CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, novembro 08, 2021

CAPUCHINHOS NO AMAZONAS

 Os frades capuchinhos da província de Úmbria (ITA) chegaram a Manaus em 1909, propostos à evangelização do Alto Rio Negro. A pobreza generalizada da região os desencorajou. Aceitaram, no entanto, mudar-se para o Rio Solimões, localizando a Missão à entrada deste portentoso curso d’água no Brasil. A conquista exigiu renúncia, espírito missionário, acarretou a morte de jovens apóstolos, contudo conseguiram se estabelecer. Ainda em nossos dias cabe aos capuchinhos umbros a direção da Igreja católica nos municípios da tríplice fronteira.

Para celebrar esse triunfo, relembrando as fases superadas com ingentes esforços, Mário Tosti (professor de História Moderna na Universidade dos Estudos de Perugia e docente de História da Igreja Moderna e Contemporânea no Instituto Teológico de Assis, Itália) escreveu o livro a Igreja sobre o rio (Manaus: Secretaria de Cultura do Estado, 2012), no qual relata “A missão dos Capuchinhos da Úmbria no Amazonas”. 

Capa do livro

O livro foi escrito a partir de relatos enviados pelos frades missionários, remetidos de Manaus e de outras localidades do rio Solimões. A numerosa correspondência arquivada e examinada se deve à recomendação imposta aos religiosos, em particular aos dirigentes, pela direção-geral da Ordem.

Sua leitura revela um tanto enorme da história do Amazonas, por isso, recolhi alguns parágrafos que julguei oportunos. Outros, se trata de curiosidades. Enfim, espero ter contribuído com a divulgação da “conquista espiritual da Amazônia”. 

Manaus, 8 dicembre 1912. Mais detalhado é o acerto de contas que o mesmo prefeito [religioso superior] faz no seu relatório de 1912, do qual emergem interessantes e curiosas considerações sobre a presença e a atividade dos italianos em Manaus: "em Manaus existe uma colônia italiana muito numerosa, mas que infelizmente não honra a própria bandeira.

Na quase totalidade é composta por meridionais que, emigrando para Manaus com o único objetivo de fazer dinheiro e para obter isso não se interessam pelo decoro civil nem com o sentimento religioso. Quase todos se submetem a fazer os serviços mais abjetos, como de estivadores, garis e engraxates, de modo que em Manaus a palavra italiano é sinônimo de estivador.

Agora, o cônsul italiano, para tentar remediar esta situação, tinha prometido fazer-me possuir gratuitamente uma casa com local apto para um colégio, com a condição que eu estabelecesse neste uma secção especial para os filhos dos italianos. Eu aceitei, e ele ocupou-se realmente da coisa: mas até agora não vi algum resultado".

Frei Jocundo 

Em sua viagem transatlântica rumo ao Brasil, em 1912, frei Jocundo de Soliera repassa uma informação sobre o tratamento dispensado a ele pelos passageiros de 1ª classe e os de 3ª.

Nota 249 "Todos se aproximavam de nós — escreve Fr. Jocundo — e esses maltratando o idioma italiano e nós estragando a língua portuguesa e inglesa, conseguíamos conversar suficientemente". A mesma coisa não podia afirmar dos passageiros de terceira classe, uma centena de portugueses que se dirigia ao Pará e a Manaus, embarcados em Lisboa, barulhentos e incômodos que não hesitavam em gritar, assoviar e pronunciar palavras injuriosas toda vez que no horizonte apareciam os religiosos, foi em vão o protesto de Fr. Jocundo ao capitão que respondeu de modo gentil, mas inconsequente, por isso, a única solução foi "não passar mais daqueles lados".

sábado, novembro 06, 2021

FAMÍLIA PAULA & SOUZA (2)

 A busca pela origem da família Paula e Souza no território amazonense, presente no ostentoso sobrenome do falecido Ramayana de Chevalier, já me trouxe alguns sucessos. Aos poucos vão aparecendo outros familiares, que foram esquecidos pelo apelido familiar. As mais conhecidas expressões literárias da família estão ligadas àquele Chevalier: são dois de seus filhos (Ronald Wallace, o “Roniquito”, e Scarlet Moon) e seu irmão Carlyle.

Scarlet Moon de Chevalier

No entanto, certamente estimulada por esse desafio, venho de receber a produção de uma Paula e Souza, que assina sob pseudônimo. O poema aqui compartilhado foi “dedicado a Ramayana de Chevalier (o grande poeta e boêmio amazônico)”.

 

RIO DAS ILUSÕES

Lizza Moon


Não quero fama. Nem ouro, nem glória,

Somente provar o sabor dessa vida ilusória.

Nem tanto na terra, nem muito nas estrelas.

Com a cabeça divagando, vou consumindo as tristezas.

A mente inquieta e o corpo inerte,

sinto volver em meu corpo um espírito errante.

 

Rio, rio das ilusões, como não te amar ao saber das solidões?

Navegando sobre ti e das almas que engolistes...

Como não falar em meus versos das saudações?

 

Rio, rio Solimões,

Por quem aqui passar, um Adeus,

um Olá até a outra Margem do Rio!

Volta! Volta cabocla bonita!

Teus pensamentos vão longe, mas a lida é contínua.

Pês no chão e cabeça feita

Do outro lado do Rio é que a vida é feita.

Deixaste essa floresta, mas teu espírito vem me atormentar...

 

Se queres tanto falar...

Pedes a Shiva para te deixar reencarnar...

Roda, roda, gira, gira...

Rema, rema, sob águas frias...

Faz ressurgir o Monstro das poesias...

Cataventos girando sob o manto verde à beira rio...

Que visão é essa que fez-me querer beber vinho?

Agora sob águas negras, avisto a orla da cidade...

Luzes brilhando, vento soprando, tudo gira...

A mente, um redemoinho,

Desperto sozinho...

Vem a mim...

E pega em minhas mãos frias,

Ó gigante caboclo das boemias.


terça-feira, novembro 02, 2021

DIA DOS FINADOS (1)

 

Detalhe da capela, apontado pelo anjo,
no cemitério de São João.

REFLEXÕES DO DIA DE FINADOS

“Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. 

E quem vive e crê em mim, jamais morrerá.” Jo (11:25-26).

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem vida eterna,

 e eu o ressuscitarei no último dia...” Jo (6: 54-55)

 

Este Dia de Finados, como em todos os anos, nos traz lembranças, sentimentos e emoções que nenhuma lógica humana é capaz de explicar. O clima diferente, que nos envolve, nos faz diminuir as palavras e aumentar nossos sentimentos de pesar, de perda e de tristeza.

Para quem nos amou muito, teve sua participação efetiva, tanto na nossa geração como na nossa criação e educação, e, se ainda os amamos tanto, essas almas merecem a nossa reverencia, nossa dedicação e memória.

Creio que o pior da morte, visto pelo lado humano de quem ainda permanece entre nós, não é morrer — afinal somos finitos —, é ser esquecido, abandonado em túmulos e nem ao menos ser visitado nestes dias de dedicação aos mortos. Qualquer lógica doutrinária que tente nos afastar dessa homenagem, para o cumprimento de um dever meramente humano, não tem lógica, não tem respaldo a partir da fé em Jesus Cristo.

A morte dos outros nos faz pensar na nossa, é inevitável. Mas, essa realidade cruel, não nos diminui o sentido da vida, pelo contrário, nos dá argumentos e fé para viver plenamente cada momento, como se fosse a eternidade.


Texto produzido pelo Renato Mendonça 

 

DIA DE FINADOS

Aqui jaz a memória da

família Lima Mendonça


encontra-se no jazigo aberto para a avoenga Adelaide Vieira Lima, no cemitério São João Batista, há 80 anos. Para este finados intentei ultimar os reparos imperiosos à recepção de novos. Não me foi possível finalizar a obra, ainda assim pretendo recolher ao local dois personagens desta família sepultados no cemitério São Francisco, no Morro da Liberdade.

Hoje é dia para a reflexão, seguramente. Momento de rever de alguma maneira os antepassados, de relembrar-lhes as passagens, de reavivar a memória dos novinhos sobre os antepassados. Enfim, como de hábito religioso, oportunidade de rezar por suas almas. De acender velas, de deixar-lhes flores. E, quem sabe, aproveitar a ocasião para refletir sobre seu destino. Para tanto reproduzi o texto de meu irmão Renato, escrito para este evento.

Detalhe de curiosa lápide existente no 
cemitério de São João Batista - Manaus

Os campos-santos citados passaram por reformulação, receberam aquela recapagem, a fim de melhor acolher aos visitadores neste dia. Daí as fotos aqui postadas com as quais relembro os túmulos da minha família em cada necrópole.

 

Em São João Batista repousam:

 


             
Adelaide Vieira Lima (1883-1941)

Francisca Lima Mendonça (1917-1951

Victoria Malafaya (1890-1961)

Maria Nogueira de Lima (1920-1966)

Roberto Souza Mendonça (1971-2016)

 


          

 Em São Francisco repousam:


             Doroteia Santos Mendoza (1936-1992)

             José Manuel Mendoza (1916-2014)