros não queriam continuar na terra onde tinham trabalhado como escravos, assim encontraram em Antônio Conselheiro um líder natural”, explica o historiador. Na visão de Calasans, Conselheiro foi apenas um benemérito do sertão baiano, porque realizou na época as obras desejadas pelo povo: construiu igrejas, tanques de água e, com suas pregações, falava aquilo que seus seguidores queriam ouvir.
Alguns documentos recuperados por Calasans, como o manuscrito de Conselheiro datado de 1895 (veja fac-símile nesta página), indicam isso. “No manuscrito não se vê nenhuma alusão ao tema revolução”, afirma. “São trechos copiados da Bíblia, que Conselheiro selecionava para suas pregações”, explica.
O manuscrito de Conselheiro que faz parte do acervo de Calasans - Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo Para Salvação dos Homens — traz nas primeiras 554 páginas cópias do Novo Testamento, traduzido pelo padre Antônio Pereira de Figueiredo. Nas 252 páginas restantes, Conselheiro comenta os Evangelhos.

Livro de cabeceira
Além desse manuscrito, faz parte do acervo organizado por Calasans outro documento inédito: o livro de cabeceira de Antônio Conselheiro, A Missão Abreviada, uma espécie de guia para pregações (veja fac-símile nesta página).
No início dos anos 1980, na gestão do reitor Luiz Fernando Seixas de Macedo, José Calasans doou sua biblioteca ao Centro de Estudos Baianos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na ocasião, o reitor criou junto ao Centro de Estudos Baianos o Núcleo Sertão, aberto aos curiosos e pesquisadores da vida sertaneja, sobretudo no que diz respeito à Campanha de Canudos.
Nascido em Sergipe, o historiador Calasans, em 1951 mudou-se para a Bahia para fazer o que mais desejava: seguir no encalço dos sobreviventes do massacre de Canudos e recolher, onde quer que fosse, material sobre o tema. Conheceu e entrevistou diversos deles. Cita como uma de suas principais emoções a entrevista que fez com Pedro José de Oliveira, o Pedrão, um dos jagunços de Antônio Conselheiro. “Caso houvesse eleição para escolha do nome maior dos jagunços de Canudos, daríamos nosso voto a Pedrão”, escreveu Calasans em seu Quase Biografia de Jagunços. A frase dita por Pedrão que mais o impressionou é a seguinte: “Faz pena um homem como eu morrer sentado”.
Calasans descreve, com emoção, a situação em que Pedrão lhe disse essa frase: “Ele falava assim, quase aos noventa anos, porque quando o entrevistei estava paralítico das duas pernas, sentado numa gamela, movimentando-se com o auxílio das mãos no chão-batido de sua morada em Cocorobó, onde viveu seus derradeiros anos.”
No livro Quase Biografia de Jagunços, Calasans dedica também um pequeno capítulo ao jaguncinho de Euclides, o pequeno garoto, órfão, que o escritor ganhou do general Artur Oscar, no final da guerra. O menino, então com seis anos, foi entregue por Euclides aos cuidados do educador paulista Gabriel Prestes.


terça-feira, junho 02, 2020

BUZINA DOS PARANÁS (1958)

Capa do livro

Em 1958, o ex-governador Álvaro Maia (1893-1969) publicou o livro Buzina dos paranás (Manaus: Ed. Sergio Cardoso). Foi uma festa literária pela competência do autor, carimbada pelas obras que se seguiram, desse modo, consolidando a sua habilidade intelectiva.
Quando deste lançamento, outro competente intelectual amazonense – Ramayana de Chevalier (1909-72) elaborou uma apreciação sobre a obra de Maia, saudando-o como o “gigante da lírica equatorial”.
Chevalier foi lido no matutino A Crítica (edição 3 de junho). Nesta postagem, vai a transcrição:


Cabeçalho do artigo (A Crítica, 3 jun. 1958)


DE LONGE, das profundas solidões do meu espírito, emergi cheio de ninfeias e matupás, depois da leitura do último livro do poeta Álvaro Maia. Vim com os olhos incendiados e a alma em febre. Trazia nas mãos um compêndio filosófico e na boca um grito de louvor à minha terra! O que há de misterioso no complexo amazônico, que escraviza aos seus áugures, por toda a vida? Nenhum poeta poderá ser mais límpido, mais puro, mais ressurgido do limbo natural, do que aquele que nasceu, viveu e compreendeu a Amazônia.
Dir-se-á que o artista, no seu Buzina dos Paranás, conservou o aticismo clássico, o estilo acadêmico que lhe serviu de marco inicial. É um modus insolitus hoje, respeitável contudo. O Amazonas não se descreve com facilidade, nem no ensaio, nem no lirismo. Daí certos plumilívidos terem preferido, nascendo e vivendo na Amazônia, escrever sobre o vaso noturno de Madame Stael.
O livro de Álvaro Maia é um breviário de amazonidade. Contém belezas inesquecíveis, imagens inolvidáveis. Tem a pujança dos acapus, o terno lirismo das flores de mamorana, o suave ondular do alísio penteando o vale. Traz, nos seus versos, a seiva oculta e virginal da diluviândia, o mágico esplendor das mais alegres madrugadas e dos mais coloridos crepúsculos do mundo. Tem imagens geniais, frutos saborosos de sua sazonada experiência telúrica. “Sobre as águas barrentas” é um hino glorioso e eterno. E o Amazonas inteiro, através de sua ternura cabocla, é um “esfumado vitral de caninas e barcos”.
Sofro da mesma moléstia desse artista bom: amo desmesuradamente à minha terra. Quero-a, com ciúmes de Otelo, com bravuras de Bertrand du Gueselin [1320-80], com a filosófica e paciente devoção do íncola. O Amazonas me corre nas veias, como um cauim bendito, dá-me aos olhos fulgurações de murerus na sombra, inflama-me a voz com os retumbos da inhauira-ituassu, adoça-me o coração, no gesto largo do perdão e do amor. Assim em Álvaro Maia.
Álvaro Maia
O marupiara não se corrigirá nunca. É um enfermo da beleza e da gleba. O seu livro nos narra isso, aos tropos, como em Horácio, em remígios, como em Castro Alves, dolente como em Tagore. Viaja-se, chora-se de saudades. Corre dentro da gente um igarapé de lembranças, sob a música do seu talento plenilunar. Não o vejo acadêmico, que isso não me interessa, nem escritor de escola, que isso é mesquinho para a sua eclética. Olho-o na proa do casco, pulso firme no jacumã, visão perdida nos longe do estirão, devorando sonhos e miragens. Vejo-o alcançado de sol, batido de espantos, sob o chapéu de tucum, bebendo a gengibirra fermentada, mago de uma religião natural, irmão dos rebojos e dos candirus. E, adiante, coroado de painas flutuantes, mergulhar no lago tristíssimo trazendo de volta esse livro admirável, grande e sonoro como a sua inteligência e a buzina dos caçadores de plumas.

Uma viagem. Sim, uma eterna viagem adentro de mim mesmo, foi a leitura desse livro. Porque nunca me separei do Amazonas, jamais o deixei sem esperanças, sem um gemido de saudade, sem um gesto de retorno permanente, sem uma atitude viril em sua defesa, seja contra quem for. Nossa literatura não é compreendida no resto do Brasil. Nem nós pretendemos que o seja. Guardemos, no armorial da nossa arte, ao lado de poetas caboclos como Américo Antony, os rouxinóis do Clube da Madrugada, os sacerdotes da gleba como Mavignier de Castro, o brasão desse gigante da lírica equatorial, esse Álvaro Mala que, como a maçaranduba, resiste ao tempo, jovem no cerne e na alma, ostentando às gerações futuras os gonfalões do seu espírito solar!

segunda-feira, junho 01, 2020

BANDA DE MÚSICA DA PMAM (5)

Desfile de Sete de Setembro, em 1975

Persisto em concluir a retrospectiva sobre a Banda de Música da Polícia Militar do Amazonas. O livro está em revisão final. Para ultimr, aproveitei o isolamento para vasculhar algumas pastas de meu arquivo. E fui recompensado, pois recuperei dois recortes de jornais sobre o assunto. Vou aqui postar.
O primeiro contém uma conversa que mantive com o jornalista Evaldo Ferreira, publicada no Jornal do Commercio (23 e 24 junho 2013); o segundo, uma apreciação de um músico, em reportagem de Joana Queiroz, exposta no matutino A Crítica (13 novembro 2011).

Reportagem no Jornal do Commercio (23 jun. 2013)

O pesquisador Manoel Roberto Lima Mendonça entrou para a Polícia Militar em 1966, como oficial, e só deixou a corporação 30 anos depois como coronel. O militar sempre se dedicou às pesquisas históricas sobre a instituição, intensificadas a partir de sua ida para a reserva. A Banda da Polícia Militar, que este ano completou 120 anos, pela alegria que transmitia por onde passava, mereceu atenção especial do pesquisador, conforme falou abaixo, em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio - A Banda da PM fez 120 anos no dia 3 passado, mas parece que nem ela própria comemorou o aniversário. Por quem e por que a Banda foi criada
Roberto Mendonça - Esta data é convenção, porque não há registro da criação. Então, escrevendo um texto para o jornal, eu sugeri que se adotasse a data do Relatório do então comandante da PM, na época, coronel Raimundo Afonso de Carvalho. Quanto ao por que da criação, a música sempre existiu nos exércitos, seja pela necessidade de comunicação, de controle da tropa, de estímulo aos combatentes e, porque não, de divertimento e lazer.
JC - Nesses 120 anos de existência a Banda da PM nunca deixou de existir? 
RM - Seguramente sim. Quando a PM foi desativada em 1924, por seis meses, a atividade policial subsistiu com outra denominação. E a Banda não foi dispensada. Entre 1930 e 1936, em nova etapa de desmobilização da Força Policial, a Banda continuou ainda que capenga tocando aqui e ali. Parte dela passou a servir no Corpo de Bombeiros, outra parte se desligou e foi cuidar da vida.

RM, o entrevistado
JC - A quantidade de músicos sempre foi a mesma? Quantos eram e quantos são? 
RM - Muito difícil responder a essa primeira questão. Quanto ao número de músicos muda em decorrência de um aspecto: o efetivo da corporação. Na primeira década do século passado, por acaso, havia três bandas: duas na PM e uma nos Bombeiros.
JC - Quais os momentos mais importantes (ou especiais) pelos quais passou a Banda? 
RM - Também fica difícil avaliar este tópico. De minha parte, que conheço a Banda a partir de 1966, penso que no período que vai até 1980, ela se destacava no coreto, tocando na praça, que reunia as famílias para ouvi-la, namorar e jogar conversa fora. Outro destaque acontecia nos clubes, em especial, no Carnaval. A presença da Banda, na verdade de alguns músicos, mas a indicação da Banda, fazia o Carnaval ferver.
JC - Houve uma época em que a banda era um dos maiores atrativos da cidade, desfilando pelas ruas e se apresentando no coreto da praça da Polida. 
RM - Quais eram os meios d5 divertimentos em Manaus há 40, 50 anos? O cinema, o clube familiar, o balneário. Por isso, quando qualquer Banda tocava, era ocasião para divertimento. A cidade era menor, o centro ocupava as praças, com a Banda aos domingos.
JC - Então, a cidade cresceu e "a banda passou". 
RM - A Banda passou inegavelmente. Não soube se modernizar, se compor com a Zona Franca, com a tecnologia. Permaneceu naquele ramerrão, tocando os repetidos dobrados, às vezes, sem um mestre de qualidade. Tornou-se assim, longe do coreto, uma Banda “faixa branca”, destacada para abrilhantar os atos governamentais. Depois, uma disputa interna como há em qualquer organização somente prejudicou esse pessoal.
A PM tem sua imensa culpa, pois até hoje, não há um local adequado para ensaios, para abrigar o pessoal, "para dizer que é meu". A desconsideração vai ao extremo quando se sabe que o espaço ocupado pela Banda era, antigamente, os xadrezes do batalhão de Petrópolis. Autêntico quebra-galho.
JC - Como está a Banda hoje? 
RM - Um pouco de história: até meados do século passado, acredito que pelos anos de 1940, os músicos eram classificados em 1ª, 2ª e 3ª classes. Os vencimentos eram padrão, igual aos dos soldados. Causava um desconforto com os profissionais. Então passaram a integrar a graduação de sargentos. Melhorou o soldo, mas trouxe um grave problema: quem deveria ser promovido? A disputa segue até hoje.


Recorte da reportagem sobre a Banda de Música (A Crítica, 13 nov. 2011)