FASCÍCULO 19
Comecei o ano de 1980 com a casa do Conjunto Tiradentes repleta. Havia deixado a amada CVC em Curitiba, portanto, estava “solteiro”; motivo pelo qual abriguei meus pais e quatro irmãos em dois quartos e um amplo quintal, onde logo meu pai construiu um chapéu de palha para o conforto na área. Esse condomínio encontrava-se nos arrabaldes da cidade, ligado ao centro pela estrada do Aleixo, hoje avenida Cosme Ferreira. Sem comércio de qualquer natureza, o abastecimento de urgência era realizado no incipiente bairro do Coroado, somente alcançado de carro. A casa encontrava-se situada na esquina da Rua das Orquídeas com a Avenida das Flores, dispondo de ampla área verde.
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| Residência no conjunto Tiradentes |
Todavia, minha primeira tarefa no Ano Novo foi buscar o Chevette em Porto Velho. Avisado pelo sogro, convidei a amiga Maria Olinda e pegamos o ônibus de volta àquela cidade; a movimentação foi semelhante à viagem de vinda. A viagem chegou na madrugada em Porto Velho e tratei prontamente de receber o carro, coberto de poeira — não foi surpresa; assustei-me quando vi o porta-malas aberto: a tranca havia sido danificada pelos solavancos da estrada e, ao abrir o carro, um forte odor de bebida alcoólica impregnava o interior. Esclareço que os mesmos solavancos romperam as embalagens das garrafas e até danificaram a caixa de ferramentas do mano Luiz. Fora isso, tudo estava conforme. Sabendo que a balsa no Careiro interrompe o serviço às seis da tarde, apertei o acelerador, tendo parado em um ou dois igarapés para me refrescar e trocar uns afagos com a carona. Cheguei à balsa a tempo e, assim, consegui dormir em casa.
Aquele ano passou nessa conjuntura, meu pai buscando reparar a casa do Morro da Liberdade, e os irmãos estudando com embaraços, devido ao transporte. Ainda assim, Luiz e Ricardo conseguiram aprovação no Senai, e Jorge empregou-se no Posto Sete. Antes que eu me esqueça: Jorge dormia na sala, por isso pedia a ele que me abrisse a porta quando eu chegava à noite, depois da faculdade e do rolê. Não havia maneira; quando eu batia na janela envidraçada, já ouvia a chiadeira dos chinelos do velho. Abria a porta e me acolhia com a mesma admoestação: “Você não vai trabalhar amanhã?”; recolhia-me à rede e roncava até de manhã. Outra: certa manhã, passando na esquina, um jovem com sua mochila solicitou-me uma carona; era hábito esse apoio pela precariedade de transporte. Ao passar pelo Coroado, o carona pediu que parasse e desceu, agradecendo. No outro dia, o vizinho me perguntou se havia dado carona a alguém. “Sim”, confirmei. “Onde ele ficou?” E, sem captar qualquer dano, informei: “na entrada do Coroado”. Então, o vizinho me contou que sua casa fora furtada naquela noite; daí conclui-se: o policial ajudou o bandido a fugir.
Algumas recordações do bairro Tiradentes que, como assegurei, havia sido implantado em região de mata, tendo por limite um igarapé; com a presença dos manos, as primas passaram a visitá-los com frequência e, quase sempre, a visitação se estendia até aquele curso d'água. A localização permitia frequentes chamegos e o avanço dos botos sobre o cardume, sem implicações. Outra: à época, eu fumava. Diversas vezes fiquei à noite sem esse veneno, porque não havia ao redor onde comprar. Em certa ocasião, postei-me à porta, esperando a passagem da patrulha de policiais; com ela, puxei uma conversa de “bêbado”, até perguntar se algum deles fumava. De pronto, um deles confirmou de quem pedi um cigarro. Este tentou me passar a carteira, que recusei. Fiz bem, pois, ao acender o cigarro ofertado, percebi que era de terceira linha, um “quebra peito”. Terceira: os filhos Roberto e Eduardo passavam comigo o final de semana e, aproveitando as ruas largas e enladeiradas, desfrutavam do único par de patins. Num sábado, ao retornar para casa, fui surpreendido pelo Robertinho, que, de patins, tentou pegar carona agarrando-se à janela do carro; não conseguiu, caindo ao solo. Em baixa velocidade, de pronto parei e corri para ver o acidentado. Nada demais, pois o garoto caiu com a mão espalmada e o pneu evitou mal maior.
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| Brasão do Corpo de Bombeiros da PMAM |
Ao retornar à atividade policial, fui designado para servir no Corpo de Bombeiros, de onde fora afastado há seis anos; na ocasião, abrigado no novo aquartelamento da rua Codajás, em Petrópolis. Encontrei a boa acolhida dos colegas: Odacy Okada, comandante, e Cavalcanti Campos, no Centro de Atividades Técnicas (CAT). A hierarquia permitiu que fosse nomeado subcomandante, e tratei de buscar uniforme e capacete próprios do serviço. Logo, tomei conhecimento da reviravolta que o IPM “montado” dois anos antes na Rádio Patrulha encontrava-se na Auditoria, com meu pescoço à prova. Na época, bastava que o policial respondesse a um inquérito — como acusado — para, na condição de sub judice, ser excluído de lista de promoção. Essa adversidade logo me alcançou, quando assisti a diversas ultrapassagens ou “cangalhas”, no linguajar da caserna, de subalternos. Apesar disso, o prejuízo seria recompensado três anos depois, ao servir no Palácio Rio Negro.
| Carteira estudantil da Faculdade de Educação |
O curso técnico que frequentei propiciou que, em março, passasse a integrar a “Comissão de revisão de currículos e formulação de propostas de cursos de formação e aperfeiçoamento de praças”; a despeito do extenso título, ignoro a minha contribuição. Ainda naquele mês, foi criado o pelotão feminino, representando a quebra do machismo na corporação. A fim de capacitar o pessoal, foi instaurado o CFS feminino e, no quadro de instrutores, fui convocado para ensinar a disciplina “Metodologia do Ensino”. A matéria estava bem viva, mas achei estranho ensinar pela primeira vez mulheres; como deveria tratá-las, da mesma forma que os colegas homens? Outro pormenor me incomodava: de que maneira atuar durante a aula ao ver aqueles corpos jovens, por vezes chegando ainda com o short de educação física delineando o sexo? Mantive-me bem longe dos impulsos; após o curso, houve um namoro inconsequente com as primeiras oficiais. Antes do encerramento do curso, ocorrido no final do ano, em agosto, fui substituído no ensino da disciplina.



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