CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sábado, setembro 16, 2017

OCULISTA & OFTALMOLOGISTA (2)



As armações de óculos foram se sucedendo, algumas por tempo de serviço, outras pelo modismo, porém, teve uma que se desintegrou (isso mesmo) em uma boate situada na rua Silva Ramos, tendo como referência a sede do BEA, hoje Bradesco. Explico o desastre: a dança arrebatada de então exigia muito balanceio e agitação, por isso, costumava eu enfiar os óculos no interior da camisa, que devia estar por dentro da calça. Certa noite, a camisa perdeu a sustentação e os óculos caíram (sem que eu percebesse). Foram triturados pelos dançantes.

Antes de voltar ao oftalmologista, que não sei quando trocaram de nomenclatura. As lentes que usava, devido aos graus exigidos (OD/OE) e a tecnologia de então, forçava que a lente – em especial do OD – fosse espessa. Como eu ansiava usar um modelo Ray-ban, cuja armação é bem estreita, isso era impossível. Mas tentei, todavia, o pouco menos “fundo de garrafa” não se acomodou. Assim, o dinheiro e o anseio raybaniano foram pro ralo. No entanto, as mudanças operadas por modismo me levaram ao uso de cada vez mais uma armação bem atraente e, mais que tudo, confortável. Adaptei-me à armação no rosto, de sorte que complementa minha cara. Eis um motivo pelo qual reluto em substitui-la por lentes.

Em Fortaleza,
maio 1972, sem
óculos
Visitei alguns consultórios de oftalmologistas. Destes, quatro me deixaram marcas, algumas aprazíveis. Exponho sem obedecer a qualquer ordenamento:  o primo Dr. Carlos Alberto, em São Bernardo (SP), bem que tentou substituir a armação que usava por lentes de contato. Há 30 anos, não suportei o duríssimo exercício de adaptação, razão pela qual o dito cujo não passou de 24 horas. Agradeci-lhe penhorado o brinde das lentes, mas capitulei. Outro foi o Dr. Neuzimar Jr. que, em dias de uma Copa do Mundo, me atendeu com um olho no computador e outro na TV postada no interior do consultório, exibindo o jogo da seleção nacional. Ao sair do consultório, lancei a receita no entulho. Senti-me um lixo.

Certa noite, em 2004, sofri uma grave hemorragia no OD. Recorri ao Unimed que, diante da seriedade do lance, convocou uma médica especializada. Fui atendido pela Dra. Adriana Melo, que me encaminhou para sua Clínica de Olhos Manaus, onde, depois de fotografar o acidente para estudos, cuidou de mim com zelo em várias consultas, enfim, alertando-me para a catarata que se pronunciava. Tornei-me seu fã, pena que nunca mais a visitei. Os dias correram e, diante da opacidade do cristalino (certo?) que se intensifica, dias desses busquei ao Dr. Cavalcanti Jr. na Clínica de Olhos Vision. Aconteceu o reencontro de conhecidos, ele filho do amigo coronel Cavalcanti. 

Foi nesse transito entre máquinas modernas, que me recordei desses fatos cinquentenários aqui narrados. E, após me submeter a exames dos olhos em quase uma dezena de aparelhos, surgiu na conversa entre este clínico e o paciente duas deliberações: uma, a cirurgia que a catarata reclama. E a segunda, escrever um (este) texto relatando minhas experiências com os oculistas, perdão, os oftalmologistas.  

OCULISTA & OFTALMOLOGISTA

Depois de largo tempo bem longe – cinco anos – voltei ao Milenium para uma consulta com o oftalmologista. Duas surpresas me aguardavam: como sempre, uma deleitosa e a outra nem tanto. Começo por esta. A catarata precisa ser operada. Confesso que nem me foi um sobressalto, pois, na última consulta, a médica já me apontara esta direção. Era somente questão de tempo, e este bendito chega com arrojo.
Aluno 111 Roberto (1966)

Dr. Cavalcanti foi enfático, e já marcava a cirurgia para duas semanas depois, tão logo desembarcasse de suas férias em Portugal. Todavia, não foi possível, pois também eu estava viajando à Brasília para rever alguns de meus amores. De retorno, outros agradáveis empecilhos vem adiando a intervenção.

Um salto no calendário para relembrar meus problemas com os olhos, e desse modo contar um pouco dessa evolução da oftalmologia. Há 50 e poucos anos, quando fui prestar serviço militar tive que enfrentar a inspeção de saúde, então realizada em grupo e em pelo. Éramos vinte e poucos candidatos ao NPOR e, na enfermaria do 27º BC, fomos dispostos para a famigerada seleção sanitária.

A chamada era feita por ordem alfabética. Para minha fortuna, por me chamar Manoel, fui observando o exame dos concorrentes, todos jovens de dezoito anos. E depois de sopra daqui, olha dacolá, o candidato tinha sua visão examinada. Como? Não havia material adequado na sala, como impresso alfabético afixado na parede, de maneira que o médico (não sei se especialista) mandava o candidato ler o nome de remédios expostos num armário envidraçado encostado em uma parede.

Quartel do 1º BIS, antigo 27BC

Nessa ocasião, descobri minha deficiência visual (deveria ser no plural, como foi diagnosticada muito depois). Ao perceber o embaraço para ler as marcas ou os nomes de medicamentos expostos adiante, passei – aproveitando as dicas dos colegas anteriores – a decorar tudo. Assim, quando o Manoel foi chamado para o exame visual, ele o “matou de primeira”. Saí aprovado, contente, pensando que esse subterfúgio não traria efeito.

E logo teve, bastou efetuar o treinamento de tiro. Após o ensinamento teórico, no campo, ao praticar o alinhamento da mira, veio o desastre: o projetil caiu alguns metros depois, antes do alvo. Diria, foi um tiro no pé. Interrogado pelo instrutor, sargento Fraga Dantas, disse não desconfiar da minha imperícia. Ainda assim, conclui o curso e, com a mesma insuficiência, fui incluído na Policia Militar do Estado.

Na Força Estadual, a minha admissão em 1966 foi menos traumática. Sequer houve exame médico, ao atravessar o centenário portão do quartel da Praça da Polícia, fui encaminhado em conjunto com os colegas à alfaiataria do subtenente Nonato. Logo, equipado com o famigerado cáqui, estava pronto para o serviço. E assim se passaram seis anos... até eu desembarcar na PM cearense para um curso policial, aos 26 anos de idade.

Obviamente, sem tratamento corretivo a crise visual foi se agravando. Quase ao final de 1972, levado quem sabe pelo embaraço para ler o nome do ônibus destinado a Academia de Polícia Edgard Facó, na avenida Mister Hall, ou as legendas de filmes rodados em cinemas da praça do Futuro, ou a televisão que se inaugurava a cores, recorri ao especialista, que então era nomeado de Oculista.

Aconteceu no hospital da Polícia Militar do Ceará meu primeiro exame de vista, há 45 anos! Como gostaria de registrar o nome desse facultativo, todavia, o implacável tempo desmanchou seu nome da minha memória. O exame, de então, era rematado pela leitura de letras de diversos tamanhos postadas em cartaz na parede ao fundo. A minha situação estava para um conhecido chiste: interrogado pelo oculista pelas letras, o paciente devolve, “mas, que parede?”.

Estava quase de tal modo, tanto que recordo do espanto dele ao concluir o exame: “você nunca usou óculos? Seu grau de miopia e de astigmatismo e outro desvios são acentuados”. Para encurtar a consulta: receitou-me óculos com três graus em cada lente. E recomendou: vamos aguardar a evolução do desvio. Quando recebi os óculos em ótica situada na Praça do Futuro, ainda revejo minha admiração em poder tudo ler, ao vivo e a cores.

Ainda agora são usadas letras para esse exame, mesmo com tecnologia mais apurada.
Passei a valorizar as lentes. E, de modo óbvio, a frequência aos exames periódicos, pois a recomendação do oculista cearense me “perseguia”. Já em Manaus, consultei certa ocasião a um oculista: o saudoso Dr. Avelino Pereira, que era mais político que facultativo, cujo consultório encontrava-se na rua Henrique Martins, ali no extinto Canto do Fuxico, andar acima da A Favorita. Atendia em uma sala bem acanhada e com equipamentos elementares. Acredito que ele já estivesse no “terceiro tempo”.



Ao ingressar na PM, estabeleci contato por imposição funcional com o oculista Dr. Calil Nadaf (ainda vivo). Este médico pertencia ao Serviço de Saúde da corporação, com o posto de major. Como o SS nada possuía de equipamentos, nenhum exame era possível ser realizado. De fato, era uma sinecura, que o próprio Nadaf logo tratou de dispensar, passando a cuidar de seus imóveis, onde se deu muito bem. (segue)

sexta-feira, setembro 15, 2017

CANUDOS: 120 ANOS


Mural existente no Palacete Provincial,
antigo quartel da Praça da Polícia 
No próximo mês, o final da Campanha de Canudos completa 120 anos. Algum movimento no sentido de relembrar a luta fratricida nos sertões baianos pode ocorrer em Manaus. De minha parte, que muito me empenhei quando do centenário, tenho pronto a 2ª edição de meu livro Cândido Mariano & Canudos, que a Editora da Ufam (Edua) então publicou.

Para esta nova edição, escrevi um P.S. (post scriptum) desejando complementar as informações passadas ao leitor do original. A fim de dar partida a tradição da efeméride, reproduzo este texto.

P.S.

Escrevi a 1ª edição deste trabalho embevecido pelas conquistas próprias no trânsito de minhas pesquisas e na antecipação do centenário de Canudos. Cada vez mais empolgado pelas leituras consumadas, assim como pelas conversas com os aficionados pelo funesto acontecimento, cheguei a rascunhar o seguinte título para o livro: “A gloriosa epopeia da PMAM em Canudos”. Evoluiu, pouco adiante, para “Candido Mariano, o herói da PMAM em Canudos”. Ainda bem que uma “consultora” me advertiu do burlesco. Pois... como resume de maneira primorosa Consuelo Novais Sampaio (org.), em Canudos: Cartas para o Barão (São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999),

“A Guerra de Canudos não foi apenas mais um capítulo da história do Brasil. Ela revela com precisão a grande distância que, neste país, sempre separou – e no limiar do século XXI, ainda separa – o “povo miúdo”, a população pobre e miserável, das classes dominantes. Em todos os níveis de tomada de decisão, o movimento conselheirista foi manipulado para a satisfação de interesses pessoais e de grupos políticos em luta pelo poder”.

São passados 20 anos desde o lançamento de meu Cândido Mariano & Canudos (Manaus: Edua, 1997) que serviu, entre outros empregos, para compartilhar o centenário de Canudos em Manaus. Festividade que foi patroneada pela extinta Fundação Djalma Batista, dirigida pelo Professor José Seráfico, que volta nesta edição a emprestar seu apego aos movimentos culturais e sociais, com sua palavra culta e diplomática.

Passadas duas décadas, reformulei meus conceitos (desculpe o leitor o chavão) sobre Canudos e seus personagens. Nesse lapso, quase olvidei ao comandante Cândido Mariano, que espero ainda esteja sepultado no cemitério São João Batista carioca. Outra iniciativa: repassei quase uma centena de livros adquiridos sobre o tema para a Universidade Estadual de Pernambuco – Campus Petrolina, ao tempo da gerência do Professor Ms. Moisés Almeida.

Da Polícia Militar do Amazonas, no entanto, não descurei, por uma singular motivação: anualmente, em 8 de novembro, esta corporação perfila-se para relembrar a campanha de Cândido Mariano e dos policiais amazonenses em Canudos. Estou convencido de que se trata da única Força Estadual (as demais participantes dessa refrega são a do Pará, da Bahia e de São Paulo) no país a renovar ciclicamente as acerbas lições canudenses. 
Produção do Governo
para lembrar Canudos

A fidelização corporativa me impulsionou a elaborar esta nova edição com a indispensável revisão ortográfica e com o acréscimo de substancial material literário elaborado por Cândido José Mariano, e difundido quando de sua atuação na prefeitura de Sena Madureira (AC). Enfim, há cinco anos, elaborei o folheto Canudos em Quatro Tempos: a participação da tropa da Polícia Militar do Amazonas na Campanha de Canudos, 1897 (Manaus: s/ed., 2012)) para relembrar a efeméride festiva de novembro.

Vivemos novos tempos, sei. O correr do relógio me ensinou, e me levou a percorrer novos caminhos para alcançar o desfecho de Canudos. Acredito ter assimilado as lições, porém, uma questão ainda me inquieta: onde posso encontrar os nomes dos policiais integrantes do Batalhão de Cândido Mariano? Lamentavelmente, mexidas e mais mexidas operadas no extinto Quartel da Praça da Polícia espalharam por estranhos departamentos estaduais os registros históricos. Todavia, eu prometo: ainda os alcançarei.


No mais, o tão estudado tema Canudos passa por uma temporada de baixa estação. Oxalá o sesquicentenário, ainda bem distante (em 2047), traga novidades e inovados subsídios. Contudo, diante dessa longínqua distância cronológica, lego com este trabalho minha contribuição.

FELIZ RETORNO

Depois de um longo período de afastamento, retorno objetivando cumprir o prometido: escrever histórias. As pesquisas continuaram durante este lapso, falta a divulgação, que começa no post seguinte. De repente, fui bloqueado pelo administrador, por algum motivo que minha pobreza de conhecimentos tecnológicos não foi capaz de suplantar. Recorri ao técnico competente e, resultado, eis-me de retorno. 

Estabilizado, após uma mudança de endereço residencial, comprometo-me com a nova estrutura do Blog divulgar os livros por mim publicados. Em PDF, alguns serão colocados para uso sem ônus, ou seja, para baixar sem custo. Outros, terão uma cobrança, até diria simbólica.

Espero ainda organizar um "sebo" para negociar os livros sobre a Amazônia e outros assuntos afins, que compõem minha biblioteca.

Com essa promessa, espero que meu recomeço seja frutuoso.