O
que caracteriza o regime democrático é o tratamento igual, perante a lei, para
com todos os cidadãos da República. Os que lutam pelo pão de cada dia e os que
lutam pelo dia de cada pão. Pobres ou ricos, todos merecem, igualmente, da
autoridade pública. Existe em Manaus, a mentalidade estreita de combate ao
rico, ao próspero, não por ser ele um intermediário encarecedor, um explorador
da energia proletária, mas por ser ele uma pessoa que “vive bem”. Esse
despeito, perfeitamente burguês e detestável, se estende também ao bairro onde
ele mora.
Quando
se visita uma cidade, percorre-se a zona operária e os bairros elegantes,
conjuntamente. Do antipodismo de ambos se mede a civilização urbana. Um dos
passeios mais agradáveis, no Rio de Janeiro, é visitar o Alto da Boa Vista ou o
“New Leblon”, onde aves majestosas arrulham pelos jardins e a sombra é uma
cortina de sonho para os olhos. Também se visita, de longe, a favela do Sacopã
ou a da Catacumba, do ponto de vista turístico ou refalsado, como o daquele
fotógrafo norte-americano que, sendo colored, em vez de focalizar a vida
miserável dos negros do Sul dos Estados Unidos, preferiu fazer sensacionalismo
nas nossas favelas. Em São Paulo, que visão magnifica é a do Jardim América, a
do Jardim Europa e a do Jardim Paulista, para quem visita a “Supercap”! O
prefeito bandeirante olha, com especial carinho, para o bairro dos que pagam
impostos mais altos, para os faubourg dos que alimentam a caixa baixa da
municipalidade.
Aqui,
não. Temos um exemplo em Adrianópolis. Belas residências, lugares que fariam
inveja a muita cidade tropical de outras bandas. Talvez Alger la Blanche [Argel,
capital da Argélia] não possua tanto encanto bucólico em seus recantos,
como a nossa tão esquecida Adrianópolis. Já não quero lembrar o seu batismo,
que recorda um dos mais ilustres, sábios e humanitários médicos deste país.
Pensemos, mesmo, na velha Vila Municipal, tabuleta de bonde, no tempo em que se
viajava à noite, para poder dormir... Ali estão as mais belas residências da
cidade. Ali se acumulam as maiores sujeiras sobre as calçadas, num abandono
lastimável.
Houve
um tempo, em que um dos nossos prefeitos, tão ardente como inconsequente,
mandou asfaltar, na Vila, uma das poucas ruas que o são por aquelas bandas.
Morava nessa via, um cidadão de quem ele não gostava. Então, o governador da
cidade deu as suas ordens: asfalte até o número tal, pule a casa desse
cachorro, e recomece a asfaltar depois dela... Resultado: no meio da rua
pavimentada, havia uma buraqueira, um lamaçal de causar dó! Os carros preferiam
evitá-la, frente ao lagamar que ali se avolumava.
Não
se dorme na Vila, por causa da onda permanente de mosquitos, vindos das
sujeiras empoçadas, das latas com água, das bacias velhas, das imundícies. Um
capinzal triste contrasta com os bangalôs de belo estilo, com as residências
suntuosas, que dariam à cidade um cartaz sedutor. Mas, pobre do bairro de
Adrianópolis: ele é rico! Ali moram os capitalistas da urbe, os que sustentam,
com os seus impostos, à própria municipalidade. Por incrível que seja, ali
residem o prefeito da capital e o chefe das pavimentações. Mas há um mistério
agindo contra a Vila. Agora mesmo, como seria interessante mostrar aos
visitantes que, às centenas percorrerão as nossas ruas, durante a fase
presidencial, um bairro inteiro asfaltado, iluminado, de lindas casas, como a
demonstrar o bom gosto da gente baré!
Existe
ali uma rua, a Natal, que nenhum motorista de praça quer enfrentar, receoso das
molas e da segurança do seu carro. Dos capinzais surgem galinhas, porcos,
cavalos em atitudes suspeitas, cabras e, pasmem os leitores, até gente, mais ou
menos aliviada. Poderíamos ter ali o nosso Jardim Amazônico, as calçadas
largas, ajardinadas, a pavimentação generalizada (que não é tão grande a Vila),
mostrando ao viajante fatigado de casebres, o caminho luminoso para o Acapulco,
onde se deixa o dinheiro e traz uma centelha de olhar bendito. Asfalta-se uma
porção de bairros sem o menor atrativo turístico, sem a menor significação
urbana, a não ser a demagogia eleitoreira, bairros onde o asfalto é
sistematicamente arrebentado, porque ali não há esgotos, e a água solapa o
solo. O que não fariam os habitantes da Vila Municipal, nas suas casas, nos
seus jardins, nas suas fachadas, se assistissem a um pequeno esforço da Prefeitura
com o seu conjunto!