CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quinta-feira, julho 28, 2022

CONSTELLATION PP-PDE: RESGATEIRO

 Envolvido no esclarecimento do maior desastre de aviação ocorrido na Região Norte, que envolveu um avião da extinta Panair do Brasil e exigiu a bravura de militares e civis no resgate, conversei com um dos soldados do 27 BC, que esteve na "clareira do avião". Em nossos dias, oficial reformado da Polícia Militar do Amazonas, ao completar 79 anos revelou-me alguns detalhes que envolveram aquela saga. Abaixo o texto que escrevi para a retrospectiva.

Tenente Giovani,
ontem e hoje

Manoel Giovani de Souza Oliveira, soldado da 2ª Companhia de Fuzileiros do 27 BC, acompanhou ao tenente Braga Vieira no resgate e, desse modo, esteve na clareira do Constellation da Panair do Brasil, desaparecido há 60 anos.

Giovani, seu nome de guerra, nasceu em Manicoré (AM) em 25 de julho de 1943. Nascido e criado naquele município, o filho de seu Albertino Gomes de Oliveira e dona Walquiria de Souza era um jovem convivido com a selva, pois participava da exploração do castanhal da família. Aos dezoito anos, desembarcou em Manaus para cumprir o serviço militar.
Não obstante sua experiência com a floresta, contou-me (em 22 de julho) às vésperas de comemorar 79 anos, que a missão de alcançar os destroços do avião e possíveis sobreviventes foi um desafio sobre-humano para um jovem, uma experiência singularíssima em sua vida. Assistiu excepcionais reações: os fortes, porém estropiados, que retornaram à base; os colegas jovens que se desesperavam, chorando; outros, intentando o retorno que desistiam, temendo uma prisão no quartel.
Outras inusitadas práticas: a tentativa de evitar o nauseante mal cheiro exalado pela decomposição dos corpos, mascarando o rosto com uma camisa; alimentar-se inicialmente de “ração fria” e, ao final desta, de qualquer modo, inclusive abatendo animais silvestres; recolher restos mortais sem utilizar quaisquer equipamentos de proteção em sacos de lona, utilizados no Exército; transportar esses sacos com restos putrefatos, por uma trilha de cerca de 300 metros, até o heliporto; viajar com essa carga no pequeno helicóptero Bell; e outras ferocidades que pelo passar do tempo deslembrou.
Giovani, ao dar baixa da caserna federal, ingressou na Polícia Militar do Amazonas, na condição de soldado nº 1034, para servir no GPO (Grupamento de Policiamento Ostensivo), mais conhecido por “Cosme e Damião”, em abril de 1964.

Na corporação da Praça da Polícia, o soldado Giovani enfrentou os cursos básicos: de Cabo, concluído em dezembro de 1965 e Sargento (3º) em julho de 1966. Sua habilidade e disciplina o levaram a outros setores, um de mais destaque foi servir na Casa Militar do governo. Enfim, reformado como 2º tenente, segue ainda pronto para novo desafio. 

segunda-feira, julho 25, 2022

REBELIÃO DE RIBEIRO JUNIOR (1924)

98 anos foram contados ontem ao lembrar o movimento militar de julho de 1924. Encabeçados por oficiais da Armada e do 27 BC, os rebelados puseram fora do governo seu titular, que se medicava em Paris (FRA), e o comandante da Polícia Militar estadual, coronel reformado Pedro José de Souza.

Capa do livro de Eneida Ribeiro

Assumiu o governo revolucionário o 1º tenente EB Ribeiro Junior que, apesar da reduzida etapa à frente do Executivo, conquistou a veneração ao menos dos moradores de Manaus.

A segunda etapa da sedição consistia em tomar o governo paraense, dessa proeza encarregou-se o paraense 1º tenente Magalhães Barata que, apesar do fiasco inicial, tornou-se na ditadura de Vargas o interventor no Estado, onde se notabilizou.

O Amazonas adotou Ribeiro Junior, elegendo-o deputado federal e inaugurando seu busto na praça com seu nome. O logradouro existiu atrás do quartel da Polícia Militar, hoje Palacete Provincial, mas a reforma do prefeito Jorge Teixeira causou o desaparecimento da homenagem.

As louvações regionais foram intensas, transformando os revolucionários em heróis, como realizou a professora Eloina Monteiro. E neste sentido há alguns livros e trabalhos acadêmicos publicados. No entanto, a visão externa sobre os oficiais rebelados é bem outra, como analisou em “O levante das Forças do Exército e da Marinha no Amazonas no ano de 1924”, a concludente da Escola Superior de Guerra, em 2014, Isabel Aragão. (texto disponível na internet em PDF).

Neste blog compartilhei algumas publicações:

https://catadordepapeis.blogspot.com/2015/06/ribeiro-junior-1887-1938.html

https://catadordepapeis.blogspot.com/2018/12/praca-ribeiro-junior.html

De qualquer modo, é momento de organizar a celebração deste centenário.


sábado, julho 23, 2022

POEMA CINQUENTENÁRIO, QUASE ANÔNIMO

O poema que compõe esta postagem foi compartilhado de O Jornal, edição de 27 de janeiro de 1963, por dois motivos: a assinatura autoral me leva a crer que se trata de um graduado da Polícia Militar do Amazonas, sem que possa comprovar. Somente levado pela memória. O segundo motivo: a natureza amazônica como tema foi escrito em Camará (sic), que segundo anotações da internet pode se tratar de um igarapé afluente do rio Negro, nas proximidades de Manaus.

Qualquer que seja a identificação do autor e o local de inspiração deste cinquentenário poema, acredito que agradará aos amantes desta arte.

 


O fanal sidéreo apaga-se na lonjura

E o poeta assiste recolher-se a natura.

Enquanto o seu peito de melancolia extravasa,

Traz o sopro das vespertinas aragens,

O aroma dos prazeres de outras paragens,

E o forasteiro sente saudade de casa. 

A tarde em harmonia expira calmamente,

Na vastidão do céu iluminado vagamente,

Já não passa mais uma andorinha;

O mundo parece que vai se trancando

E as lembranças uma por uma vêm chegando

Com a noite sombria que se avizinha. 

Os passarinhos já não gorjeiam mais,

Cantam as aves agoureiras e noturnais,

Enchendo de pavor a solidão imensurável;

As brumas misteriosas da noite escura,

Chocam-se e confundem-se com a verdura

Da selva imensamente impenetrável. 

E ante o aspecto taciturno da floresta densa,

Que cobre da gleba extensão imensa,

Por onde o rio desliza, espuma e serpenteia,

Nesta hora infinita da nostalgia

Em que ele tem de aspiração a alma cheia. 

 

Foto de Gunter Engel

 Ó bendita solidão, templo da reminiscência,

Onde a saudade ante às ruinas da ausência

Vem ajoelhar-se grave e compassivamente;

Enquanto o poeta levanta-se para saudar

A primeira estrela diamantina que brilha

Na tristeza firmamental do sol poente. 

Onde o pensamento para o pretérito (...)

E o coração hipersensibilizado,

Pelo silêncio nostálgico da soledade;

Sentimos perto alguém que está ausente,

E parece-nos estarmos frente a frente

Com os nossos velhos sonhos de felicidade.  

Foto de Gunter Engel

Tudo é vazio e desolado nesta solidão,

Onde o homem ensimesmado na contemplação

Do Amazonas apoteótico e majestoso,

Logo se vê cercado por duas grandezas

Distante dos encantos de todas as belezas;

A mata virgem — o Rio Mar tredo e caudaloso. 

Camará, 12 de agosto de 1962


segunda-feira, julho 18, 2022

MORTE DA MATRIARCA (1952)

 São 70 anos sem ela, aconteceu nessa data o falecimento de nossa Mãe (minha e dos manos Antonio e Renato). Durante anos acreditei e honrei o dia 17, até que o Renato com seu espírito vibrante me convenceu de que fora a 18. Apenas um detalhe, passado tantas décadas, sem importância. Dona Francisca, para o registro civil, a dona Chicuta para os familiares, segue presente. Juro! 

Renato, como realiza anualmente, produziu uma página de recordações, nesta ele abraça o nosso Pai, Manuel Mendonça. E conta algumas desventuras causadas pela partida de Dona Chicuta.



A REVELAÇÃO

28.04.2021

 Renato Mendonça

Após um ano que nasceu, a mãe morreu-lhe, e o deixou órfão com mais dois irmãozinhos. O pai não quis se casar. Ainda jovem, aos 36, deviam ter-lhe aparecido bons partidos, mas não quis compromisso. Ou não soube se casar. Essa é uma dúvida que ficou sem ser revelada. O certo é que não lhe faltaram relacionamentos, como jovem que era; é provável que muitos. E num desses, gerou dois filhos: um menino, Raimundo — muito parecido com o pai —, e uma menina, Sonia, num espaço de dois anos. A jovem Lindalva, muito jovem ainda, não se aceitava como esposa, apenas mãe.

Não há nenhuma crítica a esse tipo de comportamento, são desígnios da vida. O homem é intrinsicamente humano, um ser imperfeito, que mesmo compenetrado da sua doutrina religiosa, é movido também por seu instinto masculino a lhe cobrar a satisfação fisiológica, vicissitudes da vida. O certo é que ele cuidou de todos, à sua maneira, e dedicou-lhes atenção como um verdadeiro pai, quando lhe cabe uma missão acompanhada de uma responsabilidade dupla.

Ele só conseguiu aprender a se casar sete anos depois — veja bem, assim como o bíblico Jacó, que teve que esperar esse mesmo tempo para casar-se com Raquel. Talvez seja um presságio religioso fundamentado na mística do número sete, relatado inúmeras vezes no Antigo e Novo Testamento.

    Quando deu por si, o garoto, que ficou órfão com um ano, pedia a Deus que o fizesse sonhar com sua mãe para ouvir a sua voz. Queria uma revelação dos últimos momentos dela aqui na terra, como se ele tivesse adquirido a aptidão mediúnica, ou alguém que tivesse a capacidade de ver uma bola de cristal nos sonhos.

    Porém o momento sempre lhe foi negado pelo Criador, por uma razão óbvia: há situações em que é melhor ficar na imaginação, pois a sofreguidão é cruel. Contudo ele queria demais, queria obter os pensamentos dela na situação de dor, porque o pai sempre se recusou a lhe contar. E por que será? Será que ele teve esse momento diante dos olhos? Provavelmente a doença, altamente contagiosa, a afastava de todos; talvez por isso o pai não pôde testemunhar o momento fatal. E seu trabalho, longe de casa, também o impedia de ficar ao seu lado. Será?!

        Por tudo isso, havia esse conflito de hipóteses na mente do garoto carente dessas revelações. Mas intuiu, com ajuda divina, que a mãe, na sua solidão, afastada da família, vivendo sua dor do corpo e na alma, deitada na sua cama — ou na rede, como costumavam descansar os amazonenses — renovou o seu pedido aos céus: para que Nosso Senhor Jesus Cristo, na sua santa benevolência olhasse pelos três filhos pequenos, com idade variando entre um e seis anos; que o jovem Manoel soubesse achar, dentro da sua responsabilidade e retidão, forças para cuidar dos três pequenos sem ter que doar algum. E mais, suplicou a Deus que todos fossem irmãos verdadeiros; que se ajudassem entre si, e tivessem uma convivência harmoniosa em seus corações. Que nenhum rancor ou ruído externo pudesse atrapalhar o amor fraternal. Que seus caminhos, embora diferentes, tivessem sempre a Luz Maior a alumiar todos os seus passos. E ainda se lembrou de pedir saúde, muita saúde e muitos anos de vida ao pai.

        Ela foi ouvida, o pai viveu até quase 99 anos, a tempo de tomar coragem e contar a desventura que se abateu sobre a mãe. O garoto ficou incrédulo quando ouviu o pai lhe contar, emocionado e com a voz embargada, que não era exatamente a tuberculose que a consumiu, mas a tão atroz doença infecciosa e ainda hoje temida...

        Agora, que o garoto Renato se encaminha para os setenta anos, sente na alma que a mãe Francisca o quer afagar como antes da doença, para lhe ajudar a extrair do seu íntimo uma intuição pouco comum: a revelação estava no próprio signo em que ele nasceu: signo de Câncer, primeiro decanato.

    Mesmo vivendo à sombra de suas inquietações, não se importou quando a vida teimosamente lhe impunha tantos desafios; para ele eram apenas degraus de uma longa escadaria para se chegar ao topo, ao equilíbrio espiritual, à paz de Deus. Na sua mais salutar inquietação, a partir de então, quis resgatar o conteúdo da história de sua mãe, a simplicidade humana, incluindo seus ancestrais.

 Seja por uma necessidade metafísica, seja pelo simples desejo de experimentar de novo as suas mãos santas, o garoto escreverá um livro para venerá-la; aproveitar-se-á dessa oportunidade de manifestação de mais um ato de amor, para ajudar a nos convencer que a vida absolve as derrotas.

Renato e o pai Manuel, em Barra Mansa/RJ