CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

sexta-feira, maio 16, 2014

ARMANDO: REI DO SOLOVOX



O texto aqui reproduzido pertence ao finado professor e magistrado Waldir Garcia, constante de seu livro À Sombra dos igapós (1987). Acrescento apenas que o personagem aqui revisto – Armando de Souza Lima – teve seu nome adotado no anfiteatro da Ponta Negra.

Recordando o “Rei do Solovox”

Anfiteatro da Ponta Negra. Foto de A Crítica
Uma das figuras admiráveis de meu tempo de ginásio, pelo talento musical que expandia precocemente, foi, sem vida, Armando de Souza Lima. Nascido em Manaus no dia 8 de setembro de 1923, Armando era filho do cirurgião-dentista Jaques de Souza Lima e de D. Ondina Mattos Lima.

Conheci-o no velho Ginásio Amazonense Pedro II. Era meu vizinho na av. Joaquim Nabuco, quando eu morava em casa de meu saudoso tio Francisco Barnabé Gomes, que neste 11 de junho completará seu centenário de nascimento.

Àquele tempo, Manaus não era um polo industrial fabricante de aparelhos sofisticados em sistema de som. As reuniões sociais da mocidade fazia-se em casas de família, animadas ao som do piano maravilhoso de Armando. Sua vocação artística se manifestou ainda em garoto, sendo um dos pioneiros da radiofonia amazonense, atuando na Rádio Baré, no programa "Voz da Bariceia". O esdio era o porão da casa de Lizardo Rodrigues, seu lançador no rádio.

Trabalhando e estudando aprendeu outros idiomas e isto lhe foi de grande valia. Ao tempo da Il Guerra Mundial foi contratado para intérprete dos americanos que aqui estavam a serviço da "Rubber Development Corporation".
Transferido para Belém do Pará, servindo como intérprete na Base [aérea] Val de Cans, colaborando no esforço de guerra, nos fins de semana apresentava-se em programas artísticos, interpretando números de piano, em espetáculos promovidos pelo U.S.O. para os soldados ali sediados.

Recebendo uma passagem do general Zacarias de Assunção, então comandante da Região Militar, viajou para o Rio de Janeiro. Ali Armando sofreu e teve que lutar muito para vencer, como acontece a todos aqueles que procuram os grandes centros em busca de melhor oportunidade. Dormiu em bancos de praças públicas, nos bondes, lutou, mas venceu.

Seu primeiro emprego na Cidade Maravilhosa foi na antiga Aerovias Brasil. Através apresentação passou a acompanhar cantores no programa "Hora do Comerciário", na Rádio Tupi, indo trabalhar em casas noturnas com o fechamento dos cassinos.

Foi visto então nas boates Chez-Aimée, Night and Day e Monte Carlo, participando ainda de um filme ao lado de Celso Guimarães, acompanhando Grande Otelo, na "Luz dos Meus Olhos".

Já consagrado pela imprensa da época, nos anos de 1946 a 1950, Armando aceitou proposta e foi para São Paulo, sendo visto em boates, cinemas (pela Sorocaba filmes na película "Não matarás") e rádio, ingressando mais tarde na TV Record. Na época fez as primeiras gravações com dois discos para a gravadora Copacabana. Seu nome já era realidade e tornou-se conhecido como "O Rei do Solovox", instrumento que o projetou.


Discos produzidos por Armando Souza Lima
 
Novamente no Rio de Janeiro, de onde sentia muitas saudades, Armando de Souza Lima adotou o pseudônimo de "Armando do Solovox", aceitando proposta de Carlos Machado para trabalhar outra vez no Night and Day.

A convite da VARIG foi para os Estados Unidos participar do Carnaval Brasileiro em Nova York, atuando em casas noturnas locais e nos programas de Mitch Miller Show da CBS (Columbia). Tem vários long-plays gravados, sendo conhecida em todo mundo a edição Columbia "Patrícia", gravada em 1959/1960 e agora fazendo parte integrante do elenco de músicas selecionadas no recentíssimo disco intitulado "Anos Dourados”, da Rede Globo. Vinculou-se à Odeon, na qual gravou uma série intitulada "Som de Boite", com Armando's Trio. Seu amor ao Rio de Janeiro é demonstrado no LP da Copacabana com a música intitulada "Rio".

Foi detentor dos troféus: "Homenagem da Mesbla", de 1970, recebido no Teatro Municipal como o melhor organista do ano; "Acumulada Musical", oferecido num programa de televisão pela gravação de "Patrícia", em 1959; Prêmio da “Cadena de Ias Américas", como recordista de sucesso em disco com "Patrícia", além de haver sido agraciado, em 1977, com o honroso título de "Cidadão Judeu Honorário", conferido pelo governo do Estado de Israel, ao ensejo das comemorações de 30 anos de fundação daquele Estado.

Casado com a Sra. Maria Lúcia, não teve filhos. Mas, sem dúvida, sua maior consagração pública foi a aprovação do seu nome para "Cidadão do Estado da Guanabara", requerido pelo deputado Sebastião Menezes, decisão unânime do plenário e que serviu de testemunho e prova de gratidão pelo muito que fez em benefício da nossa música, destacando sempre a cidade do Rio de Janeiro em todas suas aplaudidas apresentações.

Irmão de meus queridos amigos Adelson, Adson [que foi Delegado de Polícia], Eunice, Neide e Arinos, esse caboclo amazonense que se distinguiu lá fora, faleceu, para tristeza nossa, no dia 2 de maio último, na "Cidade Maravilhosa" que o acolheu e onde ele colheu os louros maravilhosos de sua vitória.

quarta-feira, maio 14, 2014

COMANDANTES-GERAIS DA PMAM


1.   PERÍODO PRÉ-PROVINCIAL | 1837-1852 (*)
Lugar da Barra, hoje Manaus, 1865
A Polícia Militar do Amazonas tem a sua inauguração como ocorrida em 1837, ao tempo da Cabanagem e, portanto, antes da elevação do Amazonas à categoria de Província. Com a denominação de Guarda Policial, esta instituição existiu independente em várias localidades amazonenses, sem que se conheça qualquer dado consistente de seus dirigentes. Por isso, é estranho e até implausível que se designe qualquer comandante.

2.   PROVÍNCIA DO AMAZONAS 1 | 1852 – 1876 

Instalada a Província em 1852, a presidência não conseguiu manter as Guardas Policiais encontradas por ocasião de sua independência. Por isso, estas subsistiram até o final da década de 1850. Também não se conhece o nome de qualquer dos comandantes. A Guarda Policial somente seria reativada ou inaugurada de fato e de direito em 1876.

Outra particularidade é que não há fotografia dos comandantes até 1889.
 

3.   PROVÍNCIA DO AMAZONAS 2 | 1876 – 1889

1.   Severino Eusébio Cordeiro,
tenente reformado do Exército | 1876-77 

Era natural do Pará e nascido em 1816. Incluído no Exército, como praça, aos 17 anos. Dois anos depois, irrompe em Belém a Cabanagem e, sendo “excluso” pelo governo intruso, apresentou-se em Macapá. Marchou pelo interior da Província paraense combatendo os cabanos, motivo decisivo para, ao retornar à sede, ser promovido a 2º tenente, em dezembro de 1839. Neste posto, passou destacado no Maranhão e por distritos do Pará, até ser transferido para a Guarnição do Amazonas, em novembro de 1851, aos 35 anos.

Desembarcou em Manaus junto com o primeiro presidente da Província, Tenreiro Aranha, de quem se tornou ajudante de ordens, na instalação desta província, em janeiro de 1852. No ano seguinte conquistou sua reforma, porém, seguiu servindo ao governo provincial e, mais que isso, residindo em Manaus.

Nessa conjuntura foi alcançado em maio de 1876, aos 60 anos, para inaugurar a Guarda Policial do Amazonas; na direção desta permaneceu até agosto do ano seguinte.  

2.   José Leonílio Guedes,
tenente do Exército | 1877 

Não há indicação de sua naturalidade, tão pouco o local de nascimento. Apenas que em 13 de agosto de 1877, a presidência da Província o nomeou comandante da Guarda Policial (GP), com o posto de major. Assumiu o comando no dia imediato. No mês seguinte, entre os dias 11 e 26, esteve em comissão nas cidades de Itacoatiara e Vila Bela (hoje Parintins). Mais adiante, no período de 11 a 18 de dezembro, esteve licenciado por motivo de saúde.

Nos afastamentos acima, respondeu pelo comando o capitão da GP Francisco Soares Raposo, natural do Maranhão, que serviu na Guarda entre agosto de 1877 e maio seguinte.

Em 18 de fevereiro de 1878, Guedes foi exonerado do comando da Guarda, “por conveniência do serviço público”.
 
(*) Parte de material sobre a história da Polícia Militar do Amazonas, em elaboração.

terça-feira, maio 13, 2014

NOVO RETORNO


Faculdade de Direito do Amazonas
Sem muitas promessas. Depois de novas broncas, pedidos e sugestões, retomei o Blog. Recomeço com um texto do saudoso escritor Waldir Garcia, que tudo sabia sobre o município de Silves (AM), onde nasceu.
No presente texto, Garcia relata a caminhada do finado advogado Perseverando da Trindade Garcia, que ainda hoje deve desfrutar de um recorde: completou a Faculdade de Direito do Amazonas, então na Praça dos Remédios, aos 70 anos.
Tive um prazer redobrado, pois fui contemporâneo do Perseverando naquele período. De fato, devido a idade, ele representava esse desejo de conquistar um troféu. Não se intimidava com os mais jovens e indagava aos mestres com aquele linguajar característico do interiorano amazonense. Outro colega, Mael Sá, sabia imitá-lo à perfeição.

 
Perseverante e Perseverando (*)

Uma das personalidades mais destacadas da família Garcia é, sem dúvida, o cidadão Perseverando da Trindade Garcia. Nascido em 10 de janeiro de 1903, na então Vila de Silves, filho do cidadão Raimundo Nonato
Garcia e de Dê Margarida Farias de Almeida Garcia, ambos amazonenses e já falecidos. Perseverando é
, na sua família, o exemplo típico do cidadão perseverante, firme, constante nos seus ideais, fazendo jus, assim, ao nome que acertadamente lhe foi dado por seu saudoso genitor.

Estudou o ABC com o professor Francisco Assis e Silva, um paraibano inteligente e culto, padrasto do desembargador Zózimo Severino de Leiros, que tinha, em Silves, no principio do século, uma escola particular, frequentada, dentre outros alunos, pelos silvenses Alcebíades de Leiros, AImerinda Garcia, Josefa Garcia, Francisco Afonso, Otílio Garcia e Zoroastro de Leiros.

Em 1913, Perseverando passou a frequentar a Escola Mista de sua terra natal, regida pela professora Zolima Marques Garcia, e a partir de 1914, matriculou-se na Escola Pública de Silves, regida pelo professor João Pedro Garcia, sob cuja orientação terminou seus estudos primários.

Concluindo o curso primário em 1919, foi nomeado interinamente para exercer o cargo de secretário da superintendência Municipal, no qual permaneceu até 1929, servindo, assim, a sucessivas administrações.
Em 1922 foi nomeado, também interinamente, agente do Correio, em cujo cargo conservou-se até 1935, após nele se ter efetivado. Com a transferência da sede municipal para a Vila de Itapiranga, em 1931, passou a exercer o cargo nesta localidade, onde contraiu núpcias com a prendada senhorinha Tereza Panza, de cujo consórcio houve 10 (dez) filhos: América do Sul, Auri, Maria da Graça, Maria Margarida, Álvaro, Lázaro Nazaré, Paulo José, Marcílio Dias e Perseverando da Trindade Garcia Filho, além de Aderbal.
 
Em 1935 candidatou-se ao cargo de prefeito, pelo antigo Partido Popular Amazonense, liderado por Álvaro Maia, tendo sido eleito por expressiva votação, assumindo o novo cargo em 1 º de fevereiro do ano seguinte. Com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937, foi mantido no cargo, do qual foi afastado em 1945, para voltar em 1946 e ser novamente afastado em 1947.

Em 1951 foi convocado para a Assembleia Legislativa, suplente de deputado que era, eleito pela legenda do Partido Social Democrático, no pleito de 1950. Em 1954 foi eleito vice-presidente da Assembleia Legislativa, e como tal assumiu duas vezes o governo do Estado, em virtude de impedimento do presidente, sendo a primeira vez eventualmente, em dezembro daquele ano, e a segunda, em caráter permanente, com a renúncia do Governador Paulo de Grana Marinho, em janeiro de 1955, tendo, inclusive, transferido o governo ao eleito Plínio Ramos Coelho.

Durante sua estada no interior do Estado, foi diretor do jornal O Alfinete, editado em Silves e de propriedade do jornalista Antônio Duarte Beltrão. Como Solicitador, apaixonado que sempre foi pelo Direito, advogou nos termos de Urucará, Urucurituba, Silves e Itapiranga.

Foi desportista, fundador do Saracá Futebol Clube, de sua terra natal. Quando moço, foi o "almofadinha” de sua terra, tal a elegância e o aprumo do trajar.

Sua grande meta era bacharelar-se em Direito. Perseverou, e muito, para alcançar' o seu grande ideal. Resolveu fixar residência em Manaus, e aqui, em 1969, termina o Curso de Madureza, feito no Colégio Estadual do Amazonas, e logo após matricula-se na 1ª série da Faculdade de Direito da Universidade do Amazonas, onde se graduou em Direito, em 1973, aos 70 anos de idade, como o mais idoso dos formandos de sua turma. Presentemente é advogado militante, inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, Seção do Amazonas sob nº 692.

Perseverando perseverou tanto, que medrou graças à sua perseverante atividade, várias posições: secretário da Superintendência Municipal, agente do correio, prefeito municipal, deputado estadual, governador do Estado, advogado.

É este cidadão simples, modesto, perseverante, que atende pelo nome de Perseverando da Trindade Garcia, que completa 80 (oitenta) anos de idade no dia 10 do mês fluente, sob o calor da amizade de sua esposa e filhos e os aplausos carinhosos de seus parentes e admiradores.
 
(*) Extraído do livro À Sombra dos Igapós, publicado por Waldir Garcia, em 1987. Por isso, não sei indicar a data do falecimento de Perseverando Garcia.