CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, maio 08, 2019

MUNICÍPIO DE BENJAMIN CONSTANT

Em agosto de 1961, o governador do Amazonas, Gilberto Mestrinho, preparou a cidade para receber a VI Reunião de Governadores, apontado o comparecimento do presidente Jânio Quadros. 

Brasão do município
Organizou igualmente as reivindicações estaduais, as quais foram listadas em espessa brochura. No entanto, Quadros renunciou à presidência dias antes e, desse modo, a reunião não aconteceu e a brochura acabou no Arquivo Público.
Restaurei dela as notas aqui compartilhadas sobre o município de Benjamin Constant.

(...) Alfredo Bastos, que havendo passado por várias vicissitudes em sua vida, um tanto aventureira, ali se estabeleceu, vindo do Peru, naquele ano, onde encontrara alguns moradores. Dera-se bem no lugar, e então “resolveu nele fixar-se, como um remate aos seus males. Colocou na fachada do seu barracão o dístico “Remate de Males”, designação que se estendeu a todo o lugar.
Desmembrado do município de São Paulo de Olivença, foi criado pela Lei n° 191, de 29 de janeiro de 1898, o município de Benjamin Constant constituído de um só distrito e com sede no povoado de Remate de Males, elevado então à categoria de vila. Nessa mesma ocasião foi criado o Termo Judiciário, subordinado à Comarca de São Paulo de Olivença.
Capa da brochura
Em 1901, por efeito da Lei n° 328, de 4 de janeiro daquele ano, foi suprimido o município de Benjamin Constant, cujo território foi anexado ao de São Paulo de Olivença.
Poucos anos depois, ou seja, em 1904, deu-se a restauração do município de Benjamin Constant, por força da Lei nº 446, de 2 de setembro de 1904. A reinstalação ocorreu a 12 de outubro daquele mesmo ano. Foi restaurado, então, também o Termo Judiciário.
Remate de Males não oferecia as condições necessárias e desejadas para continuar como sede do município. Situada em local baixo, na foz do rio Itecoai, inundava-se todos os anos por ocasião das enchentes. As casas eram edificadas sabre esteios. Gramavam ali após as enchentes febres palustres.
Atendendo a essa situação, é determinada, pela Lei n° 759, de 5 de agosto de 1909, a transferência da sede municipal para o povoado de Santo Antonio. Essa transferência, todavia, não chegou a realizar-se.
Nos quadros de apuração do Recenseamento de 1920, figura o município de Benjamin Constant com cinco distritos a saber: o da Sede, e os de Campo Alegre, Colon, Curuçá e Sentinela.
Em 1928, finalmente, a sede municipal foi transferida para o povoado Esperança, elevado, então, à categoria de vila, por força da Lei n° 1375, de 4 de janeiro daquele ano. Dois anos após, todavia, era suprimido o município pelo Ato Estadual n° 45, de 28 de fevereiro de 1930. A sua restauração, entretanto, deu-se logo a seguir, por efeito do Ato n° 33, de 14 de setembro de 1931.
Na divisão administrativa de 1933, aparece o município de Benjamin Constant com um só distrito, e a sede municipal mantém ainda o nome de Esperança. Essa denominação foi mudada para a de Benjamin Constant em 1934, por força do Ato Estadual n° 4344, de 31 de dezembro daquele ano.
Nas divisões administrativas de 31-XII-1936 e 31-XII-1937, figura o município de Benjamin Constant do Alto Solimões. Em 1938 passa a denominar-se comarca de Fonte Boa a comarca do Alto Solimões.
Em 1938 a sede do município foi elevada à categoria de cidade pelo Decreto-lei estadual n° 68, de 31 de março daquele ano.
Também em 1938, foi determinada, pelo Decreto-lei estadual n° 97, de 4 de julho do mesmo ano, a indenização dos terrenos desapropriados em Esperança, para que nele fosse instalada a sede do município. Ainda em 1938, deu-se a criação do distrito de Remate de Males, por força do Decreto-lei estadual nº 176, de 1º de dezembro daquele ano.
Em 1952, por força da Lei n° 226, de 24 de dezembro daquele ano, foi criada a Comarca de Benjamin Constant. Perdeu o município em 1955, por efeito Lei nº 96, de 19 de dezembro do mesmo ano, o distrito de Remate de Males que passou a constituir o novo município de Atalaia do Norte.
Nas eleições de 3-X-1955, foram eleitos para Prefeito, o senhor Antonio Braga, e para vereadores: Francisco Chagas de Almeida, Otávio de Souza Farias, Manuel Leão da Silva, Jovina Campos de Albuquerque, José de Souza Lima e Mário José Soares da Silva. Votaram 1391 eleitores.

terça-feira, maio 07, 2019

PROFESSOR ORÍGENES MARTINS


Padre-poeta L. Ruas

O falecido padre-poeta Luiz Augusto de Lima Ruas, que assinava seus trabalhos literários como L. Ruas, escreveu para todos os jornais de Manaus, existentes entre 1950-90. Ao rascunhar uma biografia deste poeta, acabei por olvidar do jornal A Gazeta, ou não tive acuidade para alcançar o período preciso.

Dias desses, no entanto, fui agraciado com páginas do autor de Aparição do Clown, nesse extinto matutino. Creio que ele o fez na temporada de setembro e outubro de 1963. Naquela circunstância ocorriam as eleições municipais, e um dos candidatos a vereador era o professor Orígenes Martins, diretor do colégio Christus. 
L. Ruas, amigo e eleitor do Orígenes, escreveu em sua coluna Ronda dos Fatos o seguinte panegírico, que vai lincado de A Gazeta (edição de 23 setembro 1963). Serve ainda como pequena autobiografia. As eleições ocorriam dia 4 de outubro, e acredito que o professor não foi bem-sucedido na política. Quanto ao colégio e outros empreendimentos, são outras histórias...

Recorte do artigo de L. Ruas - jornal A Gazeta, 1963
Creio chegada a hora de cerrar fileira em torno da candidatura do meu amigo o Professor Orígenes Martins. Venho, por isso, trazer publicamente minha contribuição de amigo e de eleitor à sua campanha que é minha também. Gostaria de fazer uma exposição de motivos que me levam a adotar a sua candidatura e, para isso, deveria abordar dois aspectos distintos  do meu candidato à Câmara Municipal: o primeiro, seria de caráter pessoal, focalizando o amigo; o segundo, seria de caráter público, focalizando o candidato. Ora, acontece que não serei capaz de realizar tal análise e separar dóis aspectos que, para mim, estão intimamente ligados e se confundem. Tentarei, portanto, fazer tal apresentação (se é que ela se faz necessária) dizendo do candidato o que eu sei do amigo.
1942 foi outro ano que ficou definitivamente fixado em nossa lembrança é em nossa vida. A partir de junho desse ano começamos a nos preparar para o exame de admissão que nos abriria as portas do Seminário São José que seria reaberto por D. João da Matta Amaral no ano seguinte como de fato o foi. No dia 19 de março de 1943 já éramos seminaristas e assistimos a reabertura do Seminário, solenidade que ficou marcada em nossas almas por um daqueles discursos incandescentes de D. João da Matta: “Se o Seminário de Manaus fechar de novo suas portas, eu irei como Agar para o deserto para não ver a morte do meu primogênito."
Em 1945, D. João da Matta inaugurava o primeiro pavilhão do novo Seminário na rua Emílio Moreira. Estávamos no terceiro ano do ginásio. Em 1948 concluímos o sexto ano. Éramos a primeira turma que seguíamos para o Seminário Maior.
Fizemos uma festa de conclusão de curso e foi nosso paraninfo o inesquecível Adriano Jorge que aí pronunciou seu “canto de cisne”, pois, dois dias depois, faleceu. Na véspera de sua morte o Orígenes foi à casa dele pedir o discurso. Ele ia passar a limpo. Depois nos entregaria...
A partir da esq. padres Ruas, Jorge Normando e Juarez Maia; 
desembargador André Araújo e professor Orígenes Martins,
no Seminário São José, ano 1962
Seguimos os cinco para Fortaleza. Cursamos Filosofia. No início do curso de Teologia ficamos reduzidos a quatro: Origenes deixava o Seminário. Foi uma surpresa e não teríamos aceito conformados se não soubéssemos se tratar de uma orientação segura e sincera como era a do Pe. Jorge Soares – um grande sujeito! A diferença de caminhos nos separou um pouco. Mas só fisicamente. A amizade era a mesma. Orígenes ingressou na Faculdade de Filosofia. Foi militante da JUC [Juventude Universitária Católica]. E conseguiu ser seu presidente. Tornou-se um líder estudantil.
Em 1952, eu segui para o Rio de Janeiro, a fim de concluir o curso de Teologia. Em janeiro de 1953 encontrei-me em São Paulo, no convento dos dominicanos onde fazia o noviciado um dos cinco, hoje, Frei Francisco Maria de Araújo, Prior do Convento das Perdizes que, recentemente, nos hospedou a mim e ao Orígenes. Foi um dos bons encontros da minha vida. Três caminhos diversos ligados pela amizade de vinte anos.
Àquela data, 1953, Orígenes viera de Fortaleza, por terra, ao lado do Roberto Carvalho Rocha, fundador do Instituto Christus de Fortaleza. Orígenes foi cofundador e o plano era fazer uma rede de institutos no Norte e Nordeste: pedagogia moderna e cristã.
Em 1954 nos encontramos, de novo, em Manaus. Eu estava concluindo o quarto ano de teologia e o Orígenes chegava de Fortaleza, para fundar o Instituto Çhristus do Amazonas. Idealismo! Largou uma porção de coisas boas lá em Fortaleza e veio pra cá. Cara e coragem. E só! Em agosto lhe nascia o primeiro filho, o Júnior. Em outubro, eu fui ordenado padre por D. Alberto Ramos. Como preparação para a abertura do Christus foi realizado um curso de Pedagogia. Finalidade: seleção de professores. E em fevereiro do outro ano, 1955, Manaus ganhava mais um colégio.
Depois tem sido muita luta. Quase sozinho, sem recursos, conservando ainda muito idealismo apesar das horas de desânimo diante das dificuldades que se amontoam, recomeçando sempre, Orígenes continua seu trabalho. Novo ainda, apenas, com um pouco mais de um lustro o Christus é, hoje, um dos colégios mais conceituados de Manaus. E indiscutivelmente Orígenes é um dos melhores professores de Manaus. Que o digam seus alunos do Instituto de Educação e da Faculdade de Fi1osofia. (De passagem, aos meus ex-a1unos do sempre lembrado IEA: o Professor Orígenes é o nosso candidato!). Nós que o conhecemos de perto, podemos dizer sem medo: é mesmo um professor por vocação assim como é um pai por vocação.
Mas nós não estamos lutando, unicamente, no desejo de uma vitória. Estamos lutando porque acreditamos na capacidade, na honestidade, na sinceridade do nosso candidato e de sua campanha. Não estamos acometidos pelo desespero da vitória. Não queremos uma vitória a qualquer preço. Queremos a vitória do Professor Orígenes pelo seu verdadeiro preço: o de um sufrágio consciente e democrático. Esta é a nossa luta. Este o nosso candidato. O meu candidato.

domingo, maio 05, 2019

TRANSPORTE COLETIVO

Recorte de A Crítica, 12 março 1969

Reprodução da legenda: 
Do impacto contra o caminhão 81-95, ontem, na av. Sete de Setembro, o ônibus da Transamazon 82-30, currupiou (sic) pelo asfalto e por pouco não despencou da 1ª ponte em baixo.  O pânico dos passageiros – estava superlotado - provocou inclusive a ação dos Bombeiros Municipais, que procederam a retirada dos usuários por uma porta de emergência do coletivo. O ônibus ficou além da sarjeta e em posição inclinada, faltando pouco para romper o gradeado e projetar-se dentro d’água.

Observações próprias:

Aqui vai um pouco mais sobre a evolução do sistema de transporte coletivo, ainda que copiando os desastres. Para tanto, reproduzo o texto do acidente que, como se lê da legenda, aconteceu sobre a primeira ponte romana, localizada entre as ruas Major Gabriel e Igarapé de Manaus. Vê-se que o coletivo já era de carroceria metálica, cobria a linha Colônia Oliveira Machado e se dirigia àquele bairro, conforme indica a placa em sua fachada, ao alto. E a avenida Sete então permitia o tráfego em mão dupla.
A reportagem pertence ao matutino A Crítica, de 12 de março de 1969.

sábado, maio 04, 2019

DELEGADO DO DIABO


Conheci o falecido Delegado de Polícia José Ribamar Afonso ao incluir na PM do Amazonas, devido nosso trabalho policial conjunto e, mais, em razão dele morar na avenida Getúlio Vargas, próximo à rua Henrique Martins, portanto, na ilharga do Colégio Estadual e do Quartel da Praça da Polícia. Ribamar era conhecido por dois realces: seu corpanzil e sua gaguez. Entusiasta da Revolução Brasileira (termo da época), participou da primeira turma de delegados da Polícia Civil. A Secretaria de Segurança Pública seria criada em 1970, até então as delegacias estavam subordinadas a Chefatura de Polícia, instalada na rua Marechal Deodoro.
Ribamar Afonso
Ribamar dirigiu a DSP (Delegacia de Segurança Pública), quando apurou a tentativa de homicídio contra o dono da Pensão Maranhense, José Figueiredo (outro acontecimento escabroso). E, posteriormente, ocupou a DET (Delegacia Especializada de Trânsito), ocasião em que recebeu o codinome de Delegado do Diabo.
O apelido veio da sua atuação enérgica, por óbvio, e na esteira da ação de outro Delegado de Trânsito, este no Rio de Janeiro, que na mesma época se destacou: coronel Fontenele.
Aposentado por motivo de saúde, passou a se ocupar com sua vasta coleção de revistas e da conversa com os amigos de passagem pela frente de sua residência.
O texto aqui compartilhado de A Crítica (12 março 1969) lança dois dedos mais de informações sobre o benfazejo “delegado do diabo”.

Recorte da reportagem mencionada

RIBAMAR: GANHEI INIMIGOS, MAS BENEFICIEI O TRÂNSITO
Falando aos jornalistas, ontem em seu gabinete, o Delegado José Ribamar Afonso fez ligeira explanação de sua gestão-relâmpago frente à Delegacia de Trânsito, onde ganhou inclusive a alcunha de “Delegado do Diabo” pelas campanhas diabólicas que encetou no tráfego da cidade. — Ganhei muitos inimigos — disse — mas a minha gestão pode ser comprovada no que fiz de bom em prol do pedestre e do motorista amazonense.
— Durante o período em que estive na DET, sinaleiros luminosos foram instalados e o tráfego no centro foi descongestionado. Isso sem contar com as faixas de segurança que criamos, e a resolução do crônico problema de linhas de ônibus, que agora transferimos para a Prefeitura.

“PARA-PEDRO”
Consumi (sic) muitos inimigos, mas deixo o Trânsito ciente de que fiz alguma coisa pelo povo, frisou o “Delegado do Diabo”. Mais adiante completou: Antigamente o motorista de táxi recusava o passageiro, dizia desaforos a este e ficava por isso. Hoje já é bem diferente, ou dá satisfação convincente ao usuário ou o conduz, sob pena de, ao contrário, ser denunciado à Delegacia de Trânsito". Quanto às multas estabelecidas às infrações dessa natureza, afirmou o “Delegado do Diabo” que nunca atingia o salário mínimo, “mas eram completadas com prisões de 12 horas”.

OPERAÇÃO “ESVAZIA PNEUS”
Esvaziei muitos pneus, e até de carros dos meus amigos — enfatizou. Todavia — continuou — sempre agi na forma da lei, combatendo os infratores que reincidiam sempre nos erros. "Puníamos sempre, e devem ser sempre punidos todo e qualquer carro estacionado na contramão, afirmou o Delegado Ribamar Afonso, que irá responder agora pela Delegacia de Segurança Pessoal. Todos os problemas — prosseguiu o ex-delegado de Trânsito — que eram criados por aqueles que se julgam donos do mundo, foram por nós solucionados dentro do direito, e comigo nunca houve contemplações para com quem quer que fosse.

“SHOW DE MÃO-ÚNICAS”
Para os céticos que não querem ver o problema pelo ângulo verdadeiro — argumentou o Delegado Ribamar Afonso — as mãos-únicas por mim criadas frente à Delegacia de Trânsito só serviram para tumultuar o tráfego dos veículos pelo centro da cidade. Porém, — continuou — o próprio povo ou mesmo os motoristas podem testemunhar os resultados benéficos que essas medidas trouxeram à cidade. Continuando disse que as mãos-únicas pela Av. Epaminondas, ruas Luiz Antony, Major Gabriel, Tapajós, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e, finalmente, pela Leovigildo Coelho foram as medidas mais bem acertadas que se poderia tomar há muito tempo no trânsito da cidade.