CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

domingo, novembro 08, 2026

POESIA DOMINICAL (37)

 "VELHOS TEMPOS" era uma coluna escrita pelo saudoso André Jobim, circulada em O Jornal, que transcreveu este poema na edição de 27 de janeiro de 1963, com as devidas explicações.


A página poética de hoje é dedicada ao velho e saudoso poeta, já falecido, Júlio Olímpio da Rocha (o Catingueira), publicada em seu livro de poesias “Ocaso”, em 1933, e que, nos foi gentilmente presenteado por um amigo dileto, que também partiu para o Oriente Eterno — Octávio Pires, com a seguinte dedicatória: "Para o André Jobim, brilhante espírito e ótimo amigo, com a homenagem sincera do Octavio Pires." Manaus, 29.11.1946. 

— Eis o magnífico soneto:

 


O demo da cabocla era um feitiço,

Ditoso aquele que a possuísse um dia;

Porém, no amor, se lhe falavam nisso,

Voltava as costas e a sorrir fugia.

De redondos quadris, tronco roliço,

Um cheiro à priprioca rescendia,

E o seio farto e ereto em pleno viço,

A volúpia da raça prometia.

Dos lábios grossos os cheirosos pomos

Deixavam ver entre dois rubros gomos

Minúsculo teclado de marfim...

Nos olhos prometia o paraíso,

Mas ai! nos dava o inferno num sorriso,

Nunca mais encontrei mulher assim!

sábado, novembro 07, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER

         A apreciação sobre a cidade foi  realizada pelo Ramayana, quando este conduzia a secretaria de Administração do governo de Gilberto Mestrinho (1959-63).



DOIS PESOS...

A GAZETA, 25 de agosto de 1961

O que caracteriza o regime democrático é o tratamento igual, perante a lei, para com todos os cidadãos da República. Os que lutam pelo pão de cada dia e os que lutam pelo dia de cada pão. Pobres ou ricos, todos merecem, igualmente, da autoridade pública. Existe em Manaus, a mentalidade estreita de combate ao rico, ao próspero, não por ser ele um intermediário encarecedor, um explorador da energia proletária, mas por ser ele uma pessoa que “vive bem”. Esse despeito, perfeitamente burguês e detestável, se estende também ao bairro onde ele mora.

            Quando se visita uma cidade, percorre-se a zona operária e os bairros elegantes, conjuntamente. Do antipodismo de ambos se mede a civilização urbana. Um dos passeios mais agradáveis, no Rio de Janeiro, é visitar o Alto da Boa Vista ou o “New Leblon”, onde aves majestosas arrulham pelos jardins e a sombra é uma cortina de sonho para os olhos. Também se visita, de longe, a favela do Sacopã ou a da Catacumba, do ponto de vista turístico ou refalsado, como o daquele fotógrafo norte-americano que, sendo colored, em vez de focalizar a vida miserável dos negros do Sul dos Estados Unidos, preferiu fazer sensacionalismo nas nossas favelas. Em São Paulo, que visão magnifica é a do Jardim América, a do Jardim Europa e a do Jardim Paulista, para quem visita a “Supercap”! O prefeito bandeirante olha, com especial carinho, para o bairro dos que pagam impostos mais altos, para os faubourg dos que alimentam a caixa baixa da municipalidade.

Aqui, não. Temos um exemplo em Adrianópolis. Belas residências, lugares que fariam inveja a muita cidade tropical de outras bandas. Talvez Alger la Blanche [Argel, capital da Argélia] não possua tanto encanto bucólico em seus recantos, como a nossa tão esquecida Adrianópolis. Já não quero lembrar o seu batismo, que recorda um dos mais ilustres, sábios e humanitários médicos deste país. Pensemos, mesmo, na velha Vila Municipal, tabuleta de bonde, no tempo em que se viajava à noite, para poder dormir... Ali estão as mais belas residências da cidade. Ali se acumulam as maiores sujeiras sobre as calçadas, num abandono lastimável.

Houve um tempo, em que um dos nossos prefeitos, tão ardente como inconsequente, mandou asfaltar, na Vila, uma das poucas ruas que o são por aquelas bandas. Morava nessa via, um cidadão de quem ele não gostava. Então, o governador da cidade deu as suas ordens: asfalte até o número tal, pule a casa desse cachorro, e recomece a asfaltar depois dela... Resultado: no meio da rua pavimentada, havia uma buraqueira, um lamaçal de causar dó! Os carros preferiam evitá-la, frente ao lagamar que ali se avolumava.

Não se dorme na Vila, por causa da onda permanente de mosquitos, vindos das sujeiras empoçadas, das latas com água, das bacias velhas, das imundícies. Um capinzal triste contrasta com os bangalôs de belo estilo, com as residências suntuosas, que dariam à cidade um cartaz sedutor. Mas, pobre do bairro de Adrianópolis: ele é rico! Ali moram os capitalistas da urbe, os que sustentam, com os seus impostos, à própria municipalidade. Por incrível que seja, ali residem o prefeito da capital e o chefe das pavimentações. Mas há um mistério agindo contra a Vila. Agora mesmo, como seria interessante mostrar aos visitantes que, às centenas percorrerão as nossas ruas, durante a fase presidencial, um bairro inteiro asfaltado, iluminado, de lindas casas, como a demonstrar o bom gosto da gente baré!

Existe ali uma rua, a Natal, que nenhum motorista de praça quer enfrentar, receoso das molas e da segurança do seu carro. Dos capinzais surgem galinhas, porcos, cavalos em atitudes suspeitas, cabras e, pasmem os leitores, até gente, mais ou menos aliviada. Poderíamos ter ali o nosso Jardim Amazônico, as calçadas largas, ajardinadas, a pavimentação generalizada (que não é tão grande a Vila), mostrando ao viajante fatigado de casebres, o caminho luminoso para o Acapulco, onde se deixa o dinheiro e traz uma centelha de olhar bendito. Asfalta-se uma porção de bairros sem o menor atrativo turístico, sem a menor significação urbana, a não ser a demagogia eleitoreira, bairros onde o asfalto é sistematicamente arrebentado, porque ali não há esgotos, e a água solapa o solo. O que não fariam os habitantes da Vila Municipal, nas suas casas, nos seus jardins, nas suas fachadas, se assistissem a um pequeno esforço da Prefeitura com o seu conjunto!

quinta-feira, novembro 05, 2026

SOL DE PRIMAVERA

 

Renato Mendonça

01.11.2026

 

Às vezes, à revelia da própria razão, certos acontecimentos gravam-se em nossa memória como inscrições numa lápide de um familiar. O tempo passa, envelhecemos e as paixões arrefecem, os fatos se reorganizam em novas perspectivas, mas algumas imagens permanecem incólumes. A disputa presidencial de 25 de outubro certamente ocupará um lugar entre esses episódios destinados à lembrança coletiva.

Mais do que números, pesquisas ou discursos, o que permanecerá será a galeria de imagens humanas que emergiram das urnas. Brasileiros e brasileiras de todas as idades, vindos dos rincões mais distantes deste país-continente, enfrentaram obstáculos físicos, geográficos e econômicos para exercer o mais simples e mais poderoso dos direitos: votar.

Passada a temperatura dos embates eleitorais, as redes independentes continuaram revelando cenas que pareciam retiradas de um documentário sobre a obstinação humana. Homens e mulheres que não haviam participado do primeiro turno decidiram fazer-se presentes. Muitos percorreram longas distâncias, outros enfrentaram limitações severas de locomoção, mas todos pareciam movidos pela mesma convicção silenciosa: a de que nenhuma democracia se sustenta sem a participação de seu povo.

A História conhece momentos semelhantes. Em 1968, a chamada Primavera de Praga floresceu no coração da Europa como uma esperança de renovação política e social. Seu florescimento, porém, foi interrompido pelos tanques soviéticos. Nem por isso sua memória desapareceu. Como as sementes carregadas pelo vento, certas ideias sobreviveram mesmo quando esmagadas pelas circunstâncias.

Entre nós, houve também uma primavera cívica memorável: as Diretas Já. Em 1984, milhões de brasileiros ocuparam ruas e praças exigindo o direito de escolher diretamente o presidente da República. A emenda constitucional, idealizada por Dante de Oliveira, que materializaria esse desejo não foi aprovada, e as eleições de 1985 ocorreram de forma indireta, resultando na escolha de Tancredo Neves por um Colégio Eleitoral. Mas, o movimento abriu as comportas da redemocratização e ajudou a conduzir o país ao reencontro com as liberdades políticas — consagradas na Constituição de 1988.

Quatro décadas depois, um novo despertar coletivo percorreu o país. Não era uma multidão reunida em comícios monumentais, como em 1984, mas uma mobilização, instrumentalizada inicialmente por universidades públicas — com a UFF de Niterói, no Rio de Janeiro —, espalhou-se por bairros, sindicatos, associações, grupos culturais e comunidades religiosas. Como pequenos riachos correndo numa mesma direção, essas iniciativas acabaram formando um caudaloso rio.

Assim, coube à nossa juventude um papel especialmente notável. Estudantes de universidades públicas e privadas, seguidos por professores, artistas, intelectuais e trabalhadores de diversas áreas, transformaram a preocupação em ação concreta. Realizaram campanhas de conscientização, estimularam o alistamento eleitoral, incentivaram a participação de quem estava descrente e ajudaram a reintroduzir a política como assunto cotidiano. Não se tratava apenas de escolher um governante, mas de reafirmar valores democráticos que estavam ameaçados pelo desalento, pela desinformação, pela intolerância e pela promessa de entrega do país a governos estrangeiros — particularmente os EUA.

As imagens desse dia falam por si. Uma pessoa tetraplégica comparecendo para votar. Idosos enfrentando filas com paciência serena. Povos indígenas cruzando rios amazônicos. Ribeirinhos navegando por igarapés para alcançar suas seções eleitorais. Cada fotografia parecia acrescentar uma página ao documentário de um país que se recusava a entregar seu destino à insensibilidade. Cenas emocionantes e memoráveis.

Foi como se, depois de um inverno prolongado de divisões e incertezas, surgisse um inesperado sol de primavera. Não o sol que aquece apenas a paisagem, mas aquele que desperta mentes adormecidas ou alienadas. Um sol capaz de iluminar o valor da participação cidadã, de reacender a confiança nas instituições democráticas e de lembrar que a história de uma nação não é escrita apenas por seus governantes, mas principalmente pelo povo, quando este decide levantar-se e escrever seu próprio futuro.

Viva a Democracia!

segunda-feira, novembro 02, 2026

MEUS OITENTANOS (24)


1982 – constituiu o ano eleitoral que prenunciou o fim do regime militar no âmbito estadual. Em outubro daquele ano ocorreu a disputa pelo governo do Estado, em que Gilberto Mestrinho (oposição) saiu vitoriosos sobre Josué Filho, que na época exercia o mandato de deputado estadual. A Polícia Militar, todavia, vivenciou um período marcado por intensas questões políticas – ou, como se dia, de politicagem – um fenômeno que ocorreu em todo o Estado. O primeiro episódio marcante deu-se em maio, quando o governador José Lindoso renunciou ao cargo para disputar uma vaga ao Senado e, consoante a legislação, o vice Paulo Nery assumia a chefia do Executivo. No mês seguinte, Nery destituiu o comandante-geral, coronel Guilherme Vieira, em razão de desavenças administrativas relacionadas a atos do militar; Vieira foi substituído por outro militar EB, tenente-coronel Duailibe Mendonça, que teve a prerrogativa de consolidar a dinastia VO na Polícia Militar estadual. O coronel Guilherme, apesar de ter sido exonerado, manteve a residência na Vila dos Secretários, certa noite, telefonou-me solicitando que eu fosse buscar o coronel Cavalcanti e o acompanhasse até sua casa.

Governador Paulo Nery e coronel Guilherme,
na passagem de comando, no salão de honra da PMAM

Contactei o colega, que rejeitou categoricamente a visita, argumentando que o propósito do ex-comandante era abjeto: vingar-se fisicamente do governador Paulo Nery em razão de sua demissão do comando; em outras palavras, pretendia perpetrar um atentado contra o chefe do Poder Executivo. Cavalcanti ordenou-me: “Vá lá e desconverse”. Fui ao encontro nas últimas horas da noite e conversamos extensamente sobre o atentado que ele pretendia cometer. Eu, por minha vez, me sentia inquieto diante das sinistras implicações, em especial pelas minhas restrições legais. Em dado momento, propus-lhe que ele se candidatasse a deputado estadual, explicando que, no Legislativo, poderia aplacar aquela humilhação. Ao despedir-me daquele “inferno” e me afastar daquela insanidade, nunca mais ouvi falar daquele desequilibrado. 

Essa alteração na caserna desencadeou uma politicagem desenfreada; foi então que a “chapa esquentou”. Dualibe assumiu o comando com a promessa de pelejar – e, de fato, pelejou, pela vitória da situação (Arena), com a eleição do deputado estadual Josué Filho (1946-). Após essa proclamação, os quartéis da Força se inflamaram, sendo o comandante do Corpo de Bombeiros (então subordinado à PMAM) o principal opositor do “duailibe”. Tratava-se do tenente-coronel Cavalcanti Campos, mobilizou e liderou enorme adesão de oficiais e praças. Dessa forma, engajei-me na refrega opositora – ao lado de outros – em favor de Gilberto Mestrinho (MDB).

Os dois últimos oficiais EB comandantes da PMAM


Eu era o subcomandante dos Bombeiros, ou seja, o imediato de Cavalcanti; por determinação judicial, devia manter conduta irrepreensível, ou seja, comportar-me com cautela – no linguajar policial, “pianinho”. Como não se engajar na vida política de uma cidade tão politizada quanto as do Amazonas, que ansiava mudança? Para complicar, embora Gilberto Mestrinho (GM), antes governador e cassado, monopolizava o apoio popular, a disputa contra as forças governamentais em geral foi árdua. O quartel dos “homens do fogo” acabou virando um comitê eleitoral: sob o pretexto de orientar os subordinados sobre o voto, indicava-se o nome do candidato Mestrinho.

Almoçando no restaurante China,
que existiu na av. Getúlio Vargas,
em 5 setembro 1982

A progressão desse engajamento levou à direção a agendar uma reunião com nosso (!) candidato. Logo foi colocada à disposição a residência do Luiz Costa, o mais conhecido “lugar tenente” de GM, situada à rua Saldanha Marinho. Era noite quando as dependências foram tomadas, embora muitos simpatizantes continuassem do lado de fora. O candidato me convenceu de que venceria e reconheceu nossa atuação, assegurando que nos levaria ao paraíso, isto é, ao Palácio Rio Negro. Essa reunião motivou a abertura de um IPM, cujo presidente, coronel Câmara, era nosso admirador. Terminou em pizza! Quanto a mim, escapei por pouco da primeira encrenca, relativa à primeira desobediência ao juiz Bessa. (segue)

domingo, novembro 01, 2026

DIA DA DEMOCRACIA - 25 DE OUTUBRO


Renato Mendonça
25.10.2026


Às vezes a História parece gostar de pequenos gestos simbólicos que a “folhinha” nos oferece. Desses que passam despercebidos para muitos, mas que, quando notados, iluminam o sentido de uma época.

Você já se deu conta de que uma das datas mais decisivas deste século para a escolha dos rumos políticos do Brasil coincidiu exatamente com o Dia da Democracia?

Não se trata apenas de uma coincidência de calendário. Certas datas carregam memórias que atravessam gerações e resistem ao desgaste do tempo. O dia 25 de outubro passa a ser uma delas.

Foi nesta data, há 51 anos, que o regime militar produziu uma de suas mais perversas encenações. Nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo, tentou-se transformar em suicídio aquilo que era, na verdade, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

A mentira oficial, porém, encontrou um país que começava a despertar. A indignação rompeu o silêncio imposto pelos quartéis. Dias depois, a Catedral da Sé tornou-se abrigo da consciência nacional. Ali, diante de uma multidão estimada em oito mil pessoas, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright celebraram um ato ecumênico que unia as fronteiras dos credos religiosos. Era a própria dignidade humana reunida contra a violência do Estado.

A morte de Herzog ecoou muito além das redações. Alcançou estudantes, artistas, intelectuais, trabalhadores e cidadãos comuns. Transformou-se num divisor de águas. A partir daquele momento, a sociedade civil começou a reencontrar sua voz e a democracia, ainda distante, voltou a ser imaginada como possibilidade concreta.

Herzog deixou de ser apenas um jornalista e professor. Tornou-se símbolo, ícone. Seu nome passou a representar a resistência diante do autoritarismo e a defesa inegociável dos direitos humanos.

Cinco décadas depois, a História resolveu aproximar novamente os seus polos — mais de sessenta e quatro milhões de eleitores resolveram reconectar-se com a democracia. No mesmo dia em que a memória de Herzog renovava sua presença entre nós, os brasileiros foram chamados às urnas para decidir o futuro do país. Como se o passado murmurasse discretamente ao ouvido do presente, lembrando que a democracia jamais é uma conquista definitiva. Ela exige vigilância, participação e, sobretudo, preservação da memória.

Talvez por isso sejam tão comoventes as cenas vistas durante aquele processo eleitoral. A histórica mobilização dos estudantes de Niterói, convocando a sociedade à participação democrática; os idosos enfrentando limitações físicas; pessoas com doenças crônicas deixando o conforto e a segurança de suas casas para exercer o direito ao voto — um esforço humano de todos. Nas redes sociais multiplicavam-se imagens de esforço, esperança e compromisso cívico — comovente, extremamente comovente — que sensibilizaram o mundo.

Cada uma dessas pessoas carregava uma pequena chama. Isolados, pareciam gestos simples — palitos de fósforos acesos. Juntas, formavam a luz necessária para iluminar uma escolha coletiva.

A democracia vive justamente desses movimentos quase anônimos. Não apenas dos grandes discursos, dos líderes ou das instituições, mas também da disposição silenciosa de cidadãos que compreendem o valor de uma urna, de uma escolha e de uma responsabilidade compartilhada.

Por isso, recordar Vladimir Herzog é mais do que prestar homenagem a uma vítima da ditadura. É recordar o preço da liberdade. É reconhecer quantos foram perseguidos — tantos pagaram com a vida — para que hoje possamos divergir sem medo, votar sem tutela e sonhar sem censura.

Entre a tragédia de 1975 e a esperança renovada nas urnas, o dia 25 de outubro permanece como um lembrete poderoso: a democracia não nasce do acaso. Ela é construída todos os dias pela coragem de quem resiste ao autoritarismo e pela consciência de quem se recusa a esquecer.

Salve o Dia da Democracia!

POESIA DOMINICAL (25)

A arte deste domingo é de autoria do saudodo José das Graças Barros de Carvalho (foto) -  que foi advogado, poeta, jornalista, procurador do Estado do Amazonas até 1998; professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal e membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA). Nascido em Manaus, aqui faleceu em novembro de 2020, vítima da Covid-19. 


 

Circulado no Jornal do Commercio, 08 março 1970

 

Banana não ne [é] mercado de prata

assim como o mar não é de ferro.

É triste a chuva de papel sem pauta

que molha o povo brasileiro.

O papel em que escrevo o futuro

esteve dormindo na floresta.

Mas o povo não se cansa de amar

a vida de vidro que vive sorrindo.

O jornalista trouxe do Palácio a notícia

que o operário mordeu na face do domingo.

No Parlamento brasileiro não há pássaros

ensinando os congressistas.

O estudante vinha sobre o rio Negro

quando a tarde se despiu sobre a cidade;

não houve nenhuma flor capaz de transformar

em jardim a sujeira da Praia do Mercado.

Nasceram angústias na filosofia de Copacabana

em noites cariocas que inflamaram a Noção.

Esta é uma lição tirada da pedra

de João Cabral de Mello Neto