CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

terça-feira, janeiro 04, 2011

Cinemas de Educandos, em Manaus III

Cine Vitória (1954-1973)
Ed Lincon


Edificado na avenida Leopoldo Peres, ao lado da Usina Americana (de beneficiamento de castanha, ainda existente) e próximo a conhecida Baixa da Égua, o cine Vitória veio preencher de forma superlativa a lacuna deixada pelo fechamento do cine Rex. O empreendimento, da empresa A. Bernardino & Cia Ltda., de Adriano Bernardino (1901-1961) e Aurélio Antunes (1900-1976), dotou o bairro de Educandos de nova casa de espetáculos. O prédio começou a ser construído no início de 1950.
As obras prosseguiam lentamente, apesar da aparelhagem destinada ao Vitória já se encontrar em Manaus, trazida pelo vapor Rio Juruá, e adquirida em São Paulo, na Companhia Black (de propriedade de Mário Schneider) distribuidora exclusiva no Brasil.

Um ano depois, a coluna “No mundo do cinema”, de A Crítica (17 ago.1954) propala que se encontra “em nossa cidade desde sábado último, o técnico Mário Schneider que veio montar as máquinas de projeção do novo cinema “Vitória” da empresa A. Bernardino & Cia., situado no populoso bairro de Educandos. Ao que soubemos, o técnico tudo fará para concluir o seu trabalho ainda este mês, que dará oportunidade à empresa proprietária do cinema a que este seja inaugurado possivelmente no próximo dia 7 de setembro”.

Apesar de os esforços empreendidos para inaugurar o cinema no prazo previsto, a avant premiére somente ocorreu em 11 de dezembro. O Jornal do Commércio (11 dez. 1954) revelou que Bernardino fará a inauguração hoje do Cine Vitória, no bairro de Educandos. “O cine Vitória possui 1.116 poltronas, que significa dizer que é o maior salão de projeção de Manaus”.
O filme A floresta maldita, da Warner, estrelado por Kirk Douglas, em sessão das 20h e entrada a Cr$ 4,00 (quatro cruzeiros), inaugurou o Vitória. No dia seguinte, domingo, o Vitória cumpriu a programação: matinal (às 9h), com entrada gratuita para as crianças, exibiu um festival de desenhos animados e filmetos de cunho educacional. Na vesperal (13h) foram projetados dois filmes: Capitão Blood, com Errol Flynn (1909-1959), e Adaga de Salomão (1ª série), com entrada a Cr$ 3,00 (três cruzeiros).

Na vesperal (16h) passou a chanchada Balança, mas não cai. Ingresso: Cr$ 4,00 (quatro cruzeiros). E, as 20h, foram exibidos: o longa metragem O forte da coragem, estrelado por Yvonne De Carlo (1922-2007), e o desenho animado Meu lar é sagrado. Entrada a Cr$ 6,00 (seis cruzeiros).

Jornal do Commercio. Manaus, 3 set. 1955
Em julho de 1955, para modernizar a casa de espetáculos, a empresa instalou a tela panorâmica. Essa providência melhorou sensivelmente a projeção das imagens. Em dezembro, quando do primeiro aniversário, Bernardino elaborou uma programação especial. No dia 11, pela manhã, com farta distribuição de bombons para a garotada, o Vitória mostra o filme Sucessos em Desfile, de Walt Disney. Na vesperal das 13h, a sessão dupla: Fantasma do espaço e Fúria perversa. Às 16h, O fantasma da rua Morgue e Esporte na Tela 55/57. E, finalmente, na sessão noturna: Mentira, com Jorge Mistral (1920-1972) e Marga Lopez (1924-2005); e Robinson Crusoé, da United Artists.

Em outubro de 1959, inaugurado no bairro da Cachoeirinha o cine Ipiranga, a empresa A. Bernardino promoveu ampla reforma no Vitória. Ampliou as instalações e melhorou o sistema de ventilação e projeção, assim como renovou a pintura da fachada.
O Jornal. Manaus, 29 dez. 1962
O Vitória além de funcionar como cinema, também costumava receber em seu palco shows de cantores, inclusive os de renome nacional. Registram-se entre estes: Ciro Aguiar, Altemar Dutra (1940-1983), Moacyr Franco (ainda operando na TV), Teixeirinha (1927-1985) e Waldik Soriano (1933-2008), que deixou plantadas lendas no bairro, algumas registradas no bar da dona Miss.
Há registro da passagem pelo palco do Vitória de cantores da Jovem Guarda, como: Roberto Carlos (em meados de 1960, ainda um ilustre desconhecido e sem a fama de “Rei”, apenas com sua guitarra vermelha), Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Ronnie Von, Wanderléia, Martinha, etc.

No início de 1969, o grupo Bernardino interrompeu o funcionamento do Vitória para nova reforma. Na ocasião, houve melhoramentos internos: reforma do palco, reparo e pintura nas paredes do prédio e aplicação de verniz nas cadeiras. Foram concretizadas ainda melhorias no sistema de som e de ventilação.
Acerca dessa reforma, por sinal, a derradeira, o matutino A Notícia (8 jul. 1969) assegura que o “Cine Vitória”, no bairro de Educandos, foi inteiramente recuperado pela empresa A. Bernardino, sua proprietária. “Serviu para que víssemos o estado magnífico de apresentação em que se acha aquele local de diversão pública.” Lamentou que a excelente apresentação dentro em breve estará reduzida a nada, “pela ação demolidora de alguns vândalos que fazem ponto de estacionamento naquele cinema”

Os temores do jornalista (Cláudio Amazonas, possivelmente) se revelaram procedentes. Antes do final do ano, o Vitória já apresentava cadeiras arrebentadas e paredes pichadas, devido a inexistência de segurança e de princípios sociais. Em setembro, aconteceu a inauguração da pioneira, a TV Ajuricaba (canal 20 em UHF).
O sucesso da TV foi iminente. Conquistou a todos, inclusive aos aficionados de cinema. Com isso, as salas de cinema foram a nocaute. Outro fato veio colaborar com essa queda: a intensa campanha movida pela Prefeitura de Manaus, apoiada pelos jornais e do Instituto Nacional do Cinema (INC), objetivando melhorar as condições das salas de exibição. Outros fatores contribuíram: a constante reprise de filmes; a exigência de produções nacionais em sessões (a maioria fora do agrado popular, especialmente as do chamado “cinema novo”).

No caso do Vitória, o golpe de misericórdia demorou, veio em março de 1973. A 16, parte do controle acionário da empresa A. Bernardino (alegando falta de recursos financeiros para reformar suas salas, como exigia a prefeitura), passa ao gerenciamento do Grupo Daou. Bernardino decide vender, além do Vitória, os cines Avenida e Palace, mantendo em seu controle, e funcionando, o Ipiranga e o Guarany.
O fechamento do Vitória foi melancólico, soturno. Ocorreu no "Dia do Trabalho", deixando vários desempregados. Fez projetar o filme Comandos, para uma platéia reduzidíssima de pouco mais de dez pessoas. Em uma sala que comportava mais de mil! E a poucos dias do encerramento do prazo estabelecido pela Prefeitura, para que proprietários e arrendatários de casas cinematográficas cumprissem as reformas e benfeitorias exigidas.

A notícia do fechamento do Vitória, embora só tivesse sido noticiada a 10, já era do conhecimento dos educandenses, que lamentaram a perda. Muitos ainda imaginaram que o cinema fechara para mais uma reforma; que o mesmo ainda reabriria, mas infelizmente tal não aconteceu.
Em depoimento para a imprensa, Raimundo Marques, espécie de gerente do Vitória, revela que preparou muitos operadores para a empresa Bernardino. E mais, que vigiava o prédio do Vitória, porque morava na parte de trás ocupando uma “casinha”. Por isso lembrava que recebeu nesse endereço “muitos artistas famosos, entre os quais Waldik Soriano e Teixeirinha, que após o show no palco do Vitória, iam tomar um “cafezinho”.

Cine Vitória, 1973

Encerrado o funcionamento do Vitória, a enorme edificação teve a fachada descaracterizada, e passou a servir de depósito da extinta Credilar (Moto Importadora Ltda.). Adiante, ali funcionou um supermercado, depois uma loja de quinquilharias do Sukatão, seguida de uma igreja evangélica e, até recentemente (2005), de uma casa de leilões.Continua mudando de ramo.
Lacrado o Vitória, o cinema desapareceu de Educandos, o bairro que possuíra o maior número de casas cinematográficas.

Ed Lincon (autor de Os cinemas de Manaus, em preparação)

segunda-feira, janeiro 03, 2011

União Brasileira de Escritores/AM

Os jornais de Manaus, na década de 1960 e seguinte, porfiavam em publicar trabalhos de nossos escritores. Quase sempre aos domingos, em suplementos corrdenados por entidades literárias. Talvez o encarte mais conhecido tenha sido o do Clube da Madrugada, um longo tempo em O Jornal e, com o perecimento deste, em A Crítica.
A seção amazonense da União Brasileira de Escritores (UBE) também experimentou a fórmula. Encartava no Jornal do Commercio o trabalho de seus associados. Para a ilustração desse meu trabalho, transcrevo a crônica (edição de 16 ago. 1970) de um saudoso conhecido meu, padre Luiz Ruas, ou L. Ruas, como literariamente assinava seus trabalhos.

Crônica para o amanhã

L. Ruas

Tarde está cansada. Há macios cinzentos nas calçadas.

Hoje, talvez, fosse bom navegar em teus mares, ó cálida e vespertina doçura. Hoje, talvez, fossemos além destes limites de azul.

Pelos ferros contorcidos da claraboia, a luz tenta uma transfiguração dos minutos. Ler a revista, sem pressa. Tragar um cigarro sem emoções. Não mover os olhos. Não molhar os lábios. Não desejar. Apenas aceitar a comunhão suave da tarde cansada.

Cessaram os ritmos violentos que rompem a tranquilidade dos equilíbrios e nos jogam, em rodopios, para o claro momento. Ah! O claro momento.

A luz cai intensa e perpendicularmente sobre a retina e fere o idílio da luminosa comunhão dos seres que se consomem na espera.

O retorno para o que foi. Há sempre retornos nos momentos da tarde, véspera da noite. Amanhã é possível que haja outras partidas.


Vejo-te. Quero-te. Sinto que te fazes sempre presente nos momentos silenciosos do entardecer. Hoje te procuro. Hoje te desejo. Vermelho é rosa do que vivi. É sempre possível olhar no espelho e não ter de esperar o amanhã. Se você tomar o vermelho da rosa em suas mãos ele se transforma silenciosamente em tarde.


Tarde cansada.

Desce em mim tua ternura de quietude. Estas folhas que se desprendem sem remorsos. Agora todos estamos reconciliados. É quietude e sombra este caminhar de leve que se integra em nossa voz que murmura qualquer som.


Agora é preciso esperar a noite.

Agora é preciso desejar o amanhã.

Rio Amazonas, em frente de Itacoatiara (AM), 2008

domingo, janeiro 02, 2011

CIDADE FLUTUANTE

Existiu na orla do rio Negro, com entrada em frente a praça dos Remédios, um alomerado de flutuantes, que dispunham de arruamento, intitulado de Cidade Flutuante. Tudo sobre as águas. As casas de madeira e palha, claro, os troncos reunidos que serviam de ruas, a distribuição de energia elétrica e o vai e vem do comércio de todas as tendências.
Obviamente que os dejetos de toda natureza acabavam nas águas. Era um espetáculo curioso, mas que depunha contra cidade de Manaus.

Cartões postais da Cidade Flutuante, Manaus, cerca 1964

Constituido há décadas, alcançou a instalação do Governo Militar, em 1964. Coube ao primeiro governador do período, Arthur Reis, desmobilizar a "cidade". Foi realizada utilizando a Força Militar, mandando os moradores para bairros em formação.

Cartão Postal mostrando a Cidade Flutuante, Manaus, c1963
Livro de autoria de Arthur Reis. Manaus, 1967
Ainda hoje se discute, não o encerramento do conjunto, mas a forma como se tratou os moradores. A decisão desse governante encontra-se em um de seus livros: Como governei o Amazonas.

sábado, janeiro 01, 2011

Antigos e novos governantes

Janeiro, 1º

1852 – Instalação, em Manaus, da Província do Amazonas, com a posse do primeiro presidente, João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha.

1853 – A barca Marajó, da Companhia de Comércio e Navegação do Amazonas, constituída pelo barão de Mauá, deixa Belém em direção a Barra (hoje Manaus), aqui chegando após dez dias e dezesseis horas de viagem.

1874 – Lançamento da pedra fundamental do Paço Municipal, hoje a “velha” sede da Prefeitura de Manaus. Onde em 1880 foi instalada a sede do Palácio do Governo provincial, “alugado por quatro contos de réis anuais”. No governo de Constantino Nery (1904-07), este edifício recebeu ampliação. Ali esteve a sede do governo estadual até 1917, quando foi transferida para o Palácio Rio Negro, sendo governador Pedro de Alcantara Bacellar.

1876 – Entra em circulação o semanário A Foz do Madeira, em Itacoatiara (AM), o segundo jornal daquela cidade.

1913 – Jonathas de Freitas Pedrosa, médico nascido na Bahia, foi empossado no governo do Estado. Quatro anos depois, Pedro de Alcântara Bacellar, também médico, também baiano, assumiu o governo do Amazonas.

1918 – Fundação da Academia Amazonense de Letras, sob a presidência de Araújo Lima, contando com Péricles Moraes (primeiro presidente) e José Chevalier, entre outros. A data da fundação vem sendo questionada pelo acadêmico Zemaria Pinto. Para este, a data correta é 9 de janeiro, consoante comprova em publicação inserida na Revista da Academia nº 29, dez. 2010.

1921 – César do Rego Monteiro tomou posse no Poder Executivo. Nascido no Piauí, graduou-se pela Faculdade de Direito do Recife. No Amazonas, foi desembargador e presidente do Tribunal de Justiça entre 1899-1901. O encerramento de seu mandato governamental foi antecipado pela rebelião de Ribeiro Júnior (23 jul. 1924).

1926 – Tomam posse no governo do Estado, Ephigenio Salles, natural de Minas Gerais, e, na prefeitura de Manaus, José Francisco de Araújo Lima.

1930 – Dorval Pires Porto foi empossado na chefia do Poder Executivo. Nascido no Rio Grande do Sul, bacharel em Direito, havia sido Prefeito de Manaus e deputado federal pelo Amazonas. Dorval Porto, no entanto, manteve-se no poder por exatos nove meses, devido o desfecho da revolução de Getúlio Vargas.

1949 – Instalada em Manaus, a Delegacia Regional do SESI, sediada na esquina da avenida Getúlio Vargas com a rua Ramos Ferreira.Hoje tem sede própria na rua Henrique Martins e oferece serviços em outros endereços.

1951 – A Companhia de Bombeiros passa a subordinação da Prefeitura de Manaus, ainda que ocupante de dependência do Quartel da Praça da Polícia, com entrada pela rua José Paranaguá. O comandante interino era Isidoro Castilho, 1º tenente da Polícia Militar, com efetivo de 20 abnegados “soldados do fogo”.
Plinio Coelho

1958 – Criada a Faculdade de Ciências Econômicas (FCE), por iniciativa do governador Plínio Ramos Coelho. A despeito do proceder ao vestibular, com aprovação de nove alunos, nada disso possuía validade, pois a Casa de Ensino não recebera a necessária aprovação do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Somente em 2 maio 1958 ocorreu a sessão de instalação em dependência do Instituto de Educação do Amazonas (IEA), sob a presidência do cônego Pedro Mottais. A formatura da primeira turma de economistas sucedeu em 23 dez.1961, no Teatro Amazonas. Em nossos dias, a FCE está integrada a Universidade Federal do Amazonas.

1966 – Álvaro Botelho Maia assumiu a presidência da Academia Amazonense de Letras, nela permanecendo até 28 de novembro do mesmo ano.

1999 – Amazonino Armando Mendes, governador reeleito, retoma a data para a posse do chefe do Poder Executivo, como ainda vem sendo mantida.

2003 – Carlos Eduardo de Souza Braga assume o mandato de governador do Estado.
Omar Aziz (à esq.) e Eduardo Braga, 2010
2005 – Serafim Fernandes Corrêa, do Partido Social Brasileiro, e Mario Frota, eleitos pela oposição, tomam posse como Prefeito e Vice de Manaus, respectivamente.
Amazonino Mendes, 2010

2009 – Amazonino Armando Mendes, do Partido Trabalhista Brasileiro, e Carlos Souza, do Partido Popular, como vice, assumem a Prefeitura de Manaus.