CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

quarta-feira, abril 01, 2026

1º ABRIL - DIA DA MENTIRA

Duas notas verdadeiras nesta data excêntrica: a morte do padre-poeta L. Ruas (2000), ocorrida há 26 anos; a outra, o aniversário do mestre do pincel, desenhista e ilustrador Marius Bell (1950-).

Ontem, conversando com a filha Sofia sobre literatura, revi o livro Poesia Reunida, de L. Ruas, que organizei, e o padre Francisco Pinto mandou imprimir e distribuir. Lemos alguns poemas e relembrei a enfermidade que castigou ao Ruas e seu falecimento. 

Homenagem do Estado, situada no
bairro Zumbi III

L. Ruas nasceu e morreu no mesmo endereço à avenida Joaquim Nabuco, em imóvel ora em frente ao hospital da Samel. Em curto intervalo morou em outro endereço, na avenida Sete. Ao falecer, Ruas emocionou a cidade, e sua morte lembrou as Palavras à árvore morta, diria, seu epitáfio, escritas quando o autor era ainda jovem sacerdote:

Anos depois, isto é, há dois dias, ele [o fícus] sentiu que algo estranho sucedia dentro de si. Uma espécie de tristeza, uma agonia, uma angústia. O vento, novamente, sussurra-lhe aos ouvidos de folhas, já agora ásperas, que umas árvores haviam sido destroçadas, decepadas, mutiladas. E o fícus desprovido da inadvertência da mocidade, o fícus, abalado por tantos males, não resistiu à notícia. Sentiu que a seiva estacava dentro de seu tronco calejado pelas pedras duras do calçamento, sentiu que alguma coisa estava se rompendo e... com estalo de dor, tombou, abraçando sua rua, acariciado pelo vento que, absolutamente, não compreendia a razão do colapso. 

O professor José Seráfico dedicou uma memória ao autor de Aparição do Clown, cuja finalização transcrevo abaixo:

Não foi dado sequer o tempo de colher o fruto de seu canto. Tão cedo se foi, quando havia tanto a fazer – e a ensinar. Convenhamos que antes dos setenta anos deveria ser crime morrer. Talvez sua missão já se tivesse cumprido. Quem o saberá? Se a parca encerra em si mesma, além do luto e da dor dos que ficam, o simbolismo tão parco na mente dos sobreviventes, ela não nos terá poupado da coincidência com que às vezes se manifesta: Luiz Ruas, perseguido pelo golpe militar de 1964, deixou-nos na mesma data em que a ofensa cívica ocorrera – era primeiro de abril do último ano do século XX.

Pena que, nesse caso, não havia mentira. Luiz Augusto de Lima Ruas partia para nunca mais. 

* * *

Bell exibe o desenho
da estátua de Santo Antonio

A outra “mentira” é o aniversário do artista publicitário Marius Bell (1950-), pseudônimo de um ilustrador, desenhista e escultor regional, que realizou respeitosa caminhada artística pela nossa cidade, onde espalhou cartazes de cinema, enormes grafites e quadros pessoais, alguns me pertencem. Sua maior obra é a estátua de Santo Antonio, que se encontra altaneira à margem do rio Madeira, na cidade de Borba. Na ocasião, dom José, bispo da Prelazia local, permitiu-lhe decorar o interior da catedral. Ainda agora, o autor vangloria-se de ter pintado o Crucificado “sorrindo”. Acredita ser o único no mundo.

Enfim, Marius deixou em Manaus uma batelada de bons trabalhos. Marcantes. Lamento que tenha se mudado do bairro de São Francisco, onde morava, trocando-o pelas praias de Maceió (AL), onde já espalha suas bem-conceituadas obras e desfruta com a família de bons ventos marítimos.

Vida longa, meu camarada, que venham mais e mais trabalhos, para festejos de seus admiradores.

terça-feira, março 31, 2026

31 DE MARÇO - 62 ANOS DO GOLPE MILITAR

 Em 1964, estava encerrando o ensino médio, quando explodiu a revolta militar. Vinha acompanhando a situação do país por duas vias: uma, pela leitura dos jornais do eixo Rio-São Paulo; outra, pelas conversas com nossos professores, alguns recolhidos ao cárcere acusados de subversivos. Segui assistindo o desdobrar do movimento na capital amazonense que, longe do centro político, pouco pode registrar. A postagem cabe ao Renato Mendonça, bem mais jovem, mas que se mudando para o Sul, acompanhou o desenrolar da repressão. 

Extraído da Internet 

Quando se fala em golpe de Estado, o imaginário nacional costuma se fixar em 1964. Talvez porque tenha sido conduzido pelas Forças Armadas e tenha inaugurado um longo ciclo de 21 anos de ditadura. Mas a História brasileira, se folheada com atenção, revela que os golpes — ou movimentos antidemocráticos — atravessam séculos, desde o período colonial e ameaçam até os dias de hoje.

O primeiro registro remonta a D. Pedro I. Em 1823, dissolveu a Assembleia Constituinte que ousava limitar seu poder e, no ano seguinte, outorgou a Constituição de 1824. O episódio ficou marcado como “A Noite da Agonia”, quando deputados foram presos sob a sombra dos militares. Mais do que golpe, foi a expressão crua da autocracia imperial.

Poucos anos depois, em 1831, o mesmo imperador abdicou em favor do filho de apenas cinco anos. O país mergulhou em uma década de regências e revoltas, até que, em 1840, um novo arranjo político antecipou a maioridade de Pedro II. Aos 14 anos, o adolescente assumiu o trono — um golpe parlamentar travestido de solução.

A monarquia, porém, não resistiria ao ímpeto militar. Em 1889, marechal Deodoro da Fonseca derrubou Pedro II e proclamou a República. Para alguns, um marco democrático; para outros, apenas mais uma ruptura imposta pela farda. Dois anos depois, o mesmo Deodoro fechou o Congresso e decretou Estado de Sítio. Renunciou em seguida, deixando o poder a Floriano Peixoto. A República nascente já se habituava ao compasso dos golpes.

Em 1930, Getúlio Vargas ascendeu ao poder após contestar a vitória de Júlio Prestes. A chamada Revolução de 30 depôs Washington Luís e inaugurou um governo provisório, que se prestava a fomentar um novo golpe. Sete anos depois, um documento forjado — o Plano Cohen — serviu de pretexto para Vargas instaurar o Estado Novo. A democracia, mais uma vez, foi interrompida, com receio de uma revolta comunista.

O golpe de 1964, por sua vez, permanece como cicatriz aberta. João Goulart, eleito democraticamente, foi deposto sob o argumento de conter uma suposta ameaça comunista. A intervenção militar contou com apoio de setores da imprensa, da elite e dos Estados Unidos, e mergulhou o país em duas décadas de autoritarismo.

A História brasileira, assim, parece dançar em torno de rupturas: ora pela espada, ora pelo Congresso, ora pela manipulação do pânico moral, ora por engodos de parlamentares. O palco se repete, os atores mudam, mas o enredo insiste em desafiar a democracia — e ameaça de ruptura. Que não seja necessário novo ato. Que os eleitos cumpram seus mandatos, que os derrotados aceitem o jogo republicano e que o país não precise assistir a mais uma coreografia de golpes — sejam militares, parlamentares ou institucionais.

Renato Mendonça 


segunda-feira, março 30, 2026

MEUS OITENTANOS (1)

 Fascículo 1

 

À beira das celebrações do meu Jubileu de Carvalho, sinto como se estivesse diante de uma grande parede da memória, expondo fotos antigas, e cada uma delas me coloca dentro de várias lembranças, como uma onda do mar que retorna para me tocar. Muitos projetos de vida nasceram em minha mente — feito passarinhos inquietos querendo voar —, porém, alguns voaram alto demais, não me deixando alcançá-los, outros não encontraram abrigo dentro do meu ser, inviabilizando o patrocínio próprio. Este, porém, pousa aqui bem sedimentado: contar, através do meu blog, a história do coronel Roberto, que é justamente a minha própria travessia por oito décadas de vida. Começo após o Dia de São José, 19 de março, santo que me acolheu no seminário de Manaus, e aproveito a mesma embalagem para celebrar também o centenário de Armando de Menezes, patrono generoso de tantas artes, por seu abrangente mecenato.

Nasci no bairro dos Educandos, na esquina da rua Inácio Guimarães com o beco São José, no dia 17 de junho de 1946, mês em que o céu de Manaus se vestia de bandeirolas, fogueiras e comidas típicas.

Sou fruto amadurecido da Segunda Guerra e de Manuel Mendoza — homem afeito às águas, nascido no lago Caballococha, às margens do rio Marañon, o nome do Rio Amazonas no país andino — e de Francisca Lima, filha de imigrantes cearenses e do lago Anveres nas cercanias do Careiro. Meu pai, por isso, era chamado de “peruano”. E posso dizer, sem exagero, que fui “hecho en Perú”, pois Manuel levou Francisca a Iquitos, onde se casaram e se instalaram. Mas o ventre grávido nos guiou de volta a Manaus, e ali, em junho, conheci a Luz.
Manaus, naquele tempo, respirava o alento da exploração da borracha que alimentava os Aliados em guerra — era um novo horizonte recém-aberto de pretensa prosperidade. O bairro de Constantinópolis — hoje Educandos — era uma periferia entre barrancos e igarapés, mas também absorvia promessas: o aeroporto de Ponta Pelada erguia-se como compromisso de futuro, fábricas surgiam tímidas, e no alto do bairro o vigário levantava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — templo onde minha família buscava consolo. Foi ali, no Instituto dos Educandos Artífices, transformado depois em Grupo Escolar Machado de Assis, que iniciei o curso primário.

O bairro, antes isolado, abriu-se ao mundo com a avenida Leopoldo Peres e a ponte Efigênio Salles. Ainda assim, a ligação com o centro era feita por catraias — conduzidas por braços que remavam como se movessem o próprio destino. Foi perto da Baixa da Égua — uma rua com um declive íngreme — que meu pai ergueu a sua Mercearia São José — casa de madeira com duas portas e uma varanda que se tornava palco de conversas. Minha avó, Victoria Malafaia, peruana, analfabeta, mas dotada de sabedoria incaica, quando emigrou de seu lugarejo em 1927, trouxera consigo dois filhos: Manuel e Francisco. Ali, ela, com seu portunhol limitadíssimo, dialogava sem ressalvas com Dona Neca, vizinha a cinco metros de distância. A filha dela, Maria Julia, ainda guarda memória viva no mesmo endereço.

Na mesma avenida morava tia Raimunda, com sua dezena de filhos, e o tio Manuel, dono de uma padaria simples e promissora. Ali eu buscava o pão doce antes de seguir ao Grupo Escolar. A energia elétrica chegava frágil — como um fino fio de esperança —, mas a água ainda era carregada em latas sobre cabeças, embaladas pela canção popular, eternizada na voz da cantora Marlene: “lata d’água na cabeça...”. Era o símbolo da resiliência e tenacidade daquele povo, descendentes de nordestinos, que vivia ali.

Em 1948, no mesmo mês de junho — como se fosse um paradigma —, nasceu meu irmão Henrique Antônio, batizado também pela folhinha, o calendário religioso. A vida seguia uma rotina tranquila, sem nenhum descompasso, com a ajuda da nossa babá, Luzia. Mas, em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil, meu pai decidiu arriscar-se no Rio de Janeiro, atendendo ao chamado do irmão Francisco. Vendeu o comércio e embarcamos no vapor Almirante Alexandrino, rumo à Capital Federal. Assim começou a segunda travessia da minha história, como quem troca o leito de um rio por outro, sem saber ainda para onde as águas nos levariam.

domingo, março 29, 2026

DOMINGO DE RAMOS

             Domingo de Ramos

29.03.2026

 

Símbolo do domingo - internet

Renato Mendonça

Esta liturgia de hoje abre o período que o mundo cristão chama de Semana Santa ou Semana Maior. A narrativa dos evangelistas nos convida à meditação, nos ensina a viver a mesma humildade, o mesmo amor e a mesma perseverança de Nosso Senhor Jesus. A entrada de Jesus Cristo em Jerusalém tem a simbologia do mistério divino, endossado como foi pressagiado no Antigo Testamento pelo profeta Zacarias sobre a vinda do Messias Salvador: “Regozija-te muito, filha de Sião; exulta, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu Rei. Ele é justo e traz a salvação; ele é pobre e vem montado sobre um jumento, sobre um potrinho, filho de uma jumenta.” (Zc 9:9)

Observem que Jesus poderia ter escolhido várias formas para uma entrada triunfal na cidade, após um período de seis dias de meditação no Monte das Oliveiras. Ele preferiu a mais humilde, e talvez não fosse intencional chamar atenção da multidão; no entanto, ocorreu que seus seguidores e admiradores estendiam suas próprias vestes pelo caminho, enquanto outros cortavam ramos de árvores para lhe oferecer em tapete ou agitavam para anunciar o advento do Mestre. Foi uma coreografia por certo não idealizada, apenas improvisada, para preceder as palavras de fé e esperança entoadas pela multidão: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”

Porém, o que nos deixa estupefatos, ou profundamente decepcionados, é que, uma semana após essa euforia, esse mesmo povo que o aclamou também o condenou... Será que foram essas mesmas pessoas que estavam na Assembleia do Sinédrio? Pertenciam à mesma casta social? Em uma análise coerente, permanecem muitas dúvidas...

Fazendo um exercício de lógica, podemos absorver dos relatos dos evangelhos sinóticos que havia razões apenas políticas para incriminá-lo, usando de argumentação leviana e mentirosa. Isso está explicitado no evangelho de Lucas: “Então toda a assembleia levantou-se e o levou a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: ‘Encontramos este homem subvertendo a nossa nação. Ele proíbe o pagamento de impostos a César e se declara ele o próprio Cristo, um Rei’” (Lc 23: 1,2). Era uma falácia, pois Jesus, em um dos momentos em que foi induzido a cair numa cilada dos inimigos, falou sabiamente: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).  

Obviamente, não poderia estar presente naquele julgamento sumário a população pobre e carente, pessoas desassistidas que foram acalmadas espiritualmente com as diversas manifestações divinas de Jesus: as curas e os milagres realizados e testemunhados ao longo do seu ministério. Estavam ali os sacerdotes, os mestres da lei e os fariseus, em conluio com setores da elite judaica, alinhados com o governo de Roma. Como não havia registro escrito desse julgamento, tudo passou para a posteridade pela oralidade.

Jesus já vinha sendo monitorado há algum tempo por lacaios do império romano, e estes identificaram nele uma liderança popular capaz de concorrer com as autoridades de Roma; alguém que surgiu para libertar um povo oprimido, um enviado de Deus, capaz de mobilizar as forças divinas para se livrar da dominação estrangeira que oprimia o povo judeu naquela época. Por isso, consideravam-no um revolucionário e era necessário retirá-lo do convívio com a sociedade e condená-lo à morte.     

Jesus tinha consciência da sua missão final que ali se iniciava, e poderia evitar a situação cruel, mas para concretizar o projeto do Reino de Deus não deveria se opor, pelo contrário, faria a vontade do Pai. E o que se sabe é que Jesus não precisou rebater a violência com violência; nem mesmo condenou Judas, deixou que sua própria consciência o condenasse. Esperou que tudo se consumasse como um propósito divino.

A lei injusta e parcial usada para a manutenção do poder romano — que condenou um homem justo e maltratou sua dignidade — não foi capaz de evitar a vitória de uma crença, o surgimento de uma religião fervorosa, que tem como símbolo máximo a Cruz de Cristo.

Esperamos que o calvário e a crucificação de Jesus, paradoxalmente, consigam amenizar nossas dores; nos fortaleçam cada vez mais, para ajudarmos nossos irmãos que precisam de apoio ou socorro espiritual; ao mesmo tempo em que precisamos nos encaminhar para uma Boa Páscoa e para a ressurreição, que exige de nós um renascer a cada dia.

Além disso, precisamos nos abastecer da fé e da esperança, e nos convencer de que a morte foi vencida pelo Senhor da Vida!

         

 

sábado, março 28, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (3)

Quando da comemoração do centenário de nascimento de Armando Andrade de Menezes, festejada no sábado passado (21), o acadêmico Zemaria Pinto leu o texto aqui postado. De sua autoria, foi lido (por Tenório Telles) na Academia Amazonense de Letras, em 16 de agosto de 2006, quando do lançamento do livro de Armando de Menezes – Em memória de Paulo Jacob. 

Armando de Menezes, gravura por
Bjarne Furtado 

Em Memória de Paulo Jacob

Em Memória de Paulo Jacob não fosse por um claro anacronismo, diria que Sérgio Buarque de Holanda, ao elaborar a sua teoria do “homem cordial”, teria tido como modelo o querido Armando de Menezes. Armando é só coração. E por aí se desenvolve a principal vertente da sua literatura. Porque o memorialista é antes de tudo um amoroso. Não, eu não disse apaixonado. A paixão é violenta e por vezes cruel. Se o amor afasta-se do ódio por uma linha tênue, essa linha é a paixão. É a paixão que separa o amor do ódio, o bem do mal. Para o proustiano Pedro Nava, poeta da memória, “na reconstituição de memórias, nós levamos para o passado um lastro de presente que corrompe a nossa lembrança. Não sou historiador, sou memorialista. Trato de fatos que tenho a liberdade interpretar, porque fui participante deles.” Armando ergueu o edifício de sua obra em toro de três pilares: a lembrança, o amor e a simplicidade. A lembrança como matéria de trabalho. O amor como base da composição. E a simplicidade como expressão.

Conheci o Armando há pouco mais de um ano. Mas, ele não sabe, há mais de 20 ouço Thiago de Mello falar dele. Eu, que sou por natureza retraído, só depois de conhecer o Armando compreendi a frase que o querido Thiago repete sempre: “a amizade é a mais alta forma de amor”.

Não faz muito tempo, o nosso presidente Elson Farias registrou, a respeito do Armando, que, entre as “inúmeras artes em que é mestre o nosso companheiro de academia, a arte da amizade é a que e exerce com a maior destreza e a mais clara sabedoria”.

Lembrança, amor, simplicidade. A matéria de trabalho. A base da composição. A expressão. Essa equação fica muito evidente — e sua comprovação, mais fácil — no livro que Armando nos entrega nesta noite: Em Memória de Paulo Jacob. A começar pelo título, objetivo, direto, simples, mencionando a memória como fio condutor: memória de um amigo, um grande amigo, como constatamos na leitura, que atravessara à outra margem do grande rio. Estas pouco mais de 50 páginas encerram um significado inestimável: uma homenagem póstuma, um ritual marcado, paradoxalmente, pela alegria que o amigo ausente provocava em vida, pela lembrança dos seus feitos e, em especial neste caso, pela lembrança de sua obra. E que obra, senhores! Pois estamos tratando de Paulo Jacob, um dos grandes romancistas brasileiros da segunda metade do século passado.

 

sexta-feira, março 27, 2026

DIA SÃO JOSÉ - 19 DE MARÇO

 O festejado São José permeia o mês de março, sendo venerado em grande parte do país. Os admiradores são inúmeros, um deles é Renato Mendonça, que escreveu o texto.

Gravura da internet - Paulus Editora

SÃO JOSÉ

19.03.2026


Mais uma vez, sinto abrasar em meu espírito o desejo de meditar e escrever sobre uma data sagrada do nosso calendário litúrgico. Em tempos convulsos, quando as disputas políticas parecem obscurecer o horizonte humano, é necessário recordar aquilo que eleva a alma e pacifica corações endurecidos. E que melhor figura escolher senão a de um homem justo, cuja biografia permanece envolta em enigma, mas cuja obediência a Deus e humildade discreta revelam grandeza? Falo de José, o esposo da Virgem Maria, cuja vida simples se tornou fundamento para o mistério da Encarnação.

Os santos cânones nos narram que José recebeu Maria como esposa segundo a tradição. Contudo, antes de consumar o matrimônio, ela se viu grávida por obra divina. Diante da severidade da Lei — a lei de Moisés — e da dureza dos costumes judaicos, José cogitou deixá-la em segredo. Não quis denunciá-la, pois sabia que isso a exporia à morte cruel por apedrejamento. Mas o céu interveio: em sonho, o anjo lhe revelou que aquela gravidez era parte do desígnio eterno — Deus se faria homem no ventre de uma virgem, e José seria guardião desse mistério mais importante do Novo Testamento.

Assim, ele aceitou a missão de ser pai adotivo do Salvador, conduzindo-o desde a infância até o início de seu ministério. Sua função não foi apenas doméstica, mas teológica: preservar a vida da Sagrada Família contra as forças da morte. Quando Herodes decretou o massacre dos inocentes, José novamente foi advertido em sonho. Sem hesitar, partiu para o Egito, tornando-se o protetor silencioso que salvou o Menino Deus. Sua fuga não foi covardia, mas fidelidade à Providência e a fé. E quando o perigo cessou, regressou a Nazaré, onde viveu como carpinteiro, ensinando a Jesus o valor do trabalho e da retidão.

Os Evangelhos pouco falam de José após o episódio em que, aflito, o encontra o garoto Jesus no Templo entre os doutores da Lei. Depois, o silêncio. Nada sabemos de sua morte, talvez porque sua vida foi toda dedicada a preparar o caminho para Cristo e Maria, como nobre coadjuvante da História. José é, portanto, o santo do silêncio fecundo, o operário da fé, o guardião da esperança. Não ostenta em sua biografia milagres grandiosos nem discursos eloquentes, mas sua santidade repousa na obediência discreta a Deus e no labor cotidiano. É o modelo perfeito de santidade simples: o santo-operário que, sem buscar glória própria, sustentou o maior dos mistérios — a Encarnação do Filho de Deus.

E para minha íntima alegria, trago em minha própria família vários Josés — homens que, à semelhança do carpinteiro de Nazaré, são operários da vida e do ofício. O principal deles foi meu pai, que, já adulto, escolheu carregar esse nome como sinal de devoção e herança espiritual. Dele, filhos e netos herdaram não apenas o prenome, mas também o testemunho silencioso de dignidade e trabalho. A todos eles, meus cumprimentos e minha gratidão.

Salve, São José!

    

domingo, março 22, 2026

FESTA DO CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES

 A festa comemorativa do centenário de Armando Andrade de Menezes, ontem realizada, ocorreu certamente como o patrono do Chá do Armando identificaria: paidégua. Aconteceu no auditório do Mirante depois de mudanças às vésperas, tal qual o itinerário do Chá, mudanças ali repetidamente lembradas. De fato, o Chá (entidade sócio-literária-etílica) passeou por alguns CEP da cidade, mas sempre sacramentando o bem estar de seus acólitos.

Foto realizada no IGHA, com Armando, ao centro

Participei da sessão e, convidado a “usar da palavra, recordei que dos presentes era o único dos fundadores do clube, narrando os primeiros passos no Instituto Histórico, ainda no início do século. Frequentei todos os endereços, esquecendo de lembrar que, em única sexta-feira, aconteceu no meu endereço, quando festejamos o aniversário do falecido Serginho Pereira. Em outra oportunidade aconteceu na residência do peruano Miguel Angel, que morava ao lado do IGHA.

Cenas do encontro

Nada disso obscureceu o congraçamento. Detalhe à parte, convém esclarecer que ao Chá do Armando faltou o “chá” propriamente dito, fosse o escocês de 8 ou 12 anos. Aos faltosos, não terá nova oportunidade, a não ser que aguardem o próximo centenário. Vida longa, chazista. Ao saudoso Sumaúma, a minha agradecida veneração.

Detalhe do Mirante sobre o rio Negro


sábado, março 21, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (HOJE)

Hoje completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras, entre outros. Todavia, foi uma associação que prosperou sob a denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Como o Chá mudou de sede repetidas vezes, assim aconteceu
com esta comemoração: foi mudando até chegar ao 
Mirante da Cidade.

Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do Armando publicou em homenagem ao seu fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. A prosa e o verso transcritos são de autoria do falecido poeta Jorge Tufic (1930-2018).
 

O "CHÁ DO ARMANDO"

 

O Chá do Armando é a ceia dos poetas / já bem longe da tola hipocrisia; / e enquanto fraterniza essa harmonia / tenta evitar as reuniões secretas.

As farpas são contidas e discretas, / há mais poder no afeto e na poesia. / Tudo ao redor são telas; e a magia / se desprende das cores prediletas.

Anísio Mello distribui o pão, / Armando se reveza com o Diniz / nas benesses do néctar temporão.

Guardo esta cena (o tempo vai, remoto) / do Armando com seu grupo: tão feliz / quanto algum dia numa outra foto.

Icaraí (CE), 26/10/2008

Jorge Tufic (👇)

 


ARMANDO DE MENEZES

Deixo a memória fluir, e logo me vejo numa esquina de Manaus, debaixo de uma lanterna grande, iluminada a carvão, com o ano da folhinha parado em 1945. Era a rua dos Andradas com a Pedro Botelho, ou rua Oriental. Quase em frente ao muro da “estância” onde morávamos, eu, meu irmão e nossos pais, erguia-se a fachada de não sei quantas janelas da casa dos Menezes. Foi ali, nesse pedaço de urbe ventilado, que, aos poucos, fui conseguindo distinguir, ao longe, os donos daquele espaço:

Dona Santa, o Dr. Tude e seus numerosos filhos, dentre eles Armando, do qual tornei-me amigo incondicional a partir de seu ingresso na Academia Amazonense de Letras. A todos os outros, porém, sem exceção de nenhum, sempre dediquei respeito e admiração. Alberto, no antigo INPS, foi meu chefe de Grupo, o melhor que tive em minha passagem pelo famoso Instituto.

Em Armando, desde que um dia lá perdido cruzamos nossos passos, ficou a marca do afeto cada vez que o cumprimento formal se fazia necessário, tão diferente daquele que vinha do mesmo cotidiano, da mesma província aconchegante, dos mesmos recantos públicos. Havia qualquer coisa a mais no gesto e na fala desse generoso cavalheiro, descendente dos Andradas e cujo Menezes eu jamais desligara da verve e do talento daqueloutro, o Emílio, irmão poético de Bilac e Guimarães Passos. Foram, pois, décadas que me deram a conhecer, aqui e ali, do mais novo ao mais velho do clã, com Maria Luiza, a única, sob a forte proteção e o carinho dessa gloriosa estirpe de amazonenses.

Intelectual de raça, poeta, escritor, este Armando de Menezes surpreende, também, pelo carisma, rodeando-se de gente igual a gente no famosíssimo Chá do Armando, uma sociedade de carbonários voltada para o drinque com moderação e a crítica literária, onde pontificam mestres e doutores de nossas Universidades, sem falar nas reuniões de todas as sextas-feiras, convidados especiais.

Autor de 14 livros publicados, e ainda na plenitude da energia criadora, devota-se ele à pesquisa da história, sendo marcante a contribuição que tem dado às suas próprias memórias e de sua família, prática essa exemplar, quando sabemos que o livro resiste, com bravura, a qualquer tipo de avanço tecnológico, por mais útil que seja. O resgate e a datação desses fatos, aliás, ocupam, hoje, os pesquisadores e os arquitetos ligados aos municípios brasileiros, tendo sido possível, deste modo, manter patrimônios históricos como a casa de Humberto de Campos, na Parnaíba.

Meu depoimento seria longo acerca de Armando de Menezes, remontando aos cenários da Esquina dos Valentes, do Clube do Remo e da Joaquim Nabuco (sobre o qual escreve, lembrando o abolicionista) dos bondes a caminho de Flores, da Chapada, dos Bilhares. Mas prefiro, a isso, deliciar-me com a lembrança de Thiago de Mello ter escolhido, anos após, justamente aquele trecho de nossas ruas, para empinar papagaios.

Jorge Tufic

Fortaleza, 26/11/2010

sexta-feira, março 20, 2026

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (2)

Amanhã (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), parintinense que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista e professor, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o tornou admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.
Convite da festa centenária

Novamente recorro ao exemplar que a Edições Chá do Armando fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. A prosa que segue é de autoria do falecido Sergio Luiz Pereira (1965-2015).

 

CHÁ DO ARMANDO: BREVE RELATO

Na cerimônia do chá, o chá é mais um coadjuvante neste universo que almeja, através do exercício de cada movimento, chegar à perfeição do esquecimento de si, do se pôr a serviço do homenageado, de se tornar magia o tempo que escorre em movimentos de ângulos precisos, uma oferenda de paz num mundo-do-fora. Como prática social, como exercício espiritual, como fruição dos sentidos, a cerimônia do chá em sua origem não se dissocia do pensamento zen-budista, (...). Sadô é o caminho do chá, para o qual convergem simultaneamente outros, (...) propiciando a compreensão da harmonia, do respeito, da pureza e da tranquilidade.

(Madalena Hashimoto. Pintura e escritura do mundo flutuante: Hishikawa Moronobu e ukiyo-e llhara Saikaku e ukiyo-zôshi. São Paulo: Editora Hedra, 2002)

A cultura do chá vem de tempos imemoriais. Achamo-lo nas mais antigas civilizações conhecidas. Mas China, Japão e Índia são os lugares por ele mais encontrados. Ouve-se, há muito, falar sobre as cerimônias do chá nesses países orientais. Também o chá das cinco na Inglaterra, mas sempre ele como centro de comunhão entre homens e mulheres, idosos e crianças. Sem falar no chá da Academia Brasileira de Letras, nas tardes das quintas-feiras.

Todo esse mínimo preâmbulo para falar do mundialmente famoso e conhecido "Chá do Armando". Vamos lá: Levado pelas mãos do sempre lembrado e amado Anísio Mello, fui ao "Chá" pela primeira vez em algum crepúsculo do ano de 2003, ocasião em que funcionava ele em uma das dependências, mais precisamente na biblioteca, da Academia Amazonense de Letras. Lá, surpreendi-me com algumas visões até então, para mim, pouco ortodoxas. Um ex-presidente da Casa, totalmente despojado da sisudez acadêmica, cantarolando, tocando violão e bebendo aperitivo escocês; outros, do mesmo naipe, contando "causos", com gestos e feições interessantíssimos; e mais algumas figuras de outras plagas, como o acadêmico paraense e espírita Nazareno Bastos Tourinho — de quem me tornei amigo —, convidadas a participar daquelas tertúlias semanais.

Depois de sair da AAL, por motivos até hoje por mim desconhecidos, o Chá circulou por várias casas, como o Ideal Clube na administração do querido Humberto Figliuolo, o Sebão Manaus, de propriedade de Antônio Diniz; a casa-liceu e porão do Anísio, a residência do coronel Roberto Mendonça, e atualmente pousado na “mansão dos belos quadros”, do artista plástico Neleto Silva, ali na avenida Joaquim Nabuco.

É a reunião das sextas-feiras, de amigos e companheiros verdadeiros, onde se irmanam em perfeita harmonia. A cultura e as ideias, porém, são seu ponto mais alto. No Chá, são discutidos desde a fraternidade dos anjos à paz mundial e o sexo entre machos e fêmeas de boa vontade. Quando possível, ouve-se música ao vivo — popular e erudita — tocada e cantada por gente amiga e habitué. Sem falar nos quitutes saborosíssimos da mesa farta. Às vezes, até tartarugada! Tudo isso regado com os maravilhosos líquidos da Escócia.

Tal confraria, no entanto, não é apenas teoria, falação, música ou comes e bebes. São do Chá do Armando Edições: Convite à poesia, obra póstuma de Anísio Mello, Melodia pagã, coleção poética de Almir Diniz, e mais este livro — gênese e história, repositório e testemunhos de seus principais membros —, que é sua terceira publicação. Além das visitas de membros chazistas a personalidades enfermas, união de verbas (cota) para ajuda financeira a pessoas necessitadas e outros projetos futuros etc.

Assim, costuma-se dizer que em nenhum lugar da terra a vida parece ter mais sentido que no clima harmonioso e aconchegante do Chá, ambiente informal frequentado por pessoas das mais diversas atividades, liberais ou não, em franco despojamento e alegria constante. Declamação de poemas, atualização de conversas, troca de mimos e presentes, conhecimentos gerais, história e política locais, de ontem e de hoje, curiosidades regionais, nacionais e estrangeiras, e estórias, muitas estórias, todas elas contadas de maneira democrática, como de todo o restante que é levado e discutido no seio do encontro.

Por fim, à figura exponencial de Armando de Menezes, decano e dirigente maior do Chá, na jovialidade de seus mais de 80 anos, agradeço por fazer parte da confraria que mudou a forma de divertir-se, aprender-se e principalmente exercer e praticar a amizade, que, na sabedoria de Montaigne, assim conclama: "O que chamamos geralmente de amigos e amizades não passa de convivências e familiaridades estabelecidas ocasional ou comodamente por meio das quais as nossas almas estabelecem vínculos. Na amizade de que falo, as almas se misturam e se confundem uma com a outra numa mistura tão universal que apagam e não encontram mais a costura que as juntou" (I, 28. "Da amizade", apud Sêneca, As relações humanas: a amizade, os livros, a filosofia, o sábio e a atitude perante a morte. São Paulo: Landy Editora, 2002).

Sergio Luiz Pereira

quinta-feira, março 19, 2026

DO CARNAVAL 2026

A crônica cabe a um colaborar de porte, Renato Mendonça, aqui e ali presente no Blog. Dessa vez se valeu do desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói (15 fevereiro), onde ele reside, que celebrou a apoteose de um retirante nordestino. No caso: “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula”, o presidente da República. O autor aproveitou para ilustrar seus devaneios com a saga de nossos avós. Esclareço que o trabalho literário me chegou às mãos em tempo hábil, no dia seguinte ao desfile, antes que os jurados defenestrassem a Escola. Vai hoje publicado porque levei um tempo para me reencontrar com os caminhos do Blog. E outros caminhos... como o dos meus 80 anos!
 



CRÔNICA DE UM ENREDO

No domingo à noite, como quem retorna a um velho templo ou um santuário preferido, voltei a assistir a um desfile de Escola de Samba.  Por anos, meus olhos se cansaram de ver apenas o brilho das alegorias, sambas sem alma, rostos e corpos expostos como vitrines. Tudo me parecia repetição: um carnaval de espelhos que refletiam sempre o mesmo. Talvez fosse apenas o meu olhar crítico, desacostumado a perceber as nuances de criação entre os carnavalescos.

Mas ontem, a chama reacendeu. A Acadêmicos de Niterói trouxe à avenida a saga de Lula, e sua história se fez canto e teatro sob o céu limpo da Sapucaí. Vi o êxodo de uma família que parte com quase nada, levando apenas o peso dos sonhos e uma angústia amalgamada pelo tempo. Vi o retrato de tantos brasileiros, de tantos estrangeiros, que carregam na bagagem a dramaticidade das travessias.

E ali, entre batuques e metáforas, senti-me parte daquele enredo. Meu pai e minha avó deixaram Caballococha, na Amazônia peruana, navegando noites sem fim em uma canoa até tocar a fronteira do Brasil. O destino: Manaus. Meus avós maternos, por sua vez, fugiram de Baturité, terra marcada pela Grande Seca e pela varíola, e encontraram refúgio às margens do lago do Anveres, onde minha mãe nasceu e se criou.

O desfile não foi apenas espetáculo: foi espelho. Espelho da Vida. Vi na avenida a memória das migrações que moldaram minha própria história, e de tantos brasileiros. E por isso fiquei até o fim, acompanhando até a dispersão como quem não quer que a poesia se dissolva. Não sei se os jurados darão boas notas. Mas o que importa, afinal, quando o coração já foi premiado?

CENTENÁRIO DE ARMANDO DE MENEZES (1926-2017)

No próximo sábado (21) completaria 100 anos de idade o saudoso Armando Andrade de Menezes (1926-2017), que, concludente da Faculdade de Direito do Amazonas (1954) integrou com méritos o Tribunal de Contas do Amazonas. Memorialista, participou dos grêmios literários do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Academia Amazonense de Letras. Todavia, foi uma associação que prosperou com a denominação de Chá do Armando que o fez conhecido e admirado pelos inúmeros frequentadores, crismados de chazistas. Foram os remanescentes deste grupo que se congregaram para festejar o centenário do patrono.


Tão pronto foi decidido o congraçamento, recorri a um exemplar que as Edições Chá do Armando  fez publicar em homenagem ao fundador e mantenedor. Intitulado de “O Chá do Armando – em prosa e verso”, circulou em 2012, dirigida pelo Almir Diniz e outros, entre os quais me incluo. Dessa cópia compilei a crônica de Benayas Pereira, outro saudoso chazista, que vai transcrita.

 

UM CHÁ PRA LÁ DE ESPECIAL

Benayas Inácio Pereira 

Em uma determinada casa numa determinada rua de Manaus, todas as sextas-feiras, uns amigos se reúnem para tomar um chazinho. Trata-se de uma casa velha, cercada de miríades faculdades. Em razão disso, a avenida se engalana para receber os futuros "doutores", que ora dividem os estudos com a amizade que existe entre eles, mas as fofocas são o alvo maior. Os carros se aglomeram em fila dupla e tripla. Nessa via festiva, os vaivéns provocados pelos estudantes, os altos decibéis produzidos pelos carros de boa potência e o buzinaço ensurdecedor fazem com que ela se transforme num verdadeiro pandemônio, bem diferente dos finais de semana, quando o silêncio impera.

Benayas e esposa na festa
dos 80 anos de Armando

Pois é exatamente em meio a tudo isso que os velhos amigos da velha casa se reúnem. Alheio a todo aquele tumulto, entre salgadinhos e chazinhos "envelhecidos" de 8 a 12 anos, eles passam algumas horas jogando conversa fora. Como todos são gente fina, o horário é meio controlado. A reunião se inicia bem cedo (por volta de 17h) e, logicamente, não termina muito tarde. O número de componentes não é assim tão grande. Também não é relevante assim, pois a reunião prima pela qualidade e não pela quantidade dos componentes. O número de pessoas dificilmente passa de dez.

Esse encontro semanal tem o sugestivo nome de Chá do Armando. É claro que, com receio de omitir nomes, não vou dizer quem frequenta a casa velha do artista plástico, poeta, escritor, ensaísta e acima de tudo uma pessoa de coração aberto, o acadêmico Anísio Mello. Uma vez, porém, que eu já perdi o medo, digo que os imortais Almir Diniz, Luiz Bacellar, Zemaria Pinto e, quando em Manaus, Jorge Tufic, além do nosso sempre querido mestre Armando de Menezes, que dá nome ao encontro, são habitués dessas efemérides.

Armando (esq.) aos 80 anos, saudado
pelo Simão Pessoa

Ainda fazendo parte desta turma da pesada, o historiador Roberto Mendonça, o poeta Sergio Luiz Pereira, o pesquisador Nonato Braga, o sexo-humorista Simão Pessoa e o músico e compositor Mauri Marques sempre marcam presença, além de um e outro personagem não menos importante que aparece quando lhe dá na veneta — como os músicos Rossini Lima e Nato Neto e o poetator Dori Carvalho.

Nunca vi fechada a porta dessa velha casa. Ela está sempre aberta para receber as pessoas de bem. Entendo que a curiosidade mata o rato e o peixe, mas se quiserem saber quais os assuntos mais abordados, posso adiantar que ali se respira principalmente a arte; todavia, a semente da acerola, os últimos acontecimentos mundiais, a música, a poesia, o cinema, o meio ambiente, a literatura, o jaraqui e o matrinxã são exaustivamente citados.

Nada disso importa, porém. O que é mais relevante nesses encontros é a curtição da amizade que cada membro dessa sociedade única carrega dentro de si. É o amor que se cultiva, mas de uma forma singular, tema, onde ele é dourado por todos, simultaneamente, formando uma redoma onde a maldade dá lugar à brandura e a inveja é pura utopia. O Chá do Armando não é restrito somente às pessoas do sexo masculino. Esposas e convidadas também comparecem e são sempre bem-vindas.

O viajado poeta Almir Diniz não se cansa de dizer que em lugar algum ele viu tanta irmandade junta. É verdade: ali conseguimos esquecer, nem que seja por algumas horas, as agruras que a vida pode nos reservar.

Sem receio de apelar para a pieguice, confesso que por muitas vezes, durante essas reuniões, observei uma aura vagando pela sala onde nos encontramos. Ela é toda branquinha, em forma de fumaça. Entra sorrateiramente, sem que ninguém a note e passeia alegremente pelas cabeças dos presentes.

Anísio Mello, nosso querido anfitrião, acha que a semana deveria ter mais sextas-feiras. Acho que o Anísio tem razão. Eu, que há algum tempo fui brindado pelos deuses ao ser convidado aa participar dessas reuniões, corroboro com essa opinião. E cá com os meus botões fico a pensar: que bom se todos os dias fossem sextas-feiras.

Manaus, 2 de maio de 2009

domingo, fevereiro 01, 2026

POEMA DOMINICAL (9)

Obra da minha visita à Biblioteca Mário Ypiranga, no CC Povos da Amazônia, compartilho um poema de Violeta Branca (1912-2000), publicado na revista Cabocla, em agosto de 1937. Com tal, volto a preencher o domingo com uma produção poética. 

Revista Cabocla, agosto 1937

Onde estás, meu amor? 

Em que mar distante tu estás, meu amor,/ que meu pensamento não te encontra?/ Em que porto de sombras/ o teu barco ancorou na noite erma?/ (...) Onde estás, meu amor,/ que a minha aflição e o meu sonho/ caminham em vão na asa do vento/ pelas distâncias sem te encontrar?

Dize-me onde estás/ e eu irei com o primeiro clarão do sol/ da madrugada que se aproxima azul,/ esperar-te amorosa, de braços abertos/ numa ânsia de voo e de abraços/ no silêncio branco/ da praia coberta de conchas e de sargaços.

Dize-me ande estás, meu amor,/ e eu irei boiando nas espumas alvas/ como uma estrela diurna iluminando/ um céu mais claro que os teus olhos verdes,/ esperar-te perdida/ no embalo da vaga/ que subindo alto/ te encontra e te afaga/ numa carícia dolorosa de amante arrependida.

Em que mar distante tu estás, meu amor,/ que o meu pensamento/ e o meu beijo/ não te encontram?

sábado, janeiro 31, 2026

RAMAYANA DE CHEVALIER EM REVISTA "CABOCLA"

 Saudoso da Biblioteca Mario Ypiranga, situada no Centro Cultural Povos da Amazônia, estive nela ontem conduzindo um amigo - Ed Lincon - que se maravilhou com o material a ser explorado. Passamos as revistas centenárias circuladas em Manaus pelo celular, arrecadando uma boa seleção de fotos e de textos, como o que disponibilizo nesta postagem.

Trata-se de um artigo do saudoso Ramayana de Chevalier, publicado na revista Cabocla, edição de agosto de 1937, há quase noventa anos. Com o título "Plantador de Civilizações", Chevalier ressalta com sua aptidão intelectual a atuação hercúlea do homem amazônico.

Monumento aos Portos, existente
no Largo São Sebastião (foto da
 revista)

Nos nervos de titã desse bravo moreno, vibram lendas sutis, cantam poemas heroicos! Do mistério arcual das distâncias supremas, embalado à cantiga das ondas, sereno e simples, resistente e sóbrio, enveredou o Paes Leme de cobre pelos labirintos verdes da Amazônia. Escudava-o: a coragem; alimentava-o: o sonho de riqueza; abençoava-o: a luz vertical que lhe descia em frechas d'oiro do céu ímpar.

Nas cafurnas sombrias, nos desvãos indistintos, nas margens lodosas e instáveis, que lembram as orlas tristes do Nilo, berços de cegonhas e faraós, ou as fímbrias lamacentas do zambéze, picadeiros de hipopótamos e cágados, ali cresceu o sonho do hércules bronzeado, combatendo as zarabatanas dos selvícolas, a traição dos ofídios e dos felinos, o fascínio, sinistro e meigo, das flores venenosas e dos festões daninhos.

Cresceu o seu sonho, em lágrimas de “látex”, em sangue alvíssimo e sincero, a escorrer, das artérias da árvore sagrada, para a volúpia de todas as máquinas velozes do Universo! De dia, aos revérberos de um sol, milenário e fecundo; de noite, às carícias de um plenilúnio, místico e sensual, investe o briareu contra a hidra botânica, bracejante e triunfal, rebentando em úlceras florais nas catleias lindíssimas, em abraços letais nas lâminas crenadas das parasitas, nos pedúnculos enganadores dos vegetais mortíferos.

Quando o mormaço cede às virações da tarde, que o diadema solar, poisa, no ocaso, sobre a cabeça heril das castanheiras, como um cocar imenso, vacilam sombras sob os tufos verdes, correm fantasmas entre as trepadeiras, jorram mistérios das orbitas lucitrementes dos tatus nojentos...

Então começa o seringueiro o seu combate. Retrança o jamaxi, veste o gibão, embainha o terçado, ajusta o embornal, palmilha a “lambedeira”, cobre-se do chapéu com barbicacho, tiracoleia o rifle, apanha a vasilha de alumínio, as tijelinhas, a faca americana, e, já à saída do barracão ou do “tapiri”, pendura ao cinto o dente de jacaré recheado de azougue, ou de arsênico ou de qualquer oração ao santo predileto, para imunizar-se, pela ambliope, de veneno das cobras.

A sua faina é uma invasão cotidiana. O seu mister, uma aventura constante. O seu destino, uma armadilha incerta, esperando-o, na curva de um varadouro, na meia-tinta de uma clareira imota. Foi assim que ele ergueu, no coração da selva, conto um muiraquitã propiciatório e sorridente, um sonho urbano: Manaus.

Sofrendo, lutando, às arrancadas bandoleiras ou aos golpes broncos de uma inigualável tenacidade budica, de lá do fundo rude dos balatais, do aceiro áspero dos seringais, das “reboladas” majestosas das castanheiras, da sombra odorizada dos cumarus e dos pau-rosas, fez ele, o grande construtor, surgirem da terra civilizada de Manaus, esses gigantes arquitetônicos, que falam de belezas, de graças, de harmonias...

Foram as mãos calosas dos caucheiros que orientaram as mãos divinas de De Angelis. Foram os músculos humanos dos extratores que se enrijaram em símbolos metálicos, nos cabos e nos guindastes do “roadway”. Foi a inteligência desse caboclo puro, perdido na diluviandia, quem perfilhou os pássaros nobres e os animais amigos, estilizando-os, em gestos pictóricos, em posturas arquitetônicas, em atitudes esculturais, em reminiscências estéticas, no deslisar sutil, no ondular selvagem e olímpico, na estranha sedução da mulher amazônida!

Foi a coragem desse atleta espontâneo e ancestral, quem ponteou nas audácias da “urbs”, elastecendo-a nas pontes longas, rasgando-a nas avenidas parafusadas de “fícus”, apunhalando-a nas feridas incicatrizáveis dos jardins, claros, alegres, evocativos, sonoros de cores e de luz, onde se escondem, o amor sentimental dos morenos glebários e a vaidade sutil da “baricea”.

Seringueiro bendito! Diante de ti, ajoelha-se a Amazônia! Construíste a morada dos homens cismadores, quê, filhos de terras longínquas, se tomam de horror das distâncias e morreram no seio do teu torrão, às margens generosas do teu Rio. Nossos monumentos vieram do teu suor! Nossa cidade nasceu, vênus-cunhatã, das ondas quentes do teu sangue! Manaus é tua, caboclo sonhador, corajoso e tranquilo, irmão dos lagos que meditam, das lianas nervosas que se esticam como tendões enormes, das antas, esses bons paquidermes, meigos como as crianças, irresistíveis como os furacões...

Manaus, a filha do teu braço, te saúda, ó tuxaua moreno, obscuro construtor de civilizações... (grifei)