CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, novembro 10, 2020

SERVIÇO DE SAÚDE DA PMAM (2)

 Antes de prosseguir na retrospectiva deste Serviço, quando tratarei de identificar os pouquíssimos dentistas ali empregados, vou acrescentar duas observações atinentes a estrutura deste ofício na corporação: 1) a construção de uma enfermaria e 2) a presença de oficiais médicos das Força Terrestre apoiando a JMS (Junta Militar de Saúde), sempre em caráter temporário.


Quadro do Serviço de Saúde, em 1948, 
conforme Almanaque da PMAM

Notando que, quando da 2ª Guerra, o Governo Federal desprendeu forte ajuda ao Estado, em troca do esforço de guerra na extração da borracha. Entre esses benefícios, foi instalado o SESP (relativo à saúde pública) em vários municípios.

Nesse contexto, no biênio 1942-43, o aquartelamento da Praça da Polícia ganhou uma enfermaria, que foi construída no andar superior, em prolongamento à edificação postada pela rua José Paranaguá. Ainda a alcancei quando de meu ingresso nesta corporação em 1966, e ela foi utilizada até a instalação do Hospital da Polícia Militar, em 1984.

Como era praxe, no livro competente de assentamentos o médico escrevia seu posto e nome, a Força a que pertencia e, ao final, o endereço que, alguns oficiais, incluíam o telefone. Com esses detalhes, listei os seguintes clínicos:

1)   1º tenente Flavio Silva Martins – 27 BC – dispensado em 12|05|1944;

2)   2º tenente R/2 Salomão (ilegível) Levy –– em 14|05|1944 e dispensado em 20|07| – rua Dr. Moreira, 190 – fone 1049;

3)   1º tenente Hyssarro Ferreira – em 01|08|1944 - rua Lauro Cavalcante, 237 – fone 1285;

4)   2º tenente Jesuíno de Souza Lins – em 09|06|1945;

5)   2º tenente R/2 Cristovam Paulo Martins – da 1ª/4º Batalhão de Fronteira - em 24|10|1945.

Finda a Guerra, findou também o subsídio de militares federais a JMS, assim obrigou ao Governo Estadual a recorrer a médicos da cidade. O primeiro a ser convocado, ainda que provisório, em 20 de junho de 1947, foi o doutor Antonio Hosanah da Silva Filho, residente a rua Lima Bacuri, 161, próximo, portanto, ao quartel da Polícia Militar. Este médico foi efetivado na corporação três anos depois.

Na postagem seguinte, cuidarei dos odontólogos, começando pelo pioneiro Francisco Menezes, formado pela Faculdade de Odontologia de Manaus.

domingo, novembro 08, 2020

HISTÓRIA DA PMAM: SERVIÇO DE SAÚDE

 Desativada em novembro de 1930, a Polícia Militar do Amazonas levou mais de 5 anos “fora do ar”, melhor dizendo, impedida de executar sua missão. Ao retornar, em abril de 1936, parecia mais acertada. Reagrupados seus elementos, a corporação foi paulatinamente se recompondo. Diversas novas providências foram incorporadas à instituição. Trato hoje do Serviço de Saúde.

Antes da desativação, o atendimento sanitário era realizado por médico do Estado, que atendia aos policiais passando pela caserna. Os casos mais graves eram encaminhados aos hospitais da cidade, com mais frequência à Santa Casa de Misericórdia.


Quando da reativação, porém, foi criado o Serviço de Saúde (SS), cujo primeiro dirigente foi o médico Walmik Ramayana Paula e Souza de Chevalier (foto), mais bem identificado por Ramayana de Chevalier, com o posto de capitão. Este médico, nasceu na residência da família situada no cruzamento das ruas Quintino Bocaiuva com Dr. Moreira. A família o enviou a Salvador, onde Chevalier frequentou a Faculdade de Medicina da Bahia, concluída em 1933. Ao tempo, Getúlio Vargas havia tomado o poder executivo do país.

Somente em 1943, temos notícia da inclusão de alguns médicos, não obstante uns terem se mantido em reduzida permanência no serviço. Em 13 de fevereiro, foi incorporado o Dr. Stelio José dos Santos Lobato, no posto de 1º tenente; um mês depois, em 14 de março, foi a vez do médico Djalma da Cunha Batista (graduado na Faculdade de Medicina da Bahia), na condição de capitão, mas que se manteve no SS somente seis meses.

Em setembro daquele ano, chegaram dois médicos: em 13, o Dr. Danilo de Aguiar Correa, graduado na Medicina do Pará, na condição de 1º tenente. Ingressou na política e foi deputado estadual até sua morte em acidente aéreo no interior do Amazonas. A 17, foi admitido o Dr. Alfredo Correa Lima, amazonense graduado pela Faculdade de Medicina do Rio. Logo, porém, restou este médico para atender aos policiais, pois os demais haviam desistido do emprego, inclusive Chevalier, que se mudara para o Rio e trabalhava na imprensa local, com elevado reconhecimento.

Somente em 2 de fevereiro de 1950, no entanto, é que a Polícia Militar acolheu novo médico. Acolheu o Dr. Antonio Hosannah da Silva Filho, também oriundo da Medicina da Bahia. Incluido com o posto de 1º tenente e alcançando o coronelato, empenhou-se no Serviço, deixando forte lembrança entre seus pacientes policiais; atendia ainda à Polícia Civil, no Instituto Médico Legal, que hoje leva seu nome.

Na próxima postagem, vou relembrar os raros Dentistas do período e os Médicos que vieram a partir da década de 1960.


domingo, novembro 01, 2020

CINEMA DE L. RUAS


 Esta postagem tem o objetivo de recordar o autor de Aparição do Clown, morto em 2000, e que ontem completaria 90 anos. Compartilho a publicação do matutino Diário do Amazonas (8 agosto 2010), cujo texto pertence ao jornalista Sávio Stoco.

 L. Ruas ganha livro

PRODUÇÃO DE UM DOS FUNDADORES DO CLUBE DA MADRUGADA 

ESTÁ EM CINEMA E CRÍTICA LITERÁRIA DE L. RUAS.

Filósofo, poeta, cronista, professor universitário, radialista, ator teatral e
padre. Tudo isso foi Luiz Ruas (1931-2000), um dos principais fundadores do Clube da Madrugada, movimento cultural amazonense responsável pela difusão das artes modernas no Amazonas.
Em julho, L. Ruas – como costumava assinar suas obras - ganhou um livro resgatando parte da sua produção, a coletânea Cinema e Crítica Literária de L. Ruas, organizada por Roberto Mendonça (Edua, 168 páginas, R$ 20), com textos publicados nas décadas de 1960 e 1970 nos jornais da cidade.

Capa do livro divulgada pelo 
matutino

O Clube da Madrugada contribuiu para que L. Ruas valorizasse o cinema como arte e se dedicasse nos textos, segundo o sociólogo Renan Freitas Pinto, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Ele teve um papel de destaque em Manaus. Foi uma das vozes mais ativas no movimento Madrugada. Difundia as artes modernas, inclusive o cinema e o teatro. O interesse pelo cinema, essa arte do século 20, contemporânea por excelência, revela aspectos da modernidade do movimento. Nem todos os próprios integrantes do movimento tinham essa visão. Foi um dos que primeiro escreveu trabalhos críticos sobre cinema com visão filosófica”, lembra Pinto, que conheceu o escritor nos cineclubes da cidade.
Um “cabocão muito inteligente”. É como o escritor Márcio Souza, que também o conheceu nos cineclubes, se refere ao padre, com bom humor. “Era bom poeta, ator que causou escândalo em Manaus quando produziu o Auto da Compadecida (de Ariano Suassuna) com o Teatro Escola e coordenava o suplemento literário do Clube da Madrugada”.

Sobre a atividade dedicada ao cinema, Renan disse que não era um dos nomes mais assíduos, mas que sua produção tem importância. “Ele tinha uma visão cristã de cinema, mas o livro reflete bem a visão da época, como as pessoas percebiam o cinema, como a imprensa publicava. Hoje crítico de cinema é coisa de Ibama, animal em extinção. A crítica literária, então já não tem mais volta nos grandes jornais", observou.

Entre os filmes e livros criticados e incluídos no livro, a diversidade se sobressai. De Rashomon (1950), do japonês Akira Kurossawa, ao religioso espanhol Marcelino Pão e Vinho (1955), de Ladislao Vajdao, passando pelo brasileiro A Primeira Missa (1961), de Lima Barreto, e o western norte-americano Rastros de Ódio (1956), de John Ford. Entre as críticas literárias, análises de obras dos amazonenses Luiz Bacellar, Jorge Tufic, a literatura infantil de Monteiro Lobato, o francês Arthur Rimbaud e autores revelações internacionais da época.

A pesquisa de Roberto Mendonça, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Amazonas (IGHA), iniciou em 2004, quando L. Ruas completou, morto, 50 anos que se tornou padre. Outros três volumes estão previstos para lançamento, segundo o organizador. A Poesia do Padre L. Ruas, que sairá pela editora Travessia, e outros dois volumes com os textos em prosa do autor, como crônicas e ensaios.
A obra literária de L. Ruas mais importante é o livro de poesia Aparição do Clown, de 1958. Por sua qualidade, o trabalho mereceu estudos de Rogel Samuel, professor de Letras aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (disponível no blog historiadosamantes.blogspot.com) e de Russell S. King, da University of Nottingham.

sexta-feira, outubro 30, 2020

DESATIVAÇÃO DA PMAM - 90 ANOS

Parece não ter ocorrido qualquer manifestação sobre os 90 anos da posse de Getúlio Vargas no governo do Brasil. Quem sabe por que a rebelião por ele conduzida submeteu o país à ditadura. Seu governo estendeu-se até 1945, ao final da Segunda Guerra. Mudanças foram impostas, duas das quais interessam a essa postagem: 1) a posse do interventor federal e 2) a desativação da Polícia Militar do Amazonas, ambos acontecimentos registrados em novembro de 1930.


Quartel da Força Policial, ao tempo de sua desativação

Na tomada do governo federal, em outubro, a repercussão acertou o país, em Manaus uma Junta Governativa sucedeu ao governador Dorval Porto. Adiante, assumiu o governo o tenente EB Floriano Machado, que preferia utilizar o posto mais elevado (tenente-coronel) exercido na Polícia Militar.

Outro entrevero aconteceu no quartel da Praça da Polícia. Seu comandante era o amazonense Joaquim Vidal Pessoa, capitão do Exército, que retornara para Manaus com o interventor Alfredo Sá, em 1924. Em 1º de novembro, todavia, foi substituído pelo tenente-coronel PM Sergio Rodrigues Pessoa Filho, em cujo comando permaneceu até o dia 29 seguinte, quando a corporação foi desativada. Tratava-se de resquícios da disputa entre oficiais do Exército e da PM, que rolava desde a Rebelião de Ribeiro Júnior (julho de 1924).

O segundo fato: a desativação da Força Policial do Amazonas que ocorreu por força do Ato (nova designação para o decreto) 52, de 29 de novembro. Coube ao interventor Álvaro Maia, que fora em 1917 o primeiro Juiz Auditor, com a patente de capitão, decidir sob frágil justificativa (escassez de recursos) extinguir a corporação, pondo na rua centenas de profissionais.

A decisão atingiu também ao Corpo de Bombeiros, então estava subordinado à Força Estadual e ocupando o quartel da Praça. Como a cidade não podia permanecer sem o serviço de combate a incêndios e afins, logo a interventoria corrigiu o desastre. Para tanto, baixou o Ato Interventivo 99, de 16 de dezembro, reativando esse serviço e mantendo no comando dos Bombeiros o capitão Arthur Martins da Silva.

Como decorrência, o Estado ficou sem policiamento ostensivo e os Bombeiros herdaram o imenso quartel. E ali se mantiveram até que o governo decidiu ocupar o prédio com escolas públicas. Nele funcionou o Grupo Escolar Barão do Rio Branco (hoje instalado na avenida Joaquim Nabuco) e a Escola Normal, destinada à formação de normalistas.

A pergunta é óbvia: como se conduziu a capital e as cidades interioranas, sem polícia? Em 1930, Manaus possuía cerca de 60 mil habitantes e, devido a ruína financeira causada pela borracha, a cidade esvaziava-se a cada saída de navio do porto da Manáos Harbour. Devido a essa situação, a capital fartou-se tão-somente com a reformulação da Guarda Civil, uma entidade subordinada à Polícia Civil, afinal não havia a reivindicação de força policial para os pequenos quebra-cabeças do quotidiano.

Zuavo (estátua militar) postada
à frente do quartel, hoje
Palacete Provincial

Quanto ao interior, o problema foi contornado com mais presteza. A condição de oficiais e sargentos de repente desempregados, levou-os a aceitar a chefia de prefeitura e o cargo de delegado de municípios. De certo, ambos levavam consigo praças (subordinados) igualmente desemparados. Essa situação, quanto aos delegados, intensificou uma prática que se estendeu por cerca de oito décadas. Isso mesmo, a PM predominou no interior nas delegacias até a década passada.

Como citado, os Bombeiros foram deslocados daquele imenso quartel para a um arremedo de quartel na avenida Sete de Setembro, o mesmo que se encontra em “estado terminal”. Aguarda a próxima chuvarada para melhor desabar. Será que os Homens do Fogo serão chamados, será tremenda ironia.

Em 1936, a Força Estadual voltou a operar, propiciando um esplendoroso festejo quando de sua abertura. Foi uma conquista e tanto para os desesperançados policiais. Este capítulo constitui a postagem de amanhã.