domingo, setembro 06, 2026

POEMA DOMINICAL (13)

 O poema é de autoria do saudoso poeta Alencar e Silva, e circulou em O Jornal, circulado em 15 de dezembro de 1962. Na véspera, ocorreu um acidente fatídico em Manaus: a queda do Constellation PP-PDE, da Panair do Brasil, matando todos os 52 ocupantes.

  

Recorte de O Jornal, 15 dezembro 1962

NESTE BARCO PASSAGEIRO

                                                                        ALENCAR E SILVA


Neste barco passageiro

mal disposto a viajar

eu me invento rotas novas

rotas de nunca chegar 

marinhando esse meu gosto  

acre e ázimo de mar

vou-me impondo amargas provas

sem com elas me importar 

que este barco de noturnas

solidões vai-se a errar

sob luas e astros doidos 

que os bem sei como inventar

quando embarco e ao barco imprimo

rotas de nunca chegar.

sexta-feira, setembro 04, 2026

VIAGEM NO TEMPO (7)

 

 

A partida 

Renato Mendonça

18.07.2026

 Na véspera da partida, o ritual de acomodação da bagagem nas malas revelou sua insuficiência — como se a bagagem tivesse tomado fermento e nunca fosse capaz de conter tudo o que uma jornada guarda. Logo ao amanhecer, quando o comércio abriu suas portas, na Avenida Sete, uma loja de departamentos nos socorreu. Pelo tamanho da loja de dois pavimentos grandes, pensamos tratar-se de chineses, mas a atendente de caixa nos assegurou que o proprietário era do Amapá. Pensei com meus botões que ali precisaria ter um movimento compatível com o investimento.

Não demoramos a escolher os produtos, pois havia a ameaça do relógio: o navio partiria às onze, e o trânsito matinal de Manaus, somado à burocracia desconhecida dos portos, parecia um desafio maior do que o recibo de nossa compra de passagens — tão simples quanto a sinuosidade dos rios.

Roberto, sempre cordial nos buscou no hotel e, com a serenidade de quem conhece o ritmo da cidade, logo encontrou um espaço para estacionar. O Ana Beatriz, com capacidade para 700 passageiros, já nos aguardava, imponente, de motor ligado. O acesso à plataforma de embarque revelou-se surpreendentemente bucólico. Passamos pelo convés inferior, abarrotado de carros usados e motos novas e reluzentes, como se o navio fosse também um armazenador de sonhos sobre rodas.

Nos conveses superiores, redes de dormir se multiplicavam como se fosse um jardim de flores multicoloridas, testemunhas silenciosas da vida de ribeirinhos e outros de classe menos favorecida. Naquele frenesi de pais e crianças para achar um espaço minimamente confortável. Havia a terceira classe, marcada por essa simplicidade, mas também a segunda, com a mesma ciranda de redes, climatizada, onde o ar parecia oferecer um pouco mais de conforto.

Nosso camarote nos recebeu sem demora, e ficamos à espera da partida, que se atrasou uma hora. Pensei: talvez seja uma forma de tolerância amazônica com os navegantes, um gesto de compaixão para os que correm contra o tempo. Diferente dos aviões, onde a pressa é lei, aqui o rio ensina que o fluxo pode esperar.

Enquanto aguardávamos a hora da partida, eu, Roberto e Alda explorávamos os recantos da embarcação. No olhar de meu irmão, percebi o brilho da missão cumprida: levar-nos até ali, oferecer-nos horas de convivência familiar com ócio elegante. Mas havia também um desejo contido, quase secreto, de um dia embarcar nessa travessia como protagonista. O sol brilhava sem a tirania do calor, e a atmosfera fraternal parecia dar forma a esse anseio.

Ana Beatriz IV - ferry boat e navio regional


Ao meio-dia, no dia 2 de julho, o Ana Beatriz finalmente soltou as amarras e se desprendeu do porto. À medida que o navio se afastava, vi surgir, ao longe, o bairro Educandos — o território da minha infância, onde aprendi a vencer monstros invisíveis e a dar nome ao medo. Aquele pedaço de chão, agora visto de fora, parecia acenar silenciosamente para mim. Não houve lenço branco, mas houve despedida, sim: dissimulada, íntima, gravada no coração.

E compreendi que partir não é apenas deslocar-se no espaço físico. É também reconhecer que cada embarque — nessas circunstâncias, lenta e singular — é uma metáfora da vida: sempre carregamos menos do que gostaríamos; sempre deixamos algo para trás e sempre seguiremos adiante com a esperança de que o rio possa nos conduzir a novas margens, mas nos traga de volta, sempre que a saudade exigir.

Manaus, com sua história e meus conterrâneos, tornou-se espelho da minha própria trajetória. E ao deixar a cidade, percebi que não levava apenas lembranças: levava comigo a certeza de que o passado, quando revisitado com emoção, se transforma em presente eterno — o melhor presente.

quarta-feira, setembro 02, 2026

MEUS OITENTANOS (16)

 

FASCÍCULO 16 

Em se tratando de viagem ao exterior, conservo outra desventura. Ainda no comando da Rádio Patrulha, em novembro de 1978, fui indicado juntamente com o major Romeu Medeiros para acompanhar uma delegação de oficiais brasileiros ao Chile. Tratei de aprontar a documentação exigida, em especial o passaporte; de atualizar os conhecimentos sobre aquele país; rever minhas lições de espanhol, enfim, cuidar do uniforme próprio para o clima andino. Quando tudo ficou acabado, eis que o Chile e a Argentina iniciam a disputa por três ilhas no Canal de Beagle. Pouco a pouco a crise evoluiu, até o ponto de escalar tropas na fronteira, além de navios na região; diante da profundeza da crise, o Ministério da Guerra cancelou a visita. Desse modo, arquivei o passaporte.


     Nesse período, ocupei a casa deixada por meus pais no Morro e, sempre que curtia uma solteirice, utilizava as dependências do gabinete do comandante da RP. A morada necessitava de reparos, para tanto contratei o carpinteiro alcunhado de “orelhinha”, alcunha decorrente da deformação da orelha direita. Conversei com ele, sempre antes de minha saída para o quartel, quando me informava das obras a executar naquele dia; estranhamente, quando eu retornava ao fim da tarde, nada havia sido realizado. Dia seguinte, o profissional me explicava que faltara isso e aquilo. No entanto, contaram-me os vizinhos, quando eu seguia para o trabalho, “orelhinha” desaparecia. Outra questão relativa à casa construída em vasto terreno de 1.200m2, em nome da minha madrasta Doroteia que com a família havia se mudado para Santos-SP. Idealizei comprar a terra e a habitação, acertando o valor com ela com pagamento em parcelas. O trato seguia, até que consultando um advogado, este me lembrou de a impossibilidade desse negócio prosperar, porque havia seis irmãos herdeiros. Desisti, mas fui encarregado pela dona de vender a propriedade, tão logo anunciei, passou ao novo dono. A venda foi efetuada em 12 de novembro de 1989.

Rua Amazonas, 29 - Morro da Liberdade

Alojado no quartel surge uma lembrança comovente da maternidade vizinha: quase sempre que chegava ao quartel altas horas, escutava os lamentos das parturientes. Ouvi as promessas mais absurdas, como jamais voltar a crer no boto doméstico; em outras ocasiões eram queixas de desalento pela falta de conforto hospitalar. A então Maternidade Ana Nery havia sido instalada como Balbina Mestrinho, em 1960, em uma porção do terreno pertencente à Polícia Militar. Dessa proximidade resultava o alarido que se ouvia nas madrugadas. Outra questão que me incomodava era a caça feminina aos policiais. Esclareço: o único meio de contato disponível era o telefone, cuja linha permanecia, durante o expediente, no meu gabinete; eu quase sempre atendia às chamadas. E, ao ser questionado pelo soldado fulano, respondia que ele estava “de serviço na área B”; e o sicrano, onde se encontra? – “de folga”, eu arriscava. Ainda ocorria de dizer “em serviço na área B” e a pretendente, com ênfase, me corrigir, “ele só tira serviço na área C!” – e assim por diante. Agora, a questão que me afligia: quais atributos dispunham os policiais para empolgar tantas jovens? Optei por não encontrar.

Um episódio político-policial provocou-me emoções fortes: ocorreu durante a visita do então príncipe-herdeiro japonês Hiroito ao Brasil, hoje imperador emérito. O fato deu-se no segundo semestre de 1978. Como o Amazonas figurava na agenda, fui escolhido para compor o grupo de segurança, no comando da Rádio Patrulha; para isso ocorreram várias reuniões e encontros coordenados pelo CMA. Em uma dessas reuniões, distribuíram-se encartes com fotos de vários suspeitos, todos japoneses. Depois de observá-las repetidamente e sem conseguir acrescentar qualquer que os diferenciasse, sorri ante a impressão de que todos os japoneses se parecem. No dia marcado, após atravessarmos o rio Negro de balsa e desembarcarmos em Cacau Pirera, seguimos pela estrada Manuel Urbano (Manaus-Manacapuru) até a colônia japonesa. Nesse local assisti a um rito devocional que me deixou surpreso e com admiração duradoura: os japoneses – os mais idosos – curvaram-se à passagem do príncipe e acompanharam toda a solenidade nessa postura, sempre de cabeça baixa.

O extrovertido tenente Humberto Crispim, dotado de contumaz conversa comercial, insistiu comigo para me vender um automóvel; de fato, aquele Fusca que usava estava em pandarecos. Conversa vai e vem, apresentou-me a um Karmann Ghia TC, veículo VW clássico esportivo, bastante buscado pelos jovens arrebatados; não me agradou, ainda assim, ele rogou que fizesse um “test drive”. Tão logo sentei no banco, tive a sensação de que estava arrastando o traseiro no asfalto. Ao ultrapassar um ônibus, o pânico se apoderou de mim, julguei-me dirigindo debaixo do coletivo. Desisti. Então, ele me trouxe a VW Brasília, uma perua então bem aceita, de placa ZG 94-32, que tão logo vi, me apaixonei basicamente pela cor – dourada, certamente a única na cidade. Com ela fui para São Paulo, depois para o Rio, onde passei o ano seguinte, e ali foi vendida.


Para comemorar a passagem do ano no quartel, organizei uma festa para todos os subalternos e afixei no portão centenário existente no pátio uma árvore de Natal estilizada, gesto que me deixou, de certo modo, bastante envaidecido, pois aquela decoração jamais foi repetida. O comando da Polícia organizou para os oficiais um baile nos salões do Rio Negro Clube, presente o governador Henoch Reis e convidados. De minha parte, convidei a Celia C., aquela jovem que conheci no Detran em 1974, e, obsequiado pelo meu comandante do batalhão, ocupamos a mesma mesa, Lustosa com a digníssima esposa. Encerradas as festas, acabei por adquirir passagens e viajei a São Paulo para encontrar meus familiares, já sabedor da minha matrícula no Curso de Técnica de Ensino, no Centro de Estudos de Pessoal (CEP), localizado no Rio.

 

Única foto dos irmãos e pais reunidos - Natal 1978

Durante as comemorações com a família, consegui dois feitos: primeiro, ao avisar que estaria no Rio no ano vindouro, pedi a meu pai que mantivesse a família em Santos; o pedido recebeu pronto acolhimento, já que os irmãos não queriam retornar a Manaus. O segundo feito foi a realização de uma fotografia no endereço familiar, no bairro do Orquidário, em Santos, reunindo todos os filhos e até um neto, junto de nossos pais. Uma reunião similar nunca mais se conseguiu realizar. Após meu retorno a Manaus, no começo de 1979, comecei a preparar a viagem para frequentar o curso, no Rio.

terça-feira, setembro 01, 2026

PASSEIO DE BONDE EM MANAUS

 A postagem celebra quem aproveitou o bom tempo, transcrevendo a cronista Beth Azize que, em sua coluna publicada há pouco mais de 50 anos, recorda com detalhes o passeio de Bonde. Agradeço ao Ed Lincon, enamorado por esse meio de transporte, apesar de nunca ter utilizado, mas preserva a lembrança de família, pois seu avô foi motorneiro da Manáos Tramways. 

Bonde circulado em Manaus, até 1957



Recorte da coluna publicada em A Crítica, 30 agosto 1975

Domingo, 4 horas da tarde. “Vai tomar banho menina, senão vais perder a volta de bonde”. Todos os domingos à tarde, numa época que já vai bem longe, mas continua próxima na lembrança, as moças casadoiras, vestidos de frufru, laços nas cadeiras, sombrinhas rendilhadas, tomavam o bonde na estação para se exibirem aos pretensos pretendentes que, de chapéu de coco e bengala, “flertavam” sobre os trilhos.

O costume se transferiu para uma outra geração. E ainda na década de quarenta [1940], toda a turma que já sabia se vestir e pentear o cabelo sem ajuda da mãe, ficava esperando, com ansiedade, a volta de bonde, no Circular Cachoeirinha ou Flores, ou nos Remédios.

A garotada subia pelos estribos com alvoroço. Papai advertia: “vê se vocês não vão cair”. A briga começava pela ponta do banco. Todo mundo queria ficar na extremidade dos bancos de madeira envernizada, pra ver melhor a rua e as pessoas. Era uma euforia quase histérica. Mas numa história de crianças, como se tivéssemos a caminho da Lua, numa nave espacial.

Essa mesma sensação tive quando andei pela primeira vez no Zepelim, um ônibus com feitio de avião ou foguete que por cá apareceu e depois desapareceu por encanto, como a nossa meninice. Mamãe me conta que “no seu tempo” as moças andavam de sombrinhas abertas nos bondes e os rapazes começavam o namoro elogiando a sombrinha.

E ela bem se lembra que papai a viu pela primeira vez com uma sombrinha de bordados e cor marrom. O seu Rafa, muito vivo, sabendo-a coquete foi logo jogando seda pra sombrinha que era o instrumento que melhor servia pras mocinhas fazerem charme e gesto de conquista. Deu certo. Conosco a coisa mudava de feitio. Éramos bem crianças e a nossa sensação tinha que ser diferente, claro.

Quando o bonde chegava no ponto final, tínhamos que esperar a hora para a volta e nesse intervalo fazia-se a compra dos doces, do rala-rala, do alfenim, do gergelim, do pirulito. E no regresso, chupando o pirulito que começava a perder sua forma e o açúcar, vendo o bonde conquistar os metros de trilho de volta, torcíamos no íntimo mais escondido para que a viagem não tivesse fim.

No estribo o cobrador passava, uma mão na alça metálica, outra com o dinheiro todo dobradinho e a sacola pendurada na cintura, cheia de moedas. “Leva!” Ou então, “Ten-tem”. E o bonde parava nos pontos certos, fazendo ranger sobre os trilhos uma música tão familiar.

Na hora da descida, quando o passeio terminava, outra confusão agitava a mente da turma endiabrada. Ao invés de esperar-se o bonde parar de todo, um instinto de impetuosidade nos levava a saltar com ele ainda em movimento. Era uma delícia. Mas quando se chegava em casa a dedo-duro da família já subia as escadas gritando: “Mamãe, fulana e fulano ‘morcegaram’ o bonde!” E o cinturão ou a chinela cantava no lombo. “Seu condutor, tin-tin, seu condutor, tin-tin, para o bonde...”

sábado, agosto 29, 2026

VIAGEM NO TEMPO (6)


Seminário São José

  Renato Mendonça        18.07.2026

Na véspera da partida, já estava decidido: parte da viagem seria feita sobre as águas, num camarote de navio — que estranhamente chamam de barco — com destino a Santarém. As passagens estavam compradas, e dali em diante o roteiro se abria ao acaso, como quem confia em Deus para fazer o papel de guia turístico. Mas havia um compromisso firmado desde o início, ainda no Rio: visitar o antigo Seminário São José, na Praça 14 de Janeiro. Um edifício histórico que guardava em suas paredes o eco da minha adolescência, dos doze aos treze anos, quando ali vivi os primeiros anos de Ginásio, sob a sombra do recém-instalado regime militar, após o Golpe de Estado.

Naquela manhã, meu irmão Roberto nos levou a atravessar a Ponte Rio Negro — batizada em homenagem ao jornalista amazonense Phelippe Daou. Com seus quase quatro quilômetros de extensão, dizem ser a maior ponte estaiada do Brasil, ligando Manaus ao município de Iranduba. Do outro lado, Roberto mantém uma pequena propriedade, refúgio contra o tumulto da cidade metropolitana.

Aproveitamos a estada para visitar o mercado municipal, onde a fartura da Amazônia se revela na abundância de peixes, como se fossem cardumes, variedade de cores e nomes: tambaqui, pacu, jaraqui, tucunaré e outros que não consegui memorizar. Cada peixe parecia estar ali para contar a história do rio que o criou, compondo uma pequena amostra, um mosaico da abundância regional.

Pacu, tucunaré, jaraqui - fartura amazônica

Quase ao cair da tarde, contando sempre com a hospitalidade de meu irmão Roberto, enfim se concretizou a visita ao Seminário. A emoção foi imediata: ali estavam, incólumes, os degraus que meus pés de menino haviam subido e descido tantas vezes; o portão de ferro encimado pela mesma imagem de São José, e o conjunto arquitetônico em forma de “U” que guardava tantas memórias. O interior, transformado para abrigar uma universidade de Humanas, já não era o mesmo, mas o espírito ainda permanecia na nossa imaginação.

Portal de entrada - Rua Emilio Moreira, Praça 14

Graças à gentileza dos guardas patrimoniais — que foram sensíveis às nossas ansiedades —, percorremos quase todas as entranhas do prédio. E o reencontro mais pungente foi com a velha jaqueira. Lembro-me de como, nas orações da capela ao lado, seu cheiro de fruta madura invadia o ambiente, e de como, nas noites ousadas, roubávamos uma jaca às escondidas, rendendo reprimendas inevitáveis. Encontrá-la ali, sessenta anos depois, ainda frutificando, foi como rever um amigo fiel, que conserva a mesma fisionomia e continua a oferecer dádivas para satisfazer as lembranças.

Prédio do Seminário Maior em reforma (foto antiga)

Naquele instante, compreendi que viajar não é apenas deslocar-se no espaço físico, é também uma viagem no tempo. Rever a minha Manaus, a família, os lugares e os símbolos da juventude foi como abrir um relicário de memórias, onde cada reminiscência — da ponte ao mercado, do seminário à jaqueira, dos cemitérios aos túmulos, da festa junina — tudo se tornava um testemunho vivo de que o passado nunca se perde: apenas repousa, à espera de ser reencontrado e recontado, quantas vezes for necessário para valorizar a missão humana.

A ponte Rio Negro, erguida em linhas modernas, parecia dialogar com o passado colonial e com o ciclo da borracha, mostrando que o progresso não pode apagar a memória, mas serve para efetivá-la. O mercado, com sua abundância de peixes, mostrava que a fartura da natureza é um convite para uma gratidão a Deus, pelo maná que sustenta diariamente o caboclo e a urbe. O Seminário São José, com seus degraus e portão de ferro, devolveu-me a adolescência por breves momentos que quero eternizar nessa crônica.

E a jaqueira, fiel testemunha de algumas de minhas travessuras juvenis, revelou-se metáfora da própria vida: mesmo após sessenta anos, continua a dar frutos, como quem insiste em provar que o passado não morre, apenas se reinventa — basta ter fé.

Renato, Alda e a eterna jaqueira - memória viva
 Esse reencontro me trouxe a compreensão: viajar é também revisitar a si mesmo. E é muito melhor quando se está bem acompanhado. A Alda foi uma ponte para que eu pudesse me transladar no tempo. A emoção de rever família e lugares não é apenas nostalgia, é uma revelação, como se estivéssemos revendo fotografias antigas. Somos feitos de raízes e de caminhos, de permanências e de partidas. Ao retornar ao Seminário, percebi que o tempo não é um algoz — é um companheiro silencioso, que nos acompanha, nos molda e devolve, em cada reencontro como esse, a consciência de que viver é perpetuar memórias também.


quinta-feira, agosto 27, 2026

ALCEU VALENÇA EM MANAUS - 1976

 Há precisamente 50 anos, foi realizada a estreia do hoje consagrado compositor Alceu Valença, em Manaus. A apresentação teve lugar no palco do Teatro Amazonas, que recebia os artistas contratados para a “Segundinha Cultural”, uma iniciativa da Fundação Cultural. A postagem foi recortada do jornal A Crítica.

  


Manaus, domingo, 29 de agosto de 1976

Ele troca Rolling Stones polo bumba-meu-boi. Nunca ouviu Pink Floyd, porque não tem vitrola e tem “mais em que pensar”. Mas gosta de Núbia Lafayete, que acha uma cantora maravilhosa, Nelson Gonçalves e Ray Charles. Considera a sua música, sanguínea: “O maracatu é demoníaco”. Este é o retrato do cantor e compositor, falado por ele mesmo: Alceu Valença, uma das últimas apresentações da “segundinha cultural”, criada pela Fundação Cultural há cerca de cinco meses com pleno sucesso do público e bilheteria. Valença apresenta-se no dia 30, no Teatro Amazonas, a partir das 21 horas e seu espetáculo já está sendo esperado pelo público amazonense como um dos mais importantes do ano.

O meu trabalho — explica Alceu Valença, tem um clima de brincadeira, de teatro popular nordestino, aquele negócio do “vamos brincar de boi”, uma festa, uma tragédia, como os autos populares que são trágicos e cômicos ao mesmo tempo.

Para este jovem nordestino que a crítica do Sul do país considera a “explosão musical do ano”, principalmente por seu trabalho em “Vou Danado Pra Catende”, a música é alimento, e as pessoas precisam se alimentar do que ele tem a dizer. Mas, o reconhecimento da crítica e o sucesso de público aconteceriam em meio a situações que ajudaram a compor a imagem de Alceu Valença, um artista bom de se ouvir e melhor de se assistir.

Alceu Valença

A princípio, confessa, “eu achava que não tinha talento musical, até o dia em que fui jogado às feras”. Na medida em que eu tinha vergonha de mostrar as minhas músicas é porque não era ainda a minha verdade. A partir do momento em que senti a minha verdade, eu tive que assumir, sem nenhum pudor. Não é conselho, mas, se você me perguntar se é bom, cara, eu diria que as pessoas deveriam entrar de sola nas coisas, mergulhar mesmo.

terça-feira, agosto 25, 2026

VIAGEM NO TEMPO (5)


18.07.2026                                     Renato Mendonça 

 Passeio do índio 

O dia amanheceu como se quisesse conspirar contra o passeio, apesar da confirmação feita na noite anterior com o agente de turismo para nos incluir no rol de passageiros. Por volta das nove, o céu se mostrava desfavorável: nuvens pesadas, cinza espesso, um prenúncio de chuva. E na noite anterior já havia chovido. Meu irmão, atento, enviou-me mensagens acompanhadas de fotos tiradas do seu apartamento, descrevendo o cenário sombrio. Mas eu, fiel ao meu otimismo quase teimoso, respondi com leve ironia: “vamos aguardar pelos deuses do sol...”

E eles vieram. Meia hora depois, o sol pediu licença, abriu a cortina de nuvens e revelou sua face brilhante, como mais uma bênção inesperada. Manaus, ainda em trânsito intenso na Avenida Eduardo, parecia indiferente ao milagre discreto, mesmo diante do Relógio Municipal, monumento neoclássico inaugurado em 1929, cuja frase em latim, escrita em volta dos números — vulnerant omnes, ultima necat — recorda uma metáfora sobre a inexorável passagem do tempo.

Às dez, já estávamos no convés de um barco atracado na “Balsa do Ajato”, atrás do Adolpho Lisboa. O atraso proposital, para aguardar os retardatários — alguns vindos de outros municípios, tal como Parintins —, deu ao momento um sabor de expectativa e interação com os passageiros e o guia turístico. Quase uma hora depois, o barco enfim partiu, levando consigo não apenas turistas, mas também a promessa de um passeio iluminado, como se a própria história da cidade quisesse nos acompanhar.

O guia turístico — que se autodenominava jungle boy — irradiava entusiasmo e preparo ao anunciar a campanha daquela aventura: o encontro das águas, a visita à aldeia dos índios tuyukas, o encontro com o pajé, a apresentação dos rituais de dança, o almoço em restaurante flutuante, a interação com os botos cor-de-rosa, a simulação da pesca do pirarucu, a feira de artesanato e, por fim, a entrada na floresta para contemplar as vitórias-régias. Cada etapa parecia desenhada para nos conduzir a um mergulho na essência amazônica — que se inicia observando no trajeto comunidades ribeirinhas flutuantes e em palafitas —, como se o roteiro fosse também um rito de iniciação.

Segundo ele, tudo se tornara possível e mais aprazível porque o Rio Negro estava “na cheia” — com a cota em 28,5 metros —, permitindo que o barco penetrasse nos igapós, essas florestas inundadas que só revelam sua beleza nesse período de abundância de água. Assim, cumprimos o ritual até alcançar a Reserva do Lago Janauari, onde a maioria dos eventos se desenrolou.

Renato e Alda - Lago do Janauari

Ali nos recebeu a comunidade tuyuka, com sua apresentação cultural de música, danças e ritos. E uma pequena mostra de artesanatos. A hospitalidade era palpável, até mesmo do sorridente pajé, que se dispôs a tirar uma foto comigo e com a Alda. Entre os costumes, surpreendeu-nos uma iguaria feita com grandes formigas torradas — trouxe-me a lembrança viva dos antigos, que conheciam a farofa de tanajuras como sabor de tradição.

Ao regressar da floresta, o percurso quase ritual, passando por dentro do Mercado Adolpho Lisboa, nos conduz a um mergulho na memória da borracha, quando Manaus pulsava como metrópole da selva. O pavilhão Art Nouveau, erguido há mais de um século e meio, não é apenas um espaço de comércio e exposição de artesanatos: é testemunho vivo de uma era em que o esplendor europeu se mesclou com a exuberância amazônica. Como este, a cidade abriga outros monumentos que guardam em suas fachadas a lembrança de um passado grandioso, fazendo de cada esquina um convite à contemplação da história.

Renato, o pajé e Alda - Aldeia Tuyuka


segunda-feira, agosto 24, 2026

MEUS OITENTANOS (15)

 FASCÍCULO 15

 


Ao retornar ao quartel no início de 1978, fui informado do honroso prêmio alcançado: ser transferido do batalhão de Petrópolis para comandar a Rádio Patrulha. Este órgão, criado em 1972, funcionava em um quartel inaugurado no ano de 1977, onde substituí ao major Mael Sá, conhecido pela sua exigência com o serviço externo, notadamente o de radiopatrulhamento; concedendo aos patrulheiros ampla liberdade para agir e apoiando a repressão empregada. Para minha desventura, não aceitava esse perfil, porque defendia que o policial devia fiscalizar para proteger, e não para acossar. O serviço era realizado em prosaicos Fuscas, equipados com uma sirene e um rádio Motorola de funcionamento primário. Contudo, o policiamento, apesar desse reduzido aparato, impunha respeito e receio à sociedade. De fato, cumpria sua função plenamente.

Ao assumir o comando, passei a receber diariamente inúmeras reclamações de pessoas sobre os mais variados temas; a mais recorrente era a perseguição ao casal que, no interior de seus automóveis, buscava o escuro ou o matagal para maior enlevo. Nas formaturas diárias eu expunha minha posição acerca desse tipo de patrulhamento e, não raro, de maneira ríspida, recomendei que não procedessem assim, pois poderiam encontrar no local uma parenta próxima. Numa dessas noites, eu me encontrava no estacionamento do estádio Vivaldão, exercendo meu direito de namorar, quando minha parceira alertou que um veículo se aproximava; ao verificar, reconheci uma viatura da RP, às escuras. Os patrulheiros, ao reconhecerem meu carro – uma Brasília VW dourada – manobraram em velocidade de F1, tornando impossível a sua identificação.

    

Vista aérea do quartel da Rádio Patrulha, 1978

Minha postura quanto à disciplina e o controle do policiamento acabou incomodando os subordinados, que desejavam fiscalizar conforme lhes convinha, para obter as propinas que grande parte da cidade pagava. Perdi a disputa: certa noite o pessoal de serviço foi advertido pelo superior de dia, numa espécie de intervenção no comando, para que saísse às ruas e assumisse o turno. A despeito dos obstáculos, consegui, ainda que a duras penas, manter o comando até o fim do ano. Contudo, o pior erro foi obra minha, quando minha residência no Morro foi assaltada, e dali subtraíram o revólver da corporação sob minha cautela. Em conluio com alguns colegas, elaborei um inquérito infundado, atribuindo a culpa a terceiro. O expediente funcionou por um tempo, até que no ano seguinte a arma foi apreendida na posse de um marginal, que revelou a procedência. Resultado: acabei no banco de réus da Auditoria, ameaçado de ser excluído da corporação.

Antes dessa passagem pela Justiça, já havia enfrentado outra quando, no comando do coronel Ossuosky (1975-79), eu dirigia o Centro de Operações (COP). A cidade arrostava a atuação da gangue dos “Mulatos”, que exigia redobrado esforço dos policiais; em uma operação noturna, o desembargador Paulo Feitosa – pardo – foi aviltado por um soldado, fato que exigiu do comando largo esforço para contornar a situação. Dias depois, em plena manhã, um oficial de justiça foi detido e conduzido à sede do COP, onde me encontrava e prestei atendimento. Ouvido, foi liberado sem restrição, por ordem do comandante, porém, quando chegou à sede do Tribunal de Justiça, seu local de trabalho, relatou sua “versão”. Mais uns dias, eu recebo uma intimação do Tribunal, acusando-me de agressão àquele servidor. Apesar de minhas justificativas, inclusive citando a participação do coronel Ossuosky, fui incriminado e julgado. No dia do julgamento, ocupando o banco de réu, vi passar os colegas de faculdade que não entendiam a situação. Meu defensor – doutor Cabral Simonetti – recomendou-me que, se possível, chorasse, nada de atrevimento. Todavia, não suportei a descrição do crime realizada pelo promotor – Dr. Thury, tão engenhosa que o encarei, de que se aproveitou para me admoestar; fui salvo pelo meu defensor. Afinal, fui absolvido com restrições; então, compreendi ter sido utilizado, pois o Tribunal de Justiça teria embaraços para julgar o comandante, na condição de secretário de Estado. 

Inspeção do general IGPM à Rádio Patrulha. 1978

Desejo registrar um caloroso momento ocorrido em meu comando: a visita do Inspetor-Geral das Polícias Militares, em maio daquele ano. A curiosidade ficou pelo seu nome de guerra, de difícil sotaque para os nortistas – general Schnarndorf. Ao tempo, as organizações policiais – como órgão auxiliar – se encontravam sob o controle das Forças Armadas; por essa razão, o inspetor visitava periodicamente as PM. A interferência proliferou de tal maneira que, para o cabal cumprimento das normas, eram distribuídas cartilhas, cuja capa, de coloração amarela intolerante, ensejou o codinome de “amarelinhas”. De outra forma, a Inspetoria distribuía fartamente vagas em cursos dentro e fora do país, facilitando com essa movimentação alguns “penduricalhos” no soldo dos policiais; esse benefício era extremamente bem-vindo.

A esse respeito, tenho duas peripécias sobre curso no estrangeiro. Na primeira, se não me falha a memória, foi cerca de 1968 em que a PM foi contemplada com duas vagas para um curso nos Estados Unidos. As colocações eram abertas a todos oficiais indistintamente, sendo a única exigência a proficiência em inglês ou espanhol. A vaga destinada a falantes em inglês, cuja competência era exclusiva do tenente Osório, foi preenchida prontamente; já a destinada a especializados em espanhol exigiu prova escrita porque havia vários inscritos. Revisei meu portunhol, aprendido com meu pai e com conterrâneos peruanos, e consegui a aprovação. Meu entusiasmo, porém, durou pouco; um oficial mais graduado procurou o comandante e obteve minha substituição por outro colega, justificada somente pela antiguidade. Guardei ressentimento. Dois anos depois surgiu nova vaga e a mesma exigência; dessa vez sequer me inscrevi, receoso de sofrer nova retaliação. (segue)

sábado, agosto 22, 2026

MAGNIFICAT!


Renato Mendonça

 

A memória do domingo — 16 de agosto — na liturgia católica nos conduz à celebração da Anunciação: o instante em que o anjo Gabriel, mensageiro da eternidade, desce em missão gloriosa e revela à Maria que dela nascerá não apenas um homem, mas o próprio Filho de Deus. É como se o céu tivesse, naquele instante, abençoado a terra, e a eternidade se alojado no ventre de uma jovem — para o cumprimento das escrituras.

Pensemos na delicadeza e na ousadia desse acontecimento. Maria, tão jovem e virgem, torna-se templo vivo, sacrário de carne e sangue. O ventre que se anuncia é mais que biológico: é um altar em gestação. E, na insensatez da sociedade judaica, marcada pela supremacia masculina — muitas vezes misógina — e pelo rigor das leis, aquele ventre, quando proeminente, poderia ser visto como escândalo, motivo de julgamento e até de morte por apedrejamento. Mas, o mistério divino não se curva às convenções humanas.

Outros milagres se entrelaçam nesse enredo: José, convencido em sonho, escolhe o caminho da proteção e não da denúncia; Isabel, ao receber Maria, sente o próprio filho estremecer em seu ventre, como se a vida reconhecesse o Pão da Vida que se aproximava. Cada gesto, cada encontro, cada sinal reforça o caráter sagrado dessa gestação — não apenas humana, mas transcendental.

Deus, em sua sacrossanta intenção, quis encarnar em uma mulher escolhida, para mostrar sua face humana. Maria torna-se ponte entre o invisível e o visível, entre o eterno e o temporal. Jesus, para os que creem, é a forma humana do Criador, testemunho vivo de que somos sua imagem e semelhança. Sua vida e ensinamentos permanecem como bússola de fé, semeando comportamentos honrados e livres de fanatismo.

Não há como negar a presença de Deus nos corações que se abrem ao mistério. A natureza, a ciência e o universo são reflexos de um ser superior que, mesmo diante do ceticismo, continua a ser o Senhor da Vida. Maria, humilde serva, aceita sua missão com palavras que ecoam como poesia eterna de resignação: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa vontade.”

Assim, o ventre de Maria carrega um plano divino, cósmico: nele pulsa o coração da humanidade e o sopro da eternidade. E o Filho, que padeceu e morreu na cruz, é a prova de que o amor divino não se limita ao céu, mas se derrama sobre a terra, até as últimas consequências, numa lição de humildade e resignação — assim como Maria.

A Encarnação e a crucificação de Jesus revelam que Deus não quis salvar o homem de fora, mas o de dentro: assumindo nossa carne, nossa fragilidade, nossa história. Jesus é a prova de que somos realmente a imagem e semelhança do Criador, e sua vida é testemunho de que a glória divina se manifesta na humildade. A cruz, plantada no alto para exprimir a derrota aos romanos, é o ápice do mistério: o Filho que aceita o cálice da dor e se entrega resignadamente, e o Pai que, na extensão do mesmo mistério, confirma que o amor é mais forte que a morte.

É Magnífico!

sexta-feira, agosto 21, 2026

SPP - SERVIÇO DE PROTEÇÃO PATRIMONIAL

 Atuou em Manaus, fundado em 1968, o Serviço de Proteção Patrimonial, melhor conhecido pela sua sigla – SPP. Fundado e dirigido por oficial do Exército – coronel Darly Sampaio, desde o início da Zona Franca de Manaus. Expandiu-se, enquanto não surgiam as concorrentes que as indústrias e obras e comércio exigiam da Manaus da época. A sede do SPP funcionou na rua 10 de Julho. Ao completar oito anos de existência, teve sua atuação destacada em A Crítica, de 12 de agosto de 1976.

Como autêntica sentinela na proteção do patrimônio de seus clientes, o Serviço de Proteção Patrimonial - SPP - vem colaborando há 8 anos de maneira decisiva ao desenvolvimento de Manaus. Exatamente há 8 anos o SPP começou na modéstia das suas possibilidades e vem paulatinamente, mantendo o seu rumo de trabalho silencioso e consciente, nesses 8 anos de experiência e de dedicação à sua missão precípua. Hoje, dia 15 de agosto, comemora-se com grande júbilo o 8º aniversário de fundação do Serviço de Proteção Patrimonial, que já faz parte do dia-a-dia de nossa Capital.


Recorte de A Crítica, 12 agosto 1976

Orgulhoso pelo trabalho que realiza, o SPP, à medida em que se expande, vai, também, admitindo como absolutamente certa a estrada que o Brasil vem palmilhando em busca do bem-estar de seu povo. Quanto mais necessidade de segurança ao patrimônio, maior prova de que, a despeito de tudo e de todos, muito mais gente está enriquecendo nesse País. O incremento da segurança do patrimônio é, sem dúvida, um índice veemente de que a riqueza nacional aumenta e muitos brasileiros mais estão enriquecendo ao contrário de alguns anos atrás. É a meta do Governo que vai sendo ferinamente atingida: a renda nacional pertence a muito maior número de brasileiros a cada ano. Parabéns ao SPP, com os votos de progresso para todos quantos ali emprestam o seu trabalho, o seu esforço.

Esta organização tem à frente o coronel EB Darly Sampaio (Diretor-Presidente) e Djalma Dutra, ambos sócios fundadores.

quinta-feira, agosto 20, 2026

PRIMEIRA VIGEM AO PERU

Aproveitei as férias de julho de 1981, para viajar a Iquitos, no Peru, terra natal de meu pai. À época, José Lindoso exercia o cargo de governador do Estado e recebera um protótipo de barco – um catamarã – para emprego na região.  Como a viagem inaugural subiria o rio Solimões, vivenciei a prova de funcionamento. Parti de Manaus numa quarta-feira e só desembarquei na semana seguinte; sem recursos de comunicação, levei a semana sem qualquer notícia sobre o restante do país.

Autor no Callao - Peru, em julho de 1981

Em Tabatinga, procurei informações sobre a viagem até Iquitos; além do serviço aéreo da Cruzeiro do Sul, existia um hidroavião da FAP (Força Aérea Peruana), cujo atrativo era o preço da passagem.  Na margem peruana, o hidroavião embarcava os passageiros junto a um flutuante, onde também se comprava a passagem. Sem horário fixo, passei a tarde aguardando e tomando “umas e outras”. Por razões logísticas, o avião pousou num pelotão militar próximo à cidade de Pebas, onde pernoitei. Na manhã seguinte, desembarquei em Iquitos, sendo calorosamente recebido pelos familiares.

A família de tia Laura e filhos e nora na recepção,
em Iquitos, julho de 1981

Queria ir mais longe: a ida e volta à capital Lima foi encaminhada pelo parente Miranda, funcionário da Cruzeiro, que me adquiriu passagem como se fosse nacional. Em 26 de julho, embarquei em um DC-3 ou 4 da Faucett Perú, no aeroporto – Francisco Secada Vignetta, inaugurado em 1979; assentado à janela observei a mudança da selva amazônica para os picos nublados dos Andes e, por fim, as ondas do Pacifico. Um amigo da família me recepcionou no aeroporto Jorge Chavez, na província do Callao.

Avião da Faucett Peru, no aeroporto de Iquitos,
em 26 julho 1981.

Celebrei as “Festas Patrias” em Lima, junto aos amigos da família, ocasião em que visitei as principais atrações turísticas. No retorno a Iquitos, ainda pela Faucett Perú, fui assediado no aeroporto por inúmeras pessoas pedindo para levar uma “encomenda”. Lembrando a recomendação do Miranda: nada de transportar pacotes. Assim fiz. Em Iquitos, tomei passagem na Cruzeiro para Manaus, cujo voo fazia escala em Tabatinga e Tefé. Somente voltei a Iquitos em 2015.

terça-feira, agosto 18, 2026

VIAGEM NO TEMPO (4)

 

Feliz Aniversário       18.07.2026                        

 Renato Mendonça 

Logo cedo, recebi uma ligação do José Manoel me parabenizando pelo aniversário. Durante a conversa relatei o desconforto da Alda, que não havia passado bem à noite, e a suspeita de infecção urinária. Sua esposa, Marília, aproveitou a ligação e interveio com asserção, nos orientando a procurar o Hospital Santa Júlia, instituição de boa reputação. Assim, programamos a ida imediatamente, sentindo uma certa urgência.

Chegamos ao Hospital Santa Júlia bem cedo, na manhã do dia de São Pedro, logo após o saboroso café do hotel. Mesmo com a informação prestada pela Marília, ainda havia entre nós uma pequena preocupação com a natureza da instituição e se seria atendido pelo plano de saúde. O motorista do Uber nos deixou exatamente no atendimento de emergência, com acesso pela Avenida Ayrão.

Como se fosse uma bênção divina para comemorar o aniversário, essa instituição estava cadastrada para atender meu plano. Desde a recepção, observamos que era um hospital de excelência, com boa estrutura, todo informatizado, com agilidade impressionante no atendimento e no resultado dos laudos de análises clínicas dos pacientes. Um painel à frente mostrava o andamento de cada resultado, assim como já constava do celular cadastrado do paciente. Em pouco tempo, Alda estava de volta à mesa da médica Maria José Silva para sistematizar o laudo e receber a prescrição dos remédios. Havia urgência em comprar e começar a tomar o antibiótico.

O guarda, com a calma de quem conhece cada recanto daquele espaço, nos guiou por corredores silenciosos, ladeados por salas de atendimento e consultas. Saímos por uma porta lateral e tomamos um elevador para subir um andar; de repente, o mundo hospitalar se dissolveu na vibração da cidade. A Rodovia Álvaro Maia pulsava com o ritmo apressado dos carros e o colorido das farmácias, cada uma oferecendo remédios e cosméticos.

A urgência nos fazia caminhar rápido, mas havia algo de ritual nesse deslocamento: como se o antibiótico fosse não apenas um remédio, mas um símbolo de esperança, um elo entre a fragilidade humana e a força invisível que nos sustenta. O dia de São Pedro, outrora celebrado com procissões e fogueiras em cantos da cidade, ali se manifestava em forma de bênção silenciosa — o encontro entre a fé e a ciência, entre o cuidado humano e a tecnologia que acelera curas.

Ainda como parte das bênçãos recebidas, estávamos próximos ao Cemitério São João Batista, onde eu tencionava passar para rever o túmulo de minha mãe e de minha avó. Fazia parte do meu plano primitivo, antes de viajar. Caminhamos até lá. O portão do cemitério era como se fosse passagem para outro tempo, outro mundo. Cada passo sobre o chão quente trazia lembranças que se misturavam ao presente. O azul do túmulo, ainda vivo na memória digital, agora se revelava diante dos olhos com outra cor, mais brilhante sob a luz do sol. Toquei a superfície da lápide e senti que, de algum modo, minha mãe e minha avó estavam ali — não apenas sob a pedra e a camada de terra, mas no calor que me envolvia, na emoção que me tomava por inteiro. Esse instante singular reformulou minha maneira de sentir saudade de minha mãe — como se fosse uma saudade compartilhada —, cuja breve existência de apenas trinta e cinco anos deixou em mim uma ausência que não se apaga — a beleza que nunca se acaba. Cada lembrança é um fio de dor e ternura, e ao evocá-la, sinto que sua vida interrompida continua a pulsar dentro de mim, como se me pedisse que a memória seja também uma celebração.

 

Renato no cemitério São João Batista

Rezei em silêncio, como quem conversa com o passado e pede proteção para o futuro. O vento leve que atravessava nossos corpos parecia resposta, um sopro de bênção. Naquele instante, a viagem deixava de ser apenas deslocamento geográfico: tornava-se uma peregrinação íntima, um encontro entre fé, memória e destino.

É impróprio dimensionar o tamanho da emoção, posso assegurar que o momento foi épico — o melhor presente de aniversário para meus 75 anos — comemorado com uma festa espiritual. Minha avó, que conviveu mais tempo comigo, me “olhava” com seus olhos miúdos e me acalmava. Segredamos juntos nossas orações e pedi-lhes a Bênção. Uma placa provisória, trazida pelo meu irmão Roberto, que me acompanhava também nessa missão, encimava o túmulo. Prometi para elas, e para mim mesmo, que não vou ficar mais tanto tempo afastado... se Deus quiser.

O calor do verão amazônico parecia selar meu juramento, como se o próprio sol fosse testemunha da promessa. A lembrança do meu pai, repousando no São Francisco Xavier, aguardava sua vez de ser visitada, mas naquele instante o destino e a fome nos chamavam para a casa do Roberto, meu anfitrião.

O almoço em família, simples e festivo, foi como prolongamento da oração feita no cemitério. À mesa, entre risos e histórias, percebi que a viagem não era somente uma jornada física programada: era celebração da vida, encontro de gerações, reafirmação de laços que resistem ao tempo. Cada garfada trazia o sabor da memória, e cada palavra trocada era bênção renovada de amor e fé. Roberto, Beatris e a juventude da filha, Sofia, 16 anos, foram fundamentais para que nos sentíssemos novamente no aconchego de um lar — e feliz aniversário!

 

Renato - no cemitério São Francisco Xavier

À tarde, presente ao túmulo de meu pai — sepultado com minha madrasta, Doroteia — a mesma fé devotada. O azul tênue do céu parecia guardar segredos, e a nuvem que se afastava com o vento carregava consigo minha angústia, como se fosse mensageira de um consolo invisível. Percebi que a fé que compartilhamos muitas vezes ainda nos unia em silêncio, cada um traduzindo a ausência à sua maneira.

Meu pai, mesmo ausente, deixava ali sua marca: um legado que me acompanha e se revela nas pequenas lições que a vida me ensinou quando ele estava presente e após sua partida. Era como se ele me dissesse, naquele momento, através do sopro do vento, que a paz não está em negar a dor, mas em aceitá-la como parte da caminhada.