CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, novembro 16, 2018

PARÓQUIA SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Fachada da igreja 

A postagem foi compartilhada da revista Arquidiocese, edição de julho passado, cujo texto pertence ao Érico Pena e a foto ao Epifanio Leão. Frequento este templo localizado a Rua Ferreira Pena, desde o paroquiato do Padre Luiz Gonzaga de Souza, de quem fui contemporâneo no Seminário São José (1956-65). Por isso, tomei a liberdade de corrigir a presença do padre Mauro Cleto na paróquia de Santa Luzia.
Estive envolvido ainda com a atuação do padre Luiz Augusto de Lima RUAS, devido a uma publicação biográfica sobre o mesmo. 

A quem interessar, o periódico informa o horário das Missas: Domingo – 8h e 18h / Sábado – 18h / Terça e Sexta – 19h.

Recorte do mensário Arquidiocese

Localizada no Centro Histórico da Arquidiocese de Manaus, a paróquia Sagrado Coração de Jesus é sem dúvida uma das mais conhecidas e, a festa do padroeiro é uma das mais tradicionais da Arquidiocese de Manaus, que acontece na sexta-feira da semana seguinte à Festa de Corpus Christi, reunindo fiéis dos quatro cantos da cidade que participam da famosa procissão, sempre realizada às 5h30 da manhã, seguida da Santa Missa.

A paróquia foi inaugurada solenemente em 25 de junho de 1954, ainda como capela pertencente a Catedral Nossa Senhora da Conceição. Em 1° de maio de 1970, o padre Luiz Gonzaga de Sousa, mais conhecido como Pe. Sousa, é ordenado sacerdote e nomeado para assumir a comunidade. Em 1972, os comunitários realizam uma campanha para reformar a capela e, em 3 de maio de 1980, tornou-se paróquia.

Em 1983, Pe. Luiz Augusto de Lima Ruas tomou posse como novo pároco, trazendo em sua bagagem um grande conhecimento litúrgico, teológico e eclesial. Em 1987, Pe. Tiago Souza Braz foi empossado pároco, permanecendo por nove anos, incentivando a criação das pastorais, formação de ministros da Palavra e Eucaristia, reativação do Conselho Paroquial e reformulação do arraial do padroeiro.
Também estiveram à frente Pe. Caetano Borges Secundino (1996 a 2000); Pe. Mauro Cleto (2000 a 2004), exercendo paralelamente o cargo de Secretário-Geral da Arquidiocese e pároco de Santa Luzia [possivelmente a de São Lázaro]; Pe. Raimundo Carlos Góes (2004). Depois retornou Pe. Sousa, que ficou até 2017, quando assumiu o Pe. Francisco Carlos Batista de Souza (Pe. Chicão).
Atualmente tem por pároco o Pe. Marcos Aurélio Veras.
SOBRE O PÁROCO
Marcos Aurélio da Frota Veras é um padre diocesano, formado pelo Seminário São José (atualmente é o ecônomo) sendo ordenado no dia 14 de junho de 2015. “O meu chamado se deu no percurso da minha caminhada no seio da Igreja, onde eu descobri que meu lugar é servindo as pessoas por meio do ministério ordenado", disse o pároco. Antes de assumir como pároco do Sagrado Coração, Pe. Marcos foi vigário paroquial na Paróquia São Pedro Apóstolo, em Manaquiri; na Área Missionária Santa Helena, bairro Novo Israel; e na Área Missionária Nossa Senhora dos Navegantes, bairro Mauazinho.
"Ser pároco é viver uma experiência familiar, é viver em união com os comunitários. É viver como família e ser unidos como irmãos", comentou Pe. Marcos, sobre a experiência de ser pároco pela primeira vez.

quarta-feira, novembro 14, 2018

JOSÉ GOMES NOGUEIRA


Ontem, o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), antiga Escola Técnica Federal, concluiu o 5º MIEX (Mostra Interdisciplinar de Extensão) 2018, comemorando o primeiro decênio deste Instituto, movimento que aconteceu entre 22 de outubro a 5 de novembro.


Cartaz comemorativo

Professor Nogueira insistiu comigo para que eu comparecesse à festividade. Lá fui eu, e para meu gáudio e surpresa, meu amigo de longas datas foi o homenageado do Ano. Ele, mais especialmente o bairro de São Raimundo, onde mora, sabe de sua competência e esforço para manter o folclore regional em evidência.

Sua residência serve de museu para a mostra natalina, que se repete ano a ano. Ensaia com os alunos do Marques de Santa Cruz e apoia os grupos católicos, sempre com a preocupação do folclore.

Assim, o Instituto Federal do Amazonas fez justiça e solenizou com brilhantismo a presença do mestre Gomes Nogueira. De minha parte, o alarido provocado pelas centenas de estudantes me emocionou. Vez em quando, retirava os óculos para disfarçadamente recolher algumas lágrimas, que teimavam em se manifestar pelas minhas lembranças escolares.  

Parabéns ao IFAM pela competência com os jovens e pela premiação de meu amigo professor Nogueira, que já foi contemplado neste blog.  

RAMAYANA DE CHEVALIER – CONTO (2)


Esta página literária foi produzida pelo acadêmico Ramayana de Chevalier (1909-72), e divulgada no matutino A Gazeta, em 6 de novembro de 1961. Na ocasião, Chevalier dirigia a Secretaria de Administração do governador Gilberto Mestrinho. Ainda outro conto vou compartilhar do mesmo arquivo.



A vida, para o Sanches, andava monótona. Ninguém conhece direito a natureza humana. Há precipícios insondáveis no fundo do coração. Sujeitos, com aparência de santos, têm mais taras que o Marques de Sade. O Sanches não era rico, mas ganhava bem. Subgerente de uma casa de estivas, tinha direito a uns dividendos razoáveis. Aos domingos, quando solteiro, ia para os balneários distantes, acompanhado com uma pequena, depená-la toda, para sorver-lhe o corpo depois, devagarinho. (...)
O Sanches no fundo, era um patife. Mas um patife bondoso, desses que não mordem, não latem, não promovem a desgraça ostensiva dos outros. Um patife tranquilo. Quando casou, a Lulu adorava o jeitão do Sanches. Dançava colado, murmurava endechas na conchinha das orelhas, apertava-a como se ela fosse desertora, esfregava-se de maneira acintosa. Quando os bailes acabavam, eles corriam para os cantos escuros, e ali ficavam algum tempo, aos grunhidos.
Lulu casou sequiosa. O Sanches encheu-a de fotografias devassas, de gravuras imorais. Tudo o que um boêmio sabe, depois de 30 anos de farras, a Lulu soube em seis meses de matrimônio. A Grécia inteira perdia para o Sanches. Os Doze Césares eram seminaristas junto do subgerente. Havia nele um prazer especial de descobrir, de desvendar os mistérios do sexo para a Lulu. O que é isso, Sanchinho? O que é aquilo, Sanchote? Sanchito, isso é bom? Ah! que experiência formidável a de ontem, Sanchão!

(...) Sanches terminou cansado da Lulu. Variou tanto com ela, fez tantas diabruras, que acabou fatigado, em plena juventude. Quando olhava a Lulu, deitada, seminua, em abandono, um trecho do seio livre, o corpo ajustado em músculos sublimes, o Sanches ficava frio, gelado, indiferente. Já sabia tudo sobre aquele corpo, havia sentido a mulher em mil e um artifícios, em trilhões de caprichos. (...)

Dentro do cérebro do Sanches entrou em erupção um plano diabólico. Primeiro, foi uma ideia, depois um pesadelo, depois uma obsessão. Seria fantástico ver a Lulu espojando-se nos braços de outro homem, realizando tudo aquilo que fizera com ele, bem juntinho, para depois sacia-lo, aos berros. 

Só assim não naufragaria aquele casamento que principiara tão veloz e tão inconsequente. Um dia, falou a ela, timidamente, como se fosse uma coisa passada com outro, seu amigo, o Boião, casado também à mesma época que ele. Disse de como o Boião fazia, de como ia buscar o homem que a esposa queria e, os três juntos, de como saciavam a sua tara maldita. “Não deve ser formidável, Lulu”?, olhava de soslaio para a companheira e ficava triste vendo-a torcer o nariz: “Sujeira, Sanches! Isso é um casal sem vergonha, tarado, horrível. Que coisa!” Ao outro dia, outra tentativa. Dessa vez era com o Schultz, marido de uma alemã que tonteava os anjos. Contava tudo, exagerando as cores. “Vamos fazer igual, Luluzinha? Vai ser do arromba! Você é quem leva a vantagem!”
Refugo da esposa, reinício das operações, refugo, reinício, refugo, reinício. Até que, venceu a curiosidade. Houve o primeiro crime. Num quartinho de uma comadre, o Sanches levou a Lula, e entregou-a para o Artur, que já a esperava ali. E, assistiu tudo. O quarto humilde encheu-se de berros, de calores. Sanches, terminada a cena, avançou sobre a esposa, como um javali. Tinha atingido um grau de excitação animalesco. Revivera! Agora, sim! Nem Calígula teria outra lua de mel como a sua! Todas as semanas, conseguia um desconhecido, para deitar com a Lulu. A experiência aumentou a sua paixão pela esposa e a tornou submissa e cheia de remorsos, agasalhando-se em casa, como uma corça batida, no amplo peito do marido.

“Amanhã, vai ter mais, Lulu! Desta vez é com um português reforçado. Vou fazer tudo pra ele não faltar. Te prepara”. No dia seguinte, o festim de ébrios sexuais, um espetáculo brutal e ao mesmo tempo enlouquecedor. Lulu, que ao princípio entregava-se em silêncio, mole e passiva, já estava uma fúria, devorava o outro, mordia-o, gritava, um inferno! Um dia, Sanches voltava para casa, viu-a fechada, contornou pela cozinha e, ao chegar à alcova semiaberta, encontrou um homem, o Anastácio, crioulo da vizinhança, em conúbio com a Lulu. Quis estrilar, quis dar a bronca, um bolo de excitação subiu-lhe à garganta, esperou o término da festa, em seu próprio leito, e, depois, com uma voz meio ferida, meio descoroçoada, insinuou para a esposa, sob gargalhada do seu Anastácio:
“Mas, Lulu, a combinação era só com os homens que eu arranjasse!...”
 E ouviu, desalentado:
“Vício, meu filho. Você me viciou. Agora está na casa do sem jeito”...

terça-feira, novembro 13, 2018

HOSPITAL DO SERINGUEIRO


Conheci o multiartista Anísio Mello (1927-2010) quase ao final de sua existência, lembrando que o assisti até seu falecimento no primitivo Hospital Getúlio Vargas. Com ele conversei repetidas vezes, tendo a oportunidade de conhecer algumas de suas realizações. E uma relevante aspiração.


Correio do Norte
Residindo na capital de São Paulo, funcionário do Banco da Amazônia, Anísio Mello fundou um pequeno jornal, de circulação quinzenal. Seu título: Correio do Norte, do qual possuo uma coleção, cortesia do fundador.
Desconheço como era feita a circulação, creio que os anúncios pagavam a impressão e, desse modo, era enviado pelo correio para os amazonenses. Sim, havia assinaturas.
Em suas páginas, acompanhei o sonho do casal Anísio e Lindalva Mello de construir o Hospital do Seringueiro, em Eirunepé (AM). Não obstante o esforço do casal, a construção não teve sucesso. E, para entender mais, compartilho a página em que o acadêmico e político Álvaro Maia disserta sobre essa aspiração.


(...) Sob esse aspecto e métodos primitivos, não devem temer os seringueiros as dificuldades de outros tempos, quando se insulavam nas matas, sem medicamentos e sem médicos, recebendo a morte como uma visita natural e amiga.
As leis do trabalhismo atingem, pouco a pouco, os solitários das selvas, então amparados pelas missões religiosas. O seringueiro passou a ser a causa de reivindicações de preços, de melhoramentos, de romantismos econômicos. Não raro, pouco auferia e muito sofria. Desenhou, na tipologia do início deste século, umas linhas de heroísmo, em que se inspiraram até projetistas de monumentos — o monumento do seringueiro, inspirado em um desbravador sadio para dez vencidos pelas endemias.
Existem, entretanto, os que lhe palparam as angústias a graus de termômetros sem descida, ou com uma descida definitiva, pelo colapso da própria vida.
* * *
Anísio Mello, em Eirunepé (AM)
Maria Lindalva de Mello, nascida em seringal de Eirunepé, entre o frio andino e o calor do subsolo, nas vizinhanças do petróleo peruano, viu e sentiu o drama florestal, musicando a sua juventude privilegiada de inquietações e panteísmos. Foi o seringal a sua primeira escola; primeira professora a sua própria Mãe e, nas paxiúbas dos florestários, também professora, ministrou as primeiras aulas, ensinou as preces que lhe ensinaram. Viu, de perto, a desfalecente tristeza das crianças minadas pelas febres e ancilostomoses, o falecimento de mateiros, que penetravam as veredas, e das parturientes, amortalhando-se, paradoxalmente, entre anemia e sangue.
Eirunepé está a 20 dias de viagem de navegação de Manaus e a 4 horas em hidraviões. Município recortado de rios, coalhado de praias nos verões longos, alia uma brava gente, que amanhece e dorme com o trabalho. Mas os aviões e o fascínio das fronteiras abriram perspectivas aos monges dos machadinhos, acostumados a madrugadas entre árvores; visionaram padrões melhores de vida em regiões diferentes. E há necessidade de mantê-los nos postos de luta, proporcionando-lhes melhores e maiores elementos de resistência, numa hora, em que o Nordeste, viveiro de trabalhadores, possui caminhos abertos para outros Estados mais remunerativos.Quando pensou assim, num sonho e ação de gratidão e humanidade, Maria Lindalva não mais estava sozinha: unira-se a um esbanjador de coloridos, Anísio Mello, pintor e poeta, jornalista e conhecedor dos problemas do Amazonas.
Uniram-se em Eirunepé e, um dia, obedientes aos fatalismos das heranças nordestinas, partiram para São Paulo, a pátria generosa de paulistas e brasileiros, sem conservadorismos exclusivistas, com os braços sempre abertos para todos os que trabalham. 
Anísio e Maria Lindalva fundaram também um lar em que vivesse o Amazonas — “Correio do Norte”. A alma dos seringueiros foi cantar nas usinas do sal, no crepe, na borracha, nas madeiras, em vários produtos consumidos em São Paulo, que, verdadeiramente, pelos auxílios prestados aos nossos comerciantes, é um Estado merecedor de confiança e gratidão. 
E agora?
Com aferro às selvas maternas, ao arrojo das pioneiras a jornalista estende os olhos para uma obra admirável — o Hospital do Seringueiro, em Eirunepé, o sanatório tropical às crianças, hoje adultas, que não tiveram assistência regular nem na bora de sua rústica anunciação, nas lindas manhãs de Eirunepé.
Quanto custa, quanto vai custar o hospital? Custar em dinheiro, meses, anos, dada a lenta escalada do material, no “rio mais sinuoso do mundo”, o Juruá de sacados e voltas, acostumado a movimentar terras e águas, a prender barrações em tranquilidade de lagos? Ninguém sabe. Como os templos medievais, que se marmorizaram e cresciam com os séculos, denunciando estilos diversos de arquitetura, o Hospital do Seringueiro funcionará com a primeira sala e o primeiro leito de maternidade.