CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

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terça-feira, novembro 06, 2018

RAMAYANA DE CHEVALIER – CONTO (1)



Este conto compartilho da matéria-prima produzida pelo acadêmico Ramayana de Chevalier (1909-1972). Constitui farto material exposto no matutino A Gazeta, quando este dirigiu a Secretaria de Administração do Estado, ao tempo do 1º governo de Gilberto Mestrinho. 
Ainda mais dois contos exporei do mesmo arquivo.


A Gazeta, 1º de novembro de 1961
“Essa história está ficando com azinhavre!”, dizia, meio contrafeito, o Zé Florêncio, referindo-se ao noivado de sua filha Judith. Na intimidade da alcova, em conversa com dona Zeferina, ele desabafava: 

“Afinal de contas, já lá vão cinco anos, e o Cunegundes não se resolve! É um plantão permanente, uns revirados de olhos, e tome missa, esse rapaz não sai da igreja, come hóstia de manhã à noite, fala baixinho para não perturbar a digestão, e já está entravando o destino da nossa filha há cinco anos. Essa história anda me cheirando mal. Ou será que o Cunegundes não é homem?”.

A pergunta alvoroçou dona Zeferina, num protesto:
“Que é isso, homem de Deus! Até parece maldição! Então você não vê que um rapaz como o Cunegundes, forte, desempenado, vermelho que nem barbela de peru, com um peitarraço que parece um estrado de exposição, vai deixar de ser homem!”
Zé Florêncio retrucava, de orelha em pé:
“Sei lá, Zefa! Tenho visto tanta coisa por esse mundo! Olha, você não se recorda do Ricardinho, noivo da nossa filha, antes do Cunegundes? Forte, um tipão de rapaz, com um par de braços que pareciam dois troncos de ipê, e ao fim, o que é que deu? Descobriram que ele brincava de mulher com o sacristão. Você não ficou espantada quando soube? E eu não lhe contei as minúcias: não era o pobrezinho do sacristão, tão piedoso e bichinho, que seduzia o Ricardinho, era este que saía dos seus dados para desviar para os quintos do inferno, o coroinha de padre Chico!”
Zé Florêncio dera graças a Deus, quando desmascararam a doença do Ricardinho. A Judith chorou uns tempos, depois acostumou-se. E pegou, de golpe, o Cunegundes, recém-chegado da corte, um rapagão atlético, de palavra fácil, um paredão! E a coisa colou e foi-se arrastando, sob a proteção geral da família. Às vezes, Zé Florêncio piscava para a esposa, levantava-se, jornal na mão, rumo da alcova, cochichando com ela:
“Dá uma folga no rapaz! Afinal, essa história de pegar só na mão, coçar dedinho, furar a mutuca dos olhos, com jeito de boi morto, não põe casamento pra diante! É preciso uma pimentinha, Zefa, é preciso”.
E acendia o seu cachimbo de fumo de rolo, mais fedorento que um bafo de onça. De fato, nesses intervalos, nos quais a mãe cantava lá dos fundos da casa para demonstrar que o sinal estava aberto, o Cunegundes deixava a Judith saltar-lhe ao pescoço, ela mesma sugando-lhe a boca com frenesi, apalpando-o como um batedor de carteira. Cunegundes respondia parcimoniosamente, em beijos secos, sem muita intimidade, sempre espantadiço:
“Não exagere, Judith! Olhe o seu pai! De repente ele surge por aí e entorna o caldo! Paciência! Mais longe já esteve!”
E comportava-se, endireitando o laço da gravata, numa atitude respeitosa. Judith ficava em cólicas. O macho, bonitão e jovem, ao lado dela, era um convite à malícia e ao amor. E era sempre, com alegria, que ela aceitava o convite dele, para irem à missa, ao dia seguinte.
“Não falte, bem! O sermão vai ser elevado e puro! Não falte!”. De fato, ao dia seguinte, lá estava ela, assistindo ao sermão do vigário, sempre tão cheio de mel e de bons conselhos. Tentava, na igreja, uma encostadazinha no Cunegundes, mas ele estava de olho pregado na imagem da Mãe Santíssima, mais frio que fundo de foca. Judith já andava cheia de sermões. De vez em quando, pegava um filé de um deles, no qual se aconselhava a preservação da família, a doçura do lar, a felicidade da prole, e danava-se a dar cotoveladas no Cunegundes:
“Está vendo, Gundinho? É a Igreja quem diz, é o seu vigário quem aconselha! Olha!”.
Mas o Cunegundes, nem bola! Frio, gelado, contemplando a face lindíssima da Virgem, de olhos ternos como ovelhas agonizantes. Nos dias de comunhão, o rapaz incendiava-se. Olhava para a Judith, como se estivesse pegando fogo, sob o véu transparente, as fitas coloridas, o vestido branco, um todo cerúleo na fisionomia concentrada. Nesses dia. Cunegundes se transfigurava, e suas palavras saíam mais candentes, mais lascivas. Passado isso, caía o jovem na mesmice da rotina. Zé Florêncio, uma noite, tentou a bola sete:
“Cunegundes, meu jovem. Eu sei que a vida está dura que as circunstâncias não são para brincadeiras. Mas Judithinha precisa casar-se, constituir família! Você já pensou na nossa alegria, um netinho para embalar...”.
E punha-se a andar de um lado para outro, meio ridículo, fazendo que ninava uma criança imaginária... Dona Zeferina completava:
“Sempre foi nosso sonho, Gudinho! Um bebe parecido com o pai, assim rosado, forte, um meninão, hein Gundinho? Um meninão!”
E ria, estimulando a filha. Mas o Cunegundes era um iceberg. Sorria amarelo, baixava a vista, desviava-se da Judith. Zé Florêncio chegou a aconselhá-lo, num assomo de coragem:
“Meu filho, eu compreendo o que são essas coisas! Já fui rapaz, boêmio, gastei-me nos braços do femeeiro! (E olhava, desconfiado, para a esposa). Sei bem o que é isso! Por que você não vai ao médico especialista em coisas de homem, conversa com ele, quem sabe uma recuperação, um bom tratamento...”.
Cunegundes, ruborizado, não respondia, torcia a cara, emudecia. Um dia, Judith empurrou-o contra a parede, a mão sôfrega buscando a braguilha do rapaz, num desespero:
“Será que você não é homem, Gudinho? Diga? Minha carne não lhe excita, não lhe dá furor?”.
O Cunegundes transtornado, empurrado contra o muro, desabafou como uma chaleira fervendo:
“Sou homem, sim, Judith! Mas eu amo Nossa Senhora! Sei que é um pecado horrível! Sei que eu serei amaldiçoado, mas é superior as minhas forças! Vou à igreja contemplá-la, apaixonadamente, delirantemente! Quando você faz comunhão, e põe véu e, de branco, fica parecendo com ela, eu perco a cabeça, tenho vontade de estrangulá-la de beijos, de esmagá-la de carinhos! Vista-se igual a ela, Judith, e eu casarei com você no dia seguinte! Amo-a, Judith, sou um desesperado amante, um pobre e inconsolável apaixonado! A pureza dela, a virgindade dela, a beleza dela me condenaram para sempre.”
E caiu, chorando, enroscado aos pés da noiva estatelada!

quarta-feira, outubro 31, 2018

LINHA DO EQUADOR

Linha do Equador refere-se ao livro de Gebes Medeiros, lançado um pouco antes. Nesse tempo, o autor, Ramayana de Chevalier, era secretário de Administração de Gilberto Mestrinho (1959-63), e escrevia para o jornal A Gazeta, cujo texto ocupava o alto da primeira página.


Este artigo, publicado em 31 de outubro, ocorreu há exatos 57 anos. Outro pormenor: não obstante as referências de Ramayana ao amigo, indicando-o ao sodalício amazonense, a posse de Gebes Medeiros na Academia de Letras ocorreu 33 anos depois, em 13 de setembro de 1994. Doutor Gebes morreu em 2003.  






Foi um acontecimento singular, para a nossa pacata vida provinciana, o lançamento do livro do escritor Gebes Medeiros [Linha do Equador]. Os homens são, sempre, a projeção das suas obras, ou mais concisamente, um substrato daquilo que produzem, em arte e em emoção. Estou a ver daqui, o Gebes que nos chegou de outras paragens, tangido pelo determinismo. Era um jovem iluminado pelo entusiasmo, cheio de uma hipertensa vontade de empolgar, de oferecer, de construir. Ouvi falar dele, como de um arigó simpático e dadivoso. Veio de envolta com as semicolcheias, e as da selva o retiveram, para sempre.

Gebes vinha do Nordeste. Trazia, para o meu coração, um sinal indelével e admirável. Vinha das Alagoas, terra macha, de gente sisuda e brava, com guelra vermelha tinta de sangue e uma lealdade de mandacaru. Também, como ele, há muitos anos passados, descera de um navio do Lóide um alagoano jovem, de olhos tontos de entusiasmo, de alma pura e límpida, que veio lançar raízes no Amazonas: o meu pai.

Não se sabia o que eram os escoteiros: ele foi o segundo a fundá-los, no Brasil. Não se conhecia um colégio exemplar, desses que formam o caráter das gerações: ele o fundou, no “Instituto Universitário”. Casou aqui, deu filhos a esta terra, pobres e honrados, intelectuais que se projetaram pelo país afora. Morreu no desterro, esquecido e amado, apenas, pelos seus descendentes e os alunos, esses grandes amigos, já hoje velhos.

Gebes Medeiros teve trajeto idêntico. Integrou-se no Amazonas, criou raízes, ama-o do mais fundo do seu coração. É um perdulário de iniciativas, um esbanjador de inteligência. Veio com a música, hoje está no teatro. Lança, agora, o seu primeiro livro, Linha do Equador é uma esplendida galeria de tipos. Compêndio de psicologia da vida cotidiana, seus personagens emocionam e fremem, fazem pensar e sorrir. As questiúnculas do vasto interior brasileiro, políticas ou latifundiárias, são focalizadas com raro equilíbrio e bom senso, com pinceladas fortes e inesquecíveis.

O sangue que corre pelas páginas de Linha do Equador, ferve conosco, dá-nos a sensação de um drama vivido, onde despontassem, como rosas do abismo, o coração de Airam e a carreira acrobática de Alcione, a paixão estonteante de Luís Carlos, funda, abrangente, sensual e meiga. Os perfis evocados nos entreveros do sertão do Piauí, falam por si mesmos. São reais, como o cheiro de urina dos seus currais perdidos.

Lançados com inteligência e arte, numa sequência que denota o exímio teatrólogo que é Gebes, homem quase modesto nas suas arremetidas pessoais, mas glorioso e candente nas iniciativas que visam a grandeza do Amazonas. Lutador sem desfalecimentos, sensibilidade requintada de quem nasceu com o choro lânguido das avoantes no beiral da casa, Gebes Medeiros é, hoje, um patrimônio nosso, que nós não damos, nem trocamos, nem vendemos. É uma joia de caráter, num deserto de almas.
Tenho acompanhado várias de suas singelas irradiações, algumas com um critério absolutamente original e puro, todas cheias de coração e de afeto. De muitos anos, venho sentindo o palpitar de sua generosidade, as lágrimas ocultas que há vertido, no silêncio do seu lar, sitiado pela incompreensão e o desalento. Sei de como tem sustentado a família, na luta pertinaz de sua profissão de advogado, nos recontros em que a arte, esfarrapada, mal lhe socorre com as espórtulas de sua glória amadurecida. Tenho por Gebes Medeiros, o respeito que se tem por um irmão sincero, de gibão de couro, que trocou a vestimenta do agreste pela cana da jacumã.

Gebes reuniu, no mesmo laço, as duas asas brancas: a Academia Amazonense de Letras e o Clube da Madrugada. Viveiros de talentos, condecorações mentais desse equador bendito, cuja linha foi traçada, com felicidade, pelo insigne escritor que estreia. As cenas duras, ou amoráveis, do seu livro, não são dele, são da vida. É uma técnica moderna: o de projetar os fatos, na sua nudez, sem os artifícios hipócritas da literatura ultrapassada.

O amor há de ser tão puro e tão nefasto, como se apresenta. Um beijo não tem roupas. Um homem que ama, não possui códigos, nem respeita conveniências. Punem-no, mas por fora. Por dentro, ele continua perfeito e agreste, como no limbo. Este aspecto de literatura leal nós sentimos no livro de Gebes. Um lançamento emocionante, para uma época de descréditos espirituais e desavenças mesquinhas.

Gostaria de ver esse amazônida integrado, ocupando o lugar que merece numa poltrona da Academia. Meu voto está dado. Sem máscaras, sem conciliábulos, sem falsidades. À vista do público, como as maioneses de lagosta do Restaurante Leite, do Recife. E não se trata de uma explosão de amizade. Gebes Medeiros é um escritor completo, um artista no mais amplo sentido da palavra. *