CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, novembro 05, 2018

TRISAVÓ DO ARCEBISPO

Mais uma página do saudoso padre Nonato Pinheiro que, no Amazonas, foi membro da Academia de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico. 
A postagem foi recolhida do Jornal do Commercio,                                                          (edição de 14 de março de 1969). 








Causa-me admiração e tristeza a indiferença que muitas pessoas votam às fontes de onde promanaram. Ignoram a própria genealogia e são de todo em todo incapazes de saber quais os elos que as vinculam aos membros de sua parentela. Essa ignorância chega, não raro, às raias do inconcebível e do estarrecimento.
Sempre me entusiasmou a investigação da minha árvore genealógica, e estou em condições de afirmar que, entre os meus parentes, tanto da “gens paterna” como da “gens materna”, poucos poderão ombrear comigo no conhecimento de nossas famílias. Dos meus quatro troncos, dois avôs e duas avós, só conheci meu avô materno e minha avó paterna. Mas para compensar as lacunas, privei da intimidade de duas tias-avós, irmãs de meu avô paterno e também de três irmãos de minha avó materna, dois irmãos e uma irmã. Foi o bastante para diplomar-me no conhecimento das minhas origens.
Conheci na intimidade (como ambas me queriam!) duas irmãs de meu avô paterno: Elvira de Paula Gonçalves e Francisca Xavier de Paula. Verificando em mim acentuado interesse no estudo genealógico da família, puseram-me a par de grandes informações.
Tia Elvira morava em sua residência própria, na confluência da rua de Monsenhor Coutinho com a Avenida de Epaminondas. Parteira eximia, exercia a profissão sobretudo no seio da colónia sírio-libanesa. Além de tia de meu pai, foi uma espécie de segunda mãe. Meu pai, em solteiro, residia em sua casa primitiva, na rua do Major Gabriel. Era para mim um prazer visitar minha tia Elvira. Frequentemente almoçava com ela, e após a refeição, no pavimento térreo, armava-me a rede para a sesta e ficávamos a conversar longamente.
Cada vez mais queria bem a minha tia e muita a admirava. Com emoção tomei conhecimento da honestidade intransigente com que exercia sua profissão. Mais de uma vez me confiou: “Raimundo, tua tia, já recebeu, inúmeras vezes, ofertas pingues, tentadoras, para provocar abortos. Meu filho, estas mãos estão limpas, nunca polui minha consciência com essa ignominia!” Essa minha saudosa tia foi uma das fontes principais de que dispus, para conhecer um pouco a minha família paterna. Meu avô era seu irmão predileto, talvez por ser o caçula.
A outra tia-avó era tia Chiquinha, Francisca Xavier de Paula. Enquanto posso depor, pelo que me foi dado observar e ouvir de outros parentes, conservou sua virgindade até à morte. Nos últimos anos de vida, dividia seus dias cm os parentes, passando meses na casa de um, meses na casa de outro. Quando ia para casa, tinha atenções particulares, de verdadeira ternura, para com o sobrinho padre. Cuidava do meu quarto, de minha roupa, espanava os meus livros. E à noite, depois de servir um chá ou um gostosíssimo mingau de caridade aos alunos internos de minha mãe, que lhe chamavam (essa construção é mais vernácula do que “a chamavam”) tia Chiquinha, ia para o meu quarto. Sentava-se numa cadeira de embalo, e punha-se a conversar longamente, caindo quase sempre a conversa sobre membros e tradições da família.  Eu, deitado sobre a cama, ouvia com prazer a prosa atraente de minha querida tia
Outro parente meu, que me foi fonte preciosa de informações acerca de nossa família foi o saudoso despachante Carlos Gonçalves Filho, a quem chamávamos Carlinhos, na intimidade. Devo, ainda, grandes e seguros informes sobre nossa genealogia à prima Judite Paula de Castro, ora residente na Guanabara.
Foi com viva emoção que conheci no Maranhão o genitor de minha mãe, já entrado em anos. Minha mãe era-lhe a filha mais dileta. Foi comovente o primeiro abraço entre o avô e o neto, já de tonsura aberta. Minha avó já não existia, mas lhe conheci dois irmãos e uma irmã. Um deles foi magistrado em São Luís: Desembargador Joaquim Teixeira Júnior, que desempenhou mais de uma vez as funções de presidente do Tribunal de Justiça. Sucedeu-lhe na vaga o Desembargador Nicolau Dino de Castro e Costa, irmão do nosso bom amigo jornalista Herculano de Castro Costa, de saudosa memória.
Gosto dos estudos de genealogia, que se ocupa da origem das famílias. Nossa língua oferece-nos copioso vocabulário genealógico: raça, raiz, tronco, ascendência, estirpe, linhagem progênie, prosápia.  Acompanho com interesse as publicações do Instituto Genealógico Brasileiro: Revista Genealógica Brasileira; Anuário Genealógico Brasileiro; Biblioteca Genealógica Brasileira; Índices Genealógicos Brasileiros; Revista Genealógica Latina; Anuário Genealógico Latino e Biblioteca Genealógica Latina.
Estive um dia destes no Arcebispado, para dois dedos de prosa com o apostólico arcebispo Dom João de Souza Lima. Apesar de assoberbado de tarefas pastorais, encontra sempre um tempinho para suas leituras, sobretudo dos livros que lhe enviam. Conhecendo meus pendores para os estudos genealógicos, passou-me às mãos dois exemplares da plaqueta Ensaio Genealógico, interessante e bem documentado estudo sobre a progênie da família Novaes, feito pela professora Stelia Margarida Novaes, de parceria com o Dr. Severino de Novaes e Silva (Tipografia Marista, Recife, Pernambuco, 60 pp.)

No estudo da família Novaes, os autores põem em erguido relevo a figura extraordinária de Veronica Gomes Lima, “senhora de inexcedível caridade e de provada coragem” (p.41). era trisavó de nosso arcebispo. Citando-lhe o ramo ancestral, lá figura o nosso eminente metropolita: “o ilustre antíste D. João de Souza Lima – Arcebispo de Manaus, capital do Amazonas. (p.45)
Dona Verônica era senhora de muita coragem e bravura. Um dia prendem-lhe o marido, por questões políticas. Joaquim Barbosa, mais conhecido pela alcunha de coronel Quinzeiro, ficou detido na residência de Antonio Cavalcanti, primo de Dona Verônica. Que fez a valente senhora? Armou 60 homens e marchou à frente deles para libertar o esposo. Antonio Cavalcanti treme em face da notícia. Conhecia a tempera de aço da prima. Apressou-se em mandar-lhe um emissário com a informação do relaxamento da prisão do coronel.
Dono Verônica exige a libertação imediata e incondicional do marido, o qual é posto em liberdade, um tanto abatido em razão do jejum a que voluntariamente se submetera, em sinal de protesto. Mulher valente, a trisavó do Arcebispo. Tacaratu [PE] e outros rincões do Leão do Norte até hoje guardam os rasgos varonis dessa matrona respeitável, que se impunha pela caridade e pela coragem indomável!
Pediu-me Dom João que entregasse um exemplar do Ensaio Genealógico à direção da Biblioteca Pública do Amazonas e o outro à diretoria do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. A plaqueta honra a dinastia dos Novaes, antiquíssima família ibérica, que em Portugal surgiu com a própria formação histórica do país, com Dom Afonso Henriques. (...)

domingo, novembro 04, 2018

CEMITÉRIO SÃO JOÃO: MANAUS


Creio que as fotos aqui postadas, efetuadas pelo drone do Darlan Leite, no Dia de Finados passado, constituem as primeiras tomadas por este dispositivo deste “campo santo” e, ainda, publicadas em uma rede social.











sábado, novembro 03, 2018

DIA DOS FINADOS (2)

Luiz Ruas, que foi padre-poeta (1931-2000), manteve em A Crítica uma coluna intitulada Ronda dos bairros. Esse exercício ocorreu do meado de 1957 ao início do ano seguinte. Lembrando que o colunista escrevia sobre assuntos diversos, aquilo que lhe parecia de interesse dos leitores.

Reproduzo o texto de 5 de novembro de 1957, em que o reverendo comenta o Dia de Finados.

Cemitério de São Francisco, ontem


Velas Acesas

Finados, já vai mais ou menos distante. Três dias nos separam do dia consagrado àqueles que nos precederam com o sinal da fé, como reza a Sagrada Liturgia. Assim mesmo vamos registrar alguns fatos que nos pularam diante dos olhos lá no Campo Santo. Não se assuste, leitor, não se trata de histórias de mortos, mas de vivos.

Como nos anos passados, fui também eu no dia dois ao cemitério, apesar de me sentir mal diante de tanta irreverência ali verificada. Não sei porque cheguei, porém, ao perceber uma coisa até então deixada no rol das coisas sem importância e que, de repente, ao anoitecer do dia dois p.p [próximo passado] criou muita significância para mim.

É justamente quando a noite cai que o cemitério toma um aspecto de feérie. Os milhares de chamas das velas crepitando sobre as campas em toda extensão plana, pareceu-me o símbolo de uma luta da luz contra as trevas, da vida contra a morte. Pareceu-me um esforço de ressurreição. A liturgia cristã que está na base do costume das velas acesas não nos ensina de que elas são símbolo; da fé? E a luz na terminologia joanica não é o símbolo de todas as mortes, inclusive a do pecado? Pois bem, foi isso que me veio à mente quando alguém me perguntou:

Para que servem as velas acesas?

O Busto

O Governo Trabalhista do Sr. Plínio Ramos Coelho [1955-59] inaugurou o busto do extinto presidente Getúlio Vargas. Isto sim, isto é que me deixa embasbacado. Que a Nação venere a memória dos seus falecidos presidentes, está certo. Que um determinado partido venere a memória de seu fundador, também está certo. Mas está errado é que se queira fazer política à custa de defunto. Isso não. E está claro que o intento do Governo Trabalhista espetando no cemitério o busto de Vargas, não tem outra finalidade senão a de explorar ao máximo o nome e a memória do ex-ditador para proveito dos que ainda lutam para conquistar o poder.

Esta, aliás, não tem sido outra linha de conduta do Sr. João Goulart ao fazer tanto espalhafato com a tal carta-testamento, cuja presunção chega aos limites do ridículo. Getúlio àquela altura já devia estar meio alucinado, já devia ter perdido o equilíbrio mental. Não há naquela história de entrar para a História uns ressaibos do “que grande artista o mundo vai perder” de Nero?
O busto no cemitério não tem sentido. Simplesmente.

O PADRE PREGANDO

Quando entrei o padre estava pregando lá na capela e sua voz que o alto falante fazia rouquenha chegou aos meus ouvidos:

Rezemos para que saibamos sempre a vontade de Deus: Pai Nosso...
Rezemos para que nos corrijamos de nossos vícios e alcancemos o perdão de nossos pecados: Pai Nosso...     

A princípio estranhei aquilo. Não parece muito lógico, à primeira vista que no dia dedicado aos mortos a gente esteja rezando por nós, os ainda vivos.
Estava ainda estranhando a oração pelos vivos no dia dos mortos, quando me veio à mente o poema de [Manoel] Bandeira, no qual ele pede que não se reze pelo seu pai, que já está morto, mas por ele, o filho, que ainda está vivo. E, pensando bem, o padre tinha razão. Os vivos precisam mais. 
     

sexta-feira, novembro 02, 2018

DIA DOS FINADOS


Autor, observando o drone
Estive no cemitério São João hoje para um exercício lúdico, secundar ao amigo Darlan que usava seu drone. Na quadra destinada ao sepultamento de membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, local ainda conservado com respeito, onde estabelecemos o “droneporto”. O resultado fotográfico está sendo apurado.  

A data de hoje é destinada a nos lembrar dos antepassados, dos nossos mortos. Realizei isso de forma atravessada, todavia, possuo o irmão Renato Mendonça que aproveita ao extremo a data. Separado de nossa mãe pela distância geográfica, ele que a perdeu com um ano de idade, ainda assim, mantém com ela – Francisca Lima um relacionamento denso.
Para ratificar esse devotamento, compartilho dele a crônica abaixo, encartada no seu livro Renato, aos poucos II – memórias, crônicas & contos. (Niterói: Clube de Autores, 2018).

MAIS UM DIA
[escrito em] 02/11/2004

Estive no cemitério, aqui em Niterói, em mais um Dia de Finados. Hoje, não sei por que, não me sentia bem. A saúde parecia querer falhar; o fôlego estava aquém das minhas necessidades. Pensei com meus anjos: Será que é o peso dos anos?! Ou será que Jesus está me chamando? Se for, quero ser surdo. Acho que não era nada disso, estava desatento mesmo, e um pouco impaciente. O calor, diferente de outros anos, estava insuportável. Em condições normais não sentiria a temperatura e me concentraria só em reflexões.

Francisca Lima (1917-52)
Mesmo assim, cumpri meu ritual: acendi velas, procurei outros túmulos de pessoas conhecidas; busquei na administração a certeza da minha pesquisa e dediquei, dentro das minhas limitações, urna prece a todos eles.

Esse ano, por uma boa razão, me sentia mais tranquilo que nos demais: tinha conseguido, depois de vários planejamentos frustrados, a recuperação do túmulo da minha mãe. Contei com a ajuda providencial e necessária de meu pai e de meu irmão. Fiz um projeto e detalhei o tipo de revestimento. Imaginei-o todo revestido em azulejo branco, e uma cruz azul deitada na face superior, levemente inclinada, deixando a impressão de que se levanta da superfície.

Quis passar o conceito de que as pessoas ali enterradas, simbolizadas pela cruz, apenas adormecem e estão, com o passar do tempo, emergindo. Emergem em nossos corações e pensamentos; estão, a exemplo de Jesus, ressuscitando no exemplo de amor deixado nas suas biografias; e nos sensibilizando para os valores espirituais que precisam ser alcançados. E uma maneira de revitalizar essas pessoas tão queridas e importantes na nossa vida.

Não quero discriminar nenhum dos antepassados, todos deram sua contribuição para que eu estivesse aqui registrando essa crônica, porém estou dedicando essas linhas com o pensamento mais voltado para minha mãe e avó paterna. Foram elas que me salvaram de uma morte prematura e me educaram. E até hoje me educam; até hoje aprendo com os seus exemplos, com os seus legados.

À minha mãe, devoto, de vez em quando — particularmente, quando estou muito triste e reflexivo —, algumas lágrimas. Talvez as mesmas que ela derramou, e untou o meu corpo, quando teve que me abandonar precocemente. É a única coisa que posso dedicar-lhe nesses momentos. Repartir o amor, como se fosse o pão no gesto eucarístico de Cristo.

Refiz, mentalmente, uma imagem dramática de minha mãe dos seus últimos dias. E, baseado no sermão que ouvi de um padre recentemente numa missa de domingo, criei uma oração pra ela. Canonizei-a na minha doutrina, e apelo sempre quando tenho alguma angustia. Já senti seus afagos e o calor da sua voz espiritual em alguns momentos particulares da vida. (...)

Dediquei parte das minhas recordações à minha avó, quem me mostrou que sua simulada rudeza fazia parte do jogo da educação. E reconheço até que, por sua cultura provinciana, não tinha como me oferecer algo melhor. Mesmo assim, tenho as melhores lembranças de seu gesto e atitudes.

Descansem em paz!