CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, novembro 04, 2012

IMAGENS DE CANUDOS


 Para ilustrar a série que iniciei ontem sobre a Campanha de Canudos, vou usar material do livro Canudos: Imagens da guerra, Rio: Museu da República/Lacerda Editores, 1997, que reproduz “os últimos dias da Guerra de Canudos pelo fotógrafo expedicionário Flávio de Barros”. Ainda outro, o trabalho em quadrinhos do artista Parlim, A Guerra de Canudos: a epopeia de Antônio Conselheiro. São Paulo: Ponto e Letra, 1997.



sábado, novembro 03, 2012

PM DO AMAZONAS & CANUDOS (1/5)



Gravura existente no memorial de
Antônio Conselheiro, em Canudos
Decreto governamental estabelece que a Polícia Militar do Amazonas relembre, em 8 de novembro de cada ano, o retorno de sua tropa expedicionária a Canudos (BA). A determinação vai ser cumprida, na quinta-feira 8, quando esse evento completa 115 anos.

De minha parte, autor de Cândido Mariano & Canudos, a fim de repassar o envolvimento da força estadual amazonense no conflito, vou reproduzir em cinco capítulos o trabalho que organizei para o Museu Tiradentes.


  1. AS ORIGENS DO MOVIMENTO SOCIAL
Episódios bem distintos associaram-se na produção da Campanha de Canudos (BA), apesar de Canudos localizar-se no agreste sertão do estado da Bahia. Aquele arraial não era assim denominado, pois o fundador preferia Belo Monte; por isso, ambas as denominações perpassam a história do conflito armado. Antônio Conselheiro, nascido em Quixeramobim (CE), na metade do século XIX, foi o fundador; a Força Terrestre, o devastador, para isso empregaram quatro expedições, na última das quais conta-se a participação do Amazonas. Além do empenho dessas forças, empenharam-se naquele sítio frades capuchinhos e políticos baianos e, na então Capital Federal, intelectuais e políticos e a imprensa ali sediada. A Justiça igualmente contribuiu para a peleja, quando certo magistrado se intrometeu às avessas.

Algumas dificuldades brasileiras de antão: em 1888, a princesa Isabel extinguiu a escravidão negra no Brasil. Sem qualquer preparativo ou cuidados básicos, os beneficiados se viram desagregados: sem patrões e chibatas, mas sem empregos e moradia. De repente souberam de um acolhimento que, conta a lenda, seria um local de “cuscuz e leite”. Localizava-se às margens do rio Vaza-Barris, favorecido por um entroncamento de caminhos ligando o sertão baiano: o Belo Monte do Conselheiro. O extinto Canudos. 

Ali se achegou respeitável número de negros emancipados. No ano seguinte (1889) desabou o Império e, com isso, a mudança do regime. O regime republicano, contudo, foi consolidado à força.  As Forças Militares, preparadas para se ombrear em defesa da “ordem e progresso”, em alguns episódios estiveram se enfrentando. Por ocasião de Canudos, Prudente de Moraes (1895-99) presidia o País. Fora o primeiro presidente civil; mas, os militares e outros saudosistas do imperialismo destacavam a incompetência deste presidente. 

A religião católica dominava fortemente a crendice da população brasileira, com total prestígio nos brejos e descaminhos do País. Servia tanto para o controle social quanto político. Foi esse prestígio que a Igreja tentou, quando, em 1895, dois emissários do bispo da Bahia abriram as Missões, em Canudos. A pregação religiosa conflitou com a religiosidade prática inerente àquele tempo, com a orientação do Conselheiro.

Bastante conhecido por reformar cemitérios, opondo-se à decisão dos dirigentes da República que retirou este serviço da Igreja e o passou ao encargo do Estado. Mas, a ele também se atribuía a reforma e a construção de igrejas. Outro fato proeminente era sua condição de atrair devotos, que o seguiam, acampando em propriedades de terceiros, em caminhadas por municípios, em território sem estradas ou caminhos, apenas demarcados pela passagem de animais de carga. Como era reconhecido, Antônio, primeiro foi beato, depois, dispondo de barba esbranquiçada e longo traje, e apoiado em bastão, conquistou o topo da hierarquia: Conselheiro. Com essa dignidade, faleceu em Canudos (1897).

* * *

Tal qual o País, também o Exército passava por uma reformulação, que ainda curtia os princípios estratégicos da Guerra do Paraguai (1865). Estava defasado tanto em estratégia quanto em mobilização. Certamente, por esses predicados, foram desperdiçadas tantas vidas e vitalidade em quatro expedições.  E, talvez por isso, tenham os governantes da Bahia, o governador e o comandante do Distrito Militar, disputado o poder sobre a diligência militar. Resultado: a Segunda Expedição foi derrotada muito mais pelos desacertos dessas autoridades. No mesmo sentido, as polícias estaduais que foram apenas consignatárias.

A imprensa sediada no Capital Federal, ou melhor, na Rua do Ouvidor, ampliava o problema, olhando como segue acontecendo de longe. E, de bem distante. Talvez, saudosistas do militarismo dos primeiros dias da República impuseram o comandante da terceira e desastrada expedição: coronel Moreira Cesar. Quase no mesmo quarteirão localizava-se o Poder Legislativo (Senado e Câmara) do Brasil. Local de discussão apregoava o temor do retorno ao poder imperial, atribuindo ao Conselheiro esse poder. 

A derrota de Moreira Cesar, comandante da Terceira Expedição, causou uma comoção no País. Era preciso vingança. Era necessário destruir os conselheiristas ou jagunços, entre tantas alcunhas concebidas. De Norte e do Sul levantaram-se as vozes e forças para a retomada das ações. O Governo Federal toma para si a empreitada e designa um general para o comando. Desafortunado, o Exército cuidou de melhor aparelhar a investida, organizar a campanha. Assim, duas colunas foram organizadas contra Canudos. Naquela, saída de Aracaju (SE), estava presente o major Constantino Nery, nosso conterrâneo e futuro governador do Amazonas (1904-07).
Alguns Estados, especialmente os governados por militares, prontificaram-se em colaborar com recursos humanos e financeiros.  O Governo Federal já denunciava expressivo déficit com as operações executadas contra Canudos. Deste modo, entre tantos oferecimentos, a presidência da República aceitou a cooperação dos estados da Bahia, do Amazonas, do Pará e de São Paulo. A Bahia, porque estava envolvida desde o primeiro instante, afinal a peleja se desenrolava no seu território; os estados do Norte puderam agir dessa maneira coadjuvados pela riqueza que a borracha proporcionava; e São Paulo, que já começara prosperar com a cafeicultura, dava os primeiros passos rumo ao progresso que hoje indiscutivelmente assegura. (segue em 2/5)

DIA DOS FINADOS




Vista parcial da torre da capela do
cemitério de
São João Batista, 2010
Cometi ontem um pecado mortal, por não ter comparecido aos cemitérios para reverenciar os meus e outros mortos. Não encontro justificativa.  Preocupei-me com assuntos diversos desse cerimonial... e acabei por transferir a visita para amanhã. No entanto, o day after não vale, ou se antecipa ou se vai no dia mesmo. Trata-se da única visita anual, e eu indesculpavelmente falhei.
 
À noite, quando engrossava a lotação dum shopping, recebi a penalidade. Ao efetuar o pagamento, a jovem atendente, vendo o alvoroço da casa de consumo comentou comigo a perda da tradição dessa data tão significativa. Não alimentei a conversa porque estava me sentido pecador, com obrigação de cumprir uma penitência.

Para remediar meus sentimentos e meu deslize, quero lembrar meus mais próximos mortos: a primeira sensação de perda foi a de minha mãe, Francisca Lima Mendonça, morta aos 34 anos, de tuberculose pulmonar. Aconteceu em 1952, sem que ela conhecesse qualquer antibiótico que, talvez, pudesse adiar a visita da “rasga mortalha”.

Em 1961, morreu minha avó Victoria Malafaya, peruana autêntica, nascida no beiradão do rio Solimões peruano. Foi sepultada no São João, na mesma cova da nora.
Depois, o câncer atingiu a minha madrasta, Dona Dora, de quem já comentei em posts anteriores, e a quem agradeço sempre o apoio incisivo recebido.
Mais recente, e a dor parece ser ilimitada, aconteceu a morte de meu filho Roberto, também aos trinta e quatro anos, que foi se juntar às avós.   

Lendo Baú de Ossos de Pedro Nava, saudoso médico que, ao inventariar suas memórias, assim descreveu o velório de José Nava, seu pai:

(...) Esperando a entronização que não tardou da essa, dos tocheiros e do caixão de veludo agaloado. Naquela altura ele ficou distante, transmudou-se na coisa além das afeições, das convenções, dos contratos, das reciprocidades. Não podia dar mais nada. Receber mais nada. Nada. Não ser. Não ter. As  expressões automáticas ainda lhe atribuíam, irrisoriamente, as últimas possibilidades de posse. O caixão dele, o enterro dele, a sepultura dele – mas nem isso! Porque ele era do caixão, do enterro, da sepultura perpétua. Perpétua? Perpétua é a Morte. A dona é a terra...


 

quinta-feira, novembro 01, 2012

PARÓQUIA DE EDUCANDOS

Pe. Plácido, no palanque da
igreja de madeira,
antes da atual, 1942
Este bairro marcou em diversas oportunidades e formas sua presença na evolução de Manaus: a denominação, proveniente da escola dos educandos artífices; a mudança de nome para Constantinópolis, que não colou; pela “estrada”, hoje avenida Leopoldo Peres, aberta pelos moradores; pela presença do padre Antônio Plácido e suas metáforas, nem sempre religiosas; pela exuberância da Baixa da Égua; pelo cine Vitória e outros canais de diversão, estes pouco condizentes com a tradicional família educandense, os “inferninhos”.

Dom João da Matta
Para lembrar a instalação da paróquia de Educandos, sob a proteção de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, e, óbvio, pequeno relato da história do bairro, reproduzo o texto encartado no Suplemento, comemorativo das festas jubilares da Diocese de Manaus, em 1946. Nesse ano e na vizinhança dessa igreja, eu nasci.

Até 1941, o bairro operário de Educandos teve a sua vida religiosa ligada à da paróquia dos Remédios, de que era curato. Estendia-se, então, até ali, a jurisdição daquela paróquia, atravessando o igarapé de Educandos para, do outro lado, atingir a população operosa daquele extenso bairro.