Fascículo 1
À beira das
celebrações do meu Jubileu de Carvalho, sinto como se estivesse diante
de uma grande parede da memória, expondo fotos antigas, e cada uma delas me
coloca dentro de várias lembranças, como uma onda do mar que retorna para me
tocar. Muitos projetos de vida nasceram em minha mente — feito passarinhos
inquietos querendo voar —, porém, alguns voaram alto demais, não me deixando
alcançá-los, outros não encontraram abrigo dentro do meu ser, inviabilizando o
patrocínio próprio. Este, porém, pousa aqui bem sedimentado: contar, através do
meu blog, a história do coronel Roberto, que é justamente a minha
própria travessia por oito décadas de vida. Começo após o Dia
de São José, 19 de março, santo que me acolheu no seminário de Manaus, e aproveito
a mesma embalagem para celebrar também o centenário de Armando de Menezes,
patrono generoso de tantas artes, por seu abrangente mecenato.
Nasci no bairro
dos Educandos, na esquina da rua Inácio Guimarães com o beco São José,
no dia 17 de junho de 1946, mês em que o céu de Manaus se vestia de bandeirolas,
fogueiras e comidas típicas.
Sou fruto amadurecido
da Segunda Guerra e de Manuel Mendoza — homem afeito às águas, nascido no lago Caballococha,
às margens do rio Marañon, o nome do Rio Amazonas no país andino —
e de Francisca Lima, filha de imigrantes cearenses e do lago Anveres nas
cercanias do Careiro. Meu pai, por isso, era chamado de “peruano”. E posso
dizer, sem exagero, que fui “hecho en Perú”, pois Manuel levou Francisca a
Iquitos, onde se casaram e se instalaram. Mas o ventre grávido nos guiou de
volta a Manaus, e ali, em junho, conheci a Luz.
Manaus, naquele
tempo, respirava o alento da exploração da borracha que alimentava os Aliados
em guerra — era um novo horizonte recém-aberto de pretensa prosperidade. O
bairro de Constantinópolis — hoje Educandos — era uma periferia entre barrancos
e igarapés, mas também absorvia promessas: o aeroporto de Ponta Pelada
erguia-se como compromisso de futuro, fábricas surgiam tímidas, e no alto do
bairro o vigário levantava a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro —
templo onde minha família buscava consolo. Foi ali, no Instituto dos Educandos
Artífices, transformado depois em Grupo Escolar Machado de Assis, que iniciei o
curso primário.
O bairro, antes
isolado, abriu-se ao mundo com a avenida Leopoldo Peres e a ponte Efigênio
Salles. Ainda assim, a ligação com o centro era feita por catraias — conduzidas
por braços que remavam como se movessem o próprio destino. Foi perto da Baixa
da Égua — uma rua com um declive íngreme — que meu pai ergueu a sua Mercearia
São José — casa de madeira com duas portas e uma varanda que se tornava palco
de conversas. Minha avó, Victoria Malafaia, peruana, analfabeta, mas dotada de
sabedoria incaica, quando emigrou de seu lugarejo em 1927, trouxera consigo
dois filhos: Manuel e Francisco. Ali, ela, com seu portunhol limitadíssimo,
dialogava sem ressalvas com Dona Neca, vizinha a cinco metros de distância. A
filha dela, Maria Julia, ainda guarda memória viva no mesmo endereço.
Na mesma avenida
morava tia Raimunda, com sua dezena de filhos, e o tio Manuel, dono de uma
padaria simples e promissora. Ali eu buscava o pão doce antes de seguir ao
Grupo Escolar. A energia elétrica chegava frágil — como um fino fio de
esperança —, mas a água ainda era carregada em latas sobre cabeças, embaladas
pela canção popular, eternizada na voz da cantora Marlene: “lata d’água na
cabeça...”. Era o símbolo da resiliência e tenacidade daquele povo,
descendentes de nordestinos, que vivia ali.
Em 1948, no mesmo
mês de junho — como se fosse um paradigma —, nasceu meu irmão Henrique Antônio,
batizado também pela folhinha, o calendário religioso. A vida seguia uma
rotina tranquila, sem nenhum descompasso, com a ajuda da nossa babá, Luzia.
Mas, em 1950, ano da Copa do Mundo no Brasil, meu pai decidiu arriscar-se no
Rio de Janeiro, atendendo ao chamado do irmão Francisco. Vendeu o comércio e
embarcamos no vapor Almirante Alexandrino, rumo à Capital Federal. Assim começou a
segunda travessia da minha história, como quem troca o leito de um rio por
outro, sem saber ainda para onde as águas nos levariam.
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