CATANDO PAPÉIS & CONTANDO HISTÓRIAS

30 de maio de 2016

RAMAYANA DE CHEVALIER

Há 55 anos, este saudoso acadêmico e jornalista, além de oficial médico da Polícia Militar  do Amazonas, escreveu no periódico A Gazeta (29 maio 1961) o artigo aqui postado. Com a capacidade que lhe era peculiar, descreve os três amores de sua vida.
Scarlet Moon de Chevalier



Confidências suaves

TENHO diante de mim meus dois amores. Não é bem assim. Dois dos meus inúmeros amores. Elas se chamam Bárbara e Scarlet. Têm segredos como as outras, são misteriosas e lânguidas, gostam da vida. Observo-as, detidamente, como os meninos o fazem às bonecas, através das vidraças dos magazines luxuosos. Tenho sempre surpresas, quando as contemplo, sem que elas me vejam. Que universo existe no íntimo das flores? Gostaria de ser botânico, para apreciá-las melhor. Um desesperado e honesto botânico, como Ducke, para convertê-las em rainhas vegetais, destacando-as no meu herbário interior.

Sou um viciado do sentimento e não posso viver sem amar. Elas duas me dão emoções tão doces, tão suaves, que eu me transfiguro com o seu convívio. E há um segredo nessa convivência. É que eu descobri o mistério de Narciso, dentro dos olhos de Bárbara e Scarlet. Pelos crepúsculos mais vivos do Posto 6, ponho-me a mirar-me nesses lagos sonâmbulos, que contam histórias do meu passado, que me afagam como pelúcias, que me convidam à divindade.
O que vejo dentro deles? Serão iguais as suas paisagens? Não, meus dois amores são diferentes, uma da outra. São estrelas que fulgissem em céus diversos. Uma é morena, tostada de sol, de passo elástico como o dos antílopes, uma expressão comovente e uma tristeza distante sob as pálpebras. Assim é Bárbara. Muitas vezes a surpreendo mirando as nuvens, perdendo o olhar entre as estrelas, como se decifrasse o futuro das coisas. É a minha sibila. Quando quero adivinhar se há bom tempo no meu destino, é com ela que me consulto. Seus olhos de veludo, de uma expressão de mágoa simples, me conduzem à meditação e à prece.
Com Scarlet é diferente. Viajo nos seus olhos. Vejo asas de gaivotas, velas brancas, horizontes marítimos, palcos iluminados onde se dança a Ifigénia de Gluck, onde deslizam “ballerinas” mais leves do que pensamentos, mais puras do que sândalos. Não há presságios dentro dos olhos claros de Scarlet. O sonho, a beleza da vida, a placidez das horas ternas, tudo isso eu encontro dentro dos seus olhos vivos e alegres como festas juninas.

Adoro estudar o contraste dos meus dois amores. Saltitam dentro deles os sentimentos, lembrando imagens poéticas ou gestos de idílio. Quando me falam, elas mergulham nos meus nervos com a sabedoria dos pescadores de esponjas. Sabem onde me doem as feridas do destino, sabem onde me sorriem as saudades, sabem onde estão guardadas as minhas emoções mais vivas. E são imperativos esses meus dois crucifixos. Eu as ensino a querer uma das artes mais difíceis que há na Terra. Elas já sabem traçar esquemas, para conseguir o que desejam. Batem à porta do templo com segurança. E trazem sempre, de volta, o que aspiram.

Bárbara é líder, de nascença. Sabe comandar tão jeitosamente, que até eu obedeço, cabisbaixo. Prende-me pelo pescoço, gruda os olhos nos meus, fala baixinho, com um código secreto que ela aprendeu com os anjos. Scarlet é sonora, farfalhante, recorda um vestido de baile, luminoso e brilhante. Pede como quem é indiferente às coisas, como quem tem certeza de que eu não posso negar-lhe nada, nem mesmo as minhas horas de fadiga e de meditação. Quem pode recusar uma alegria a um amor profundo? Quando viajo pela Antiguidade Clássica, penso que certos tipos foram copiados dos meus dois amores. A ciranda dos minutos, a criação do mundo, a loucura dos heróis, o vaticínio dos oráculos, o determinismo dos frutos e das searas, a vaga corrida do sol na quadriga das nuvens, tudo isso foi copiado dos olhos e das almas de Bárbara e Scarlet.

Tenho um grande orgulho nelas, porque sempre me vejo espelhado na superfície mansa do olhar de uma, na manhã vibrante do olhar da outra. No silêncio do meu apartamento, vejo-as na parede, como pinturas murais. Uma, decisiva e franca, com um ar de sacerdotisa; a outra, leve e esvoaçante, como o pássaro azul de Maeterlinck. Gostaria que o coração da gente tivesse o destino das gaiolas, e elas nunca mais escapassem da minha adoração. Não tenho inveja de ninguém, por isso. Sou um milionário, tenho tudo o que desejo, sorrio com elas, entristeço ao seu lado, quando uma notinha má no colégio fez o de bruxa no seu teatrinho íntimo. Quem vale mais que duas alegrias sinceras e espontâneas?

Tenho uma tamanha fé em Deus, que estou sempre pronto a perder meus dois amores. Seria como se apagassem, da face da Terra, a luz que nos consola. Seria como se amputassem de todos os jardins, a rosa eterna. Seria como se roubassem à vida o seu sentido místico e delicado. Compreendo a dor dos que sentiram assim. Sei de como é penoso ficar sozinho, vendo o nosso amor partir, sem explicações, sem acenos, sem endereço, sem promessas.

Estou preparado, diante de Deus, para esse golpe. Se acontecer, ficarei buscando só nos olhinhos de uma. Se perder as duas voltarei às origens. Sim, porque elas vieram de um jardim humano, que as fecunda todos os dias com sua imensa ternura. Elas são minhas filhas. E há, no olhar de sua mãezinha, o segredo que as fez tão belas e tão meigas. Não sei se as amo porque sejam uma metade do meu sangue, ou se é porque são a metade do sangue dela, minha companheira incomparável. Talvez seja só por isso.


No fundo, sou enfeitiçado pela minha esposa, até hoje. Vivo procurando-a em todos os corpos, em todas as almas. Vejo-a em todas as conversas, em todos os destinos. Meus amores, que são três, terminarão sendo um no infinito da mulher que Deus me deu. Ou será que ela é que resume todas as outras? Será, mesmo? Sou um cara meio burro, pois passei vinte e sete anos para descobrir isso, essa verdade tão simples e tão universal. Afinal, agora eu sei porque vivo numa permanente lua de mel. Bolas! *

24 de maio de 2016

ANIVERSÁRIO DA SOFIA

Apenas o registro do 6º aniversário da filha Sofia Santos Mendonça, que segue enfeitando a casa com suas poses e companhias. Aleluia.






22 de maio de 2016

MENSAGEM DO IGHA

Proferindo o discurso no IHGG
Em comemoração ao 70º aniversário de fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, proferi na condição de presidente interino, em outubro de 2002, a Comunicação que vai aqui postada.


Senhor Presidente
Senhoras e Senhores 
                                                                            
Faustoso encontro nacional de Institutos Históricos acaba de se instalar nesta capital, permitindo aos participantes um novo e sempre revigorante momento de júbilo e, igualmente, um instante de reflexão. Aqui viemos para solenizar a data e congraçar com os associados do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) pela respeitável data de 7 de outubro de 1932.

São sete décadas de atividade desse sodalício que, sob a direção de Mendonça Telles, ainda tem muito a escrever não apenas sobre a prosperidade da Casa da Memória, mas para vulgarizar a saga de homens e mulheres que diuturnamente constroem este grandioso Estado. Seja, pois, a primeira parte desta Comunicação destinada às justas felicitações ao IHGG pelo alvissareiro aniversário.

Certamente uma entidade que já ultrapassou esta etapa de vida, pode expressar com mais conforto, ou desconforto pela mesma razão, o valor do significado da efeméride. Venho da Amazônia ocidental conduzindo uma pequena chama representativa do valor, da importância destes organismos de cultura no país - refiro-me aos Institutos Históricos estaduais - para dedicar ao jovem aniversariante.

Desembarco com a incumbência firmada por meus pares de abraçar pela data aos dirigentes e associados do IHGG. Trago, enfim, do IGHA os ardorosos votos de sucesso, os anseios de desenvolvimento e os desejos ardentes de prosperidade para o IHGG.

Meu caro presidente Mendonça Telles, o recado está posto, ao vivo e em cores, que surta os efeitos com que foram incensados pelos caciques da "terra de Ajuricaba".

A segunda parte desta Comunicação diz respeito ao próprio IGHA, que vai bem, obrigado. A despeito de "bem, obrigado", falta alguma coisa para consolidar sua prosperidade. Solicito pois pequena atenção para esta reflexão. Relatei, em outro instante, que o IGHA reencontrou um presidente bem relacionado com os Poderes Constituídos, do que vem resultando em boa soma de recursos financeiros. Com estes, completou a restauração da sede social, dotando-a de recursos técnicos compatíveis com a modernidade, e ainda adquiriu dois imóveis para ampliá-la. Outro benefício, a artéria onde se encontra situado foi devidamente revitalizada pelo governo municipal, emprestando ao Centro Histórico, onde se situa, um maior alento.

Entretanto, mesmo diante de tantos benefícios, sinto que o IGHA não se move com leveza, com galhardia, com desenvoltura. Algo lhe causa desalento. Que será? Suspeito que careça de alma. Como é importante a uma casa que tenha alma, para melhor consolidar sua história. Cumpre lembrar que pouco ou quase nada conseguimos avançar, desde o último Colóquio realizado no Rio de Janeiro.
De outra maneira, isolado pela geografia o IGHA padece sob esse enorme peso e, consequentemente, não prospera com desenvoltura. Afinal, onde encontrar a alma dessa corporação? Encontra-se nos sócios? Essa fixação com os associados precisa ser explicada, para isso busquei a opinião de ex-presidente da Casa de Bernardo Ramos. Observou que o desafio é antigo, e o desconsolo aflige a instituição amazonense há algumas décadas.
Momento da leitura da Comunicação

O ex-presidente, lamentando as faltas sentidas ou o reduzido interesse dos associados, arguia: "Porque as forças contemporâneas estão enfraquecendo com a sociedade, vislumbrando rumos que fogem ao deleite cultural, à pesquisa apurada, à dedicação diária ao Instituto vividas por todos os que já partiram para a terra da beleza e do fulgor dos espíritos iluminados".

Em outro trecho, relembrou que "corre o mundo, correm os tempos, mudamos nós por imposição da necessidade de sobrevivência material e o Instituto cede lugar a estas aspirações novas que não casam com as suas verdades tradicionais, com a sua história, com a sua filosofia". Enfim, o exército - referindo-se aos sócios - "que não está salvando o eterno, porque o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas é eterno, mas que está querendo ampliar as suas fronteiras, abrir as suas portas, receber os mais novos, dar a conhecer os seus arquivos, os artistas de seus membros, ter vida, (...). Está sendo reduzido a cada ano, mas a bandeira estará hasteada e há de ter um novo cristão, um novo historiador, um grupo mais jovem que a faça permanecer de pé, sem quedar um só instante, para que não se manche a honra e a glória de tantos homens de valor do nosso passado aos quais, sempre que nos lembramos, damos glórias e muitas glórias".

Encerro a reflexão e a Comunicação com a leitura de uma composição elaborada por jovem Valor da Terra amazonense. Na condição de presidente interino, tomei-a por lema de trabalho, para bandeira de uma campanha de renovação no IGHA, coincidência, Renovação é o título da canção, e o autor o jovem conhecido por Candinho.
É hora de jogar as coisas velhas fora deste quarto.
Tomar nas mãos o leme desse barco,
Sair da tempestade por ordem do tempo,
Sair de encontro ao vento cheio de vontade.
Contar de novo a história como há muito tempo
Já não se ouve mais, nem se contou verdade.

Com o fraternal canto amazônico, renovo os votos de congratulações, os agradecimentos pela acolhida, e de sucesso pleno ao IHGG.

QUARTÉIS DA POLÍCIA MILITAR AM







10 de maio de 2016

IGHA: TÓPICO PARA O CENTENÁRIO

O festejo do cinquentenário do IGHA foi assim descrito pelo associado André Jobim, em sua coluna Velhos Tempos, encartada em O Jornal – domingo, 23 de abril de 1967.

VELHOS TEMPOS 

                                                              
Realizou o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, a sua primeira festa em comemoração aos seus 50 anos de existência, na noite do dia 17 de março de 1967. Aberta a sessão pelo presidente, Des. João Pereira Machado Júnior teve, ao seu lado o Dr. Mário Jorge de Couto Lopes, digno representante do Governador do Estado, Sr. Danilo Duarte de Matos Areosa.

Iniciada a sessão, disse o Des. Presidente dos propósitos daquelas festividades congratulando-se com os presentes em prestigiar uma entidade cultural, cuja história constitui um marco de glórias para a intelectualidade amazonense.

A seguir, usou da palavra o professor João Bosco Evangelista, dizendo o jovem orador da União Brasileira de Escritores do Amazonas, dos objetivos de seus companheiros no congraçamento intelectual da juventude amazonense, irmanados com os ideais de bem servir ao soerguimento da cultura desta terra, no qual estava com a sua tradição gloriosa, o Instituto.

A seguir, o Presidente deu a palavra ao conferencista da noite, Des. André Vidal de Araújo, que abordou com raro brilho e cultura o tema “A Antropologia Filosófica”, de Pierre Teilhard de Cardin, empolgando por vezes, o auditório seleto, pela beleza da sua eloquência e erudição.
Finalizando a noite de gala vivida, depois de um interregno longínquo, o orador oficial, padre Raimundo Nonato Pinheiro, com sua palavra fácil, teceu ligeiramente comentários sobre a vida do Instituto: referindo-se aos oradores que o precederam e especialmente ao conferencista, Des. André Vidal de Araújo; Dr. Mário Jorge do Couto Lopes; o representante do Comando da Força Federal no Amazonas; Dr. Gilvandro Raposo da Câmara; Sr. Venâncio Igrejas Lopes e a todos que se fizeram presentes a uma festa tão bonita, classificando a festa de ouro em que o Instituto iniciava os festejos também de ouro do seu cinquentenário, como também a conferência e o conferencista, homem de dotes aprimorados de inteligência e cultura.

Por fim, fez uso da palavra o representante do Sr. Governador do Estado, agradecendo as deferências recebidas, registrando seu entusiasmo pelo alevantamento daquele sodalício, finda a qual, o desembargador Presidente encerrou a sessão demorando-se ainda os presentes na visitação das dependências do IGHA, tendo para nós outros palavras de carinho, e respeito e admiração a imponência das festividades e da “Casa da Memória Amazonense”.

Intelectual do passado, frutos de uma época não muito remota, em que a preocupação do alto custo de vida, a política e a deficiência dos costumes educativos, deixaram-nos uma marca indelével no povo desta terra e que, a muito custo começa a reviver e a se integrar aos estudos da beleza da ciência, das letras e da história. Mesmo assim a imponência com que se abriram as festividades do conquentenário do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, para mais uma vez glorificá-los na vida desse grande povo.

Não foram em vão as noites de vigílias, as intranquilidades e os receios de que fosse o nosso trabalho julgado à altura do que realizamos para bem servir a este Estado.
Todo iluminado, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas reviveu, como nunca os velhos tempos... Vimos passar na nossa mente, os vultos que ali pontificaram e cantaram hinos de glórias e de aleluias, para que nós, o povo que tudo vê, anota e observa pudéssemos reverenciar as memórias daqueles abnegados estudiosos...

Sentimos também as ausências dos mestres hoje vivos, para que rendêssemos, como é devido, as nossas homenagens nas venerandas figuras de Agnelo Bittencourt e Manoel Anísio Jobim, que o tempo os impossibilitou de estarem presentes e repartindo com nós outros, as alegrias e as homenagens deste glorioso cinquentenário da “Casa de Memória Amazonense”...      
           


7 de maio de 2016

INSTITUTOS HISTÓRICOS: COLÓQUIO BRASILEIRO (2)

Roberto Mendonça
Abaixo, a segunda parte do meu discurso proferido no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, proferido por ocasião do III Colóquio de Institutos estaduais, em outubro de 2001.


Abro aqui um espaço para uma justa publicidade do governo do Estado que, através da Secretaria de Cultura, vem ativando ousados projetos  no Amazonas: (1) a organização de uma orquestra filarmônica, composta basicamente por músicos estrangeiros, com destaque para os oriundos do leste europeu; (2) a  criação do Festival de Operas, que já se encontra no sexto ano consecutivo de atividade; (3) a presença dos músicos ensejou o ensino de música e a prática de instrumentos para jovens; (4) a criação de alguns teatros menores, distintos do exuberante Teatro Amazonas; (5) a instalação de uma Biblioteca Virtual com obras de referência da historiografia amazonense, a ser implantada na Internet, sob o gerenciamento do IGHA, e, finalmente, (6) a aquisição e inauguração, no próximo dia 6 de novembro, da biblioteca particular do professor Arthur Cézar Ferreira Reis, que integrou por anos a diretoria do IHG Brasileiro.

Assim, pois, a Casa de Bernardo Ramos tem usufruído deste desenvolvimento cultural que perpassa o Estado. A biblioteca Ramayana de Chevalier, que acabo de mencionar, foi entregue a especialistas para que ultimem a sua recuperação. Ao final do trabalho, que deve ocorrer antes do ano novo, a mesma será disposta ao público devidamente informatizada. Para tanto, já foram adquiridos microcomputadores e acessórios bastante para a modernização do esforço bibliográfico.

Há ainda na Casa toda uma operação para digitalizar e/ou digitar os clássicos arquivos, transmudando-os em dados informatizados. Da mesma maneira, os arquivos de fotografias e as Atas de diferentes épocas brevemente estarão disponíveis em Cd Rom.
Todo este esforço se fundamenta na crença de que as ferramentas da Informática devem ser utilizadas em nossos Institutos, se quisermos avançar. Penso que a legislação que nos norteia ainda tem um sentido regencial, memória imperial. Penso que proximamente os sócios correspondentes serão substituídos por sócios internautas; afinal, não mais se indaga pelo endereço postal, mas pelo e-mail, o endereço eletrônico. 

Senhor Presidente:

A descrição sucinta de toda esta situação vivenciada pelo Instituto Amazonense visa caracterizar a situação de desconforto financeiro que acomete a maioria dos congêneres. É preciso, pois, insurgir-se com categoria. A aquisição de micros, que tantos nos interessa, vem sendo financiada pelos governos aos particulares. Que razões nos obstam, nos bloqueiam para aproveitarmos tais ofertas? Não cabe aqui pensar em terceirizar algum serviço prestado pelos Institutos, como a exploração de museu, quando teríamos uma melhor apresentação e obtenção de recursos de alguma forma.
Breve, no IGHA, quando tivermos inaugurado os serviços almejados, e obtido algum sucesso, avançaremos para estender nossa credibilidade. Alcançado este objetivo, será momento de buscar novas doações, utilizando, para tanto, a mídia estatal.
 
Sede do IGHA, na rua Bernardo Ramos, em Manaus
Desejo satisfazer neste espaço outro questionamento proposto: o do relacionamento com a Universidade. Para ser bem prático, o IGHA não abriga entre os seus sócios efetivos nenhum graduado em História ou Geografia. Que contrassenso! A consternação nesta ocasião não é total, porque acabamos de aprovar o ingresso de dois candidatos com estes atributos, na esperança de, em curto tempo, contornar o precário diálogo existente entre estes organismos.

Também estou inteiramente de acordo com o aproveitamento da legislação das Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). Por assim entender, nossa instituição vem envidando esforços, organizando os documentos pertinentes para a obtenção do registro.

Que sejam as derradeiras palavras desta Comunicação do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, de saudação, repletas de amazonicidade, aos presentes e, em particular, a todos quantos organizaram este Colóquio. E de estímulo, aos que se entusiasmam em congregar em diferentes pontos do País os dirigentes dos Institutos Históricos. Qualquer que seja a dimensão do Encontro, caríssimo presidente do IHG Paraibano, confrade Luis Hugo Guimarães, sempre resultará em melhoramentos.


Com meu fraterno abraço amazônico, muito obrigado!

6 de maio de 2016

INSTITUTOS HISTÓRICOS: COLÓQUIO BRASILEIRO

Exercia a presidência interina do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), em 2001, quando compareci ao III Colóquio dos Institutos Históricos do Brasil, sob a convocação do Instituto matriz, do Rio de Janeiro.

Detalhe do painel existente no Auditório do IHGBrasileiro
Elaborei e li um discurso na abertura dos trabalhos, que tiveram a duração de três dias, em outubro daquele ano. 

Este discurso vai aqui reproduzido em duas postagens.


Senhoras e Senhores


Participante deste III Encontro, em prol da cultura nacional, deveras fortalecedor, o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) deseja, antes de qualquer manifestação, agradecer o afável convite do Instituto primaz do Brasil para estar aqui, abrindo esta semana de debates. A nossa expectativa sincera é pela aprovação de medidas e de propostas que, mais e mais, ajudem no crescimento do saber brasileiro, especialmente quanto ao imprescindível conhecimento de seu passado. Assim, na condição de intérprete do pensamento do Instituto amazonense, espero, atendendo à orientação da Comissão Organizadora, presidida por Vitorino Coutinho Chermont de Miranda, contribuir com alguma ideia distinta.
Como sempre, para ilustrar uma conjuntura quase nacional de nossos Institutos, vou reproduzir uma breve história.

A criação do IGHA, em 25 de março de 1917, aconteceu durante o período áureo da borracha (1890-1920), portanto, próximo do início de sua derrocada. Antecedeu em meses a instalação da Academia Amazonense de Letras (1º.01.1918), e um pouco depois da fundação da Universidade Livre de Manaus (1909). De pronto, o IGHA conquistou, por doação governamental assinada pelo governador Pedro de Alcântara Bacellar (1917-21), sua sede própria. Trata-se de um casarão assobradado, construído no Centro Histórico, que hoje, depois de reiterados consertos, presta-se condignamente à destinação do Instituto.

É notória a afirmativa de que a produção da borracha, na Amazônia, nos primórdios do século passado, exerceu forte influência nos índices de progresso de Manaus. Com o definhamento da vida econômica, todavia, os mais afortunados manauenses, onde se incluía o melhor de sua intelectualidade, acorreram para outros centros maiores. Desembarcou um grande contingente na cidade do Rio de Janeiro, em busca de novos aprazimentos intelectuais e sociais. A capital baré que permaneceu firmada à margem esquerda do rio Negro, e que houvera copiado os mais refinados costumes europeus, ou importado como ícone do “esplendor da borracha” o Teatro Amazonas, por pouco não reverte à condição de “porto de lenha”, ou seja, uma das tantas esquecidas localidades ao longo dos rios amazônicos onde os barcos a vapor atracavam apenas para ser abastecido de lenha, a fim de mover suas caldeiras.

Apesar de todos este desconcerto, o IGHA permaneceu cumprindo sua principal atribuição: de guarda zeloso, ainda que bastante taciturno, dos manuscritos e outras peças da memória provincial, formada por documentos pessoais e por outros exemplares da vida intelectual da Terra de Ajuricaba.

Logo em seus primórdios, em nível estadual, o Instituto foi considerado de “utilidade pública”, consoante a Lei nº 897, de 24 de agosto de 1917. Somente quase sete décadas depois, em 22 de outubro de 1973, pela Lei nº 1071, foi consubstanciado o reconhecimento municipal. Tais dispositivos, que julgo terem servido, em algum tempo, apenas para a dispensa de impostos governamentais, já se esfumaram no emaranhado da legislação pátria.  Ainda em nossos dias, os encargos tributários afligem a Instituição, pois, qualquer serviço, dependendo da quantia contratada, exige pagamento do ISS (municipal) e do IR (federal). Não possui o IGHA qualquer outra legislação beneficiária, capaz de auxiliar por exemplo, na obtenção de recursos seja do governo, seja de particulares. Consequentemente, o resultado é conhecido: diante da premência de necessidades básicas, o IGHA recorre ao poder público. Falo pelo Amazonas. E, com esta informação, satisfaço a um questionamento suscitado pela Comissão.

Como salientei, o IGHA obteve durante a década de 1980, diante da condução firme e competente na presidência do consócio Roberio dos Santos Pereira Braga, um vantajoso progresso. Sua sede foi novamente restaurada e adequada aos serviços que se dispunha a prestar. Para tanto, foi restabelecido o Museu Crisanto Jobim, disposto em duas seções: uma, composta de peças da etnografia amazônica, que pertencera ao Museu Rondon, criação e manutenção do próprio homenageado. O acervo deste museu foi doado ao IGHA pelo interventor federal, capitão Nelson de Mello, na década de 1930.

A outra seção, bem mais diminuta, expõe objetos e peças de diversas procedências, entre estas, a mais destacada é decerto a espada do comandante Plácido de Castro, que rememora a Revolução Acreana (1900-04).

Também nesta gestão foi organizada sua biblioteca, que tomou o nome do falecido sócio efetivo Walmiki Ramayana de Paula e Souza de Chevalier. Ramayana de Chevalier – seu nome literário – nascido em Manaus, era médico formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, também coronel da Polícia Militar do Estado, mas que se notabilizou pelos escritos, pelos debates jornalísticos, especialmente os mantidos nesta cidade do Rio de Janeiro, onde viveu por anos e faleceu, mas onde ainda vivem seus filhos e netos.

Esta biblioteca, há décadas, tem o privilégio de preservar uma coleção de jornais provinciais, a coleção de João Batista de Faria e Souza, que a compôs desde o primeiro jornal a circular no Amazonas, o Cinco de Setembro, que acaba de completar seu sesquicentenário. E mais, acondiciona manuscritos, livros raros, e busca ampliar a coleção denominada – Amazoniana –, destinada a compilar os principais escritos sobre a região.

Com o encerramento da gestão do presidente Roberio Braga, o IGHA passou por um estado de letargia. O imóvel da sede, como assinalado, por se tratar de uma construção centenária, paulatinamente foi se deteriorando. A mudança de presidentes, mais a sempre sublinhada falta de recursos e o afastamento costumeiro de sócios, aceleraram a decomposição. Nesta situação, apenas o governo poderia sanar a questão, mas havia que aguardar, entre outras providências, a liberação dos recursos.  Foi o que aconteceu.
Após entendimentos entre a diretoria, então sob a presidência do sócio Arlindo Augusto dos Santos Porto, além da iniciativa de outros abnegados associados, e o governo do Estado, na gestão do governador Amazonino Mendes, ocorreu a reforma almejada e a entrega do prédio.

Enquanto isto ocorria no IGHA, o IHGBrasileiro promovia o I Colóquio Nacional. E sou conhecedor de como prosperou este primeiro ciclo de debates, posto que as reuniões dos Institutos Históricos do Nordeste já alcançaram a terceira edição, enquanto o Instituto Histórico de Santa Catarina deu partida nas conversas entre os sulistas.

Enfim, o edifício do IGHA ficou pronto. Contudo, após o seu recebimento, surgiu outro empecilho, os reais para a sua montagem interna. Todavia, para gáudio dos sócios do IGHA, este entrave vem sendo superado, com o retorno à presidência da Casa, no final do ano passado, do sócio Roberio Braga. Como nosso presidente também exerce a direção da Secretaria de Cultura do Estado, reconheço e assinalo que se tornou mais funcional a assinatura de convênios para a reformulação enunciada. (FIM DA PRIMEIRA PARTE)


4 de maio de 2016

NOTA PARA O CENTENÁRIO DO IGHA

Robério Braga, no IGHA, em 2002
Na passagem do sexagésimo aniversário do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, fundado em 1917, a Casa de Benardo Ramos recebeu de seu associado Robério Braga, publicado no Jornal do Commercio (março de 1978), o artigo aqui postado.

O INSTITUTO HISTÓRICO

1917 – 1978

Robério Braga


Os caminhos de uma entidade cultural são os próprios passos de seus dirigentes no decurso de sua existência e podem amplamente refletir o vigor da vida literária da cidade, e a imensidão de conhecimentos dos seus vultos mais significativos. Assim, a vida do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), desde 1917, até os nossos dias, tem sido para a cidade de Manaus, sua elite cultural, seu povo, seus estudiosos e pesquisadores, um símbolo e uma honra.

Fundado em 25 de março de 1917, na Sala de Sessões da Câmara Municipal de Manaus, sob o comandamento de Bernardo Ramos, Agnelo Bittencourt e Vivaldo Lima, o IGHA chega aos nossos dias desfalcados de suas grandes figuras, sentindo profundamente a nova fase e forma de vida da sociedade amazonense.

Criado para divulgar a história e a geografia do Estado, da Amazônia e do Brasil, conservar a notícia histórica sempre viva na comunidade, o Instituto tem servido para sustentáculo da própria vida cultural de Manaus, esculpindo novos mestres e pesquisadores, apoiando tantos outros e procurando ser útil em todos os momentos de sua vida. O Instituto pelos seus dirigentes e membros no decurso de todos estes anos tem contribuído para as letras, ciência e história do Estado e da Pátria, missão que estava determinada no primeiro Estatuto, e na própria filosofia de sua criação.

Carregado de saudade como poucas organizações culturais no Estado, porque sempre ativo, o Instituto chega a esta nova data sentindo a falta de suas mais lutadoras personalidades, de seus maiores idealistas, apontados e vivenciados em todas as fases da vida da “Casa de Bernardo Ramos”. Não faremos desta crônica histórica uma página unicamente de saudade, mas diremos a falta que nos fazem, a nós dirigentes do Instituto de hoje o vigor físico e mental de muitos de nossos membros, senão de todos.

Dos fundadores perdemos o último, que foi Agnelo, o grande mestre da Geografia, o biógrafo perfeito, o pesquisador por excelência; dos presidentes vários já se foram desde Bernardo Ramos, símbolo maior da pesquisa científica em nosso Estado, até o benemérito Rodolfo Valle, partido depois que se foram Jobim, André Araújo, João Corrêa, Antônio Bittencourt, que dedicaram suas lideranças na comunidade sempre voltadas para a vida do Instituto.

É assim que vivemos a data presente. O dia 25 de março de 1978 está envolto em saudade, profunda tristeza, as faltas sentidas para uma dinamização atual do Instituto, porque as forças contemporâneas estão enfraquecendo com a sociedade, vislumbrando rumos que fogem ao deleite cultural, à pesquisa apurada, à dedicação diária ao Instituto, vividas por todos os que já partiram para a terra da beleza e do fulgor dos espíritos iluminados. Tudo isto porque o mundo está correndo demais, porque estamos sendo levados por ele para rumos que não dependem unicamente do nosso comando, que fogem até às nossas aspirações mais marcantes. Corre o mundo, correm os tempos, mudamos nós por imposição da necessidade de sobrevivência material e o Instituto cede lugar a estas aspirações novas que não casam com as suas verdades tradicionais, com a sua história, com a sua filosofia.
                                              
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Mas, uma verdadeira chama de amor, um instinto de valorização do passado ainda prende alguns idealistas àquela Casa, fazendo deles soldados de todas as lutas e honras, impondo a eles prontidão a qualquer momento, porque ali está um exército cada vez mais combalido pelos anos, pelos dissabores da vida, pelo descaso a que se tem relegado o Instituto, pela falta de condição de uma melhor atuação na comunidade, graças ao poderio econômico-financeiro que nos tem faltado. O exército que não está salvando o eterno, porque o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas é eterno, mas que está querendo ampliar as suas fronteiras, abrir as suas portas, receber os mais novos, dar a conhecer os seus arquivos, os artistas de seus membros, ter vida, porque viver é mais importante que existir, está sendo reduzido a cada ano, mas a bandeira estará hasteada e há de ter um novo cristão, um novo historiador, um grupo mais jovem que a faça permanecer de pé, sem quedar um só instante, para que não se manche a honra e a glória  de tantos homens de valor do nosso passado aos quais, sempre que nos lembramos, damos glórias e muitas glórias.

Mas, por onde (...) os membros do Instituto, os seus 40 poltronados, os seus correspondentes, contribuintes, beneméritos, parecem ter fugido de suas fileiras, parecem estar escondidos em seus afazeres diários, na busca do lazer por algumas horas para sustentação do equilíbrio emocional tão necessário na vida moderna. A estes alertamos para a importância de ser e existir do Instituto, seus valores e sua eternidade. Despertem para o que se passa hoje com o Instituto. Procurem os seus salões e sintam como nós, a saudade que será a de sempre, para com os antepassados daquela Casa. Consigam sentir também que o seu calor humano atual tem enfraquecido, faltando-nos esforços de outros companheiros para a perfeita existência do Instituto.

Assim fazemos pública a hora atual do Instituto, em nosso entender, aflitiva para todos que amam aquela Instituição, que aprenderam a frequentá-la, pesquisar e sentir o cheiro de saudade e saber que é desprendido de suas paredes, numa vibração sem limites.
                                              
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O Instituto está nos seus 61 anos e deverá chegar a novas marcas no tempo, vivendo momentos mais animadores porque este é um alerta para todos que se dedicaram àquela Casa, que acreditam na filosofia da Instituição, que deram seu trabalho, inteligência e horas de vida em favor da entidade; alerta, para que voltem aos seus salões, iluminem suas reuniões, abrilhantem suas solenidades, velem pela sua integridade, oferecendo as suas presenças dominicais, fazendo um estudo da vida e da importância do Sodalício na comunidade.


O alerta é uma clarinada vinda das alturas em que repousam os grandes construtores daquela obra, os que dedicaram também suor e trabalho diário em prol da efetivação do Instituto, sua valorização na sociedade, fazendo-o conhecido em todo o País e no estrangeiro, tornando-o sede dos maiores debates científicos sobre a nossa história e tradições, mas sempre unidos em favor do desenvolvimento e do bem da Instituição.