CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

segunda-feira, junho 22, 2026

FASCÍCULO (7)

 Quantos motivos havia para celebrar! O ano se renovava, e com ele o retorno à casa paterna e às obrigações policiais. Mas, sob o brilho das festividades, pairava também a sombra da incerteza: um comandante interino deixava no ar expectativas sombrias. Logo, porém, o coronel Maury Silva, mineiro de origem e amigo do governador Areosa, assumiu o comando. Trouxe serenidade ao corpo de segurança e marcou sua gestão com iniciativas firmes e acertadas.

No Seminário, em sessão do grêmio
literário (autor, ao centro) - 1963

Por minha vez, eu buscava horizontes além da farda. Intentei o curso de Direito na Fundação Universidade do Amazonas, sem preparo prévio, confiando apenas na tenacidade. O vestibular, cruel em suas provas eliminatórias, me deteve na terceira etapa, em Sociologia, apesar das lições recebidas do mestre André Araújo. Restava-me, então, seguir no labor policial, exercitando o ofício cotidiano da corporação.

Em julho, as férias me levaram ao Sul do país. Por economia, comprei passagens de ida e volta até Brasília, completando o trajeto de ônibus. A viagem de ida foi leve, com recreio no Rio de Janeiro e em Santos. Mas o retorno trouxe inquietações: o país respirava sob a repressão militar, e os sinais eram visíveis. Ao desembarcar em São Paulo, vi os destroços do atentado contra o DOPS. O ambiente nacional era de temor, marcado por notícias de sequestros e atentados. Mais grave ainda, em Brasília, estudantes ocupavam a universidade, e a força de segurança federal preparava-se para retomá-la.

Cheguei à rodoviária da capital no dia 28 e pernoitei em um quartel da Polícia Militar, que aguardava a ordem de desalojar os invasores. Ao amanhecer, fui conduzido ao aeroporto, pois ninguém sabia o que se seguiria. Embarquei à tarde rumo a Manaus, levando comigo as imagens dos escombros paulistas e da tensão em Brasília — um painel tormentoso para um jovem tenente caboclo.

No aeroporto, o burburinho crescia com a chegada de passageiros vindos da cidade, trazendo detalhes da operação policial. No horário marcado, um quadrimotor DC-4 da VASP — ou talvez da VARIG — ergueu voo em direção a Ponta Pelada. Ansioso por abraçar a família, recolhi minha mala, tomei um táxi da empresa do vizinho Almeida e segui para o Morro da Liberdade, onde me esperava a casa paterna. 

Eu e Graça (noivos) na inauguração da sede do
Fast Clube (1968)

À tarde, que prometia apenas o reencontro sereno, reservava-me um golpe cruel. Ao ingressar na rua Amazonas do bairro, percebi uma agitação incomum diante da porta de nossa casa. Desembarquei do táxi e, ao ver um pequeno caixão, pressenti a tragédia: era de criança. O coração se apertou quando Dona Dora, em prantos, abraçou-me e revelou a morte de meu irmão Ronaldo Cesar, levado pela doença aos onze meses. Da euforia do regresso, fui lançado ao abismo da perda, ainda mais dolorosa por não poder socorrê-lo.

Seu nome, como o dos demais irmãos, nascera de um sorteio familiar. Eu, distante no Rio, enviei por carta minha sugestão, que venceu. Era também o seu padrinho, privilégio que se transformou em uma ferida ainda maior. Inumado no cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, sua pequena sepultura se perdeu nas intempéries do tempo, apagada por minha desídia.

Como contraponto, na praça, aos fundos do quartel, o namoro floresceu em noivado e trouxe-me à convivência com a família dela. O patriarca, ausente em Porto Velho, não participava. Em casa, porém, meu pai não aceitava que um filho suburbano se unisse a uma jovem citadina. O mal-estar perdurou até o nascimento da primeira neta de seu Manuel, quando a vida suavizou as arestas. Reconheço, ainda hoje, minha falha por não ter recorrido ao coração materno de Dona Dora, minha madrasta.

No segundo semestre, viajamos a Porto Velho em busca do consentimento paterno para o casamento. A comunicação prévia exigia esforço: ligações interestaduais eram raras, feitas pela estação da Radional, precursora da CAMTEL, na rua Dr. Moreira. Após solicitar o serviço, aguardava-se o contato, e só então se entrava na cabine. Não se podia gritar: a telefonista era quem conduzia o diálogo.

Em Porto Velho, hospedamo-nos na casa de um sócio do futuro sogro, pois ele mantinha outra família. O contato com a futura esposa trouxe-me uma enfermidade: a catapora, que me marcou com cicatrizes que carrego até hoje. Entre febres e cuidados, preparei o casamento, marcado para 18 de janeiro, data do aniversário da nubente Maria das Graças Coutinho. Fomos à Igreja dos Remédios, levando os documentos, e ali se desenhou o próximo capítulo de minha vida. 

Natalício do autor (cima) e
ao lado do governador 
Henoch Reis (1976)


Num certo dia, retornei ao Seminário, levado pelo desejo de agradecer ao padre Juarez Maia os benefícios recebidos e de reencontrar os colegas. Vestia a farda, pois era dia útil e meu horário funcional me acompanhava. Convidaram-me a ministrar aulas no educandário, mas respondi com leve ironia: “só se for de ordem unida”. Entre risos e lembranças, confraternizei com os novos padres vindos de São Paulo, que conheci nos tempos do Seminário São José. A turma de seminaristas já se mostrava rarefeita, e pelos corredores corria o rumor do fechamento iminente — que se concretizou antes do fim daquele ano. Pouco depois, meu benfeitor transferiu-se para Porto Alegre, onde o visitei na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em breve despedida antes de sua partida definitiva desta vida.

Manaus, por sua vez, respirava os ventos da Zona Franca. O porto livre abria as portas para quinquilharias do mundo inteiro, e o centro histórico metamorfoseava-se em centro comercial. Comerciantes nacionais e estrangeiros prosperavam, enquanto o interior do Amazonas se esvaziava em êxodo. A cidade tornava-se atração turística, ainda que o encanto maior fosse a aquisição de produtos importados. Nesse cenário de desenvoltura, a instituição policial redesenhou seu papel, ajustando o policiamento às novas exigências de uma urbe em transformação.

O segundo semestre trouxe-me nova preocupação: o vestibular. Diante do insucesso anterior, frequentei um cursinho, dedicando atenção especial à Sociologia. A Reitoria, empenhada em ampliar o número de alunos, estimulava a entrada de policiais na universidade, acreditando que o êxito acadêmico fortaleceria a imagem da Força. A campanha foi vitoriosa: cerca de noventa por cento de oficiais e praças lograram aprovação.

Casamento, em 1969

Assim, inaugurei o ano de 1969 aos pés do altar de Nossa Senhora dos Remédios, unindo-me em matrimônio a Maria das Graças Souza. A recepção, singela, ocorreu na casa dela. A antiga desavença sobre o namoro impediu a presença de minha família, mas a vida seguiu seu curso. Para desfrutar da intimidade, ocupamos por duas noites um apartamento no Líder Hotel, na Avenida Sete de Setembro. Logo, porém, a recém-casada quis regressar à casa materna, saudosa do sabor caseiro e do carinho materno. Atendi ao seu desejo, afinal já me sentia incorporado à família dela, a poucos passos do portão dos fundos do quartel, por onde eu ingressava, facilitando a logística.

Após o casamento, enfrentei novamente o vestibular, desta vez na vetusta Faculdade de Direito da Praça dos Remédios. Na primeira semana de fevereiro, acompanhei pelo jornal o resultado, publicado sem alarde. Na prova de Sociologia, além da preparação própria, contei com a ajuda da colega Josefa, que me ofereceu uma “cola” discreta, fixada no fundo largo de sua bolsa. Obtive excelente classificação, mantida nos primeiros anos.

O ano de 1969, contudo, guardava ainda muito a relatar, começando pelo anúncio da gravidez de minha esposa — prenúncio de uma nova etapa, em que a vida se expandia e o futuro se abria em promessas venturosas. (segue)

 

domingo, junho 21, 2026

POEMA DE DOMINGO (9)

 O poema circulou em periódico da cidade, como era hábito de outrora. Lamento não dispor de qualquer dado sobre o autor, porque a publicação igualmente traz apenas o nome do autor e a filiação ao grêmio literário.

Circulado em O Jornal, 9 novembro 1958

    

A L E N T O

Joacy Sebastião dos Santos

(Do Grêmio Cultural "Coelho Neto")

 Batista, procurei em Finados teu jazigo,

Busquei incessantemente o lugar onde descansas,

Chorei lágrimas sinceras e puras de criança

Por não encontrar o sepulcro do amigo.

Viste, bem sei, a claridade das velas a iluminar noite a dentro

Os demais túmulos, o Cruzeiro, tudo enfim;

No teu sepulcro nenhuma vela fez centro

Mas, Deus te tenha na Sua Glória assim. 

Examinei cruzes, li livros abertos, vi letreiros,

Procurei teu nome entre o dos Josés: 

Encontrei Oliveira, Clemente, Silva, Arteiro,

Só não encontrei Batista Gonçalves, quem realmente és.

Não encontrei teu ataúde... atribulado busquei-o ontem,

[hoje o dia inteiro.

Levei velas pra você, meu camarada,

Porém, como dos teus restos não encontrei nada,

Acendi-as todas no Cruzeiro. 

Nosso Grêmio, chefia o Paiva com desvelo,

Caro colega, venho alentar a tua fé,

Como pediste nos últimos momentos ao Campelo

Nossa Casa não descaiu, permanece de pé.

Recebe Batista, minhas saudades, minhas lágrimas que aqui vão,

Até quando os teus companheiros no dia do Juízo,

Possam unidos cantar no Paraiso,

A mais sublime e singela oração.

sexta-feira, junho 19, 2026

NA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

 Quem me reportou nas páginas do Jornal do Commercio foi o competente jornalista Evaldo Ferreira, a quem agradeço sensibilizado, até porque circulou no dia dos meus OitentAnos  



quarta-feira, junho 17, 2026

É HOJE: OI-TEN-TA-NOS

Demorou, mas chegou! Hoje – 17 de junho, dia São Manoel, o filho do seu Manuel e dona Francisca, o Manoel Roberto Lima Mendonça abre sua década dos 80 anos. Imaginei realizar uma extraordinária e longa festa; levei o ano passado imaginando as tantas recordações, as tantas publicações a distribuir, e outro tanto de encontros com os meus espalhados pelo país. Todavia, nada aconteceu, a precariedade do patrocinador levou à falência meus projetos. Resta-me a promessa de realizar esses desejos no decorrer dos 80.

Aniversariante do dia

Preparei, para celebrar minhas 70 primaveras, um book que narra os acertos e os equívocos vividos ao longo desse período. O banner que ilustrou o festejo, e que ilustra esta postagem, segue comigo como recordação dessa caminhada. Falando de Copa do Mundo: aos 4 anos eu estava no Rio com meu pai, que havia aceitado trabalho na construção civil no entorno do Maracanã. Nem ele nem eu entramos no estádio. Logo a família regressou a Manaus.

Banner dos 70 anos

Anos depois, aos 10, ingressei no internato em colégio de padres. Quantas angústias trouxe o afastamento da família nessa idade. Aos 18, troquei a sotaina pelo uniforme verde oliva e, um ano mais, adotei o fardamento caqui do quartel da Praça da Polícia, onde servi por trinta anos até me aposentar no último posto.

No quartel desenvolvi afeição pela pesquisa histórica e, consequentemente, pela publicação dos estudos. Priorizei inicialmente os feitos da corporação, editando as obras Candido Mariano & Canudos (por ocasião do centenário de Canudos), Guarda Policial (1º volume) e Bombeiros do Amazonas: retrospectiva, considerada meu melhor trabalho. 

Aniversariante multifacetado

Recebi dois prêmios pelas publicações sobre Adolpho Lisboa (Concultura) e Genesino Braga (Academia Amazonense de Letras). Simultaneamente, divulguei produções literárias do padre-poeta L. Ruas e do multiartista Anísio Mello. Sem esquecer Entre duas viagens, a biografia de meu genitor. Ah, e dirijo o Blog do coronel Roberto, desde 2010. 

Minha descendência já alcança as bisnetas, residentes em Brasília, e os filhos vieram de três casamentos que, sabe Deus, me abonaram saúde em geral para alcançar este nível da vida. Meus efusivos agradecimentos a quantos – indistintamente – contribuíram com esta conquista.

Deo gratias (Graças a Deus). 

 

segunda-feira, junho 15, 2026

MEUS OITENTANOS

 FASCÍCULO (6) 

 

A viagem rumo ao Rio de Janeiro — então Estado da Guanabara — poderia ter sido mais leve, não fosse a ordem implacável de seguir uniformizado e, pior ainda, com um sapato social recém-comprado que, em cada passo, me lembrava da crueldade do couro novo contra a pele desacostumada. Ao cair da tarde, desembarcamos no Santos Dumont: dois oficiais amazonenses, cansados, mas curiosos, e ali, como um porto seguro, já nos aguardava o major Hélcio Motta.

Saudoso Okada e eu, em tempo
de confraternização

Seguimos para Deodoro, onde a Escola de Material Bélico não tinha espaço para nos acolher. O major, generoso, nos conduziu até Sulacap, na Escola de Oficiais, onde passamos a primeira noite. Dias depois, enfim, consegui alojamento na própria Material Bélico, libertando-me da preocupação com transporte e alimentação. Ainda assim, as diárias pelo afastamento de Manaus continuavam a pingar — e eu, em silêncio, celebrava com meus botões: que maravilha! Era o primeiro curso fora de Manaus, estendido de março a dezembro de 1967, e não poderia ter começado melhor.

Explorando os arredores, reencontrei parte da família de minha tia Raimunda em Marechal Hermes. Conversas se reacenderam, memórias se entrelaçaram, e logo soube que outros parentes viviam em Santos, empregados na refinaria de Cubatão, em fase de ampliação. Foi o primo Francisco, o “Cote”, quem me guiou até o litoral santista, onde fui recebido com festa exuberante. A casa, repleta de filhos, pulsava de vida; sempre havia uma cama quente cedida por alguém, como se a hospitalidade fosse um ritual.

Essa rotina tornou-se quase um rito semanal: saída do curso ao meio-dia de sexta, chegada em Santos na madrugada, mergulho nos afetos e na alegria, retorno no domingo à noite, desembarque na Avenida Brasil já próximo à escola, na madrugada de segunda. O preço era alto: aulas massacrantes, o corpo vencido pelo sono atrasado. Mas a recompensa era maior — o deleite de pertencer, de estar entre os meus entes queridos.

O curso reunia oficiais das Forças Federais e das Polícias Estaduais. Entre eles, destacava-se a delegação mineira, cujo chefe me tratava como se fosse da própria família. O quartel, erguido diante da estação da Central do Brasil, oferecia o trem como companheiro habitual de deslocamentos. Eu o tomava para estudar, para circular pelo Rio, sem desprezar os ônibus que, até às 23h, ainda partiam do centro. O cobrador, figura incansável, acordava os dorminhocos aos gritos em cada estação — como se fosse guardião do tempo e da disciplina urbana. 

Diploma do Curso de 
Manutenção de Armamento


Minha participação no curso foi um desastre: terminei como o último colocado da turma. Duas razões se impunham com clareza. A primeira, técnica: até então havia manuseado apenas armas de uso pessoal, e de repente me vi diante de um currículo que exigia compreender canhões e obuses de grande potência, descrevendo seus mecanismos como se fossem familiares. O despreparo era evidente. Como se não bastasse, o capitão Imbuzeiro, carioca nato e dono de ironia afiada, sugeria que eu estudasse zarabatanas e flechas — armas dos indígenas amazonenses — numa zombaria que me feria, mas que eu suportava com resignação. 
Ainda assim, aceitei o desafio: era o único curso disponível, e eu não poderia recusar. 

A segunda razão era mais sedutora: o deslumbramento com a Cidade Maravilhosa e o reencontro com a família. Alguns viviam nas proximidades, outros no litoral santista. Os finais de semana, inevitavelmente, eram devorados por viagens a Santos, e o trajeto, embora prazeroso, cobrava seu preço em fadiga. A lembrança de casa e da namorada, mesmo à distância, pesava no coração e roubava energia.

Naquele tempo, as cartas eram o fio que ligava os ausentes. Eu escrevia e recebia com frequência, disputando com os colegas quem mais acumulava correspondências. Recordo-me de uma correspondente em Guajará-Mirim (RO), que escrevia com tanta ênfase que suas palavras pareciam atravessar fronteiras e rivalizar com o afeto dos demais. O telefone também era recurso constante: em frente ao quartel havia um orelhão, usado à noite para economizar fichas. Certa vez, o aparelho entrou em pane, mas continuava funcionando — e por dias transformou-se em palco de uma farra coletiva, onde cada ligação era uma vitória contra o acaso.

 

Na casa de tia Raimunda, os finais de semana tinham um ritual simples e encantador: diante do pequeno aparelho de televisão, reuníamo-nos para assistir ao III Festival da Record, transmitido de São Paulo entre setembro e outubro. Torcíamos juntos por Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, que naquele instante impulsionava a carreira do jovem baiano. Encerrada a transmissão, seguia com meu primo Luiz Jorge — que viveu entre 1945 e 2016 — rumo ao caminho das Bocas, território de bares e bordéis vizinhos às Docas. Numa dessas noites, ao tentar abordar uma gaúcha avantajada, fui descartado com ironia: disse não gostar de “miniatura”. Desde então, confesso, guardo certa mágoa contra os baixinhos.

No Rio, aproveitei também os eventos festivos que a cidade oferecia. Estive na eleição de Miss Brasil, realizada no Maracanãzinho em 1º de julho, vencida pela representante paulista. Logo depois, assisti ao II Festival Internacional da Canção Popular (FIC), promovido pela recém-criada TV Globo. No encerramento, em 22 de outubro, vi Milton Nascimento consagrar-se ao interpretar Travessia, apenas com seu violão — um momento de pura revelação artística. Conheci ainda o Maracanã, palco erguido em 1950, ano em que a família Mendonça se aventurou no Rio sem visitá-lo. No Dia do Trabalhador, assisti ao clássico Flamengo x Santos, com Pelé em campo. Contudo, não consegui vê-lo com clareza: o jogo de portões abertos atraiu multidão, e eu, sem óculos, acabei relegado ao alto das arquibancadas. 

Em outubro, veio a promoção a 1º tenente, com o soldo melhorado. Em dezembro, a cerimônia de formatura trouxe constrangimento: ocupei o último lugar da turma. Apesar do esforço para superar os obstáculos do currículo, ao retornar à corporação, fui nomeado tesoureiro da instituição. Quanto ao armamento, jamais fui cogitado para aplicar os conhecimentos adquiridos. A aversão às armas, já presente, reforçou-se com o resultado escolar. Não era apenas comigo: outros colegas também não foram aproveitados. Os cursos fora da sede tornaram-se, em essência, uma forma de ampliar o soldo. 

Henrique Antonio,
meu irmão 


Chegou, então, o momento de regressar a Manaus. Mas a convivência com os parentes de Santos trouxe uma proposta tentadora: ingressar em atividade privada, deixando a Força amazonense. Cubatão fervilhava de oportunidades, com a refinaria
Presidente Bernardes
cheia de construções, onde meus primos trabalhavam. Não hesitei. A saudade da terra e da namorada que me aguardava pesaram na decisão. Sugeri ainda que meu irmão Henrique Antônio, em Manaus, viesse juntar-se à empreitada. Enviei-lhe a passagem, e poucos dias depois o recebi em Congonhas, conduzindo-o à casa da tia, que o acolheu com calor. Logo conseguiu emprego, construiu sua vida e, recentemente, estabeleceu-se em Lisboa, Portugal.

Desembarquei no Ponta Pelada trazendo na mala presentes e, nas mãos, dois vinis: um do Festival da Record e outro do francês Paul Mauriat, cuja orquestra era a sensação da época — ainda que eu não tivesse aparelho para ouvi-los. A família seguia no Morro, e eu me mantinha alojado no quartel da Praça da Polícia. Atravessei a praça Ribeiro Junior em busca da namorada e, assim, vi chegar o ano de 1968. (segue)

domingo, junho 14, 2026

POEMA DE DOMINGO (9)

 A arte deste domingo foi postada pelo Clube da Madrugada, produzida por seu presidente Jorge Tufic, com ilustração de Palheta, em coluna da agremiação em A Crítica, há 40 anos.

A Crítica, 26 maio 1986
    As árvores de mogno, a paineira

e a flor do mucunã,

testemunham que a pedra

é o modelo do olhar.

Maria Guilhermina esculpe com a luz

os contornos perdidos

que abrolham da terra.

O jaburu se interrompe

na cisma vertical.

As três bailarinas trocam de lugar

no espaço imaginário.

O movimento é visível

nas dimensões do objeto.

 

Uma família inteira de pedras

conversa neste bosque.

Algumas jazem, porém,

nem sempre factíveis ao tato

e ao som que revela

os ângulos internos da figura,

a visão de conjunto.

Mas são estas as formas

que já trazem, muitas vezes,

o olhar que nos falta.

 

E as mãos de Maria Guilhermina

enxugam simplesmente a ramela

dos seres que habitam

essas cavernas do átomo.


sábado, junho 13, 2026

HUMAITÁ - ENERGIA ELÉTRICA

 No final de julho de 1968, a cidade de Humaitá recebeu a visita do governador Danilo Areosa (1967-71), acompanhado de vasta comitiva para realizar a inauguração de diversas obras, sendo a principal o gerador de energia. A postagem foi retirada do jornal A Crítica.

Jornal A Crítica, de 22 julho 1968

O GOVERNADOR Danilo Areosa acenderá hoje as luzes de Humaitá, ao inaugurar sua Central Elétrica, que consta como solenidade principal a ser cumprido naquele município, no programa que inclui o lançamento da pedra fundamental da Central Radiotelefônica da CAMTEL e a visita à Jornada Pedagógica que a Secretaria de Educação, ali está realizando.

— PROGRAMA

Com duas horas de viagem, o governador e comitiva serão recebidos às 10 horas em Humaitá por uma concentração na Praça Benjamin Constant e homenageados com um almoço às 12 horas. Às 15, visitarão a Jornada Pedagógica que a SEC está promovendo para aprimorar os professores do Ensino Médio daquela região, presidindo logo depois o reinicio das obras do Grupo Escolar “Osvaldo Cruz”, de acordo com promessa anteriormente feita pelo Secretário Vinicius Câmara.

Uma hora depois, será lançada a pedra fundamental da Central Radiotelefônica da CAMTEL. Algumas ruas terão suas obras inauguradas até às 18 horas, quando o governador acionará a grande chave, fazendo brilhar as luzes de Humaitá. Um jantar e um baile tomarão conta da noite e o regresso será na manhã de terça-feira.

— COMITIVA

Está assim constituída a comitiva do governador Danilo Areosa: senador Álvaro Botelho Maia, dep. federal José Lindoso e sra. Amine Lindoso, dep. federal Raimundo Parente, dr. Antonio Vinícius Raposo da Câmara (secretário de Educação e Cultura), dep. estadual Anfremon d'Amazonas Monteiro (vice-presidente da ALE), dr. Sinval Gonçalves (secretário de Imprensa e Divulgação), cel. Themistocles H. Trigueiro (chefe da Casa Militar), cel. José Maury de Araújo Silva (comandante da PMEA), cel José Mauro Carijó (diretor do DERAM), dr. Wilson Aguiar (diretor do Departamento Administrativo do MEE), dr. José Lopes da Silva (diretor-presidente da Celetramazon), engenheiro Ernani Vilar Câmara (diretor-técnico da Celetramazon), engenheiro Nélson Silva (Celetramazon), engenheiro Paulo Sotero (Celetramazon) dr. João Wanderley de Carvalho (assessor da diretoria da CEM), prof. Júlio José da Silva (diretor-administrativo da CAMTEL), dr. Idalmir Monteiro (odontólogo da Secretaria de Saúde), sr. Hélio Marques Trigueiro (chefe do Gabinete do Sec. Fazenda) sr. António José de Mattos Areosa (assessor da REGEAM-GB) e sr. Mariano Mendez (fotógrafo oficial).



quinta-feira, junho 11, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO (2)

 A postagem expõe a segunda parte do trabalho sobre os oficiais nascidos no Ceará que estiveram no comando da Polícia Militar do Amazonas.

4. Camillo de Lellis Pacheco Amora - coronel PM graduado

19 outubro 1901 – 13 agosto 1902 (interino) 

Oriundo da capital cearense, onde nasceu em 15 de julho de 1863. Não há registro de quando desembarcou em Manaus, porém, sua iniciação maçônica ocorreu em 11 de dezembro de 1886, aos 23 anos, na Loja “Amazonas”. Dois anos depois, ingressou na Guarda Policial do Amazonas, como alferes (06 jul. 1888); e seguiram as promoções: tenente (29 ago. 1891); capitão (26 abr. 1892); major (1º nov. 1897) e tenente-coronel (29 out. 1898).

Algumas funções exercidas na corporação: capitão fiscal do 2º Batalhão (1897); ajudante de pessoa de governador Silvério Nery (1900 e 1904); comandante interino. Diversas atividades políticas: superintendente (prefeito) de Fonte Boa (1896-97); de Coari (1902); de Floriano Peixoto (1903 e 1905).

Casado com Raimunda Amora, era pai de Honorina e Marina Amora, nascidas na capital amazonense; estas jovens eram formadas em Odontologia pela antiga Universidade de Manaus, atual UFAM, e possuíam gabinete cirúrgico-dentário localizado na Praça dos Remédios, 5. Também se notabilizaram pelo ensino de piano e canto, diplomadas pela Escola Normal e Conservatório de Música do Amazonas.

Inexiste, todavia, foto e data do falecimento deste oficial nos arquivos da entidade. 

 

5. Pedro Vidal de Negreiros - capitão PM

07 outubro 1910 – 12 junho 1912 

Embora oficial intermediário, este capitão assumiu de fato o comando da corporação em face de um acontecimento marcial, que atingiu o governo do Estado. O episódio é conhecido na historiografia amazonense por “Bombardeio de Manaus”, ocorrido em 10 de outubro de 1910 (data singular: em 10.10.10). No entanto, a 7 desse mês o comandante titular foi reformado (diagnostico: arteriosclerose). Face à ausência do governador Antonio Bittencourt, a situação do Estado estava caótica, tanto que foi o desembargador Benjamin Rubim, no exercício do cargo de governador, que nomeou para o comando do Batalhão, em 28 de outubro, ao capitão Pedro Vidal de Negreiros.

Negreiros era natural do Ceará, filho de João Antônio e de Liberalina Barroso Vidal de Negreiros, nascido em 19 de maio de 1874. Foi incluído na Força amazonense como alferes em 08 out. 1896; tenente em 04 ago. 1898; capitão em 15 maio 1900. Tão logo assumiu o comando da corporação, foi promovido a tenente-coronel em 1º de novembro de 1910 e, finalmente, coronel enquanto exercia a chefia, em 26 de janeiro de 1911.

Deixou o comando no ano seguinte, mas permaneceu residindo em Manaus, onde veio a falecer aos 41 anos, em 30 de novembro de 1915. Encontra-se sepultado em jazigo existente na Quadra 09 e SP 7869 do cemitério São João Batista. 

6. José Onofre Cidade - coronel PM          

22 dezembro 1912 – 21 janeiro 1913 

Ilustre natural do Ceará, filho de José Joaquim Cidade Filho, nascido em 1875, a comandar a Polícia Militar do Amazonas, ainda que para tanto tenha promovido um festival de subversão da ordem. Sua inclusão na corporação aconteceu em 1896, na condição de soldado. Em 1899, foi promovido a 2º tenente; em 1903, 1º tenente; em 1908, capitão; em 1911, major; em 1912, tenente-coronel e coronel. Finalmente, agraciado com uma distinção incomum: funcionário público vitalício, em dezembro de 1912.

A questão primordial que o conduziu ao comando teve início com a eleição regional, que elegeu Jonathas de Freitas Pedrosa (1848-1922), a tomar posse no primeiro dia de 1913. Os vencidos na eleição, as vivandeiras políticas bateram no portão do quartel da Praça da Polícia. Atendidas, conseguiram aliciar alguns oficiais que, descontentes por motivos que nunca faltam em quartel, fizeram acontecer. Escolhido pela oficialidade, Cidade constituiu um triunvirato – com os majores João Fragoso Monteiro e Amâncio Clementino Fernandes – que, a 22 de dezembro, assumiu o comando da Força Policial, e, seguidamente, escorraçou o governador Antônio Bittencourt, em fim de mandato.

A insurreição perdurou por 48 horas, com o estado “governado” pelos oficiais insubmissos. Movimentação judicial oportuna pôs fim ao movimento, porém, na Praça da Polícia, a corporação prosseguia sob o comando do rebelado coronel Onofre Cidade. Empossado, o governador Pedrosa obviamente deparou-se com a Força Policial desestabilizada, fracionada e sob enormes suspeitas. Logo, em 23 de janeiro, promoveu a reorganização da corporação, expurgando os elementos sediciosos e nomeando novo comandante. Coronel Onofre Cidade faleceu em sua residência, em Manaus, a 1º de dezembro de 1936, aos 61 anos.

terça-feira, junho 09, 2026

PMAM - CEARENSES NO COMANDO

 No curso desta pesquisa certa indiscrição me conectou ao número de comandantes nascidos na província, hoje Estado, do Ceará. Trata-se do maior número de oficiais oriundos do mesmo torrão até a implantação do Governo Militar (1964), e óbvio que, após a Democratização, predominam os amazonenses. Vamos aos eleitos – são 11 –, alguns com acentuados registros, outros nem tanto. Esclarecendo que o acervo corporativo guarda quase nada, em particular dos primeiros que sequer legaram suas fotografias. Exponho o nome, o posto militar e o período de comando. Farei três postagens. 

Afonso de Carvalho

1.       João José de Aguiar - civil

    19 maio - 26 de julho 1880    

                 

Em 19 de maio de 1880, consoante a Portaria 162, Aguiar foi nomeado “cidadão comissionado no posto de major” comandante da Guarda Policial do Amazonas. Na verdade, trata-se de capitão da Guarda Nacional, por isso constitui no primeiro paisano a exercer esta função na Polícia Militar do Amazonas. Episódio semelhante ocorreria oito décadas depois, com a nomeação do advogado Francisco de Assis Albuquerque Peixoto, cujo comando exerceu no triênio 1959-62. Quanto ao primeiro, a corporação quase nada registra a seu respeito, afinal o lapso de tempo na chefia perdura até 26 de julho, exatos 67 dias! Deveras curtíssimo. Pode ser um dos muitos voluntários da Guerra do Paraguai que foram enviados para o Norte, para serem empregados pelo governo provincial.

Um apontamento indica ter nascido na província do Ceará, em 16 de junho de 1840; em outra fonte, ter migrado para o Amazonas e aqui servido como “escrivão da recebedoria provincial”, antes de alcançar a primazia de comandar a Guarda. Mais detalhes: nesse ano de 1880, Aguiar exercia o mandato de vereador da capital e, nessa condição, assinou a Ata de inauguração da Santa Casa de Misericórdia, em 16 de maio. Dias antes de ser escolhido para o comando da Guarda.

Catando aqui e acolá, foi-me possível montar o seguinte quadro: o comandante Aguiar casou-se com Idalina Alves de Aguiar e teve os filhos: João, José, Carlos e Beatriz. Com a morte dele (possivelmente em Manaus), a viúva e os filhos passaram à condição de pensionistas do Montepio Provincial, benfeitoria depois mantida pelo Estado. Tanto que são encontrados na lista de beneficiários com a pensão mensal de 50$000 (cinquenta mil-réis), em maio de 1905.

 

2.      Antônio Nunes Sarmento - alferes da Guarda Policial

31 janeiro - 04 fevereiro 1882 (interino)

                                        

Natural de Fortaleza (CE), nascido em 1861, era filho de Porfirio Nunes Sarmento, e possuía cabelos pretos e media 61 polegadas, cerca de 1m55. Antes de ingressar na Guarda Policial prestou serviço militar, tendo “sentado praça” em 4 de setembro de 1879. Logo na semana seguinte foi promovido a 2º sargento e, em 24 de maio de 1880, alcançar a graduação seguinte.  Em 31 de janeiro de 1882, é nomeado alferes da Guarda Policial e “presta juramento”, ocasião em que “entra em exercício” e assume interinamente o comando da Guarda. Deixa o comando quatro dias depois. Recolhi duas notas: uma boa – seu casamento com Joana Batista de Paula Sarmento, em 26 de novembro do mesmo ano. Outra, péssima – em 15 de janeiro de 1883, quase ao completar um ano na corporação, foi “demitido por conveniência do serviço”.

 

3.      Raymundo Afonso de Carvalho - tenente-coronel PM

08 agosto 1892 – 23 julho 1896

 

Nascido em Fortaleza, em 7 de setembro de 1862, Afonso de Carvalho foi um dos tantos nordestinos vitoriosos no Amazonas. Ainda em na capital cearense, ingressou no Exército em 1880, sendo transferido para Manaus quatro anos depois, para servir como soldado do 3º Batalhão de Artilharia a pé. Licenciado da Força Terrestre, foi incluído no Corpo Policial (hoje PMAM) na vaga de alferes-secretário, em 1887. Não mais parou. Ainda major, foi nomeado comandante da corporação, quando prestou apoio incomensurável ao governador Eduardo Ribeiro (maranhense), em luta contra forças federais que buscavam sua deposição. Promovido a tenente-coronel em 13 de outubro de 1893, Afonso de Carvalho permaneceu no comando do batalhão policial.

Retirou-se de Manaus depois de comandar o Regimento Militar do Estado no governo de Eduardo Ribeiro (1892-96) e de exercer a superintendência (prefeitura) de Manaus (1895-96), antes de assumir este encargo, foi aposentado no posto de coronel; foi Provedor da Santa Casa de Misericórdia e presidente da Sociedade Beneficente Cearense e, ainda, comandante superior da Guarda Nacional (1901-02). Pertenceu à Loja “Esperança e Porvir”, tendo sido seu Venerável em 1897. Eleito deputado estadual foi, na condição de seu presidente, chefe do Poder Executivo (1907-08), sucedendo ao governador Constantino Nery. Morreu no Rio de Janeiro em data desconhecida. A despeito de tanto sucesso, Afonso de Carvalho ainda não auferiu qualquer reconhecimento da Polícia Militar do Amazonas.