CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, outubro 14, 2012

VIDA E MORTE DO PENSADOR (2ª Parte)



Busto de Eduardo Ribeiro, no
Museu em sua homenagem
112 anos, nessa data, morria Eduardo Ribeiro, ex-governador do Amazonas (1892-96), aquele que transformou sua capital em metrópole, impulsionado pela exploração da borracha. Sua morte prossegue emblemática. Mistérios ainda envolvem seu desaparecimento. Um deles, o fundamento pelo qual o óbito não foi registrado em cartório. À época, havia apenas o 1º Cartório, inda existente e funcionando à rua Leonardo Malcher próximo a rua Ferreira Pena. Não se diga que o livro ou a página foi extraviado, não. Estão lá no cartório para provar a desídia ou o crime.

Ante esse “descuido”, pode-se conjeturar que inexistiu autopsia; as informações conhecidas sobre a causa mortis foram fornecidas pelos médicos que visitaram o morto. Portanto, inspecionaram o cadáver externamente, sem a devida necropsia. Outro mistério: houve ou não a apuração do suicídio? Acredito pela inexistência da medida, pois nenhum historiador contemporâneo faz referencia a essa medida policial. Resumo da opera, o extraordinário político foi enterrado com pompas, mas, pior que indigente, fora do alcance da lei.

Sua lembrança, todavia, segue perene na Manaus empobrecia de nossos dias. Para continuar lembrando a data, reproduzo a segunda parte de texto divulgado à véspera do cinquentenário da morte do Pensador. 

*  *  *
                                                                                             Júlio Uchôa (*)

Vamos reproduzir, em síntese, o noticiário de um dos jornais de Manaus, de 14 de outubro de 1900. Poderá, assim, o leitor fazer um juízo sobre o trágico acontecimento. Eduardo Ribeiro residia na antiga Chácara Pensador, em companhia do doutor Menélio Pinto, diretor da Secretaria do Congresso.

Profundamente abalado de suas faculdades mentais, à época do suicídio, Eduardo Ribeiro se encontrava sob rigorosa vigilância. Meses antes, estivera no Ceará e na Europa a tratamento de saúde. Em Gênova (Itália) uma junta médica composta dos professores Ludovici, Maragliano e Taburini o examinara detidamente, concluindo que o seu restabelecimento se processaria pouco a pouco. Do Velho Mundo, retornou o enfermo a Manaus, a 5 de setembro de 1900.

Permaneciam junto ao Pensador, o doutor Menélio Pinto, o alferes da Força Pública João Emídio Ferreira da Silva, o furriel Severino Augusto de Souza e as praças da mesma corporação Manuel Laranjeira, João Evangelista e José Santos. Era um grupo bem numeroso de vigilantes, capaz de velar pela segurança do doente e evitar quaisquer desatinos, que porventura, ele cometesse, no estado de insânia em que se encontrava.
Continuemos, porém. Um jornal do dia, registrando os últimos momentos do Pensador, escreve:

Passara a noite de sábado para domingo agitadíssimo, pedindo isto e aquilo, em grande estado nervoso. Pela madrugada de ontem (13) o doutor Eduardo Ribeiro tirando as correntes da rede, sacode-as, jogando umas nas outras. Tiradas estas por um dos enfermeiros, ele pediu um pouco de leite... E enquanto seu guarda saía do quarto para pedir o líquido, o grande homem, só, isolado por minutos, pôs termo a sua utilíssima existência. 

Momentos depois, quando o tenente Emídio da Silva entrou no aposento, o Pensador estava morto. Suicidara-se no seu próprio quarto de dormir, uma sala junto à varanda, com janelas para o quintal e pátio. Tinha enlaçado ao pescoço uma corda de mosquiteiro – uma corda de cor verde – que pendia ao armador.

Recorte de O Jornal, de 14 outubro 1948
Eduardo Ribeiro jazia com a cabeça para o lado direito, sentado no soalho, a cabeça e tronco apoiados na parede, pernas estendidas ao comprido e os pés ligeiramente cruzados. Vestia camisão de dormir, de linho branco e meias pretas com listras brancas.

Às 8 horas e meia chegavam à Chácara, os médicos Carlos Grey, assistente do Pensador, Clementino Ramos, Alfredo Araújo e Miranda Leão, que fizeram os respectivos exames.  O corpo estava na posição em que fora encontrado às 5 horas e 45 minutos.

Do laudo subscrito pelos médicos que fizeram o levantamento cadavérico, consta o seguinte: a cabeça presa por uma corda de linho fixada na parte superior de um armador de rede; a corda estava passada em volta do pescoço e atada por um nó corrediço; o restante da corda passava por uma roldana, das destinadas a suspender o mosquiteiro, fixada no centro do teto do quarto; a cabeça do cadáver achava-se reclinada sobre a espádua direita. A boca entreaberta deixava ver a extremidade da língua presa entre as arcadas dentárias; os olhos cerrados e a face vultosa e congesta. O braço direito, em meia flexão, repousava sobre o terço superior da coxa do mesmo lado; o braço esquerdo pendendo sobre o soalho, repousando sobre a face dorsal da mão, que se achava em supinação. Pelo hábito externo não notaram equimoses ou outros sinais de violência que denunciassem luta ou haver-se ele debatido na ocasião da morte. A posição do cadáver, disseram os médicos, era naturalíssima.

Como se vê, da posição em que se achava o cadáver e do laudo médico, o suicídio do eminente homem público, toca as raias do absurdo: sentado no soalho, com uma corda de mosquiteiro enlaçada ao pescoço; jamais lemos o caso de suicídio tão original.

Outro ponto, aliás, o mais grave, a nosso ver, e que parece implicar verdadeira conivência na morte do Pensador por parte dos que o cercavam. O alferes Emídio, como vimos, ao entrar no quarto do doente deparou com o doloroso quadro já descrito, às 5 horas e 45 minutos. Pois bem, às 8 horas e meia o corpo estava na mesma posição, ou seja, quase 3 horas depois; possivelmente àquela hora, Eduardo Ribeiro vivia ainda; ou, que já estava morto, quando prepararam o macabro espetáculo do suicídio simulado, pode-se, também, concluir. Para esse ponto, tão controvertido, poderia trazer alguma luz, na primeira hipótese, o laudo médico que dá a morte como tendo ocorrido, às 6 horas e 15 minutos, após o achado fúnebre, embora se afirme, no referido documento, que o trespasse se verificou  “em virtude de asfixia por estrangulamento”.

Era um caso para apurar, na ocasião, abrindo-se o competente inquérito pelo poder público. Os depoimentos do doutor Menélio Pinto e do tenente Emídio da Silva trariam, certamente, os esclarecimentos necessários. Seria, aliás, de interesse do próprio governo de então, sobre o qual pesam, ainda hoje, após volvidos quarenta e nove anos, as mais graves acusações.

Vejamos o que dizem os historiadores regionais. Artur Cezar Ferreira Reis escreve, em “Historia do Amazonas” que a morte de Eduardo Ribeiro ocorreu “em circunstâncias um tanto misteriosas”; Mário Ypiranga faz alusão à versão corrente da existência de “umas ervas trazidas especialmente de Santarém” para envenenar o Pensador.

Muitas outras versões correm por ai, a respeito da horrível trama que eliminou o saudoso maranhense, sem nenhuma comiseração à insanidade que lhe combalira o organismo, provocada esta possivelmente, pelo veneno que lhe fora inoculado, mesmo porque, os politicoides sem entranhas, temiam o seu restabelecimento, como predissera o professor Ludovici, eminente psiquiatra italiano.

Há, assim,  a notícia do desaparecimento misterioso daquele médico residente em Manaus, o qual, depois de examinar detidamente, o cadáver, declarara, em altas vozes, não concordar absolutamente com o parecer dos seus colegas que subscreveram o atestado de óbito de Eduardo Ribeiro, visto tratar-se, diante da evidência dos sinais que constatara, não de um suicídio, como se fizera capciosamente, acreditar, mas de um bárbaro crime, frio e premeditadamente cometido.

Referiu-nos esse fato, para nós desconhecido, o digno amigo e colega Antônio de Castro Carneiro que o ouvira de seu genitor, quando certa vez, viera à baila a morte do inolvidável homem público. É, assim, mais uma versão sobre o doloroso acontecimento. (veja a Parte final)

(*) O Jornal, de 16 de outubro de 1949.

sábado, outubro 13, 2012

VIDA E MORTE DO "PENSADOR" (1ª Parte)

Júlio Uchôa (*)

Detalhe do painel existente na
Casa Museu Eduardo Ribeiro
A 14 de outubro de 1900 morria, nesta capital, o grande maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, ex-governador do Estado, chefe do Partido Republicano Federal e presidente do Congresso Legislativo.
Naquele dia, na antiga Chácara Pensador, à estrada de Flores, extinguia-se uma vida preciosa. Perdia Manaus o seu benemérito construtor. O Amazonas, compungido pela perda irreparável, ajoelhava-se contrito, ante o corpo inanimado do seu maior administrador. Era o último capítulo de um drama ignominioso que se representava ali, às primeiras horas da manhã. Vários dos personagens, que nele tomaram parte, se ocultaram por trás dos bastidores, para que a História não lhes registrasse os nomes, certos de que os mortos não tornam da grande viagem para apontar os seus algozes à vindita dos porvindouros.
Eduardo Gonçalves Ribeiro nasceu na capital da antiga província do Maranhão, a 18 de outubro de 1862. Chamavam-no “Pensador”, apelido que lhe ficou de um jornal que fundou e dirigiu em sua terra natal do qual foram cintilantes colaboradores Pedro Freire e Manoel Bittencourt.
Filho de pais paupérrimos sem recursos, portanto, para ensaiar os primeiros passos na carreira das letras para a qual revelou, desde cedo, acentuada predileção, conseguiu, todavia, feitos os seus estudos primários, matricular-se no Liceu Maranhense, em 20 de janeiro de 1879 onde encetou e concluiu com invejável distinção, o curso de humanidades.
Deixando sua província natal, tomou passagem, a 24 de janeiro de 1881, para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Escola Militar, a 24 de fevereiro do mesmo ano, data em que verificou praça no corpo de alunos. Ali, a custa exclusivamente de seus esforços e talento, terminou com brilhantismo o curso que lhe deu direito, a 2 de janeiro de 1884, à promoção ao posto de alferes-aluno; a 4 de janeiro de 1884, galga o posto de 2º tenente de Artilharia; a 18 de janeiro do ano seguinte, concluía os seus estudos, recebendo o grau de bacharel em ciências físicas e matemáticas.
Classificado no 3º Batalhão de Artilharia a pé, sediado nesta cidade, vinha recolher-se a esse corpo, quando, ao passar por Belém foi mandado adir, naquela capital, ao 4º Batalhão da mesma arma. Discípulo do imortal Benjamin Constant, Eduardo Ribeiro jamais ocultou os seus pendores pelas ideias republicanas, do que resultou a sua transferência, por medida disciplinar, a 13 de agosto de 1887, para o Amazonas. Foi ajudante, secretário e professor da Escola Regimental do 3º Batalhão.
Achava-se em Manaus, o jovem militar ao tempo em que o marechal Deodoro da Fonseca, dirigindo a ação revolucionária de 15 de novembro de 1889, proclamou a República.
Organizando-se, na capital amazonense, um clube militar, a 4 de dezembro de 1889, presidido pelo tenente-coronel Antônio Florêncio Pereira do   Lago, então membro da Junta Governativa Republicana, foi Eduardo Ribeiro convidado para o cargo de 2º secretário  do referido clube, prestando, nessa ocasião, ao governo importantíssimos  serviços; oficial de gabinete do tenente de engenheiros Augusto Ximeno de Villeroy, quando este oficial assumiu a chefia do novo Estado Federal, a 4 de janeiro de 1890.
Assinatura de Eduardo Ribeiro
A 7 de janeiro de 1890, foi promovido ao posto de tenente do estado maior de 1ª classe e distinguido, a 2 de junho do mesmo ano, com a nomeação de professor da Escola Superior de Guerra. Retirando-se Ximeno de Villeroy da chefia do governo por motivo de gravíssima moléstia na pessoa de sua esposa e, tendo em vista os bons e leiais serviços prestados à sua administração por Eduardo Ribeiro, além de reconhecer o alto grau de moralidade que o habilitava a substituí-lo, indicou o seu nome para esse fim e aprovada a indicação pelo governo central, tomou ele, pela primeira vez, a direção dos negócios públicos, a 2 de novembro de 1890, sendo que, a 6 do referido mês, foi nomeado 2º vice-governador do Estado.
A 4 de janeiro de 1891, foi escolhido pelo Governo Provisório para governador. Divulgada a noticia de sua dispensa desse alto cargo, a 4 de abril daquele ano, reunido em grande massa, secundado pelas forças Federal e estadual, aclamou-o governador, onde permaneceu até 5 de maio, quando transferiu o governo ao Barão do Juruá (Guilherme José Moreira, 1º vice-governador).
A 7 de junho de 1891, Eduardo Ribeiro foi promovido a capitão do estado maior de 1ª classe, seguindo a 27 para a Capital Federal a fim de entrar em exercício do cargo de lente da Escola Superior de Guerra, para o qual havia sido nomeado a 2 de junho de 1890.
Por efeito do movimento revolucionário, de 14 de janeiro de 1892, que destituiu o primeiro governador constitucional, foi Eduardo Ribeiro escolhido para de novo administrar o Amazonas, cujo governo assumiu a 11 de março do mesmo ano.
Eleito governador, ocupou o quadriênio – 1892-1896 – substituindo-o, a 23 de julho, o doutor Fileto Pires Ferreira. Realizou “a maior obra administrativa que o Estado já conheceu”, segundo expressões do brilhante historiador Artur Cezar Ferreira Reis.
Pleiteou a eleição para Senador, obtendo esmagadora vitória. Outro, porém, foi reconhecido pelo Senado da República. Eleito deputado estadual em 1898/1900, foi por duas vezes escolhido presidente do Congresso Legislativo. A convenção do Partido Republicano Federal, de que era presidente desde sua fundação, o escolhera a 1º de outubro de 1900, para pleitear uma das vagas de deputado estadual nas eleições de 15 de novembro. (segue)
(*) O Jornal domingo, 16 de outubro de 1949.

sexta-feira, outubro 12, 2012

Deu no Em Tempo


 
Sabe que o chargista tem razão...
 
Jornal Em Tempo, hoje

Cervejaria Amazonense: centenário


Cervejaria Miranda Corrêa, anos 1940
Inaugurada nessa data, o prédio construído no bairro de Aparecida, de propriedade da família Miranda Corrêa, ainda segue contemplando a cidade. Foi ali no barranco do igarapé de São Raimundo que surgiu o centenário edifício, hoje desativado. Apesar desse impacto, já contemplou algumas marcas da festiva bebida.
Seu fundador foi o engenheiro Luiz Maximino Miranda Corrêa, de família de Santarém (PA). Registra um conterrâneo deste empreendedor, que a Fábrica de Cerveja Paraense trabalhou politicamente para evitar semelhante indústria na Amazônia, que trouxesse competição.
Em 1909, os irmãos Miranda Corrêa, apoiados pelo deputado Raul de Azevedo, conseguem autorização para a implantação “de uma fábrica de cerveja, guaraná e outros refrigerantes, implícita a fabricação de gelo”. No mesmo ano foi lançada a pedra fundamental, à frente o industrial Antonino Corrêa. Morto este, prematuramente, Luiz Maximino assume a direção.
Rótulos de produtos da Cervejaria Amazonense















Prédio da cervejaria (à esq.) ainda existente
no bairro de Aparecida. 
No local, é  fabricada a cerveja Kaiser
As duas guerras mundiais do século passado impõem diversos e duros abalos a essa indústria que, contudo, não a abateram. Funcionou esta, primeiro, com o fornecimento de gelo e de chope. Depois, com os refrigerantes e com a conhecida cerveja XPTO, que os apreciadores, os da terceira idade atual, apelidaram de Maroca. Resistiu às dificuldades costumeiras e ao desastre da borracha e suas consequências. Até que, já em principio da Zona Franca (1967) foi adquirida pelo fabricante da cerveja Astra, de Fortaleza (CE). E segue toda uma história que os jovens sabem em detalhes.
Para comemorar esta data, reproduzo rótulos e fotos deste altaneiro edifício, que segue ressalvando os empecilhos de nossas conquistas.